sexta-feira, 10 de maio de 2019

Comentando Os Vingadores: Ultimato (EUA, 2019): Fechamento com Chave de Ouro de uma Saga (SEM SPOILERS)


Quinta-feira, assisti o último filme dos Vingadores (Avengers: Endgame) e um mais que digno encerramento para um trabalho de mais de dez anos iniciado com o primeiro Homem de Ferro em 2008.  Como era primeira sessão, 13h30, não estava absolutamente lotada, mas tinha um público considerável e vibrante.  Enfim, dada a histeria que se instalou entre os fãs, tentarei não dar spoilers, ou farei isso o mínimo possível.  Como assistirei de novo na terça-feira, tentarei fazer um texto em separado, sinalizado no título, para discutir certas questões.  Sempre que houver um link no nome de um filme, ele conduzirá para a resenha que eu fiz dele para o Shoujo Café.

Não é tão complicado fazer um resumo do ponto de partida de Ultimato, o problema é tentar fazer um resumo do filme sem entregar os detalhes da trama.  Recapitulando, quando terminamos o último filme, Thanos (Josh Brolin) tinha usado a Manopla do Infinito para eliminar metade dos seres vivos do Universo.  Sim, não vou perder tempo dizendo que as motivações eram bem sem pé nem cabeça, mas, de qualquer forma, vários heróis desapareceram, viraram pó, e acredito que não houve alma minimamente humana que não tenha se sentido tocada pela cena entre o Homem Aranha (Tom Holland) e o Homem de Ferro (Robert Downey Jr.).  

Esperando a morte.
Eu quase chorei, neste último filme também me deixou no quase, não derramei lágrimas, mas me senti emocionada em alguns momentos.  De qualquer forma, tenho quase certeza que se não estivesse ensanduichada entre dois grupos de pessoas, de um lado, uns três ou quatro rapazes, do outro, um casal de namorados com o moço reclamando metade do filme e urrando na outra metade.  Meu marido fica pondo defeito e reclamando dos filmes, pensei "Pronto!  Meu marido não veio, mas em um substituto do meu lado!".  Enfim, concordo com o moço que uma tela melhor ajudaria.  Se você puder escolher onde assistir Ultimato, opte pela melhor tecnologia, porque o filme merece e até precisa.    

Pois bem, quando começamos o filme,  Tony Stark está vagando perdido no espaço sem água nem comida e descobrimos que ele tem Nebula (Karen Gillan), irmã de Gamora (Zoe Saldana) como companhia na nave.  Enquanto isso, na Terra, Steve Rogers (Chris Evans) e Natasha Romanov (Scarlett Johansson) precisam liderar um misto de  resistência e tentativa de dar suporte aos terráqueos ainda atordoados com tudo o que aconteceu. Desespero e angústia são os sentimentos dominantes.

Essa é a equipe principal do filme, o Hulk deveria estar na foto. 
Percebam o desequilíbrio de gênero e raça.
Estamos nesse pé quando, claro, a Capitã Marvel (Brie Larson) entra em cena logo no começo da película.  Apesar de ter sido fundamental nesse começo do filme, imaginei que a heroína teria mais destaque em Ultimato.  Não teve.  Poderia dizer que isso foi chato em termos de representatividade, mas, na verdade, não fez falta.  Fora que, como comentei no filme da heroína, ela é forte demais (*Sim, eu sei que outros super-heróis o são, também*) e a gente precisava esticar a angústia e colocar as outras personagens para se movimentarem.  

Fora isso, o filme girou em torno da equipe original, Homem de Ferro, Capitão América, Viúva Negra,  Hulk (Mark Ruffalo) e o Gavião Arqueiro (Jeremy Renner).  É a despedida dessa equipe e o destaque deveria ser dessas cinco personagens e de como elas vão fazer o possível para superar suas dores e problemas pessoais para salvar metade do universo.  Claro, que desde o início, pelo menos era assim que eu via o desenrolar dos Vingadores, temos seis heróis e três deles sempre tiveram mais importância, por serem mais forte, por seu caráter icônico, porque os roteiristas lhes deram mais atenção, ou, simplesmente, porque os atores são mais carismáticos.  Falo do Capitão América, do Homem de Ferro e do Thor.  Ainda que o Gavião, o Hulk e a Viúva Negra façam muito pela história, são essas três personagens que se destacam e que tem as despedidas mais marcantes.

