domingo, 9 de dezembro de 2018

Jornal do Shoujo Café: Meninas de pernas aquecidas não conseguem se concentrar, Pabllo Vittar entre as 20 mais sexies do Brasil, Shun agora é mulher e outras notícias da semana


Chegou o dia de mais uma edição do jornal do Shoujo Café.  Acredito que a linha temática de hoje será gênero, orientação sexual, identidade de gênero, diversidade, enfim, com uma ou outra exceção.  Amanhã, é Dia dos Direitos Humanos e terminam os 16 Dias de Ativismo pelo Fim da Violência contra as Mulheres, então, não falo hoje da nova ministra das Mulheres, Família e Direitos Humanos. Deixarei isso para o dia 10.  E, só lembrando, este site é feito por uma feminista, logo minha leitura tem um filtro e os meus parâmetros estão definidos.  Se quiser continuar...  

Mulheres só conseguem se concentrar quando estão com frio.
1. Meninas precisam estar com frio para conseguirem se concentrar.  Não sei aí onde você está, mas, aqui, em Brasília, estamos vivendo uma onda de frio que eu nunca vi nessa época do ano.  Usar casaco em dezembro é um desaforo, salvo, claro, se você estiver em algum lugar onde estejamos quase no inverno, caso do Japão.  E apareceu no Sora News uma matéria sobre a resposta de uma escola para uma mãe preocupada com a saúde da filha.  A maioria das escolas japonesas, a despeito do que a gente vê nos animes e mangás, leva muito á sério o respeito ao uniforme escolar.  Meninas, normalmente, usam saias.  Para quem já foi obrigada a usar saia no frio (*Eu!*) digo que não é muito confortável.  

Uma mãe mandou perguntar se sua filha (*que não teve idade revelada*), poderia usar uma legging ou semelhante, por baixo da saia do uniforme.  A escola poderia dizer "não" e enfatizar "as regras", mas mandaram a seguinte resposta "Não pode, porque meninas com pernas aquecidas não conseguem se concentrar [nos estudos].".  A mãe, com razão, colocou a boca no trombone na internet, recebeu apoios múltiplos, e começou a se questionar se o staff da escola não era composto por um bando de pervertidos que quer ver as pernas das meninas, afinal, os meninos usam calças compridas e, bem, eles se concentram, não é mesmo?  E os funcionários e professores?  Será que se concentram no trabalho se estiverem aquecidos?  

Só quem já foi OBRIGADA a usar saia no frio pode entender.
Regras e tradições (*as antigas e as recém inventadas*) normalmente não fazem sentido, mas adestrar meninas desde cedo para que coloquem seu bem estar em segundo plano usando roupas desconfortáveis, ou inadequadas ao clima, ou o que seja para agradar o olhar do outro parece ser uma regra em sociedades patriarcais.  Uma mulher precisa agradar e se tiver que pegar um resfriado, quem se importa?  Quando dei aula em uma Escola Normal, isto é, de formação de professoras, porque a maioria era menina, presenciei um conselho de classe no qual foi negado às representantes que pudessem usar calças compridas no frio, ou em caso de chuva.  "Problema de vocês!", foi o que a sub-diretora respondeu, "É preciso respeitar o uniforme da escola.".  A maioria das professoras estava de calças compridas, se as meninas estavam desconfortáveis, com frio, que mudassem de escola.  Insanidades, mas não pensem que elas não tem função pedagógica.  Quem sofre com o abuso de autoridade hoje, pode se tornar o abusador amanhã.  Questão de hierarquia, não é mesmo?
Algumas das concorrentes.  Pabllo Vittar não pediu para ser listado.
2. Revista elege Pabllo Vittar como a 13ª mulher mais sexy de 2018.  A revista Isto É fez uma enquete on line para decidir quem seriam a mulher e o homem mais sexy do país.  É coisa banal, se faz todo ano, mas como vivemos um momento dos mais infelizes de nossa história, um fato gerou revolta.  Pabllo Vittar estava na lista das mulheres e sendo bem VOTADO. Curiosamente, Thammy Gretchen estar na lista dos homens, incomodou muito pouco proporcionalmente.  Perceberam que coloquei no masculino, pois bem, o artista Pabllo Vittar nunca se assumiu como mulher trans.  Ele é uma drag queen e ser drag é uma profissão, como a minha é ser professora.  Ainda que muitos, ou quase todos, os artistas por trás das drag queens sejam homens gays, isso nada tem a ver com sua identidade de gênero, isto é, se perceberem como homens, ou mulheres (*estou simplificando, OK?*).  Logo, realmente Vittar não deveria estar na lista das mulheres mais sexies de 2018.  

