quarta-feira, 27 de março de 2019

Comentando Coisa Mais Linda - Primeira Temporada (Brasil/Netflix/2019)


Vi o trailer de Coisa Mais Linda e entre domingo e segunda, usei minhas horas vagas para assistir todos os sete episódios da série, por isso, praticamente não postei no blog anteontem.  Olha, o que vi não foi uma série espetacular, mas a partir do momento que comecei a assistir, queria seguir para o próximo episódio e o último capítulo terminou com uma cena de grande impacto simbólico e emocional.  Espero que tenhamos a próxima temporada.  E, algo muito importante, trata-se de uma série feminista e cheia de sororidade que não tem vergonha de dizer a que veio, nesse sentido, perdoo os deslizes, houve alguns gritantes, e a escolha de um sujeito tão inexpressivo quanto Leandro Lima para ser o par romântico da mocinha. 

O ano é 1959 Malu (Maria Casadevall), uma  socialite paulista, descobre que foi roubada e abandonada pelo marido que estava no rio de Janeiro preparando o restaurante que pretendia abrir. No Rio, Malu reencontra uma amiga de infância,  Lígia (Fernanda Vasconcellos) e conhece sua cunhada Thereza (Mel Lisboa).  Convidada para uma festa em um barco, ela conhece a bossa nova e se encanta com Chico (Leandro Lima), um cantor talentoso, que a inspira a querer abrir um clube de música no endereço que o marido alugara para ser o restaurante de ambos.  


O clube que dá nome para a série.
Seu pai lhe nega qualquer ajuda financeira, quer que ela retorne para São Paulo e sua vida "normal", que finja que seu marido morreu e tente arrumar um partido decente que a aceite mesmo manchada.  Ela recusa, mas tem os empréstimos negados pelo banco e por conhecidos por ser mulher, Maria Luiza termina tendo que recorrer a meios pouco ortodoxos para atingir seu sonho.  No processo, cria um laço de amizade com Adélia (Pathy Dejesus), mulher negra e moradora de uma favela, que luta para sustentar a irmã mais nova Ivone (Larissa Nunes) e a filha Conceição (Sarah Vitória).  Adélia guarda um segredo que pode prejudicar sua relação com o músico Capitão (Ícaro Silva) e envolve Thereza e seu marido.  Juntas, Malu e Adélia abrem um clube de música, enfrentando toda uma série de obstáculos que a sociedade da época impõe às mulheres. 

Coisa Mais Linda se propõe a falar da opressão às mulheres e como elas criaram estratégias para superar as limitações que lhes eram impostas.  O título é uma homenagem à canção gravada por João Gilberto e Tom Jobim de 1959 e à bossa nova, o estilo musical que despontava na época.  É a bossa nova que serve de pano de fundo para a história das quatro amigas.  Acredito que mesmo tendo falhas, comentarei algumas a seguir, Coisa Mais Linda tem muitos mais méritos, pois foca nas mulheres, na sua amizade e mesmo tendo três protagonistas brancas e ricas (*é o que elas são*) tem em Adélia um contraponto importante.  


Pathy Dejesus confere dignidade para Adélia.
A personagem de Pathy Dejesus não está ali para cumprir cotas, ela tem personalidade sendo, talvez, a mais complexa das amigas.  Pensei que iriam investir na linha de que ela foi estuprada pelo patrão, sim, estou dando um spoiler ao escrever que a filha de Adélia não é de Capitão, mas ela e Nelson (Nelson Soares) viveram uma história de amor.  Quando eu já estava pronta para colar a plaquinha de canalha na testa de Nelson, a série oferece a ele um papel digno a desempenhar.  Qual a possibilidade do romance da empregada com o jovem patrão dar certo nos altos círculos da boa sociedade brasileira da época no início dos anos 1950?  Mínimos.  

A série mostrou muito bem os mecanismos de obstrução e de como os envolvidos, Nelson, Adélia e Capitão carregam cada um deles a sua cota de sofrimento.  Adélia tem que enfrentar muito mais obstáculos que as demais personagens principais, mulheres brancas e bem nascidas.  Elas pensam em expandir os horizontes das mulheres na sociedade, Adélia tem que pensar em colocar comida na mesa e em não permitir que sua filha tenha uma vida miserável.  Ao embarcar na aventura com Malu, ela arrisca muito mais do que a amiga, porque ela não terá para quem correr caso o clube de música não dê certo.


