segunda-feira, 29 de abril de 2019

Hagio Moto: Uma Longa Entrevista - Parte 1


Na época do aniversário do Shoujo Café, mais de um mês atrás, o Luiz deu um presente para o blog e seu público.  Ele traduzir uma das maiores entrevistas já dadas por Hagio Moto, uma das grandes mangá-kas de todos os tempos, e que está no livro Bungei Bessatsu Hagio Moto~Shoujo Mangakai no Idainaru Haha (文藝別冊 萩尾望都~少女マンガ界の偉大なる母~).  Trata-se de um material que cobre desde a infância da autora até os nossos dias.  Ela discute desde sua dinâmica familiar, as dificuldades para se torna mangá-ka, especialmente, por não ter o apoio de seu pai e sua mãe.   

Demorei tanto a publicar, porque, bem, é muito grande mesmo e eu não sabia onde fazer os cortes.   Então, talvez tenhamos três partes, ou até cinco.  Vamos ver como eu divido isso.  Daí, nessa história de como dividir, acabei ficando com a entrevista por publicar.  Era para ter ido ao ar na semana de aniversário do Shoujo Café.  Só digo que vale a leitura e agradeço muito o carinho do Luiz.  Ele sempre faz surpresas maravilhosas.  Só não sei por onde ele anda... Parece que desativou o seu Facebook.  Por favor!  Dê um sinal de vida. 



Hagio Moto - Uma longa entrevista

MINHA VIDA COM MANGÁS

Hagio Moto. Nascida em 1949, na província de Fukuoka. Aquela que todos reconhecem como a pessoa mais importante no mundo dos mangás shoujo. Uma existência rara da qual a cultura japonesa se orgulha. Que tipos de pensamentos estão escondidos dentro dessa mulher que segue sendo uma mangaká ativa mesmo após ter ultrapassado os 40 anos de carreira, em 2009? Tentaremos desvendar esse período de tempo da vida como mangaká de Hagio Moto, tanto do ângulo de criadora, como também do de pessoa.

Entrevistadora: Yamada Tomoko

- Desta vez, tenho a intenção de fazer uma entrevista que coloque os holofotes não apenas no seu lado como mangaká, mas também no seu charme como ser humano. Conto com você.

Hagio: Eu também conto com você.

~ Antes da estreia
Período de 1949-1969
Hagio Moto, de 0 a 20 anos ~

O período como estudante, em que mudava de escola várias vezes.
Duas escolas no primário, duas no ginasial e duas no colegial.

- Poderia nos contar sobre o período em que nasceu?

Hagio: Eu nasci em um lugar chamado Shirakawa, nas redondezas da cidade de Ômuta, em Fukuoka. Nós morávamos em uma das residências da empresa onde meu pai trabalhava. Era um daqueles conjuntos de casas, compridas e térreas, para viverem várias famílias. Nossa casa tinha dois quartos. Lembro-me que quando dormíamos todos juntos me era dito que em pouco tempo nasceria um bebê. Estávamos próximos do período em que minha irmã, dois anos mais nova, nasceria.

- Parece ser uma recordação feliz.

Hagio: Nós ficamos ali até por volta dos meus quatro anos. Havia do outro lado da rua, um pouco em diagonal, uma barbearia com um cachorro branco e também havia do lado sul da casa campos de cultivo com suas plantações. Para entrar e sair era preciso passar pela porta da frente, mas do lado de fora da casa ficava uma espécie de despensa pela qual se poderia fazer essa passagem e eu saía pela janela, subia no telhado dessa despensa e ia para fora… (risos) Como mesmo alguém com quatro anos conseguia fazer isso, por mais que eu chame de despensa, com certeza era algo da altura de uma mesa, não é? Próximo a nós corria um rio chamado Shirakawa. Lembro-me de sentar nas margens desse rio e ficar olhando para ele frequentemente.

- Depois disso vocês se mudaram, não é?

