domingo, 10 de fevereiro de 2019

O Líder: Comentando os três primeiros capítulos do desenho chinês sobre Karl Marx


Lá em dezembro, fui informada que o governo chinês tinha encomendado uma série animada biográfica para lembrar os 200 anos de nascimento de Karl Marx.  Com um Marx bishounen e um forte clima de bromance sugerido com Engels, obviamente, a gente tinha que comentar.  Na época, frisei bem que era material de propaganda estatal, ainda assim, na fanpage do Shoujo Café apareceram uns alucinados para me acusarem de estar fazendo propaganda comunista. Sim, propaganda comunista e que, por isso, iriam boicotar o site.  

Depois dessa palhaçada, decidi que pelo menos uma olhadinha em O Líder  (领风者) eu daria.  Segundo vi na Wikipedia, já saíram sete episódios na China, no serviço de Bilibili.  Pois bem, estava eu guardando a notícia de que além da animação teríamos um quadrinho, quando a Ana Beatriz me avisou que o anime (*porque imita anime mesmo*)  tinha saído e com legendas a escolher, inclusive, em língua portuguesa.  Me obriguei a ver os três quase de enfiada (*tive que parar trocentas vezes ao longo do dia*) para comentar.

Marx é bonito, inteligente, arrojado e inspirador.
O primeiro capítulo abre com os funerais de Marx, em 1883, e Engels discursando e louvando os feitos intelectuais de seu amigo, apresentado como o maior pensador do século.  Essa ideia pode ser disputada, mas ninguém em que mereça ser levado à sério iria desconsiderar a importância da obra de Karl Marx.  De qualquer forma trata-se de uma obra laudatória, isto é, de elogio, quase uma hagiografia (*vida de santo*), feita por encomenda pelo regime de Pequim.  Sempre ao término do episódio, aparece a cronologia da vida de Marx e a última imagem é a da bandeira da China tremulando ao fundo.

É comum em filmes históricos que se fale mais do presente do que do passado que se quer retratar, O Líder não chega a ser só isso, mas o objetivo final é passar para a audiência chinesa as informações necessárias para entenderem como seu país se tornou o que é. Por isso mesmo, a tentativa de apresentar de forma didática a vida de Marx, suas principais obras e conceitos, marcando as datas e apresentando personagens históricas que com ele interagiram.  Eu que não sou especialista em Marx, longe disso, aliás, tive que parar o desenho para checar quem eram Bruno Bauer e Arnold Ruge.  Bauer é meio que o grande amigo e companheiro intelectual de Marx no episódio dois, até romper com ele no capítulo seguinte.

O baile foi clichê e teve algo de A Bela e a Fera.
Os três episódios iniciais cobrem a vida de Karl Marx de 1835 até 1846, antes da publicação da Ideologia Alemã.  A série, como o próprio trailer mostrou, romantiza ao extremo a relação entre Jenny (Johanna Bertha Julie Jenny von Westphalen), moça rica e da nobreza, com Karl Marx.  Eles são apresentados como companheiros de infância, ainda que Jenny fosse quatro anos mais velha que ele, apaixonados na adolescência e o afastamento temporário quando Marx parte para a universidade, em Bonn.  Quando se separam, estavam noivos em segredo, por assim dizer.

Em Bonn, o anime apresenta o interesse de Marx pela filosofia de Kant e o adolescente, ele tinha somente 17 anos, ainda estava longe de encontrar sua verdadeira vocação.  Marx é mostrado como um jovem estudioso, vide cena da sala de aula com alunos dispersos, dormindo e o aplicado protagonista tomando notas, mas imaturo e gastador.  O pai lhe dá uma dura e o transfere para a Universidade de Berlim, um lugar mais sério e renomado, onde ele irá estudar Direito.  Algo que lhe daria dinheiro, por assim dizer.  Lá, Marx está mais interessado em estudar filosofia e se apaixona por Hegel, passando a integrar o grupo de estudantes conhecido como "jovens hegelianos".  Vem a perseguição e a censura, especialmente contra os alunos ateus e críticos ao regime.  

A questão da madeira foi um ponto de virada na vida de Marx.
Bruno Bauer recomenda que Marx se mude para a universidade de Jena, onde há professores alinhados com seu pensamento e lhe arranja um emprego em um jornal chamado  Rheinische Zeitung.  Marx consegue seu doutorado em 1841 e se dedica ao jornalismo, ao invés do Direito, como desejava seu pai.  Ao que parece, o periódico já era visto como radical, mas na animação, a guinada se dá graças à Marx, nosso herói destemido.  

Nesse jornal, como editor, Marx critica o governo provincial, suas leis injustas e acontece o célebre episódio dos camponeses proibidos pela nobreza de recolher madeira na floresta.  O jornal é censurado, Marx se demite.  Seu primeiro encontro com Engels acontece nessa parte, mas Marx ignora o outro, que fica desolado.   Cada vez mais preocupado com a práxis, isto é, a ação reflexiva e dialética sobre o mundo, e, não, somente com a teoria pura e a crítica, ele termina rompendo com Bauer e os jovens hegelianos, acusando-os de não terem preocupação social e se dedicarem à bebedeiras, blasfêmias e visitas à bordéis.  

