terça-feira, 25 de dezembro de 2018

Comentando Ōoku volume #14: Fumi Yoshinaga Mostra que a História tem Fôlego mais uma vez


Ontem, terminei de ler o volume #14 de Ōoku (大奥), de Fumi Yoshinaga.  Não faz um ano ainda que resenhei o volume #13, mas a média de lançamento dos volumes nos EUA é de um por ano.  Publicado no Japão desde 2005, a série sai na revista Melody, que é bimestral.  No seu país de origem, o mangá está no volume #16 e espero que Yoshinaga não estique Ōoku para além do volume #18.  O problema é que quando parece que vi terminar, essa feiticeira me lança  um volume tipo esse #14, que é tão bom, mas tão bom, que a gente deseja  que faça mais uns cinco desses.  Só que eu não quero ficar 15 anos lendo Ōoku, não.

Para quem não conhece a série e caiu nessa resenha de pará-quedas, a série conta a história do Shogunato Tokugawa (1600-1868), mas é uma ucronia, ou seja, eventos reais, personagens reais, estão lá, mas, neste caso, normalmente com seu sexo biológico trocado, isto, porque, uma praga, chamada de varíola vermelha, dizimou a população masculina jovem do Japão.  Sobraram 1/5 dos homens no auge da epidemia.  As mulheres, agora maioria, tiveram que assumir os postos de mando e os mais diferentes ofícios, mesmo os que exigiam força física.  O fechamento aos estrangeiros é uma forma de preservar esse terrível segredo que poderia levar à invasão do país.  O Shogun – comandante político e militar supremo do Japão – passou a ser uma mulher e ela tem um harém, o Ōoku, que dá nome para a série.  Com o tempo, o que era temporário se torna a norma.  Iniciado como um volume único fechado em si mesmo, a série fez sucesso e seguiu seu caminho.


Um mapa do Shogunato de Ōoku até o momento.
Só que muito tempo se passou, a doença foi perdendo a sua força, e os volumes #12 e #13 mostram o desenvolvimento de um eficaz programa de vacinação.  A população masculina cresceu.  Concomitante a isso, e por manobra da única personagem da série que merece ser chamada de vilã,  Harusada Tokugawa, um homem, seu filho, sentou-se no trono novamente.  O novo shogun, Ienari, decidiu,após a morte da mãe, se vingar de todas as humilhações sofridas, colocando homens em lugares de mando e conseguindo garantir que um de seus filhos homens reinasse.  Ieyoshi, esse filho, traz dentro de si a semente maldita de sua avó (*a mulher era ruim mesmo*) e abusa sexualmente de sua filha que, por questões econômicas, afinal, mulheres procriam menos filhos, mesmo que tenham um harém, termina se tornando a governante.

Iesada é a shogun que tem que enfrentar a chegada dos norte-americanos e as ameaças de ataque ao Japão caso recuse abrir seus portos.  É esta shogun que precisa mostrar-se capaz de governar apesar de ter sido tratada de forma monstruosa pelo pai e pela mãe. Ela foi envenenada por eles, ela teve seus maridos seguidamente assassinados, ela foi difamada.  Paralelo a isso, o imperador em Kyoto, assim como os Dáimios de Satsuma e de Mito tem sua própria agenda. O volume todo, pelo menos na sua parte politica, gira em torno das várias facções pró e contra a abertura dos portos aos estrangeiros se digladia, enquanto a chefe do governo, Abe Masahiro.  


Abe Masahiro e Takiyama no volume #13. 
Não achei imagens dos dois no volume #14 na internet.
Ela, que foi uma das personagens proeminentes do volume #13, sabe que os cofres estão vazios e o Japão atrasado tecnologicamente, não tem chance em um confronto direto.  Masahiro é uma daquelas personagens gostáveis dessa série e, como é quase uma tradição em Ōoku, esse tipo de criatura tende a ter um fim triste.  Exceção, claro, para Arikoto, mas igual a ele não teremos... Ou teremos? Apesar da sua astúcia política, Masahiro terá que amargar seu quinhão de sofrimento. Masahiro não morre pelo veneno, nem pela espada, nem é desterrada, ela morre de câncer. 

A doença não é citada nem em notas no mangá, mas foi a causa mortis do Abe Masahiro histórico.  Quando folheei o volume por alto, não reconheci Masahiro.  Fumi Yoshinaga desenha umas mulheres gordinhas muito simpáticas. Masahiro era desenhada assim, mas, doente, ela vai emagrecendo, até chegar a uma situação de extrema fragilidade física. De qualquer forma, e já escrevi antes, o protagonista desse mangá é o harém, o  próprio Ōoku.  Uma personagem, por melhor que ela seja, dura, no máximo, 4 volumes.  Normalmente, menos.  


A Shogun passa a amar
o ar livre graças ao marido.
Masahiro morreu prematuramente aos 39 anos e sua partida deixa um vazio que não poderá ser preenchido.  O Shogunato, não necessariamente, o das mulheres, caminha para o fim.  Na vida da shogun, a doença é morte de Masahiro tem, também,  um efeito devastador. A soberana,por razões de protocolo, sequer pode sair do seu palácio para visitar a amiga. Precisa de um emissário.  Todos nessa série, estão submetidos à regras rígidas e poucos se arriscaram a tentar burlá-las.

Takiyama, outra personagem importante no volume anterior, Takiyama, o camareiro-mor, foi colocado no Ōoku por Masahiro, que o tira da prostituição e lhe da um propósito.  Ele, um homem inteligente, consegue estabelecer uma relação de confiança com a shogun e impedir que seu pai abusador tivesse acesso a ela.  Neste volume, ele persiste em sua missão, sofre com a doença de Masahiro, e se preocupa  com a chegada de um novo consorte, um homem de Satsuma, um samurai de origem pobre que é adotado duas vezes para se tornar um consorte ideal.  Taneatsu é seu nome depois de adotado,ele chega ao Ōoku com uma aura toda especial, porque ele lembra Arikoto.