Hagio: Sim. Para uma cidade vizinha chamada Arao, na província de Kumamoto. Na casa anterior havia apenas dois quartos, mas recordo-me de essa nova ser extremamente ampla e eu conseguir ficar correndo por ela. Lembro-me de logo após a mudança, provavelmente no verão, abrir os fusumas e as portas e ficar correndo gritando. Ficamos ali dos meus quatro anos, quando estava no jardim de infância, até maio do meu segundo ano no primário. Por volta desse período, mudamos novamente para os lados de Ômuta. Para uma casa da empresa com o mesmo tipo de design.

- Desde o começo vocês sempre ficaram em residências da empresa do seu pai, não?

Hagio: É verdade. Como era esse tipo de casa, ao redor você só tinha famílias de funcionários que trabalhavam na mesma empresa. Era esse tipo de ambiente. Talvez desde que minha irmã mais velha e eu nascêramos. Ficamos em Ômuta até meu segundo ano como ginasial. Depois disso mudamos para Osaka, para um lugar chamado Senriyama onde pela primeira vez desde que nasci morei em uma casa com dois andares. Uma casa individual que a empresa preparara. Por ser individual, havia um ambiente em que, pela primeira vez, as pessoas das casas ao redor não eram da mesma empresa. Dali eu frequentei o Primeiro Ginásio Suita e o Colégio Suita. Ficamos ali até o fim do meu segundo ano como colegial e depois nos mudamos de novo para os lados de Ômuta, desta vez para uma cidade chamada Kohama. Novamente uma casa da empresa. A planta dessa casa em Kohama era no geral igual à de Ômuta, reversa. Como eram casas com paredes compartilhadas, a planta tinha uma simetria bilateral, de forma a oferecer casas de qualquer um dos lados (risos).

- É tudo ao contrário. Esta é uma experiência pouco comum.

Hagio: Sim, ao contrário. É interessante, não é? Eu fiquei ali até por volta dos meus vinte anos. Depois fui para a Capital. Separei-me do meu lar.

- Você acha que esse ambiente familiar em que mudaram muito de endereço foi por causa do trabalho do seu pai?

Hagio: Acredito que sim. Meu pai trabalhava em uma empresa portuária que lidava com madeira e carvão, chamada Mitsui Miike Kômusho. Por isso nós mudávamos tanto. Como era a época em que as empresas asseguravam o trabalho por uma vida inteira, ele ficou lá até a idade de se aposentar (risos).

- Você mudou muito de escola, não é?

Hagio: É verdade; duas escolas no primário, duas no ginasial e duas no colegial (risos). Mas pensando agora, foi interessante ter conseguido ir a várias escolas. Eu gostava mais da escola, onde conseguia ficar em grupo, do que da minha casa, a qual tinha um ambiente muito rígido.

- Não era difícil fazer amigos toda vez que ia para uma nova escola?

Hagio: Até que eu conseguia fazer amigos sem problemas, mas na época da mudança do ginásio foi um pouco difícil porque de repente a escola para a qual eu mudei era em Osaka. No fim do segundo ano ginasial eu fui para Osaka, no fim do segundo ano colegial eu fui para Fukuoka, e essas mudanças foram um pouco penosas porque ocorreram no período de exames de admissão. Eu não gostava muito desse ambiente escolar em que, como é esperado, os alunos do último ano estão todos contra a parede por causa das provas. Mas também é culpa do fato de que eu não gostava de estudar para exames de admissão.

- Fukuoka, Osaka, Fukuoka; a extensão da mudança foi grande e também era o período desses exames, não é?

Hagio: Osaka é uma metrópole e desde a época ginasial você é usualmente alocado para as escolas de acordo com seu desempenho em relação à média geral. O Primeiro Ginásio Suita para onde eu ia era comparativamente tranquilo e depois dele entrei no Colégio Suita. Lá também era uma escola que tinha por característica a tranquilidade. Porque as crianças que almejavam lugares como a Universidade de Tóquio iam para escolas como o Colégio Ikeda. No Colégio Suita, eu passava meus dias de forma despreocupada, mas quando mudei para Ômuta, lá a forma de separação era por bairros. Você não avançava para o colégio do qual gostasse. Devido a isso, eu fui para um lugar chamado Colégio Ômuta Norte, e, no entanto, por haver esse sistema de bairros, havia várias pessoas agrupadas lá. Havia pessoas que iriam para a cidade grande, o grupo de pessoas que iria para a faculdade, o grupo que iria procurar emprego. Por causa disso a separação dentro da escola era muito grande…

- As classes já estavam totalmente separadas pelo que se escolheu fazer no futuro?

