terça-feira, 19 de fevereiro de 2019

Vamos Falar de Racismo Mais uma Vez: o caso Marighella


Esse texto rápido, porque tenho que ir dar aula daqui meia hora, é sobre a querela em relação à escalação de Seu Jorge como Marighella.  Não, não vou discutir a questão dos posicionamentos políticos do sujeito, ou do diretor (Wagner Moura), ou se o filme (*que nem assisti, mas sugiro esse link do DW que vai além da festa que a mídia brasileira anda fazendo*) é bom, ou se Marighella é guerrilheiro, ou terrorista, fica ao gosto do freguês. O assunto é outro.

O racismo é tão descarado no Brasil que poucos se incomodam com o branqueamento de  nossas personagens históricas. Homens e mulheres com traços negros evidentes, tornam-se, por escolha de elenco, brancos padrão novela da Globo.  Lembram da propaganda da Caixa Econômica com Machado de Assis? Ele era branco?  Quem se importa, não é?  Que gente chata! Garrincha? Peguem um ator socialmente branco e coloquem no papel, basta uma maquiagem e está ótimo. Dona Ivone Lara? Ah, mas a atriz é ótima! Estão reclamando do quê?  Lembram quando escalaram não-orientais para fazerem japoneses em uma novela brasileira?  Sempre se pode mentir que não havia nenhum ator ou atriz de origem japonesa com talento suficiente para os papéis.

Em algumas fotos, Marighella é um branco social padrão.
Quando alguém faz a crítica, se pronuncia  (*movimento negro, parentes dos dito cujos, historiadores, biógrafos*) vem o coro dos ofendidos dizendo que é discriminação, arte não tem cor. Eu concordo nesse ponto, em um mundo ideal, qualquer atriz poderia ser Julieta, ou a Ceci de O Guarani, mas sabemos que não é assim que funciona.  E chegamos ao meu ponto, quando escalam um ator negro para interpretar um negro de pele mais clara que a sua, o mundo desaba. é como se fosse uma ofensa. "Mas fulano nem era negro!" 

Vem o biógrafo do cara, o  jornalista Mário Magalhães, e joga na mesa uma série de situações nas quais o sujeito foi discriminado por ser negro e, ainda assim, vão querer enfatizar que "ele era mestiço, o pai dele era italiano.". Ho Ho Ho! Certamente ele sofria racismo por causa do pai italiano e, não, pelo sangue negro de sua mãe filha de negros escravizados de origem sudanesa.


Termino dizendo o seguinte, pergunte a um racista quem é negro e ele saberá apontar. Marighella sofreu racismo várias vezes. Não sei qual a necessidade de enfatizar que ele era mestiço, afinal, há mestiços de todos os tipos, alguns tem passabilidade, podem parecer brancos em algumas situações, ou várias, já outros serão sempre vistos como "de cor".  Ademais, fotos antigas em preto e branco pareciam clarear as pessoas, essa é minha impressão, sabe? De qualquer forma, Marighella, ao que parece, não tinha passabilidade. Eu, Valéria, não me identifico como negra, mas posso facilmente ser enquadrada como tal a depender da vontade do freguês, meus traços, meu cabelo (*mais crespo do que em outras fases de minha vida*).  Um professor me chamou de "mulatinha" uma vez, eu demorei a entender que era comigo, mas era.  Já meu irmão, nunca será visto como negro. Minha filha nunca será vista como negra no Brasil.  Mestiçagem, bênção e maldição.  

Em algumas fotos, ele parece mais negro que em outras.
Se um dia quiserem fazer um filme sobre mim (*motivos não terão, acredito*) e escalarem uma atriz indiscutivelmente negra para o papel, saibam que não virei reclamar do além túmulo e espero que meus parentes não me façam passar essa vergonha.

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2 pessoas comentaram:

"Fotos antigas em preto e branco pareciam clarear as pessoas, essa é minha impressão, sabe?"

Sim, pelo menos filme colorido era otimizado para a cor de pele de pessoas brancas, sobre filme sem cor não sei mas suspeito.

Referência:
https://www.youtube.com/watch?v=d16LNHIEJzs

Mais um capítulo triste no racismo brasileiro! E mundial.

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