Quem diria que o Homem Formiga seria tão importante? 
E as piadas com outros filmes foram ótimas.
Agora, curiosamente, quem acabou tendo real destaque no filme sem ser dessa primeira formação foi o Homem Formiga, Scott Lang (Paul Rudd).  Não comentei, mas assisti ao primeiro filme do herói meio que aos trancos e barrancos dia desses com Júlia (*minha filha de cinco anos*) pedindo para que eu colocasse dublado.  Gostei bastante, farei resenha, prometo.  Voltando, a participação do Homem Formiga é importante para que os heróis possam efetivamente montar um plano para derrotar Thanos.  O Homem Formiga sequer sabia da destruição promovida pelo vilão, porque estava fora do seu alcance na dimensão quântica.  

Lang retorna ao nosso universo cinco anos depois da destruição feita por Thanos e fica desesperado para descobrir se as pessoas que ama sobreviveram e encontrar os Vingadores.  Sim, temos um pequeno salto no tempo, mas explicá-lo seria spoiler que pediria outros.  O Homem Formiga dá a ideia louca que pode frustrar os planos do vilão. Só que para levar o plano adiante, os não cientistas da equipe - Viúva Negra e Capitão América - precisam convencer os cientistas a participar, nesse caso, o Hulk e o Homem de Ferro.  Há ainda Thor, que está em Nova Asgaard e isolou-se dos colegas e do mundo. 
Shuri deveria ser a quarta mente científica envolvida no
plano contra Thanos.  Isso, sim, foi uma falha de roteiro.
De certa maneira, o roteiro preferiu dar mais espaço para um homem (Lang) do que para uma mulher, a Capitã Marvel, ou mesmo Shuri (Letitia Wright), irmã do Pantera Negra (Chadwick Boseman).   O fato de Shuri não ter tido o destaque que poderia ter dentro do roteiro foi a minha única grande decepção com o filme.  Tenham certeza.  Se tínhamos três cientistas homens trabalhando, poderíamos ter uma quarta mente que, mesmo de Wakanda, poderia ajudá-los.  Fora que eu imaginei que a moça poderia até vestir o manto do Pantera Negra neste filme, coisa que ela já fez nos quadrinhos.

Como é uma análise feminista preciso colocar essas questões no texto, não posso fugir delas.  A introdução de mais personagens masculinas no núcleo central da equipe dos Vingadores, pois além de Lang tivemos ainda Rocket (Bradley Cooper) e James Rhodes/Máquina de Combate (Don Cheadle), somente acentuou o desequilíbrio já existente entre personagens femininas e masculinas em tela.  Por isso, deixo o link de uma matéria intitulada "Personagens masculinos têm o triplo de tempo em cena do que as mulheres em 'Vingadores: Ultimato'", porque é verdade.  De qualquer forma, temos Natasha e Nebula com muito destaque na trama, ainda que os "meninos" acabem se projetando mais.
A gente não abandona os amigos em momentos difíceis.
Falando na Viúva Negra, o filme vai dar grande destaque para a amizade entre ela e o Gavião Arqueiro (Jeremy Renner), que esteve ausente do último filme.  A personagem tem grande destaque na trama, o que se justifica, afinal, ele é um dos Vingadores do filme original com destaque para seus aspectos psicológicos.  Todos os heróis, assim como os humanos normais e extra-terrestres na trama, precisam aprender a lidar com suas perdas, o Gavião, no entanto, assume uma atitude agressiva de quem se pergunta "Como tanta gente boa, ou inocente, foi destruída e tantos maus persistem vivendo?".  Ele toma essa tarefa nas mãos e Natasha vem resgatá-lo e lembrá-lo de que ele é um dos Vingadores.  Agora, a função dela é ajudá-lo, o crescimento é dele, não dela.  

