quarta-feira, 3 de abril de 2019

Vamos comemorar o Golpe de 1964: O Caso Cinemark


Hoje, devo produzir pelo menos dois, com sorte três, posts que, a rigor, são um tanto off-topic, mas necessários.  Sou historiadora e um ser humano que se esforça um pouquinho para fazer o que é certo e manter meus valores cristãos em dia.  Pois bem, o primeiro post é sobre o caso da rede Cinemark.  Vi o zum-zum-zum sobre boicote, ou protesto contra a rede de cinemas no Twitter e fiquei sem entender.  O Cinemark teria exibido em pré-estreia o documentário 1964: O Brasil entre armas e livros, trata-se de uma produção de um famoso canal do Youtube que se especializou em fazer revisionismo histórico indo contra aquilo que é consenso entre os historiadores.  

Por exemplo, é consenso historiográfico que o Nazismo é um movimento de extrema-direita.  Nenhum historiador, ou historiadora, que mereça o nome e o diploma diria algo diferente, mas nesse canal do Youtube, nazismo é de esquerda e eles convidaram o atual chanceler para confirmar isso.  Trata-se de uma autoridade, alguém que tem o dever de fazer o que é certo e dizer a verdade.  O que os especialistas dizem, não importa, o que seu professor de História lhe ensinou, é mentira.  Trata-se, portanto, de gente perigosa, não de engraçadinhos, ou sem noção.  Como está na moda, e eles devem contar com patrocínios bem gordos, eles fizeram o tal documentário para perpetuar possivelmente duas inverdades, a primeira, que em 1964 o Brasil corria o risco de se tornar uma ditadura comunista; a segunda, que não houve ditadura entre 1964-85.  

O comunicado com o pedido de desculpas e o deixa disso.
Pois bem, o Cinemark exibiu no dia 31 de março, aniversário oficial do golpe civil-militar, porque ninguém quer comemorar na data certa, que é primeiro de abril (*Dia da Mentira*), o tal documentário em Belo Horizonte, Recife, Curitiba e São Paulo.  Veja que é um evento comemorativo, não há como não ser visto assim.  Só que, diante da forte crítica, o Cinemark veio à público "se explicar" dizendo que não sabia, nem se envolve em questões políticas...  SEI!

Olha, eu duvido que a rede exibiria o documentário nessa data se não estivesse ciente do conteúdo e do significado do evento.  Trata-se de um recuo diante do nojo que esse tipo de celebração inspira e de um possível boicote.  Daí, você pode perguntar "Valéria, você é contra a exibição do documentário?"  Não.  Acredito que ele deva ser exibido se as redes de cinema assim desejarem.  Não fazer isso, seria censura.  Agora, o que as pessoas de bom senso e caráter deveriam fazer?  Boicotá-lo.  Agora, as redes tem todo o direito de exibi-lo, mas, não, em um evento festivo como foi esse caso.  Por outro lado, não engulo essa  explicação torta do Cinemark de forma alguma.

Se você ainda tem dúvidas, uma sugestão de vídeo.

Falando por mim, eu pouco vou ao Cinemark.  Há três shoppings com essa rede em Brasília.  Eles ficam relativamente longe da minha casa e só vou até lá quando o filme só está passando  no Cinemark (*o último Bridget Jones legendado, por exemplo*) em horário que me seja favorável, ou quando meu marido quer ir até o Pier 21, o que fica mais perto de nós, e tem um sorvete maravilhoso.  Provavelmente, iremos assistir Shazam! juntos amanhã.  Vou propor outra sala de cinema, há várias.  Vingadores, devo ver sozinha, então, não será no Cinemark e assim seguirei.  

Dito isso, Ditadura Nunca Mais, só que estou mais que ciente que um país pode deixar de ser uma democracia sem necessariamente se tornar uma ditadura. Basta que dormitemos e, bem, muitos brasileiros e brasileiras estão dormindo faz tempo, ou agindo como zumbis.  Não sei qual a opção é a mais desagradável.  E, não, revisionismo histórico não é burrice, é estratégia de poder.  Nesse sentido, é muito bom que o MEC (Ministério da Educação) esteja tão desorganizado.

