domingo, 4 de novembro de 2018

Comentando "Rosa", 3º episódio da nova temporada de Doctor Who


Pediram-me para comentar o episódio 3 da 11ª temporada de Doctor Who, uma das séries de ficção científica mais longevas da TV mundial, tendo estreado em 1963.  Esta temporada tem algo de especial, porque pela primeira vez o Doctor é interpretado por uma mulher, a atriz  Jodie Whittaker.  Começo dizendo que não assisto Doctor Who, se vi dois ou três episódios foi muito, e ainda que eu tenha visto alguns méritos no episódio "Rosa", afinal, há a questão da representatividade, tanto na seleção da personagem histórica, quanto no fato do roteiro ser de uma mulher negra, de resto não vi nada nele de realmente excepcional.

 Montgomery, Alabama, 1955, véspera do famoso incidente no qual a costureira Rosa Parks (Vinette Robinson) se recusa a ceder seu lugar no ônibus para um passageiro branco, vai presa, deteonando-se o grande boicote aos ônibus promovido pelos negros.  Acontecimento determinante para o fim da segregação dos transportes na cidade e para a luta pelos direitos civis dos negros em todo o país.  A nave TARDIS, chega até Montgomery, atraída por uma estranha emanação de energia, e a Doctor e seus companheiros -  Graham O'Brien (Bradley Walsh), Ryan Sinclair (Tosin Cole), e Yasmin Khan (Mandip Gill) - decidem investigar.  Terminam por descobrir que um viajante do tempo, Krasko (Joshua Bowman), deseja impedir o confronto que foi fundamental para a luta pelos direitos civis dos negros nos EUA.


A equipe.
Pessoal, desculpe ser chata, mas eu achei o episódio bem raso e infantil.  A interpretação de Vinette Robinson foi excelente, a cena em que Sinclair fica emocionado ao encontrar Martin Luther King (Ray Sesay) foi bonita, o timing do episódio para nós, brasileiros, foi perfeito (*as eleições e tudo o que estava em jogo*), mas não, não me impressionou como história.  Veja bem, um bom filme não é feito de cenas avulsas, ainda que elas possam ser memoráveis.

Primeira coisa que me incomodou muito, a Doctor fala a todo tempo sobre não atrapalhar, ou interferir, no fluxo dos acontecimentos, na História, mas todos na equipe parecem nada preocupados com usos e costumes locais, ou mesmo roupas.  O grupo de quatro forasteiros, dois deles pessoas de cor, está totalmente deslocado da Montgomery de 1955 e parecem não se esforçar nada para não parecerem alienígenas.  Ou seja, falam, mas não fazem nada de consistente a respeito.  


O hotel é só para brancos.
Lembrei de um episódio, um dos melhores, da primeira temporada de Quantum Leap, chamado "The Color of Truth", no qual o protagonista (Scott Bakula), um cientista viajante do tempo que trocava de corpo com pessoas do passado, cai no corpo de um homem negro, um idoso, não sabe onde está, nem no corpo de quem tinha caído e entra em um restaurante segregado.  Só não apanha por ser um velho.  Depois da primeira cena, do confronto desagradável, ele realmente se esforça para se ajustar ao seu tempo, cumprir sua missão, e não matar seu hospedeiro.

Segundo ponto, esse me incomodou ainda mais, por mais que Rosa Parks tenha um papel importante e do caráter de homenagem do episódio, a coisa ficou personalista demais.  Uma pessoa pode fazer diferença, adiantar um processo histórico, ou atrasá-lo?  Sim, eu, como historiadora, não descarto isso, no entanto, existe um processo histórico que está em andamento e que é maior que os indivíduos.  Vou dar dois exemplos distintos que uso com minhas turmas.  