Sim, a subtrama dos dois é importante e se mais coisas escrevesse, seria spoiler.  Gostei da participação de Jeremy Renner no filme e já devo ter escrito em outras resenhas que não gosto nem do ator, nem tenho lá grande simpatia pela personagem.  De qualquer forma, e isso muita gente não entende, a relação Natasha-Gavião é importante para lembrar as pessoas que amizade verdadeira pode se estabelecer entre homens e mulheres.  E não estou nem aí para os quadrinhos, não os li, estou falando dos filmes dos Vingadores e do filme roubado do Capitão América, Guerra Civil.

Fazendo as pazes de verdade.
Voltando, quando o Homem Formiga chega com sua ideia, é preciso reunir a equipe, mas Thor se isolou do mundo e está traumatizado.  Já Tony Stark quer deixar para trás o Homem de Ferro e os Vingadores, porque ele reconstruiu sua vida completamente.   Casado com Pepper (Gwyneth Paltrow) e pai de uma filhinha (Lexi Rabe), ele tem muito a perder caso o novo plano dê errado.  Ao mesmo tempo, ele é um dos heróis e passou por muitos estágios desde sua origem em 2008, quando era um homem egoísta e que só pensava em si mesmo, em lucro econômico.  Ademais, ele quer salvar o Homem Aranha, é meio que assombrado por aquela perda em particular.

Pois bem, vejam o filme.  Temos não somente a participação dos heróis que conhecemos bem e dos sobreviventes, mas participações especiais de peso.  Mesmo com pontinhas, Tilda Swinton, Hayley Atwell e René Russo, só para citar alguns exemplos, brilham.  Samuel L. Jackson foi a única dessas participações micro que não tiveram peso algum e dada a importância da personagem, foi estranho.  Ele sequer tem falas, ele aparece de relance.  Tom Hiddleston participa em algumas cenas, mas não como eu esperava.  Aliás, nada do que eu imaginei para o Loki aconteceu.

Não é engraçado ver a Capitã Marvel tendo
que voar dentro de uma nave?  Esse tipo de situação
sempre me parece humor involuntário.
Não considero isso um spoiler, todo mundo com dois neurônios funcionando sabe que o que Thanos fez será desfeito, o retorno dos que viraram pó é bem emocionante.  Na sessão em que eu  estava, a entrada em cena do Homem Aranha gerou comoção.  é incrível o quanto a personagem é querida e como o ator que a interpreta atualmente é carismático.  O reencontro dele com o Homem de Ferro foi uma das minhas cenas favoritas do filme.  

Falando nisso, minha amiga Natania, assistiu o filme ao mesmo tempo que eu, só que em Cataguazes (MG) e disse que sabia minha cena favorita.  Há muito fanservice no filme, não no sentido anime-mangá da coisa, mas no seu original mesmo, cenas inseridas para que os fãs fiquem satisfeitos e se sintam compensados.  A maioria delas tem função na história (*as piadas sobre a bunda do Capitão América nem tanto... parecem obsessão dos roteiristas*), não estão lá por nada.  Mas, enfim, há uma cena girl power em particular feita para isso.  Vocês já imaginam que ela gire em torno da Capitã Marvel.  Bem, de todas as cenas fanservice existentes, esta é a que me parece mais inútil, porque efetivamente, ela só funciona para se tornar um belo pôster e mais nada.  No entanto, se as pessoas se sentiram felizes, está valendo, filmes como Os Vingadores são para isso, também.

Como despedida da equipe original, o trabalho foi excelente.
A minha cena favorita do filme,  entre tantas cenas legais, foi aquela em que o Dr. Estranho levanta o dedo, se vira lentamente e olha para quem precisa com aqueles olhinhos maravilhosos do Benedict Cumberbatch e recebe um olhar muito expressivo de entendimento de volta. Esta foi a minha cena específica favorita. Ninguém precisou dizer nada, mas muita coisa foi dita nesse momento. E, sim, vocês lembram que o Dr. Estranho disse que entre milhares de desfechos possíveis contra Thanos, só havia um em que os Vingadores venciam.  