Thereza e Nelson mantém um casamento aberto e feliz.
Mentir para Capitão foi errado, mas Adélia não é um monstro por causa disso, de novo, ela estava tentando sobreviver em um mundo racista e classista que nunca a acolheu.  Já Capitão é, até o momento, o melhor homem da trama, ele tem todos os motivos para odiar Adélia.  Tem, sim, não vamos colocar panos quentes, mas ele a ama e reconhece que pai é quem dá amor, quem se faz presente.  O problema é que Nelson não teve escolha nessa história.  Agora, resta saber se seu coração bate mais forte por Capitão, ou por Nelson, seu primeiro amor.

Nelson, no entanto, está casado com Thereza, a personagem de Mel Lisboa.  Eles são um casal moderno, que vive um casamento aberto.  É engraçada a cena em que Nelson é interpelado pelo irmão "Você está com alguma dificuldade financeira?", porque permite que sua esposa trabalhe.  Thereza é uma jornalista de sucesso, dentro das possibilidades da época, que gosta do que faz, mesmo enfrentando toda sorte de machismo na redação da revista feminina Ângela. A personagem, que morou na França por muito tempo, é a única conscientemente feminista e que se indigna, por exemplo, quando descobre que a cunhada apanha do marido.


Helô acredita que Thereza quer mais que um flerte.
Um traço importante de Thereza é que ela é bissexual.  Não, não acho que ela seja lésbica, ela ama o marido, ele sabe da orientação sexual da esposa, e Thereza gosta da vida que leva com ele.  Agora, apesar de feminista, ela não está imune à questão da maternidade compulsória.  Ela sofreu uma perda gestacional, ficou estéril e descobrir que o marido tem uma filha.  Mesmo muito bem resolvida, isso a magoa bastante.  Eu realmente não gosto desse tipo de trama, isto é, a mulher que acusa o homem de infidelidade por algo acontecido antes de se encontrarem e que ele mesmo desconhecia.  Mas, vá lá, a coisa se sustenta, porque há a fragilidade de Thereza em relação à maternidade e a interpretação de Mel Lisboa é convincente.

Thereza não é sincera com o marido em tudo, ou seja, ela não é perfeita, longe disso, apesar da cobrança no caso da filha de Adélia.  A personagem tem uma aventura com uma colega de redação (*na verdade, ela que conseguiu o emprego para a moça*), Helô (Thaila Ayala).  Diferente de Thereza, ela é lésbica e na relação das duas se monta uma discussão interessante.  Helô acredita piamente que Thereza está assujeitada aos pressupostos da sociedade patriarcal, ela precisa casar com um homem para ter um lugar no mundo.  A ideia da bissexualidade é muito difícil de digerir para muitas pessoas até hoje, sejam hetero, ou gays.  Fora, claro, que Helô lamenta não ter exclusividade, coisa que Thereza nunca ofereceu.  Como pontuei acima, Thereza ama o marido e ama esse casamento aberto que eles tem e, sim, gosta de meninos e meninas.


Seja bem-vindo 1960 e à segunda temporada.
A protagonista de fato da série é Maria Luiza, ou Malu, apelido que Chico lhe dá, uma mulher bem nascida que sofre um duro golpe, mas tenta aproveitar-se do acontecido para tomar as rédeas da sua vida.  Se Thereza é uma feminista que domina a teoria, Malu é uma feminista na prática, inclusive ao estabelecer suas prioridades e estratégias de vida.  Ela, por exemplo, deixa o filho em São Paulo enquanto tenta organizar sua vida.  Nos anos 1950, ou hoje, uma mãe que se comporta dessa maneira é vista por muitos como uma desnaturada.  Curiosamente, se uma mulher burguesa deixasse o filho para trás com babás, com os avós, para ajudar a carreira de um marido, isso seria visto como aceitável, seja no século XIX, no século XX, ou mesmo hoje.  Já pararam para refletir sobre isso?

Malu sabe que com a criança consigo ela teria menos chances de ser bem sucedida e está ciente, também, que seu pai não permitiria que o neto fosse jogado em uma situação de incerteza.  Aliás, um dos momento tensos da trama é quando Malu corre o risco de perder a guarda do filho para o avô, afinal, ela não é uma mulher direita.  Essa tensão rende boas cenas e um dos temas da série é a maternidade.  O trauma de Thereza em não poder gerar um filho, Adélia e a questão da paternidade de sua menina, Lígia e a maternidade indesejada.  O fato é que a sociedade alimenta expectativas em relação às mulheres e somos construídas para que vejamos duas questões como prioritárias, casamento e maternidade.  A recusa, o deslize, a culpa, são constantes nas vidas das mulheres.