Hagio: Se bem me lembro, sim. Também havia classes para pessoas que ainda não tinham decidido o que fariam. Era desejo da escola mandar um ou dois alunos para a Universidade de Tóquio. Havia todo um cuidado especial, como aulas suplementares etc. Em Osaka, as crianças que iriam para a Universidade de Tóquio já estavam frequentando outro colégio. Bem, dependendo da escola, a diferença é muito grande. Eu não acho que a disputa seja necessariamente ruim, mas ficar colocando pressão de cima… Durante a entrevista individual, a professora fala para o aluno estudar uma hora a mais todos os dias. Há sessenta pessoas tirando a mesma pontuação. Ao estudar por essa uma hora e tirar um ponto a mais, todos os sessenta avançam ao mesmo tempo. Mas eu acho que esse é um esforço extremamente vão. Afinal, como você está dizendo a mesma coisa para todos, se os sessenta estudarem simultaneamente, o que vai acontecer? (Risos)

- (Risos) É um jogo que dura para sempre.

Hagio: Exato, é um jogo sem fim.

- Como você tem continuado como mangaká por um longo período, não é necessariamente verdade que não consiga participar de disputas. Mas a partir das suas obras também é passada uma sensação de que você não gosta de ser sobrecarregada.

Hagio: Eu quero fazer as coisas no meu próprio ritmo. Por isso realmente detesto essa mentalidade de rivalidade que aparece nas disputas de exames de admissão. Eu também tinha essa aspiração a me tornar mangaká para conseguir evitar participar de disputas, mas quando me tornei mangaká havia as batalhas de enquetes de popularidade (risos).

“Frequentemente me era dito para parar com os mangás por ser um trabalho inútil.”

- Que tipo de personalidade têm o seu pai, a sua mãe e os seus irmãos? Se você dissesse em poucas palavras, de forma super abreviada, ao estilo mangá.

Hagio: Meu pai é muito gentil, mas não vê ninguém além dele mesmo. Por isso, quando ele dizia que pensava de uma forma, isso se tornava a regra. Ele tem a intenção de ouvir a opinião dos outros, mas não ouve de forma alguma.

- Então na sua casa todas as coisas eram decididas com base na opinião do seu pai?

Hagio: Não, porque ele não é um autocrata. Normalmente, ele é extremamente gentil, mas, quando surgia algum problema, não conseguia lidar com ele. No meu caso, isso aconteceu quando me foi dito por ele para desistir de ser mangaká. Por mais que eu falasse, ele não me entendia. De forma alguma (risos). Passou a ser uma perda de tempo tentar.

- Só seu pai poderia dizer para uma pessoa única como você desistir de ser mangaká.

Hagio: Minha mãe também.

- Seria uma perda para o mundo.

Hagio: Ah, não. É… Com frequência aparecem pessoas como eu, então está tudo bem (risos).

- Que tipo de pessoa é sua mãe, falando em poucas palavras?

Hagio: Minha mãe tem o pensamento direto e é uma pessoa franca e fácil de entender. Mas ela é do tipo que tem tendência a se irritar. Ela ainda escuta mais a opinião das pessoas. Mas se irrita (risos).

- Seu pai é gentil, mas às vezes teimoso. Sua mãe tem tendência a se irritar, mas ouve o que as pessoas dizem. Com certeza, conseguem balancear várias coisas. Na sua relação com seus pais, surgiram várias conflitos, mas qual foi o mais complicado?

Hagio: Acho que foi quando houve uma grande briga sobre eu parar ou não de trabalhar um pouco antes da publicação de Mesh (1980).

- Não dá para acreditar.

Hagio: Porque para eles eu era apenas uma criança. Pensei que ao desenhar eles iriam me entender, mas não foi isso que aconteceu. Para eles foi uma felicidade muito grande que eu me tornasse uma pessoa famosa, mas eles falaram “agora que você já se tornou famosa, pode parar”.

- Ahh, eles tinham a expectativa de que você pararia algum dia.

