segunda-feira, 10 de dezembro de 2018

16 Dias de Ativismo pelo Fim da Violência contra as Mulheres: O que podemos esperar do futuro?

Liberdade, Confiança, Justiça, Amor, Domínio da Lei,
Prosperidade, Dignidade, Igualdade.
Hoje,  Dia dos Direitos Humanos, se encerra a campanha "16 Dias de Ativismo pelo Fim da Violência contra as Mulheres", ela começa no dia 25 de novembro, Dia da Não-Violência contra as Mulheres, implicando em uma série de ações para promover a igualdade de gênero e ações contra a violência contra mulheres e meninas.  Instituída pela ONU em 1991, as ações não se resumem ao Brasil.  Este ano, fiz alguns posts alusivos, à campanha, mas nada intenso como em 2011.  Encontrar matérias para comentar é fácil.  Os feminicídios são lugar comum na imprensa e as múltiplas violências contra as mulheres acontecem no mundo inteiro.  No entanto, prometi um post sobre a nova Ministra da Mulher, Família e Direitos Humanos, Damares Alves.

Damares Alves para muitos é uma figura obscura, mas quem acompanha o mundo evangélico, ou está dentro dele, como eu, sabe que ela é uma palestrante importante, envolvida principalmente em disseminar informações distorcidas sobre os LGBTI, os feminismos, as políticas públicas a respeito de temas como educação sexual e diversidade.  É possível encontrar fragmentos ou palestras completas da assessora parlamentar no Youtube sem grande esforço.  Imagino que se multipliquem ainda mais nos próximos dias. Damares Alves esteve ligada ao agora senador eleito pelo Rio de Janeiro, Arolde de Oliveira, tornando-se, mais tarde, assessora do senador Magno Malta, que não se reelegeu.


Hakani, rodou o mundo.
A rigor, o que eu tenho a colocar é que as perspectivas em relação ao trabalho da ministra são das piores.  Não pensem que estou falando em descriminalização do aborto, ela mesma se pronunciou sobe o tema várias vezes (“Se a gravidez é um problema que dura só nove meses, o aborto é um problema que caminha a vida inteira com a mulher”), porque somente uma pessoa muito ingênua para crer que a próxima legislatura, que é quem realmente deve decidir essas questões, irá se mover para isso, falo de outras questões, como de políticas públicas que possam promover fim da violência de gênero, educação sexual, proteção à diversidade religiosa sexual e, como a FUNAI irá para a pasta de Damares, a proteção dos indígenas.

Começando pelos índios, e basta pegar os dados do IBGE e ver que eles ocupam a base da pirâmide quando o assunto é pobreza e exclusão, pode-se dar uma tragédia.  Há o discurso oficial do novo presidente eleito, contra demarcações de terra e que não parece discernir entre as diversas condições das diferentes etnias.  Há indígenas isolados, em estado nômade ainda, há tribos com diferentes graus de integração.  Não existe o índio único das comemorações de escola primária.


O MPF ordenou que o docudrama fosse tirado de circulação.
Pois bem, Damares Alves está envolvida com a questão indígena em dois níveis, o primeiro, na evangelização das comunidades nativas, o segundo, na campanha contra o infanticídio promovido por algumas tribos em nosso país.  São poucas as etnias que mantém a prática, normalmente ligada à questões culturais (*não estou legitimando, apenas explicando*), mas a futura ministra tem uma ONG ATINI acusada, junto com a JOCUM (Jovens Com Uma Missão), de promover adoções irregulares de crianças indígenas e o docudrama Hakani produzido pela sua organização sobre o infanticídio indígena promoveu uma visão distorcida da prática associando-a indiscriminadamente a todos os indígenas.  Eu não consigo ver isso tudo como uma trama perversa, mas é possível errar tentando fazer o bem e nem tudo o que consideramos como benéfico aos nosso olhos o é para toda e qualquer pessoa, ou grupo social.

Mas, enfim, o objetivo, claro, era justificar a ação dos missionários, porque quem não seria contra uma prática tão hedionda?  É preciso salvar as criancinhas de seus próprios pais e de seu povo.  Corre-se o risco de termos a legitimação de uma ação missionária agressiva alinhada com a utilização de terras indígenas pela agricultura.  O genocídio cultural e físico das comunidades nativas são dois riscos que trariam grande dano à imagem do Brasil no exterior e, para quem nãos e importa com direitos humanos, tenha certeza que a economia do país seria atingida também.  


Nosso fiapo de Estado Laico está sob ataque.
"Não é a política que vai mudar esta nação, é a igreja", esta frase da nove ministra foi proferida em 2013.  De lá para cá, ela poderia ter mudado de posição, mas, ao que parece, não mudou.  Estado Laico é algo que muitos evangélicos não compreendem e é exatamente esse tipo de evangélico e, também, de católico, que está chegando ao poder.  Há uma entrevista de Damares Alves de março deste ano na qual ela expressa ideias semelhantes, na medida que defende um suposto "padrão cristão" que deveria nortear as relações entre os sexos e a organização da família, no singular, claro.  O vídeo está aí embaixo.