Marx enfrenta os soldados com uma frieza admirável. 
A cena em si é só para louvar o caráter do "líder".
Anotem aí, não sei se continuarei a assistir, mas duvido que a animação mostre Marx cometendo adultério com a empregada da casa, ou qualquer incorreção de caráter moral.  E, se mostrar, culpará Jenny de alguma forma.  Falando nela, depois de receber proposta de Arnold Ruge para publicar com ele uma revista em Paris, Marx se casa com Jenny (1843) e parte.  

Em Paris, a parceria com Ruge dura pouco, porque o sujeito é avesso às ideias socialistas de Marx.  É mostrado o encontro de Marx com o poeta Heinrich Heine, que no século XX será odiado pelos nazistas, não sabia que os dois eram parentes.  Heine era bem mais velho e quando Engels finalmente entre em cena, ele se retira fazendo previsões em relação à frutífera amizade dos dois.  Finalmente, Engels, que teve parte do episódio para ele e seu mergulho na vida miserável das classes operárias de Manchester, finalmente consegue ser notado pelo senpai.  A partir daí, em Paris, ou em Bruxelas, é praticamente só os dois.  Jenny fica quase apagada e o nascimento das duas primeiras filhas do casal são somente citadas.

Frame do encerramento.  O vestido de noiva de Jenny
no seriado não é modernoso assim, não.
Uma coisa que salta aos olhos no seriado é a necessidade de expor nos diálogos as teses de Marx e de Engels, a filosofia de Kant e Hegel, enfim, é muita informação complexa despejada em doses nada homeopáticas. Entendo zero de chinês e tive que parar, voltar e rever para conseguir ler as legendas.  Quem fez o seriado é tudo, menos didático.  Lembrei de Rosa Vermelha, a biografia em quadrinhos de Rosa Luxemburgo, há a necessidade de informar, há o fascínio sobre o pensamento de Marx e pouca preocupação com quem está consumindo o material.

Falando de character design, Marx e Engels, cada um a sua maneira, são bishounen lindos.   O problema é que o desenho das personagens é instável e a animação é pobre.  Alguns rostos aparecem distorcidos.  Marx menos, mas Bruno Bauer, Engels... Um recurso ruim utilizado várias vezes é colocar personagens desenhadas da mesma maneira e com a mesma roupa com cores diferentes.  Fora isso, Marx só tem uma única roupa.  Só aparece um terno diferente no casamento.  Enfim, apesar da propaganda, é uma animação barata que abusa horrores da computação gráfica.

Engels é muito charmoso e elegante.
Fora isso, há pouco rigor com as vestimentas das personagens.  Os ricos nobres, que são todos invariavelmente maus, sempre aparecem com uma gola que parece um babado.  Nunca vi aquele colarinho em lugar algum.  Na cena do baile na casa de Jenny, o irmão da moça faz uma observação sobre as roupas inapropriadas de Marx, mas quando a câmera gira, vemos que não há nenhum rigor na vestimenta masculina.  As femininas, nem vou comentar.

Há homens de chapéu em ambiente fechado, sem gravata, sem casaca, um circo, enfim.  Não esperava rigor, mas essa bagunça, alinhada com as falas, torna tudo ridículo.  Quanto à Jenny, enquanto for jovem, usará sempre cabelo solto.  E ela é outra que depois que casa aparece sempre com o mesmo vestido.  Essa economia só torna o desenho menos interessante para mim, fora isso, a animação é dura boa parte do tempo.  Estava ligeiramente melhor no primeiro episódio, mas, depois... Ah, sim, quando começa o encerramento, é possível ouvir os acordes da internacional socialista, mas é só o iniciozinho mesmo.

O colarinho dos nobres malvados.
Concluindo, a série não é ruim, mas não é boa o suficiente para me fazer assistir.  Serve como homenagem à Karl Marx, mas se alguém acredita que é propaganda boa o suficiente para converter alguém ao comunismo na leitura da China atual, esqueça, tem que ser muito bobo para isso. Só que vivemos em tempos estranhos com gente acreditando que Marx já influenciava eventos (*Revolução Fancesa*) e pessoas (*Simon Bolívar*), antes mesmo de nascer, ou que voltou do túmulo para se desculpar depois da I Guerra.  Com tanta loucura no ar, talvez essa animação pobre e esquemática até assuste.

Enfim, o Líder poderia ser usado como material didático?  Dificilmente.  Há a excessiva romantização e o uso exagerado dos textos filosóficos e de economia política.  Se já é cansativo para um adulto, imagina uma turma de 9º ano.  É isso.  Se quiser assistir, é só clicar aqui.  Dá para escolher legendas em português.

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