Chico, o "galã" da série.
Malu mantém um relacionamento atribulado com o cantor Chico, cuja primeira coisa que faz é levá-la para conhecer a favela (*clichê*), como temos a praia, faltou só o futebol.  Como a bossa nova é um dos pilares da série, começando pelo título, querem vender Chico como um gênio incompreendido e alguém com um apelo irresistível.  Eu não sou fã de bossa nova, na cena da inauguração do clube, entendi bem a reclamação do sujeito de que Chico estava cantando muito baixo.  Lembrei do meu querido professor de literatura do 3º ano, Sérgio Fonseca, criticando o caráter elitista da bossa nova, ele comparava o estilo ao Parnasianismo, isto é, importa mais a forma do que o conteúdo que, normalmente, eram as amenidades da vida dos meninos e meninas bem nascidos da Zona Sul carioca, e ainda acrescentava que eles cantavam para dentro, "É masturbação musical", disse ele uma vez.  Meu professor era compositor e sambista, mas eu sou mais pronta a concordar com ele do que discordar, especialmente, com a interpretação oferecida por Leandro Lima.

Enfim, não sei o que viram nesse rapaz, devem achar que ele é cool, ou se parece com algum astro da bossa nova quando jovem.  Eu só vejo um sujeito desinteressante, limitado como ator e antipático.  Só que eu não gosto dessa construção estereotipada do cara que bebe, sofre e causa sofrimento, faz bobagem e todo mundo aceita, perdoa, porque, bem, ele é um gênio.  Eu acho muito mais interessante o Roberto (Gustavo Machado), dono da gravadora, que arrasta subestima a Malu e, depois, reconhece seu talento e inteligência.  O sujeito é inteligente, bem humorado e não é chato, vejo mais química entre ele e a Maria Casadevall do que com o Chico.


Casadevall está muito bem como a corajosa Malu.
Falando da Maria Casadevall, gosto muito dele, é uma excelente atriz e ela está linda nos figurinos de época.  Aliás, o figurino é um dos destaques da série, eu diria.  Thereza se veste de forma moderna, sempre, ou quase sempre, com cores forte.  Malu é elegante e me lembra um pouco a Audrey Hepburn.  Adélia usa roupas simples, afinal, ela é a moça  pobre da história.  Lígia, e falo dela a seguir, parece presa entre o passado e o presente.  Seu cabelo curto é moderno, seu figurino parece conservador e romântico, mesmo que sua vida nada tenha de sentimentos ternos.  E temos a Thaila Ayala, a Helô, que se veste de forma moderna, talvez, e posso estar errada, um pouco adiante de seu tempo.  Eu olho para ela e algumas de suas roupas e penso na Trixie, a namoradinha do Speed Racer.  E algumas de suas roupas parecem muito pouco formais para o ambiente de trabalho.

E chegamos em Lígia, deixei para o final, porque ela é uma personagem importante, que concentra muitas das contradições da época em relação às mulheres, e, também, porque alguns dos problemas da série estão ligados a ela. Lígia é colega de infância de Malu, ela é paulista como a amiga.  Ambas eram ousadas e aventureiras na adolescência, tinham sonhos, Lígia queria ser cantora, Malu sonhava trabalhar com música, ser sua empresária, talvez.  Só que Lígia acabou casando com um bom partido, um político promissor, Augusto (Gustavo Vaz), e teve que esquecer de seus sonhos.


Esposa de político, apanha na véspera
 e posa para foto no dia seguinte.
A série mostra Lígia reatando sua amizade com Malu.  Motivo do rompimento?  Homem.  Lígia sabia que o marido de Malu, que só é falado e não aparece na primeira temporada, mas já deu sinal de vida ligando para a protagonista, não prestava.  Malu, como era esperado de uma boa mulher, confia no noivo e futuro marido, rompendo com a amiga de uma vida.  A ideia de que as mulheres são rivais, invejosas, faz com que acreditemos menos umas nas outras e muito mais nos homens.  Já eles, os homens, são estimulados a confiarem uns nos outros e firmarem sólidas amizades.  A classe dos homens prevalece, porque é unida e se fia na desunião e na rivalidade que as mulheres aprendem que é o normal entre elas.

