sábado, 1 de dezembro de 2018

Dez anos do Dia Mundial de Luta contra a Aids


Trinta anos atrás no dia 27 de outubro de 1988, a Assembleia Geral da ONU e a Organização Mundial de Saúde decidiram que o dia 1º de dezembro seria o Dia Mundial de Luta contra a Aids. Cinco anos após a descoberta do vírus causador da Aids, o HIV, 65,7 mil pessoas já tinham sido diagnosticadas com o vírus, e 38 mil já tinham falecido.  Com o tempo e a informação, o terror inicial causado pelo vírus foi debelado.  Alguém postou no Twitter uma matéria de 1988 que tinha um título mais ou menos assim "Acabou o beijo nas novelas".  Saliva não transmite o HIV, carinho e acolhimento são fundamentais para o doente e quem é portador.

No começo da epidemia, o HIV foi associado aos homossexuais, eles foram suas principais vítimas, as mais visíveis, no estágio inicial da epidemia.  A AIDS era chamada de câncer gay, e utilizada extensivamente nos discursos de religiosos e conservadores para aumentar o estigma sobre este grupo.  Até hoje, mesmo com toda a informação, há gente que ainda veja a AIDS como algo associado à orientação sexual de uma pessoa, ou ao desregramento sexual. Na verdade, a maioria dos portadores do vírus e doentes estão hoje em países pobres, ou em desenvolvimento.  

O Brasil é referência no assunto.  Continuará sendo?
Se algumas formas de contágio, pelo menos em nosso país e outros que tratam o tema com alguma seriedade diminuíram, como a contaminação mãe-bebê, por sangue contaminado, ou mesmo por uso de seringas e outros materiais que precisam ser descartáveis, a doença em si não foi debelada.  Cresce, também, a contaminação entre os mais jovens, aqueles e aquelas que não viram os doentes famosos agonizarem diante de nossos olhos (*Cazuza, Freddie Mercury, Lauro Corona etc.*); entre os idosos, que passaram a ter uma vida sexual mais ativa e não foram devidamente informados, ou trazem as velhas crenças sobre o HIV; e as mulheres casadas. Essas  são vítimas em potencial.  Usar camisinha no casamento? Ou mesmo para um parceiro regular? Imagine só... 

O lema da campanha deste ano é "Saiba seu status".  Acredita-se que somente na América Latina, mais de 500 mil portadores não saibam que tem o HIV.  No mundo,  acredita-se que 9,4 milhões de pessoas não sabem que estão infectadas pelo vírus e necessitam de acesso urgente ao teste e serviços de tratamento.  Lembro que nos anos 1980, meu professor de ciências da 5ª até a 8ª série defendia que o HIV não era um problema, era doença de gente rica, ou seja, pouca gente, que tinha sido promíscua e, portanto, deveria arcar com seus erros.  Há quem defenda isso até hoje, basta abrir esta matéria do G1, de onde tirei os dados e olhar os comentários. Essa pode ser a opinião de nosso presidente eleito, também, o que causa apreensão.  Sim, o Brasil é referência no atendimento aos doentes e portadores e isso se deu devido a muitas lutas.  Há um vídeo sobre isso no primeiro Jornal do Shoujo Café.  


Curiosamente, hoje, a maioria dos doentes está em países pobres, especialmente, na América Latina e no continente Africano.  A doença avança rápido nos países do Leste Europeu e em algumas nações da Ásia.  Doenças de pobre recebem menos atenção.  Afinal, para quê investir em pesquisa, e muita gente só investe visando o lucro, ou quer tornar isso regra, se os doentes nem tem recursos para comprar as drogas e arcar com os tratamentos.  Há os Estados, mas se eles lavam as mãos... Repetirei novamente, quando tínhamos artistas, cantores e outros famosos definhando diante dos nossos olhos, éramos lembrados da doença todos os dias.  TODOS.  Se a maioria dos doentes estão na África, há quem venha dizer que é destino, ou castigo divino.  É muita falta de humanidade, mas vivemos em tempos brutos e cruéis.

Se você está lendo esse texto, talvez seja jovem.  Você é grupo de risco.  Se informe, não deixe de usar preservativo (*camisinha não serve somente para prevenir gravidez*) se, por acaso, tiver uma vida sexual ativa.  Se estiver usando drogas injetáveis (*e isso não é legal, mas eu não estou aqui apontando dedo na cara de ninguém*), não compartilhe seringas.  Se você tem um marido, ou namorado, não faça sexo desprotegida.  Os riscos de contágio de um homem para uma mulher são muito maiores do que o inverso.  Outra coisa, "Saiba seu status", isso pode fazer toda a diferença.  É possível viver com o HIV, viver com qualidade, no Brasil, há todo o suporte para o doente.  Precisamos lutar para que isso não mude.

O primeiro quadrinho no mundo a discutir
o HIV, e de forma coerente, foi um shoujo.
E se você quiser ler meu texto sobre como os mangás shoujo, porque foi esta demografia a pioneira a discutir o assunto, ele está aqui.  Foi publicado na antiga revista NeoTokyo.  Para quem não sabe, em 1986, antes do estabelecimento do 1º de dezembro como dia mundial de luta, Wakuni Akisato publicou  Nemureru Mori no Binan (眠れる森美男), a história de Tomoi, um médico japonês recém-formado e pressionado pela família a se casar que decide se mudar para Nova York.  Ele era gay e acaba encontrando ambientes nos quais sua orientação sexual não é estigmatizada.  Ele acaba encontrando um primeiro parceiro, que acaba contraindo o vírus.  O ano era 1982, bem no início da epidemia.  

Akisato é extremamente rigorosa na forma como apresenta sintomas, reações ao contágio, ainda que coloque na história de Tomoi clichês do shoujo mangá (*na época a Petit Comics era uma revista shoujo*).  É um mangá obrigatório e tem scanlations em inglês (*AQUI*), não sei se em português, também.  Aproveite a data e mergulhe na leitura.  É um volume só.  A continuação, Tomoi (有情世界), já não trata mais da questão do HIV.

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