E sua saúde melhora  consideravelmente.
Assim como Iesada lembra a terceira shogun, Iemitsu, que muito sofreu até que encontrou temporária felicidade nos braços de Arikoto.  Taneatsu lembra a perfeição do primeiro  camareiro-mor do Ōoku.  Lembra, mas ele chega comissionado pelo dáimio de Satsuma para espionar a Shogun, influenciá-la e conseguir que o candidato "certo"  possa ser  indicado como sucessor, já que todos creem que Iesada é estéril.  Temos um flashback,vemos a vida do jovem antes de ser selecionado, suas qualidades, a forma como Satsuma ficou à margem do empoderamento feminino.  Ele também rejeita o rótulo de novo Arikoto, não por modéstia,mas por acreditar que irá engravidar a Shogun.

Esse jovem não é um novo Arikoto, mas também não é um novo Emonnosuke, que foi camareiro-mor da Shogun Tsunayoshi.  Taneatsu tem bom coração e seu efeito sobre a Shogun, apesar de  toda a desconfiança de Takiyama, que não entende por qual motivo Masahiro apoiou o casamento, na verdade, o planejou, é benigno.  E eles terminam formando um casal harmônico e feliz.  Isso, em uma série como essa é algo raríssimo.  E, claro, a gente sabe que felicidade em Ōoku dura pouco.  Resta saber se o rapaz irá ter a coragem de cumprir amissão da qual foi incumbido, ou mostrar-se-á fiel a sua esposa e senhora.  Como será?  A capa do volume #15 tem Iesada e Taneatsu na capa.


Taneatsu.
Não vou me prolongar mais.  Foi um dos volumes mais interessantes da série.  A autora conseguiu pontuar alto na trama política, alo que poderia atrapalhá-la.  Começamos afalar do imperador, o que aponta para a Revolução Meiji (1868).  Os dois últimos shogun já apareceram, ambos irão governar, ainda que brevemente.  Os americanos fazem sua entrada.  As traições e contendas se tornam mais visíveis e Fumi Yoshinaga segurou bem a bola.  Vamos ver se ela terá coragem de desenhar batalhas.  Deu tempo, desde o volume #4, de se preparar.

Agora,naquilo que ela faz melhor, desenhar as relações humanos,tecer os diálogos íntimos, ela se superou.  É um volume de capa branca, o segundo até agora.  Volumes de capa branca são pontos de virada na história.  Virada para o fim, eu espero.  E, bem, o volume #14 ofereceu emoção, romance, tragédia, demonstrações extremas de amizade e fidelidade. Iesada tornando-se, peloa primeira vez,uma mulher capaz de ver as belezas do mundo, de sentir prazer, e não somente sexual, mas com as flores, o céu, a comida, foi muito legal de ler.  Foi o início da superação dos abusos sofridos.  E Taneatsu, bem, eu acredito que ele não vai traí-la e isso, claro, pode complicar sua vida... 


Iesada.
Ainda falando nele,é muito interessante ver o quanto o caráter de um povo se manifesta nas mínimas coisas.  Quando falo em "caráter", estou falando de cultura.  Quando o jovem e a shogun finalmente consumam seu casamento, ele  fica tão cansado que perde a hora da assembleia geral.  Takiyama deixa passar, mas quem acaba recebendo a culpa é seu pajem, Kuroki (*filho, ou neto, do companheiro de Aonuma*), porque fora incapaz de acordar seu senhor.  Mais adiante, Taneatsu se desculpa com seus subordinados, porque se alguém que está no topo não cumpre as regras, os ritos e as tradições, que exemplo está dando? 

"Com grandes poderes, vem grandes responsabilidades",  lembram?  Pois é, em nosso país, posições de destaque parecem desculpa para tirar vantagem e burlar as regras... O volume também explica a impressão ruim que os americanos tiveram de Iesada.  Era Kuroki, um sujeito desastrado, no lugar da shogun.  Nervoso, ele mal consegue falar e ainda quase cai da cadeira... 


Capa do volume #15.
Uma discussão relevante do volume é o questionamento sobre mérito e nascimento. Uma sociedade como a do Shogunato era baseada em direito por nascimento. Nem sempre os melhores, e vimos isso em outros volumes, tinham seu calor reconhecido. Masahiro lutava para garantir o seu poder mesmo sabendo que outros nobres eram superiores a ela e, não, por serem homens simplesmente, mas por pertencimento de clã. Já os samurais de Saitama, que resistiram ao Shogunato até a batalha de Sekigahara (1600), eram excluídos dos cargos proeminentes no governo por uma rebeldia de 250 anos atrás antes.  Coisas assim, não fazem sentido fora da tradição.

Como constituir um governo competente em um momento de crise, se competência não era uma requisito fundamental?  Taneatsu é ridicularizado pelo Tokugawa do ramo Mito que pleiteia o trono, pois, apesar de consorte da shogun, as origens nobres do rapaz eram modestas.  A própria Iesada se pergunta se um sistema como o dos norte americanos não  seria mais eficaz. Mas se os governantes fossem eleitos pelo voto, seria o fim do Shogunato, não é mesmo? Questões difíceis... Enfim, é isso.  Agora, é esperar mais um ano pelo próximo volume... 😭😭😭

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1 pessoas comentaram:

Preciso voltar a ler Oooku. Infelizmente, o inglês arcaico usado na versão americana me confunde muito e eu fico meio perdido.

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