Nesse vídeo a futura ministra é chamada de doutora por ser advogada, logo, uma autoridade, e, não, de pastora. Acredito que para diluir o fato de representar (*ou assim ser vista*) o pensamento evangélico, fora o fato de muitos evangélicos não concordarem com a ordenação de mulheres.  Enfim, a ex-ministra expressa uma visão muito peculiar do que é ser mulher, assim, no singular, claro, porque somos todas iguais.  Cito alguns trechos trechos:
"Hoje, a mulher tem estado muito fora de casa. Essa é uma preocupação que eu tenho. Costumo brincar o seguinte: como eu gostaria de estar em casa, toda a tarde, em uma rede, me balançando, e meu marido ralando muito, muito, muito para me sustentar e me encher de joias e presentes. Esse seria o padrão ideal da sociedade. Mas não é possível. Temos que ir para o mercado de trabalho."
"É possível neste mundo moderno a gente conciliar a vida profissional com a vida doméstica, com a vida familiar, especialmente com o papel de ser mãe. A coisa que eu mais gosto de ser é ser mãe. A mulher nasceu para ser mãe, também. Mas ser mãe é o papel mais especial da mulher. A minha consideração é: dá para ter carreira, dá para a gente competir, dá para entrar no mercado de trabalho, dá para a gente consertar as bobagens que os homens fazem, tá? Por favor, sem nenhuma guerra. Dá para a gente ser mãe, dá para a gente ser mulher, dá para a gente ainda seguir o padrão cristão que foi instituído nas nossas vidas."
Mulher quer ser mãe, porque essa parece ser uma obsessão da futura ministra.  Mulher quer ser sustentada, passar a tarde na rede, recebendo jóias do marido, e aí eu poderia citar Provérbios 31:10-31, que eu tive que decorar na adolescência, no qual a mulher virtuosa é aquela que trabalha e muito, inclusive fora de casa.  Essa, na verdade, é aquela visão escravagista, ou burguesa de novela da Globo, ou minissérie britânica sobre as classes ociosas, porque para que uma mulher pudesse passar suas tardes na rede, no máximo (*no máximo*) supervisionando sua casa, outras mulheres precisavam estar trabalhando para ela e negligenciando seus próprios filhos e marido. Quando o tinham, na verdade.  


Operárias brancas.  Essas mulheres não foram levadas para as fábricas
pelo discurso feminista.  Podem ter certeza, mas a melhoria
dos seus salários e condições de trabalho certamente dependeu
das feministas e dos socialistas, também.
As mulheres pobres, independente de sua cor, ou etnia, sempre tiveram que trabalhar.  Poderiam não receber salários por seu trabalho, quando recebiam, era menos que um homem, afinal, elas não precisavam sustentar a casa.  Mas raramente uma mulher pobres poderia se dar ao luxo de não exercer uma atividade que colocasse dinheiro em casa, ainda que se mantivesse no ambiente doméstico.  Essas arautas da domesticidade, algumas delas ostentando o título de pastora, algo que foi fruto das lutas feministas, normalmente vendem a imagem de que as mulheres tem um destino natural, o casamento, a maternidade, serem sustentadas, enquanto elas mesmas ocupam o espaço público e estão ganhando dinheiro às custas da culpa e da frustração que alimentam.

Outro tema que emerge das palestras da futura ministra é o da associação das religiões de matriz africana e outras não-cristãs ao satanismo. Pensem o seguinte, será que esse tipo de visão limitada terá impacto nas políticas públicas?  Há quem defenda, como o jornalista Reinaldo de Azevedo, que há três "partidos" no próximo governo, o dos generais, o de Chicago, o da polícia e a cota pessoal do presidente, aquele grupo comprometido com teorias da conspiração e a guerra cultural.  Damares, claro, faz parte do último grupo.  Não espero coisa boa, na verdade, espero coisa muito ruim e não somente para as mulheres, como já pontuei.

O futuro?
Ela não é consenso entre a bancada evangélica, muito pelo contrário.  Há os que estão ressentidos, porque Magno Malta foi preterido.  Há os que criticam Damares por ela ter expressado publicamente que o casamento entre pessoas do mesmo sexo é direito assegurado e que pessoas trans devem ser inseridas no mercado de trabalho e não deixadas à margem da sociedade.  Para eles, essas duas falas coerentes da futura ministra são motivo de falta.  Talvez, por causa delas, um importante ativista das causas LGBTI+ expressou esperança “(...) há, no final do túnel, uma possibilidade de diálogo (...) Não é uma pessoa que falou que não existimos”.  Tomara, mas tenho cá minhas dúvidas.

Concluindo, posso estar sendo alarmista, mas quando vejo mulheres como Damares Alves escolhidas para um cargo dessa magnitude só consigo lembrar de Tha Handmaid's Tale.  Não do seriado de TV, porque mexeram muito nas personagens do Comandante e de Serena Joy, mas no livro mesmo.  Quem era Serena Joy no romance original?  Uma ex-cantora gospel e pregadora do "verdadeiro lugar da mulher".  Ela criticava os feminismos, a presença das mulheres do mercado de trabalho e foi peça fundamental para o estabelecimento de Gilead.  Há mulheres que são cúmplices do patriarcado, elas também vão perder lá na frente, mas a situação delas ainda será mais confortável do que a das aias e outras fêmeas de um mundo distópico.  Mas, talvez, eu esteja superestimando a nova ministra, talvez, ela só seja mesmo uma das tias.  A chefe delas, mas não a esposa de um comandante, esse lugar é da Michelle.

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