domingo, 18 de novembro de 2018

Jornal do Shoujo Café: Um Mix de Assuntos Sérios, ou Nem Tanto Assim


Este é um daqueles posts em que a gente fala de um monte de coisas e não aprofunda coisa nenhuma, mas como queria juntar umas recomendações de matérias e discussões relevantes, vou usar um mesmo post para tudo.  Tipo notícias da semana, OK?  Mas não esperem que eu faça isso toda a semana. 😉 E lembrando aos desavisados, este site é feito por uma feminista, logo minha leitura tem um filtro e parâmetros e eu os deixo claros, ao contrário de muita gente por aí que se afirma como "neutra". Cóf! Cóf!


Foto da notícia.  Material BL apreendido.
1.  Recomendo a leitura de um texto do Blyme-Yaoi falando sobre um caso muito sério ocorrido na China.  Uma autora de BL (Yaoi) foi condenada a 10 anos e seis meses de prisão, além de multa, por ter publicado a novel BL “Gong Zhan”. Outras pessoas foram presas, também, material apreendido e a gráfica onde o livro foi impresso fechada.  Ser homossexual não é crime na China, porém, qualquer forma de ativismo, ou materiais que deem visibilidade a existência de LGBTs podem ser criminalizados aplicando-se leis pré-existentes, ou seja, existe a censura.  Falar sobre isso é relevante no Brasil, especialmente, em um momento de mudança de governo no qual os que chegam ao poder tem esse discurso de que "tudo bem, desde que você não seja ativista".   Mas será que a autora era ativista?  Será que escrever um romance gay torna você uma ativista?  Ou fazer um quadrinho?  Ou, sei lá...  



"Ah, mas a China é uma ditadura!  O Brasil é uma democracia.  Nada a ver!" Nesse sentido, recomendo muito o livro Como as Democracias Morrem, de Steven Levitsky e Daniel Ziblatt.  É novinho, saiu agora, mas há uma palestra de um dos autores no Youtube, coloquei aí em cima, porque ele esteve no Brasil em setembro, ou outubro. Resumindo, você pode erodir uma democracia de dentro para fora, ainda mais uma tão frágil como a nossa, na qual vigoram castas, que não admitem a perda de seus privilégios.  E não estou falando das classes médias, essas somente acham que são elite.  Por isso, outra recomendação de livro, A Elite do Atraso.  

Jessé Souza, o autor, é um dos melhores analistas do Brasil hoje e não preciso concordar integralmente com ele para recomendá-lo como intelectual sério.  De qualquer forma, é preciso escolher a quem queremos imitar, se Rússia, China, Venezuela, Filipinas, Nicarágua, El Salvador, Turquia, Hungria, Polônia, Arábia Saudita, ou países desenvolvidos de verdade, e, nesse caso, não falo somente de economia, mas de respeito pelas liberdades individuais e pelas instituições democráticas.



2. Dia 1º de Dezembro é o Dia Mundial de Combate à AIDS e como estamos vendo se desenhar uma pressão para que os gays voltem para o armário, ou deles não saiam jamais, o tema é pertinente.  Enfim, talvez por ter assistido vários vídeos do Freddie Mercury no Youtube, tenha aparecido nas minhas sugestões um programa do Põe na Roda do ano passado.  Eu tinha assistido esse vídeo, com certeza, ele traz vários sujeitos que conviveram com o HIV nos seus primórdios e sobreviveram.  é um vídeo útil, especialmente, porque Bohemian Rhapsody, o filme do Mercury, está nos cinemas, eu assisti, gostei e resenhei, mas ele mostra uma visão bem adocicada do que era o contágio e de como as pessoas buscavam esconder que estavam com a doença que era chamada de "câncer gay".  O único errinho é que alguém em dado momento  confunde Cazuza com Lauro Corona, um ator que eu gostava muito.  Enfim, o caso de Lauro Corona ilustra bem como as pessoas escondiam a doença, basta assistir a reportagem da época da sua morte. 

Sobre o mesmo tema há um texto meu sobre como os mangás falaram do HIV, começando com Tomoi  (有情世界) que é contemporâneo ao início da epidemia.  Sim, é notável a atenção das autoras de shoujo-josei aos temas quentes e como elas buscam trabalhá-los de forma sensível e responsável.  O texto está aqui.