Hagio: Havia essa expectativa porque para eles o trabalho com mangá era algo inútil. A geração dos meus pais não entende por que se desenha mangás já que para eles é uma coisa de criança. Minha mãe me disse “já que você vai desenhar de qualquer jeito, por que não faz livros ilustrados ou contos de fadas?”. Já que esses são trabalhos de alta qualidade sobre os quais se pode falar para os seus amigos, mas não dá para falar “minha filha desenha mangás”. Por isso, depois eu pensei que seria melhor eu cortar relações para minha família não se envolver muito ou cooperar comigo e chegou ao ponto de eles nem saberem o que eu estava desenhando no momento. Porque ao enviar um trabalho no qual eu estava me ocupando, meus pais que eram contra aquilo na hora de intervir sempre começavam com um “por favor, pare”.

- É justamente por ser sua família que a distância é difícil. Quando foi que você se deu conta dessas coisas?

Hagio: Não, não, embora eu tenha dito isso, só percebi de forma concreta recentemente (risos). Por isso, quando tinha por volta de vinte e cinco anos, montei uma empresa e recebi o favor de meu pai administrá-la porque ele havia se aposentado. Acho que isso durou por uns três anos. Foram três anos muito difíceis. Porque eu trouxe para cena uma pessoa que não entendia nem um pouco a obra mangá e nem o progresso do trabalho. E como ele acha que está sempre certo, faz ouvidos moucos à opinião de outras pessoas.

- Foi na época de qual obra?

Hagio: Acho que foi na época em que eu estava desenhando Hyaku Oku no Hiru to Sen Oku no Yoru (1977). Eu estava fazendo uma serialização semanal, mas meu pai subia de Kyushu para a Capital a fim de fazer o meu trabalho de contabilidade e dormia na minha casa. De cinco a sete dias em um mês. Como meu pai ainda tinha muita energia, ele ia se encontrar com velhos amigos de Tóquio, visitava lugares, essas coisas. E ele me convidava várias vezes.

- Ele esperava uma recepção calorosa porque ir para a Capital é algo especial, não é? Para a geração do seu pai.

Hagio: Quando tinha tempo, eu também saía junto com ele para fazer coisas como ir ao teatro kabuki, mas normalmente estava trabalhando, então não é como se eu pudesse ir toda vez. Nisso vieram as assistentes. Por causa disso, eu perguntava “Pai, desculpe, mas você não poderia ir dormir em um hotel? Não há espaço para todo mundo dormir”. E ele respondia “Por que, apesar de ter vindo até aqui, eu tenho que dormir em um hotel? Quando eu vier, pare de trabalhar”. Bem, esse tipo de trivialidades aconteceu bastante.

- Ahh.

Hagio: Além disso, deve-se dar o dinheiro das assistentes, certo? Quando eu fazia isso, meu pai questionava a razão de eu estar pagando, já que normalmente são os discípulos quem trazem o dinheiro. Eu não estava dando curso de desenho, mas na percepção do meu pai era isso. Expliquei incessantemente por três anos, mas ele não entendeu. Por isso no final houve uma grande briga.

- Essas coisas geram brigas grandes, não é? Você aguentou bem esses três anos.

Hagio: Mesmo assim ele me dizia “Você é egoísta assim porque está trabalhando, então pare” e por isso eu fechei a empresa.

- Depois de virar adulta, houve um instante em que sua forma de ver seus pais mudou?

Hagio: Minha mãe é realmente severa com os estudos - do tipo de mãe obcecada com a educação dos filhos -, não permitindo fazer leituras para além dos livros didáticos, dizendo que se eu tinha tempo para frequentar clubes extraclasses, então deveria estudar, falando que eu só podia fazer amizade com pessoas boas nos estudos. No total aconteceram várias coisas, ela era realmente severa; mas há alguns anos escutei uma história sobre as irmãs dela. Ouvi isso do meu pai. Minha mãe tem três irmãs. Havia uma irmã mais velha, em seguida minha mãe e depois duas irmãs mais novas. Essa irmã mais velha chamava-se Chizu e nós a tratávamos por “titia Chizu”. Acontece que durante o primário, o ginásio e o colégio, este último em uma escola só para garotas, essa tia conseguia ser muito boa nos estudos e tinha as melhores notas da escola. Mas minha mãe não conseguia ser tão boa assim nos estudos. Por isso, diziam sempre para ela “embora a Chizu seja boa, você não presta”. Acho que também por culpa disso minha mãe falava o tempo todo sobre estudar. Acredito que se foi difícil para ela ouvir tanto isso, seria melhor não ter repetido esse padrão em nós, mas esse é um dos mistérios do ser humano. Você faz a mesma coisa.