A emoção de Sinclair é absolutamente justificada.
A República viria no Brasil, pois a monarquia era um sistema anômalo nas Américas e o modelo republicano era visto como moderno e atendia aos interesses das elites e segmentos outros da população brasileira, como boa parte dos militares e camadas médias urbanas.  A queda da monarquia poderia vir com a morte de Pedro II ou durante o reinado de Isabel, mas não tardaria, porque independentemente da ação de um indivíduo, havia todo um contexto favorável.  A I Guerra Mundial também viria.  As potências estavam se armando, havia muitas tensões acumuladas dentro e fora da Europa.  O assassinato do arquiduque herdeiro do trono do Império Austro-Húngaro foi somente o estopim.  Agora, o conflito poderia ter configuração diferente e desfecho distinto, porém, mesmo os analistas da época viam uma grande guerra no horizonte.  

Entendem meu ponto?  As mudanças nas leis norte-americanas, a ação de diversos grupos organizados de negros e simpatizantes desde, pelo menos os anos 1920, a existência de várias lideranças influentes, havia todo um contexto para além de Rosa Parks.  A luta pelos direitos civis dos negros tem vários elementos, vários agentes, alguns anônimos, há, também, os que foram esquecidos.  A própria ação de Parks, e eu já fiz um texto para meu outro blog sobre isso, não foi inédita, pelo menos outras três mulheres, uma delas na mesma cidade e pouco tempo antes, já tinham agido da mesma forma.  Qual foi a diferença, então? O contexto mais amplo, a teia de acontecimentos.

Parks se recusa a levantar.
Pior ainda foi amplificar a experiência norte-americana como definidora do resto do mundo.  A moça de origem paquistanesa quase atribui à Rosa Parks o fato de poder ser policial.  Não faz sentido isso, fora que são dois movimentos distintos, o contra o racismo e o feminista, que nada tem a ver com Parks, apesar dela ser mulher.  Enfim, havia racismo na Inglaterra?  Sim, como em boa parte do mundo, mas não havia leis segregacionistas similares às dos EUA, ou mesmo da África do Sul, para citar outro exemplo.  Há uma cena no seriado Small Island da BBC, que é baseado no romance de um descendente de jamaicanos, em que uma briga colossal acontece quando soldados americanos na Inglaterra durante a 2ª Guerra tentam impedir os jamaicanos negros de entrarem na mesma fila de um cinema.  Os jamaicanos se recusam, alguns ingleses protestam, não era norma, nem lei.  

Parks e King são heróis dos direitos civis que merecem ser lembrados e venerados, não discuto, eu admiro os dois.  Só que a história super-centrada no acontecimento pontual, quando nenhum dos viajantes do tempo parecia fazer qualquer esforço para se misturar, não desceu.  As artimanhas do vilão foram bem bobinhas, também.  Como não conheço a série, fiquei me questionando se era só aquilo a tecnologia deles, porque todo mundo, salvo a Doctor, parecia desarmado e vulnerável a qualquer um, mesmo um policial de meados do século XX.  De resto, a cena final do ônibus, teve duas interpretações excelentes, a de Vinette Robinson, como Parks, e a de Bradley Walsh.  O'Brien que tinha sido casado com uma mulher negra, e como um homem decente do nosso tempo se sente  profundamente aviltado com o que estava vendo e, ainda assim, não deveria interferir.

O cansaço físico era menor do que o de sempre ceder.
De resto é isso.  Elenco simpático, sem dúvida, mas com uma trama geral muito forçada e cheia de problemas.  Sei que a roteirista, Malorie Blackman, é uma mulher negra e deve ter sido super importante para ela escrever esse episódio por motivos mais que óbvios.  Fora isso, a série é criticada pela falta de mulheres roteiristas em seus quase 300 episódios.  Devem ter sido somente umas quatro, ou cinco a assinarem roteiros.  É muito pouco, mas não vou dizer que o episódio foi espetacular por causa disso.  Se você voltar no tempo e matar Hitler, dificilmente irá impedir a 2ª Guerra, ou o desenvolvimento da ideologia nazista e o personalismo do episódio "Rosa" passa uma visão de História idealizada e bem equivocada.

P.S.: Acabei de ver que caiu Rosa Parks no ENEM.  Coincidência interessante.

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