Goblin Slayer e seu visual genérico.
3. O pessoal trouxe para discussão no grupo do Shoujo Café no Facebook o anime Goblin Slayer (ゴブリンスレイヤー), o motivo, quem assiste anime deve saber, usar da suposta desculpa de ser adulto, quando, na verdade, é mais do mesmo, para glorificar a violência sexual contra mulheres.  Recomendo o texto do Mais de Oito Mil e o Video Quest com as primeiras impressões sobre o anime e para mim morreria aí, mas o povo quer discutir a série.  Mas vou comentar uma coisinha, quando esse tipo de coisa aparece no Shoujo Café do Facebook, eu já sei que ou é uma tentativa (*inocente, ou deliberada*) de colocar as feministas em polvorosa, ou é uma feminista novinha de internet, ou cultura pop, realmente assustada com essas coisas.  

Eu simplesmente olho esse tipo de discussão e acho uma grande bobagem por três motivos simples, o principal, claro, é não é shoujo, não é josei nem deveria estar aqui, o outro, não sou público alvo desse negócio, ou minha filha, tenho mais o que fazer, terceiro, sou velha e já vi muita coisa ser lançada nessa linha, ou pior, Goblin Slayer é uma bobagem na frente de um Kodomo no Jikan (こどものじかん), por exemplo, que é cheio de sutilezas e armadilhas.  Mas eu deixo o povo discutir, se ninguém tentar se matar no processo, eu não vou interferir.


Kodomo no Jikan, sim, era perturbador.
Vamos lá, daí, hoje, postaram um link dizendo que fizeram um filme pornô live action de Goblin Slayer.  Crianças, qual a novidade disso?  Paródias pornográficas de materiais de sucesso são comuns, até dos materiais mais castos e assexuados.  Isso vale para TODA a cultura pop.  Normalmente, é material amador (*doujinshis*), underground, ou para público de nicho.  Como as paródias pornográficas de anime que os japoneses fazem aos montes, às vezes, com atores e atrizes usando máscara dos personagens.  Nem posso brochar, mas digo que brocharia com um negócio desses.  Enfim, a não ser que uma pessoa seja muito inocente, ou muito apaixonada por um certo seriado, livro, filme, anime, mangá, whatever, ela não deveria ligar, ou vai passar mal.  Goblin Slayer não inventou a roda.  

Você pode estudar esse tipo de material, discutir por qual motivo são feitos, quem os consome, por qual razão (*ou razões*) tais e tais fantasias são tão recorrentes, ou como as fronteiras entre a pornografia e o que é mainstream se esgarçam em certos lugares, mas permanecem firmes em outros etc., mas as paródias em si não são novidade nenhuma, ou ofensa, salvo se você é como o deputado lá e acha que masturbação deveria ser criminalizada e a imaginação tolhida.  Eu posso me enojar com alguma coisa, mas não tenho o direito de querer criminalizar um produto ou prática simplesmente por me ofender, ou ao grupo que eu acredito representar.  E vale para o pessoa de esquerda, ou feminista, que berra e diz que qualquer coisa que envolva sexo ou sensualidade é motivo de censura.


A fantasia de Halloween causou repulsa.
Daí, a mesma pessoa, o objetivo, imagino eu, era jogar gasolina na fogueira, mas eu já estava com o carro pipa preparado, postou uma foto da fantasia sexy de aia do seriado The Handmaid's Tale para o Halloween e como aquilo gerou revolta e talz.  Daí, eu diria que há uma diferença grande, não se trata de material de nicho, por assim dizer, mas de tentar sexualizar uma personagem que é alvo de violência contínua, mais ainda, uma personagem de um seriado adulto e crítico ao sistema patriarcal, à objetificação das mulheres, a violência contra elas etc.  Agora, se vocês companharem as notícias sobre a fantasia, ela gerou tanta aversão, que foi retirada de catálogo. Antes mesmo dela aparecer, houve uma empresa de lingerie americana que produziu peças inspiradas pelo seriado e que foram rejeitadas.  