- Você acaba por aprender dos seus pais também a forma de dar bronca.

Hagio: Isso. Eu tenho pena da minha mãe. Isso não me impede de ainda ter raiva, mas eu acabei aceitando o jeito dela. É assim que me sinto. A partir de um certo momento, eu desisti um pouco dos meus pais, por saber que não havia o que fazer já que fora ali onde eu nascera.

- Mas eu acho que como você fala bastante da sua família, não é um lar cujas relações estão totalmente quebradas. Até certo ponto é porque vocês têm uma boa relação que você consegue falar sobre isso. Porque há pessoas que não conseguem falar de forma nenhuma. Sobre os pais delas.

Hagio: Ah, isso é verdade. A época na qual fiquei com mais raiva foi por volta dos trinta anos.

- Como está a relação de vocês agora?

Hagio: Nós procuramos evitar os pontos de conflito uns dos outros. Passamos a conseguir tomar distância.

- Que tipo de pessoa é sua irmã mais velha?

Hagio: Minha irmã mais velha também é uma pessoa extremamente gentil. A personalidade dela é igual a do meu pai. Então enquanto não surgirem problemas, ela é uma pessoa gentil que ajuda os outros.

- E que tipo de pessoa é sua irmã mais nova?

Hagio: Minha irmã mais nova… eu demorei para perceber, mas ela é uma pessoa cujo orgulho fala mais alto.

- Como você percebeu isso?

Hagio: Depois do meu irmão mais novo ficar doente. Ele ficou com depressão e eu passei a conversar com ela sobre a observação do processo da doença e para qual tipo de hospital seria melhor ir. Dessa troca, eu passei a perceber o quão orgulhosa ela era. Até ali eu só pensava que ela tinha um lado um pouco egoísta.

- Você quer dizer que esse egoísmo vinha de ela ser muito orgulhosa?

Hagio: Isso, eu finalmente percebi. Ah, quando ela quis casar, meus pais foram totalmente contra e ela ficou realmente muito irritada. Depois disso passou a chamar os nossos pais apenas pelo nome, meu pai de Hiroshi-san e minha mãe de Toshiko-san.

- Ela deixa as coisas bem claras, não é? Com isso você percebe o tamanho do orgulho dela. E quantas sobrinhas e sobrinhos você tem?

Hagio: Minha irmã mais nova tem três filhas e minha irmã mais velha tem um casal de gêmeos, um menino e uma menina. Como eu e meu irmão mais novo não casamos, então é zero (risos). No total, são cinco.

- Que tipo de pessoa é seu irmão mais novo?

Hagio: Meu irmão é uma pessoa muito inteligente. Embora não seja muito bom com relações pessoais. Mas ele é gentil. Ele sempre trabalhou em uma empresa de software de computadores e por ser inconvenientemente inteligente faz as pessoas que não têm a mesma capacidade dele de idiotas, ainda que ele mesmo não tenha essa intenção. Como ele tem o temperamento gentil, não percebe que está fazendo isso. Mas se alguém faz ele de idiota, fica para baixo rapidamente. Fico me perguntando se ele não é uma pessoa frágil.

- Dizem que é complicado não ter relações pessoais, na indústria de computadores. E agora, ele conseguiu ficar saudável?

Hagio: Agora ele parou de trabalhar na empresa e voltou para Kyushu. Está ajudando meus pais com compras e outras coisas. Parece que nessa condição em si mesma ele está estável. É uma vida de aposentado.

- Qual a diferença de idade entre você e seus irmãos?

Hagio: Minha irmã mais velha está separada por dois anos, minha irmã mais nova também por dois anos, e como adiciona mais quatro anos para o meu irmão mais novo, então ele é seis, sete anos mais novo do que eu.