O objetivo da revista (*CLARO*) era atrair audiência, gerar polêmica e tudo mais.  Conseguiu e o nível dos comentários aponta o quanto de agressividade em relação ao artista, ou aos LGBTI as pessoas carregam dentro de si.  Mas eu toquei em Thammy Gretchen, porque neste caso cabia colocá-lo na lista dos homens mais sexy de 2018.  Não que eu veja Thammy como alguém desejável (*aliás, a lista toda me agradou muito pouco*), mas ele passou por todo o processo de transição corporal para adequar seu corpo a sua identidade de gênero.  Logo, ele é um homem.  Eu estou ciente de todas as discussões e conflitos relacionados aos processos de destransição, no entanto, escrevo respeitando o direito das pessoas adultas, ou aptas a se posicionar legalmente, de decidirem por si mesmas os caminhos que desejam seguir em suas vidas.  E Thammy ficou em 17º lugar.


Um incomoda muito, o outro, nem tanto.
Algo que já escrevi em posts outros, até sobre mangás e animes como A Rosa de Versalhes, Ranma 1/2, ou filmes, enfim, que tratam de situações de mudança de sexo, ou trazem personagens que se veem obrigadas ou optam por assumir papéis de gênero associados ao sexo oposto, é que via de regra quando é uma mulher que se torna/ou ocupa o lugar de homem, temos um drama, ou até uma tragédia, quando é o inverso, uma comédia.  A gente ri do que é absurdo.  Qualquer homem nascido em uma sociedade patriarcal sabe que vale mais que uma mulher, que qualquer mulher, simplesmente por ter nascido XY, ou com uma genitália masculina.  Tornar-se mulher é se rebaixar, é motivo de deboche, tal e qual as piadas horrendas sobre "virar mulherzinha" na cadeia, ou sobre sabonetes em banheiros. 

"Virar mulher" é ser submisso a outro macho, porque essa é a visão que se tem do que é ser mulher em nossa sociedade, e homem nenhum deve desejar isso.  Por isso mesmo, o homossexual caricato, aquele das novelas do Walcyr Carrasco, ou do Agnaldo Silva, é uma ameaça menor, porque gera riso, porque reconhece o seu lugar, do que aquele que assume sua identidade e quer se inserir na sociedade em pé de igualdade, repensá-la, na verdade.  Se ganha dinheiro, então, vejam o absurdo!  É uma ofensa aos homens "de bem", que se esforçam por cumprir com seus papéis de gênero.  É somo no Sul racista dos EUA, o redneck (*branco pobre, que tem que trabalhar de sol a sol para prosperar*) ver um negro em condição melhor do que a dele.  Isso gera revolta que se traduz em violência, seja na internet, seja na vida real.  


Clô não incomoda.  Ele não quer mudar o sistema.
Uma homem trans corre riscos, também, mas ele quer ser algo melhor, superior, assistindo relatos de homens trans, uma coisa curiosa é ver que eles relatam de como é emocionante se tornarem invisíveis, serem apenas "um dos caras" no transporte público, por exemplo, quando tem seu espaço respeitado (*queria encontrar o vídeo... faz tempo que não visito o canal dele e não lembro o nome do moço.*).  Qual homem vai se esfregar em outro no trem, ônibus, ou metrô lotado?  Nenhum.  O risco da violência é grande.  Agora, uma mulher cis lésbica, hetero, o que seja, está sempre em risco de ter o seu espaço invadido, de ser bolinada. E, sim, no caso das mulheres lésbicas há toda aquela certeza em muitos machos de que ela só não quer saber de homens, porque, bem, ela não conheceu o "cara certo".  É preciso, urgentemente, discutir a forma como a masculinidade e a feminilidade são construídas no social.  É preciso, também, claro, parar de chamar Pabllo Vittar de "ela", quando o próprio artista não se identifica como uma mulher.