O boicote é uma das formas mais eficazes de mostrarem para uma empresa que ela está fazendo bobagem.  Nesse caso, se o público eram as mulheres, elas rejeitaram o produto.  De resto, o próprio seriado The Handmaid's Tale tem sido duramente criticado por ter se enveredado em sua segunda temporada por um outro tipo de pornografia (*torture ponr*), o que se vale da exploração descabida da violência contra as mulheres.  Da mesma maneira que a Globo sabe que briga de mulher levanta a audiência de suas telenovelas, parece que temos um novo filão de seriados e literatura centrada na exposição minuciosa da miséria feminina.  


Handmaid's Tale precisava somente de uma temporada.
Nesse momento de backlash (*retrocesso*) a coisa aprece estar dando dinheiro, afinal, trabalha com temores que qualquer mulher tem e desejos que muitos homens alimentam.  Triste?  Sem dúvida, mas tudo está interligado.  E eu que comecei com Goblin Slayer, terminei perdendo o fio da meada, mas é isso, esse anime não tem nada de novo, até a atenção que recebe do fandom pró e contra é coisa velha e requentada.

4. O Brasil concentra 40% dos feminicídios da América Latina.  "A cada dez feminicídios cometidos em 23 países da América Latina e Caribe em 2017, quatro ocorreram no Brasil. Segundo informações da Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe (Cepal), vinculada à Organização das Nações Unidas (ONU), ao menos 2.795 mulheres foram assassinadas na região, no ano passado, em razão de sua identidade de gênero. Desse total, 1.133 foram registrados no Brasil."  Isso quer dizer o quê?  Que quando são mapeados os crimes contra mulheres cometidos pelo fato de serem mulheres, o Brasil se destaca negativamente.  


Um gráfico pode ser uma imagem perturbadora, também.
Claro, pode haver subnotificação em outros países, o gráfico não inclui o México, o que faria diferença, com certeza, mas, ainda assim, não há dia que eu não abra a internet e não conte três ou mais feminicídios.  O mais chocante de ontem, por exemplo, foi o do empresário que perseguiu (*já que ela saiu correndo do carro da família*) e matou a mulher, uma médica, com 12 facadas facadas, matou a filhinha de 4 anos que estava no banco de trás e se matou depois.  Classe social é irrelevante, vejam bem.  Algo que os que dizem que feminicídios não existem sempre levantam é o fato de morrerem mais homens do que mulheres.  Realmente, em uma sociedade como a nossa, homens são mais vulneráveis à violência e são os maiores agentes da violência.  

Em nossa sociedade patriarcal, o modelo hegemônico de masculinidade se assenta em valores que reforçam a busca pelo risco, pelo poder e legitimam o exercício da força.  Então, nunca se esqueçam que homens morrem mais e matam mais.  Já as mulheres são mortas especialmente pelos que dizem amá-las, os que deveriam protegê-las e, não raro, em situações que enfatizam que são um objeto que pertence a algum homem, propriedade, portanto.  Propriedade você protege, mas destrói, também, afinal, é seu mesmo para fazer o que quiser.  Por isso, uma frase comum que mulheres ouvem é "Se não vai ser minha, não vai ser de ninguém!".  Infelizmente, não acredito que mudaremos essa situação nos próximos anos.  Acredito mesmo, que teremos retrocesso.


O problema era a roupa... Sei... sei... 
5. Cláudia Leitte assediada por Sílvio Santos.  Domingo passado, aconteceu o Teleton,   uma maratona televisiva brasileira anualmente exibida pelo SBT em prol da Associação de Assistência à Criança Deficiente (AACD). O objetivo é nobre, sem dúvida, mas o programa passado concentrou várias polêmicas que não estão dissociadas, claro.  Cláudia Leite, cantora de Axé, celebridade, enfim, teve que ouvir comentários indecentes de Sílvio Santos, o apresentador e "self-made man" mais famoso do país.  Sim, usei esse termo moralistazinho, porque foi isso mesmo, eu vi o vídeo.  "Ah, mas ela não saiu do palco!"  Imagine o que diriam dela se abandonasse um programa como o Teleton?  Imaginou?  Ela pode ter ficado e feito seu trabalho por simples constrangimento e/ou dever.