- Seu irmão mais novo nasceu com uma grande separação de anos.

Hagio: Sim. A família inteira o tratou com carinho.

- Ele também é inteligente.

Hagio: Como as notas dele na escola também eram boas, meu pai e minha mãe ficaram muito felizes. Ele foi aprovado no ginásio afiliado à Universidade Kurume, para o qual o Horiemon (N. T.: Takafumi Horie, famoso empreendedor japonês) tinha ido. Em relação a isso também: pessoas como nós, que vêm do interior, precisam fazer cursinho por um ou dois anos caso queiram ir para esse ginásio, mas meu irmão não passou por esse processo e prestou a prova apenas porque foi sugerido. E ele foi aprovado.

- Estudando só em casa?

Hagio: Isso, isso. Meu pai e minha mãe ficaram em êxtase. Olha… mais tarde eu acabei pensando que nesse momento meu irmão havia errado de caminho (risos). Se ele tivesse ido para uma escola da nossa região, teria conseguido ter relações pessoais porque iria frequentar o ginásio junto com seus amigos.

- Você acha que seria melhor se ele estivesse com os amigos, não é?

Hagio: Isso. Talvez ele tivesse sido salvo antes de ficar com depressão. Se tivesse verdadeiros amigos.

- Bem, e qual é a personalidade da própria Hagio-san?

Hagio: Há bastante tempo, já chegou a acontecer do escritor Takahashi Gen’ichirô-san me dizer que eu tenho um “leve autismo” (risos). Bem, fico pensando se ele não está certo.

- Com qual sentido ele falou isso?

Hagio: Eu não gosto muito de me encontrar com as pessoas, além de não sentir nem um pouco de ansiedade ao desenhar em silêncio. Acho que era esse tipo de coisa que ele estava apontando. Agora eu realmente passei a conseguir falar bastante, graças às pessoas ao meu redor; mas antes não conseguia.

- Conseguir fazer amigos, mas não ser muito boa para lidar com as pessoas talvez pareça mesmo um “leve autismo”. Mas você tem conseguido lidar de forma até que fácil com entrevistas e palestras. A partir de quando você passou a conseguir falar na frente das pessoas?

Hagio: Então, me vêm à cabeça algumas coisas que aconteceram em 1992. Eu fui em um encontro sobre antroposofia que seria aberto por Takahashi Iwao. Como foi um encontro pequeno e agradável, do qual participaram pessoas um pouco diferentes, quando perguntaram a minha opinião, eu fiquei tensa (risos). Eu realmente falei gaguejando bastante, mas eles ouviram muito calorosamente. Aos poucos eu fui percebendo que, para minha surpresa, as pessoas não são tão amedrontadoras assim.

- Antes disso, você achava as pessoas bastante assustadoras?

Hagio: Sim. Por isso que entrevistas comigo sozinha como esta de agora também eram bem raras. Quando me pedem para fazer palestras também, eu fico pensando que definitivamente seria melhor ter alguém como parceiro (risos).

“Eu decidi virar mangaká durante o meu terceiro ano como colegial.”

- Tirando pelo que você disse há pouco, foi por volta do seu período como colegial que você deixou de gostar de se relacionar com as outras pessoas.

Hagio: É durante a puberdade que a natureza das relações passa a ser diferente daquelas relações humanas das brincadeiras de crianças, que são puras. As pessoas se afligem com a natureza dessas relações. Eu passei um pouco por isso. Mas sinto que de alguma forma fui salva porque nessa época consegui amigos em um grupo de mangás. Dentre minhas colegas de classe, eu tinha uma amiga que desenhava mangá e mesmo depois que me mudei para Osaka nós trocávamos correspondência. Essa amiga ia para o Colégio Ômuta Sul. Mas esse colégio já não existe mais. Nas cartas, ela me disse que no Colégio Sul havia algumas pessoas que desenhavam mangá e por isso queriam saber se ela não gostaria de montar um grupo de mangás com elas. Essa amiga disse “Hagio-san, apesar de estar longe, você não quer tentar enviar alguns desenhos?”. Então eu disse que participaria, e que iria pensar dali para a frente na forma de receber a correspondência. Porque na época todas as cartas que vinham eram checadas pela minha mãe.