Shun era legal como era.
3. Shun agora é mulher.  Continuando nessa seara, foi exibido ontem na CCXP, em São Paulo, o trailer do novo anime de Cavaleiros do Zodíaco na Netflix.  Começo dizendo que não dou a mínima para Cavaleiros em qualquer de suas vertentes.  Assisti ao anime na Manchete.  Imaginem o seguinte, em tempos pré-internet, só de ter um anime na TV depois de tantos anos SEM NADA passando, eu assistia e não reclamava, torcia e achava o Shiryu lindo e idiota; e acreditava que o Ikki era cavaleiro de ouro desde o começo, porque ele era muito superior a todos os outros cavaleiros de bronze.  Só que eu já tinha 17 anos quando a série começou a ser exibida, já tinha visto animes melhores antes.  

Agora, algo importante em Cavaleiros e que foi fundamental para a formação de muita gente que era criança na época foi a série exibir modelos diferentes de masculinidade.  Shun era tão cavaleiro quanto os outros, mas era sensível e capaz de expressar sentimentos, coisa difícil para um Seya e ainda mais para o irmão do próprio cavaleiro de Andrômeda, Ikki, que passou por um processo de brutalização que é bem mostrado na série.  E Shun não era gay, isso não era uma discussão na série, ele tinha uma "namorada", inclusive, e era bem melhor resolvido com ela do que os outros machos da série.  Mas eis que adaptam Cavaleiros do Zodíaco para os novos tempos e Shun se torna uma mulher.



Se a desculpa para essa mudança de sexo biológico é que se precisa de representatividade, eu dispenso.  Ainda assim, poderiam pegar outro cavaleiro.  Ryoga, por exemplo, poderia ser aquela mulher poderosa e de coração gelado, que aprende com o tempo que pode demonstrar sentimentos sem parecer fraca diante de seus companheiros.  Seria clichê, mas não soaria homofóbico aos meus olhos.  Mas tinha que ser o Shun, tinha que ser um reforço de que sensível e de rosa, tem que ser a mulher do grupo.  Agora, não sei como vão explicar (*e se o fizerem vai ser algo sem pé nem cabeça, como os klingons em Jornada nas Estrelas*) por qual motivo antes mulheres não podiam ser cavaleiros, mesmo competentes como Marin, ou Shina, e, agora, podem.  Será que Shun terá que esconder seu sexo biológico tal e qual uma donzela guerreira até ser descoberto? Enfim, novos tempos pedem que discutamos modelos de masculinidade e feminilidade e não que reforcemos (pre)conceitos de gênero.  Estamos andando para trás.

4. Ainda nessa linha, tinha guardado esse vídeo para hoje, sem saber da história do Shun e antes até do resultado do Pabllo Vittar no top 20 de mulher mais sexy, o vídeo do Danilo, que interpreta a drag Lorelai Fox, falando dos animes favoritos de sua infância, séries que ajudaram na sua formação.  Ele, que estava desmontado, isto é, não era a drag queen, fala de Shun, claro. Ele fala de Sailor Moon e de Card Captor Sakura.  Ele desenha, também, há vídeos dele desenhando.  Enfim, eu recomendo o canal, há vídeos talvez desaconselháveis para menores de 16 anos, mas a maioria é censura livre e, alguns, bem educativos.


5. "Uma rádio de Cleveland, nos EUA, decidiu não tocar mais a música "Baby, It's Cold Outside", um clássico de Natal no país. O motivo está no conteúdo da letra: muitos ouvintes se mostraram preocupados com a possibilidade dos versos incentivarem a cultura do estupro."  Foi uma rádio somente, a  WDOK Star 102.1, mas o caso gerou uma grande falação, comos e foss eo fim do mundo.  Eu fui assistir ao vídeo tirado do filme Neptune's Daughter, aqui, no Brasil, A Filha de Netuno.  O musical de 1949 recebeu o Oscar de melhor canção.  Não lembro mesmo de ter visto esse filme.  Gostava desses filmes de piscina com a Esther Williams.  Talvez, eu tenha, mas deve fazer quase trinta anos.


Se vocês assistiram ao vídeo, perceberam que há dois casais.  No primeiro, uma mulher diz textualmente "Eu só tenho que ir embora, a resposta é não".  O homem não aceita o não como resposta, e ele é seguido de vários outros, e termina conseguindo (*aparentemente*) que ela fique.  O vídeo é simpático, mas é evidente o constrangimento da moça.  O homem gentilmente segura seu braço, fecha as cortinas, ela se senta, ele coloca a mão em seu joelho, o que ontem, ou hoje, seria um gesto com significado sexual naquele contexto.  Resistência poderia resultar em violência (*maior*)?  Certamente.  E pensem na reputação de uma mulher que aceitasse passar a noite com um homem sem ser casada com ele. Mesmo se nada acontecesse, ela estaria arruinada. 