Sílvio Santos é famoso por se comportar mal, a maioria é tolerante com ele, porque, ou concorda com o seu machismo, racismo e homofobia, ou releva, pois ele é idoso, ou tem uma ligação afetiva com ele.  Escolha o lado, ou não escolha.  O que não dá para passar pano é o fato de em um programa familiar, porque era, vejam bem, ele  falar que ficou sexualmente excitado ao abraçar a cantora e culpar sua roupa por isso.  A esposa dele estava na plateia, a câmera focou no rosto dela, suas filhas, crianças, enfim.  Daí, os defensores de Sílvio Santos assumiram três frentes, uma dizendo que mulheres não tem senso de humor, a segunda, dizendo que ele é velho e que não tem mais jeito, outra desqualificando a cantora e dizendo que SS é um bom pai de família, avô e por aí vai.  A defesa das filhas não conta, elas são herdeiras do império do pai, vão defendê-lo com unhas e dentes.


Doar para a AACD não pode virar questão de adesão política.
O tempero extra, foi a exaltação do presidente eleito, que apareceu no programa falando de sua doação.  Só por conta disso, a polarização já se estabeleceu com gente pedindo para que o povo não doasse dinheiro e o resto dizendo que fofo é o novo presidente e vejam como os "esquerdopatas" são malvados.  Ponto um, não precisa ser no Teleton para doar para a AACD, trata-se de um mutirão, então, se quiser você pode doar e as crianças nada tem a ver com essa picuinha política.  Ponto dois, Bolsonaro não é o primeiro presidente a aparecer na campanha, gostemos dele, ou não, ou do Sílvio Santos, ou do Raul Gil, isso já aconteceu antes e a presença de uma autoridade potencializa as doações, sim.  Fora isso, Sílvio Santos é um puxa-saco histórico, ele tem preferências políticas, mas corteja o poder o tempo todo, a intensidade é que pode variar.  

Ponto três (*em destaque*), o fato de você ter ficado pau da vida com quem estava pedindo boicote ao Teleton não justifica negar que Sílvio Santos assediou Cláudia Leitte, ou que se comportou de forma indecente em programa familiar.  Não era o programa Sílvio Santos e, ainda que fosse, seria errado do mesmo jeito.  A roupa de uma mulher não justifica um assédio, ou mesmo um estupro, vide o rolo que está acontecendo na Irlanda nesse momento.  Outra coisa, se Cláudia Leitte se comportou mal em outra situação (*o protagonista do caso veio à público desmentir as acusações contra a cantora*), isso não justifica, repito, que Sílvio Santos a assedie em um programa CENSURA LIVRE e FILANTRÓPICO ou a assedie uma mulher, qualquer mulher, simplesmente, porque ele PODE. Não dá para defender a família, a moral e os bons costumes e se calar sobre essas coisas só porque as feministas estão dizendo que é errado.  Da mesma maneira, convém lembrar que a "brincadeira" de Sílvio Santos em um espaço público não trouxe risco para a cantora, mas sanciona que coisas assim aconteçam longe dos olhos e das câmeras, afinal, é somente uma piada, ou ela aceita se quiser, ou ainda, "quem mandou estar vestida desse jeito?".  Espero ter sido clara nos meus argumentos.


Adeus, Stan Lee e muito obrigada!
6. Morreu Stan Lee (1922-2018), o mais criativo de todos os quadrinistas americanos.  O salvador da Marvel com seu Homem-Aranha, um sujeito louquinho que a maioria amava, apesar de ter pisado na bola algumas vezes, ou ter sido acusado de coisas realmente condenáveis.  O mundo dos quadrinhos e do cinema não seriam os mesmos sem suas criações e seu sorriso.  Eu não comentei no dia 12 de novembro, deveria, mas, enfim, eu não deixaria de citar.  Não vejo com tristeza a morte de Lee, ele viveu uma longa e produtiva vida.  95 anos, ainda lúcido e ativo.  Queria eu chegar à velhice com a vitalidade desse homem.  Todas as honras são pequenas.  Foi se encontrar com seu companheiro Steve Ditko (1927-2018), co-criador do Homem Aranha e criador do Doutor Estranho, que partiu mais cedo, em junho.  Excelsior, Stan Lee!  Sentirei falta de você nos filmes da Marvel.


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