Lígia sofre vários abusos do marido, mas tolera, porque é o que se espera dela, porque ela deve apoiá-lo em sua carreira, porque ela não tem coragem de tomar sua vida nas mãos.  Mas eis que as amigas possibilitam a ela essa força que lhe falta e ela é capaz de cantar no Coisa Mais Linda.  Muito bem, o marido pretendia ser candidato à prefeito do Rio de Janeiro.  Se eu não me distraí, está tudo errado aí.  Primeiro que até a transferência da capital para Brasília, em 1960, o prefeito era indicado.  Daí, suponho que ele estivesse se referindo ao cargo de governador do Estado da Guanabara, criado em substituição ao Distrito Federal.  Essas minúcias são importantes?  São.


Quando Lígia subiu no palco, já estava
acabando com a carreira do marido.
Coisa Mais Linda não fala em partidos políticos, cita por cima a construção de Brasília, o governo JK, D. Sara, sua esposa.  OK.  Mas qual era o partido de Augusto?  E Lacerda, a figura política carioca mais proeminente desse período?  Tudo é silenciado.  Quando o assunto é política, a ideia é dialogar com o presente e as representações de políticos corruptos que temos hoje.  Pois bem, digo o seguinte, a partir do momento que Lígia sai de casa e canta no clube, a carreira do marido acabou.  Não estamos nos dias de hoje, quando é normal um político ser divorciado.  Nos anos 1950, poderiam relevar-lhe as amantes, desde que fosse discreto, mas desquite (*separação*) e coisas do gênero, de forma alguma.  Querem falar de política, sem falar de verdade, eu diria.

Uma mulher de político sequer poderia ter profissão, mas, caso tivesse, seria professora, no máximo médica, algo que pudesse engrandecer o marido.  Daí, a série dá a entender que a família está falida, não Thereza e Nelson, que não sei o que faz na vida, mas Augusto e sua mãe, Eleonora (Esther Góes).  É a mãe, aliás, a voz patriarcal que justifica a violência contra Lígia, se ela apanhou, fez por merecer, os homens são assim.  Se o marido aceita que a esposa esteja na rua, na noite, ele é um bundão, precisa lavar sua honra com sangue.  Mas eis que nessa solidão de Augusto, que diz amar profundamente a esposa, o vemos passando sua própria roupa.  Nunca, nunca, nunca isso aconteceria.  Parece uma cena surreal, porque ele perdeu Lígia, mas continua morando em um apartamento luxuoso e tem empregadas.  Não é Estados Unidos, eles são classe média alta brasileira.


Essa foto ficou bem legal.
Voltando para Lígia, ela é usada para discutir a questão do aborto.  Ela está grávida.  Ela não quer o filho que espera, porque ele atrapalharia sua carreira, nada é falado, mas há um outro detalhe, aquele bebê pode ser fruto de um estupro que vimos acontecer.  Li críticas a Thereza, porque ela não ajuda Lígia, mas esquecem do contexto.  Thereza está chorando sua perda gestacional, chega a cunhada e lhe pede que ela lhe ajude a fazer um aborto.  Thereza está em luto e sofrendo, ela é humana e, não, uma militante estereotipada.  Ela não consegue ajudar.  "Que tipo de feminista é você?", grita Lígia.  Uma de carne e osso, com sentimentos, um ser humano, eu diria.  Malu e Adélia se encarregam de dar para Lígia o suporte que ela precisa e isso inflama mais ainda o marido, Augusto, e encaminha o final da série.

Concluindo, Coisa Mais Linda é uma boa iniciativa.  Dá protagonismo às mulheres, discute feminismo, permite que dialoguemos com o péssimo momento que vivemos hoje.  As atrizes estão muito bem.  Eu gosto muito de Maria Casadevall e Fernanda Vasconcellos desde muito antes, não sou fã de Mel Lisboa e Thaila Ayala, mas elas estão atuando muito bem.  Já Pathy Dejesus dá o tom certo para sua sofrida e corajosa Adélia.  Há o que melhorar?  Sim, acho que uma série de coisas foram capengas.  Eu veria uma segunda temporada?  Sim.  Agora, ninguém vai me convencer das qualidades de Leandro Lima como ator, espero que Chico vá fazer sua turnê nos EUA e não volte mais.


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