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5 pessoas comentaram:

Valéria, nasci em 1986, minha mãe em 1962... na minha família não escuto histórias sobre a ditadura, ninguém viveu nada de ruim durante esse período, não escuto falar mal, etc... portanto minhas informações negativas sobre esse período vem de outras fontes, como livros e documentários. Quando eu estudo algo sobre 200 anos atrás, e quero saber o que realmente aconteceu, o certo seria assistir/ler coisas de ambos os lados, não é? Para tentar ter uma visão mais imparcial possível sobre os acontecimentos..? Por mais absurdo que seja o que o outro lado está dizendo, não seria o certo pelo menos escutar para ter uma opinião crítica sobre o assunto? Buscar o máximo de informações possíveis, que falem bem, que falem mal, comparar o que cada um fala, mostra, etc... para assim chegar numa conclusão?

Amandioka, não consegui responder diretamente, então vai como outro comentário.
A Valéria se expressa bem: não é o caso de censurar, mas boicotar.
Tb nasci em 1986, mas meus pais estavam em Brasília na época da ditadura. Eles não podiam se reunir pra conversar, ouvir música, serem jovens. Perderam alguns amigos, tiveram outrxs torturadxs, meu pai chegou a ser fichado pela polícia política.
Mas, independente da vivência familiar, acredito que se existe um lado da história que fez uso de um aparelho estatal (ou religioso ou ideológico) pra promover a opressão e a supressão sistemática de um povo como o todo ou grupos dentro dele, não há como chegar a uma conclusão diferente que não seja a condenação.
Por opressão, vamos entender tortura; por supressão, assassinato.

E podemos trocar 1964 pela Inquisição ou pelo nazismo se vc preferir.
Faz sentido buscar o máximo de informação possível para entender o lado da ICAR pra chegar numa conclusão sobre a tortura e assassinato sistemático de mulheres? Vc imagina existir algum dado histórico que se revisado faça vc "ficar do lado" da Inquisição?

Só pelo fato de pessoas serem torturadas e mortas e CRIANÇAS também, além de terem que presenciar seus pais sofrendo e muitas vezes sendo raptadas em adições ilegais já é motivo suficiente pra saber que isso não prestava.
Minha família também não sofreu na ditadura, ninguém aqui em casa foi torturado e/ou morto, mas eu não preciso me esforçar muito pra saber que um regime que apoia tortura e assassinatos comprovados não merece respaldo algum, quem dirá comemoração.

Sua mãe nasceu e cresceu na ditadura e você nasceu após a ditadura. Talvez as experiências de vocês não correspondam à realidade dos fatos históricos. Contudo, ainda me disponibilizo pra ouvir coisas boas sobre esse período...

Mas quando penso no meu caso penso que meu avô era policial e foi uma das pessoas que torturou estudantes. Não vou ouvir falar muito mal da ditadura sendo de uma família que tem partes conservadoras e que pouco participou de movimentos sociais. Nunca vai sair um A que seja negativo de gente fora dessas lutas, fora da luta contra a censura, fora da luta por um país que melhorasse em inúmeras questões.

Agora do ponto de vista de um estudante ativista, do ponto de vista de observar a história, do ponto de vista de ser escritor, de ser gay, de ser drag, de ser um bando de coisas que a ditadura odiava, punia e massacrava eu não posso simplesmente ignorar o enorme número de pessoas que traçaram um caminho de dor pra estar onde estamos. Recuso-me a ignorar os fatos históricos objetivos sobre todos os lados negativos da ditadura, mesmo que uma parcela da população nada tenha a falar sobre isso ou mesmo nada tenha de consciência sobre isso.

Agora, caso tenha restado algo de bom pra aproveitarmos certamente não sou contra.

Amadioka, o que significa "ambos os lados"? se eu quero saber o que aconteceu, e nunca saberemos exatamente o que aconteceu, devemos pegar as fontes e os estudos sobre o tema. O que se tem feito é gente que não tem formação, mas tem interesses, se pondo a desmentir, acusar e ignorar os especialistas. Não se trata, portanto, de ouvir ambos os lados, se trata de evitar falácias, mentiras deliberadas e má fé. Um Narloch não é historiador, mas alguém ideologicamente posicionado, por exemplo, e querem colocá-lo no mesmo pé de gente com formação na área e que dedicou-se anos e anos aos estudos de um determinado tema. Alguém prefere ouvir um quitandeiro sobre questões médicas? Mas todo mundo se mete a querer ensinar História, por exemplo.

Dar ouvidos a quem diz que o nazismo é de esquerda, ou que não houve ditadura no Brasil (*ainda que ela possa ter sido boa para certos grupos, ou boa na memória de alguns*), é o mesmo que abraçar a tese de que a Terra é plana, ou que vacinas são um problema.

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