- Quanta rigidez, não é?

Hagio: Pois é. Por isso eu estava pensando em fazer ela mandar para o endereço de uma amiga, mas de repente foi decidido que meu pai seria transferido e nós nos mudamos para Ômuta. Então, depois que enviei o primeiro manuscrito, ficou decidida a transferência do meu pai. Minha amiga ficou muito feliz e disse “venha para o Colégio Sul, hein”, mas devido à separação por bairros, eu fui parar no Colégio Norte. Do meu colégio para o dela levava cerca de trinta minutos. Depois das aulas, eu ia para o Colégio Sul de trem e à pé.

- Sua mãe não falou nada?

Hagio: Não, eu fazia isso escondido. Porque ela havia me proibido de participar de clubes já que eles atrapalhavam os estudos. Ela me ordenava voltar para casa assim que as aulas acabassem. Por isso eu dizia que de repente o professor decidira dar uma prova no dia seguinte, então eu havia ficado até mais tarde para fazer revisão com meus amigos de classe; se eu havia dito que era uma prova de matemática, na próxima vez dizia que era uma prova de ciências etc. Quando minha mãe ia até um parente ou tinha algum compromisso que fosse fazê-la voltar mais tarde, como eu não precisava arrumar nenhuma desculpa, apenas fazia cara de quem realmente havia chegado mais cedo.

- Com qual frequência você ia?

Hagio: Hum... por volta de uma vez a cada dois dias.

- E quanto era sua mesada nessa época, mais ou menos?

Hagio: Tenho a impressão de que na época do colégio era por volta de trezentos ienes ao mês.

- Você precisava usar esses trezentos ienes na tarifa do trem, não?

Hagio: Estava tudo bem porque eu conseguia ir com o bilhete único estudantil. Mas parte do trajeto era de ônibus e custava dez ou vinte ienes, então eu caminhava diligentemente.

- Esse grupo é aquele chamado Key Rocks, do qual Fukuyama Yôji fazia parte, não é? Vocês faziam uma revista dôjinshi, não?

Hagio: Isso. Além de mim, outras duas pessoas se tornaram mangakás, uma delas foi Fukuyama Yôji-san e a outra Harada Chiyoko-san. A Harada-san formou-se no colegial, foi para Tóquio procurar emprego e, por um período, foi assistente do Tezuka Osamu-san. Depois disso ela estreou. Agora ela parou de trabalhar e voltou para a cidade natal.

- Que tipo de pessoa era Fukuyama-san naquela época?

Hagio: Ele era o presidente do clube de artes do Colégio Sul. O Fukuyama-san criou uma banda de rock chamada Key Rocks junto com seu irmão mais velho e alguns colegas. E esse virou o nome da revista. Ele era muito bom com os desenhos e até os professores de arte tiravam o chapéu para ele. Embora fosse um clube de artes, ninguém reclamava quando ele levava a guitarra (risos).

- Era um grupo de quantas pessoas, mais ou menos?

Hagio: Por volta de oito. Do Colégio Norte só havia eu, do Sul havia umas três ou quatro. Além disso, havia as pessoas que já tinham se formado. O irmão mais velho do Fukuyama-san e os amigos desse irmão.

- Parece divertido. Por volta de quantas edições vocês publicaram?

Hagio: Como foi só o período do terceiro ano colegial, acho que mais ou menos umas cinco ou seis. Não me lembro bem. Fizemos ilustrações e publicamos ficção científica porque havia pessoas desenhando isso por estarem obcecadas com Hoshi Shin’ichi. O Fukuyama Yôji-san desenhava o frontispício de próprio punho.

- As revistas que circulavam eram as que vocês desenhavam por si mesmos?

Hagio: Sim. Na época o preço para fazer cópias era muito alto e não tínhamos condição de pagar.

- É mesmo. Então é um pouco diferente do que as pessoas pensam ser uma revista dôjinshi hoje em dia, não é?

Hagio: Isso.

- Você já chegou a dizer que foi a obra Shinsengumi, de Tezuka Osamu-san, que a fez querer virar mangaká. Qual o fascínio que essa obra traz, a ponto de fazer uma pessoa tomar uma decisão importante dessas?