O filme foi longo demais?  Não achei.  Não senti o tempo passar em absoluto.  Não percebi, também, desequilíbrio entre as duas metades do filme.  Era preciso construir a história de forma segura, mostrando a angústia, as dúvidas e a esperança das personagens.  Correr com o filme - e nem quero imaginar o quanto de cenas cortadas existem em arquivo - tiraria a força da narrativa.  Sobre o filme ser escuro, outra crítica que li por aí, não posso falar com propriedade, assisti em 3D, o que já escurece a película, em uma tela ruim, mas, de novo, um filme marcado por essa coisa de ou acertamos, ou é o fim de tudo, não pode ser alegre e colorido.  Tem gente que não entende que criar uma atmosfera adequada impacta na densidade da narrativa.

O Capitão América tem grandes omentos no filme.
Houve piadas demais?  Não, não digo isso.  O que me saltou aos olhos, já que tinha reclamado disso antes, é o quanto Chris Hemsworth efetivamente tem uma veia para a comédia.  Ele realmente assumiu esse lado humorista na construção do seu Thor e entrega isso de forma maravilhosa nesse último filme.  Já Chris Evans nunca esteve tão galante e convincente como seu Capitão América, ele fez um trabalho excepcional, eu diria, especialmente, porque eu lembro dele em O Quarteto Fantástico.  Que evolução!  Robert Downey Jr. é o Homem de Ferro e pronto, pode não ser o dos quadrinhos, mas compôs como ninguém a personagem que se eleva para além das suas condições de produção, que se supera, que se torna melhor.  E ele fecha com chave de ouro a sua participação em Os Vingadores.  

Apesar de todas as participações mais que especiais, especialmente da Viúva Negra, do Gavião e do Homem Formiga, o filme é desses três caras.  E, não, não vi nada de especial em Mark Ruffalo que o coloque acima da média.  E parabéns aos diretores, Anthony Russo e Joe Russo, que fizeram um filme memorável.  Imagino, e isso está sendo discutido nesse momento, que Os Vingadores seja o primeiro filme a ultrapassar a barreira dos 3 bilhões de dólares em bilheteria.  É um grande espetáculo e merece.  De repente, como bônus, venha alguma indicação ao Oscar no ano que vem.

Esse menino se tornou um grande humorista.
Acho que é isso.  Cumpre a Bechdel Rule?  Acredito que por uma conversa entre Gamora e Nebula, sim.  É um filme com mulheres fortes?  Sim, é.  Tem mais diversidade que a média?  Não vi, mas há uma primeira personagem gay em um filme da Marvel. Não, não é um herói, mas um sujeito em um grupo de apoio frequentado pelo Capitão América.  O homem perdeu o companheiro e conta como se sentiu e se sente ainda.  De qualquer forma, é um filme em que os meninos são a parte importante do show, apesar da Capitã Marvel.  Ah, sim!  Tem participação de Stan Lee, a última gravada por ele e não tem cenas pós-créditos, mas os créditos em si prestam homenagem aos Vingadores originais.  Vale assistir.



De resto, acho absurdo gente apoiando as supostas agressões (*vide twitt acima*) que estão acontecendo por causa de spoilers do último filme dos Vingadores. O mundo realmente está cheio de idiotas, de perversos e de gente que quer somente uma desculpa para colocar o que tem de pior para fora.  É isso.  Espero escrever outro texto somente com os spoilers depois de terça-feira.




Publicado originalmente em 28/04/19.

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3 pessoas comentaram:

Adorei sua análise, estava sentindo falta de uma visão feministas sobre o filme. Estou aguardando ansiosa seu próximo post sobre o filme e com spoilers.

Quero comentar, mas com spoilers, sobre as minhas "indignações" com o filme, mas acho que seria ruim colocar um comentário com spoiler aqui rsrs

Eu aaaacho que a Shuri sumiu no estalar de dedos de Thanos e, por isso, não foi chamada para ajudar. Comentei com meus amigos que ela poderia ter sido muito útil e eles disseram que ela aparecia em uma daquelas projeções de pessoas desaparecidas no laboratório dos Vingadores. Isso realmente explicaria... Mas eu não vi, eles que me falaram.

Rafael, você tem razão. A Marvel não mostrou a morte de Shuri, mas ela morreu, sim. Está aqui, a explicação.

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