Corta-se o vídeo e temos outro casal.  A assediadora é a mulher.  É assédio do mesmo jeito, mas como os papéis de gênero naquela sociedade são muito desiguais, o homem poderia se desvencilhar da mulher - que se oferece sexualmente para ele - a qualquer momento e partir.  Isso, no entanto, pegaria mal PARA ELE.  Como o homem é o encurralado, a sequência é de humor.  Imagina recusar um oferecimento desse?  Está frio lá fora, afinal, e ela está querendo "aquecer" o sujeito.  Ele fica, apaga-se a luz, sabemos que teremos sexo, isso é um código da época, mas as implicações para um e outro sexo são diferentes.  
Filmes de piscina foram comuns por quase dez anos.
Não estou defendendo a proibição da música, ainda que a rádio seja livre para escolher o que toca, ou não toca, como no caso de alguns blocos de carnaval que baniram músicas machistas e racistas.  Acredito ser importante refletir sobre como essa canção e tantas outras, nesse caso, acompanhada do vídeo, ajudam a construir conceitos do que é ser homem, ou mulher, em uma dada sociedade.  Refletir, discutir, para fazer diferente, para construir um mundo melhor.

E é isso.  Acabou o jornal de hoje.

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3 pessoas comentaram:

Achei legal o formato de jornal do shoujo café. Ainda que não comente muito, pq nem sempre sou inspirada para comentar algo relevante, mas eu leio pelo menos semanalmente o blog.

3- Sim, infelizmente estamos regredindo, a desculpa da representatividade não cola nem de longe, na própria entrevista com o roteirista do remake o próprio fala o óbvio: para haver mais representatividade foram cogitadados várias opções: Dar mais importância às personagens femininas já existentes que já são amazonas como personagens mais centrais. Colocar Atena em uma posição mais ativa. Ou pegar personagens femininas já existentes que não lutam como a Shunrei ou a Mino e transformá-las em amazonas. Ou ainda criar uma personagem feminina nova para integrar o time principal. Aí ele se enrola e, não consegue dar nenhum motivo plausível para mostrar porque optaram por transformar um personagem masculino em feminino, invés das outras opções que gerariam menos críticas entre fãs e possibilitariam uma representatividade muito mais ampla. Isso é puro machismo e conservadorismo dos responsáveis. E, em um certo sentido até um pouco de xenofobia porque para quem acompanha animês e cultura japonesa sabe que personagens com aparência andrógina masculinos ou femininos são vistos como padrão de beleza , não tendo na maioria das vezes relação alguma com homossexualidade. É quase padrão obrigatório em várias shounens ao menos um personagem do gênero no elenco principal. Daí a tentativa de finalmente barganhar o público americano para série e vender mais produtos relacionados para o mercado americano adequam o "produto" ao conceito de masculinidade ocidental mais aceito e retrógrado possível. Vide o filme "A lenda do santuário" que tinha o mesmo objetivo em que todos os cavaleiros de ouro passaram a ter uma mini barba tosca. Não nego os vários defeitos da série em termos d animação e roteiro, nem que tudo na série fosse revolucionário, mas justamente os pontos mais interessantes e digamos que faziam a gente refletir para muitos fãs são retirados, sem mais nem menos. Como fã de animê acho essas tendências de ocidentalizar e também posar de progressista sendo o contrário uma grande decepção...

Eu já não ligo para nada de CdZ desde o final da Saga das 12 casas na TV.
Agora com essa do Shun, peguei foi bronca total.
E essa das meninas terem que ficar desconfortáveis, é o cúmulo do absurdo. Eu realmente não sabia que era proibido usarem algo mais além das saias. Triste mesmo.

Shiryu, lindo e idiota! Kkkkkk eu chorei de rir com essa. Quando via o CDZ na Manchete e era menina, era apaixonada pelo Shun porque ele era sensível e parecia ser fofo, alguém legal e amigo. Depois, lá nos anos 2000, época de Dragon Ball Z no auge, lembrava do Shun e me perguntava porque eu não gostei do Ikki, muito mais "homem", como minha prima adolescente gostava. O mais doido é ver que só hoje entendo que, com uns 5/6 anos eu entendia que sensibilidade e amizade era mais confiável em um homem do que violência. O que as meninas desprendem na adolescência (homem tem que ser "macho"). O Shun menina de hoje é um recado de que pra ser rosa e sensível tem que ser mulher. O auge do retrocesso.

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