Hagio: Deve ter sido o momento. Ainda que me perguntem porque essa em específico, quando, dentre as obras do Tezuka-sensei, há várias outras boas, eu não saberia responder. Hoje em dia só consigo pensar que algo nela entrou em sincronia com meus pensamentos noturnos melancólicos, neste ambiente onde eu havia sido colocada pelo acaso.

- A época quando se lê também é importante.

Hagio: É verdade. Naquela época a revista COM tinha acabado de ser lançada, havia também obras como o mangá Hi no Tori. Além disso eu estava lendo o mangá Dororo, o qual também é uma grande obra-prima. Shinsengumi foi o primeiro mangá em formato encadernado que eu comprei, juntando o dinheiro da minha mesada, e li. Foi um choque muito grande.

- Ah, foi o primeiro encadernado que você comprou.

Hagio: Sim. Talvez por isso também ele tenha essa importância para mim. Eu já não conseguia deixar de pensar nos personagens. O Fukakusa Kyûjûrô acaba duelando com seu amigo Daisaku. Eu me perguntava se o Daisaku não poderia ter sobrevivido, já que o Kyûjûrô chora tanto por ele, após matá-lo. Por ser seu amigo. Será que eles não conseguiriam resolver as coisas conversando antes do duelo? Mas talvez por Kyûjûrô ser inesperadamente frio, não tenha feito isso. Eu ficava sempre pensando em outras versões possíveis.

- Quantas vezes eu não pensei isso ao ler Thomas no Shinzô. Algo como “por que o Thomas teve de morrer?”.

Hagio: Essa questão do Kyûjûrô e do Daisaku não saiu da minha cabeça por mais ou menos uma semana. Eu pensei que não daria para as coisas serem assim; que se fosse para eu receber um impacto tão grande, seria necessário devolver esse impacto para alguém. Por isso pensei em me tornar mangaká. Até esse momento estava meio sem rumo, achando que as coisas se resolveriam por si mesmas. Como esperado, decidi virar mangaká.

- E aí todo mundo ficou impactado por causa das suas obras (risos).

(Risos concomitantes)

Hagio: E também porque até ali já tinha chegado ao ponto de eu participar de grupos de mangás escondida. Após decidir virar mangaká, pensei em como iria esconder isso dos meus pais (risos).

- Era preciso desenhar e enviar os manuscritos, não é?

Hagio: Depois de decidir virar mangaká no terceiro ano colegial, passei a olhar de frente, seriamente, para a questão do envio de obras para as editoras.

- Os acontecimentos relacionados a mangás estão concentrados no seu período no terceiro ano colegial, não é? Você participou do Key Rocks e tudo o mais.

Hagio: Isso. Eu enviava para os lugares, não era aprovada e as obras voltavam para mim.

- Você pedia para enviarem a um lugar que não fosse a sua casa?

Hagio: Eu pedia para enviarem à casa de uma amiga do grupo de mangás. Depois disso, na época em que eu me formei no colégio e tinha de decidir se procuraria emprego ou não, pensei em estudar desenho porque não era muito boa nisso. Como minha irmã mais velha estava indo para uma escola de design em Osaka, perguntei se eu não poderia frequentar uma também. Minha irmã fazia design comercial, e como ela dizia que era difícil, eu falei que gostaria de fazer design de roupas. Eu entrei no departamento de design de moda da Academia de Designers Japoneses, uma escola técnica na cidade de Fukuoka.

- Nos seus mangás estão desenhadas roupas que passam a impressão de serem possíveis de vestir.

Hagio: Uma parte dos estudos sobre o design de roupas está relacionada à história das vestimentas, a qual eu achava muito interessante. Por isso nasceu em mim um interesse pela história das roupas ocidentais.

- Aparece um pouco da história das vestimentas em Marmalade-chan (1972). Foi muito interessante.

[Continua]

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1 pessoas comentaram:

Valéria, desculpe o sumiço, ainda mais sem avisar nada. Eu excluí meu Facebook porque estava viciado. Perdia muito tempo lá e queria me focar nos estudos. Obrigado por ter postado a entrevista. Fico feliz que tenha gostado. ^^

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