domingo, 9 de junho de 2019

Seleção Feminina de Futebol estreia daqui a pouco: Você sabia que já foi proibido que mulheres jogassem futebol no Brasil?


A seleção brasileira feminina de futebol estreia daqui a pouco, 10h, na copa do Mundo.  O jogo será contra a Jamaica.  Esse post não é nem tanto para comentar o jogo em si, mas para falar de história.  Quando ocorreu o primeiro jogo de futebol feminino no Brasil?  Ao certo não se sabe, mas o primeiro a ter cobertura da imprensa ocorreu em em 1921, entre moças dos bairros Tremembé e Cantareira, hoje, Santana, na zona norte de São Paulo.  Recebeu cobertura do Jornal A Gazeta e foi tratado como uma piada e não como coisa séria.


Jornal comentando a legislação.
na década de 1940, Getúlio Vargas assinou uma lei proibindo que mulheres jogassem futebol no Brasil.  "Às mulheres não se permitirá a prática de desportos incompatíveis com as condições de sua natureza.", dizia trecho do artigo 54 do Decreto-lei 3.199, em 14 de abril de 1941.  E não foi somente o futebol a ser proibido, elas não deveriam, por exemplo, praticar judô (*e outras lutas*), pólo aquático, rúgbi, entre outras modalidades.  A lei foi mantida até 1979 e reforçada durante Ditadura Militar (1964-85), porque mulher tem um destino, o lar e a maternidade, aliás, esse discurso volta e meia aparece na boca de gente do nosso governo atual.  Uma mulher poderia ser presa e algumas eram, inclusive, por apitar um jogo.  Claro, você podia arriscar, fazer algo clandestino, mas era crime, caso de polícia.  O site RFI fez uma excelente matéria sobre a questão, segue um trecho:
"Assinado por Getúlio Vargas em 14 de abril de 1941, durante a ditadura do Estado Novo, o artigo 54 do decreto-lei 3.199, afirmava que ”às mulheres não se permitirá a prática de desportos incompatíveis com as condições de sua natureza, devendo, para este efeito, o Conselho Nacional de Desportos baixar as necessárias instruções às entidades desportivas do país”.

A proibição da presença feminina em campos de futebol durou quase 40 anos, e vigorou entre 1941 e 1979, marcando gerações de brasileiras que não puderam exercer seu talento nos gramados. O argumento sexista de que o futebol poderia ferir a “natureza feminina” serviu para criar um vácuo no esporte feminino, em prol da “dedicação ao lar” e “à família”.

Em declarações à imprensa brasileira, Aira Bonfim, historiadora e pesquisadora, responsável pela implementação do Centro de Referência do Futebol Brasileiro, no Museu do Futebol, em São Paulo, afirma que era “como se você, por quase 40 anos, construísse uma ideia, uma cultura e uma proibição moral”.

Em 1965, após o golpe de 1964 que instaura a Ditadura Militar no Brasil, o recente governo militar decide tornar expressa a proibição de mulheres jogarem futebol, e inclui na lei uma série de esportes considerados “inapropriados para mulheres”, como futebol, pólo aquático e rúgbi. Mas a proibição não se limitava apenas às esportistas.

A brasileira Lea Campos, 75, que marcou o futebol brasileiro e mundial ao se tornar a primeira mulher árbitra do Brasil e do mundo, relatou à Folha de S. Paulo nesta quinta-feira (6) ter sido presa mais de 15 vezes entre 1967 e 1971, por desobedecer ao decreto assinado por Vargas. Ela conta que, quando a polícia invadia o campo para prender as jogadoras, ela se oferecia como responsável, enquanto árbitra da partida.

A literatura especializada mostra que a saída das jogadoras, entre esses “anos de chumbo”, foi jogar bola nas periferias ou em locais clandestinos, onde “não pudessem ser vistas”. Literalmente, mulheres jogando bola, em 1940, se tornavam “caso de polícia”, como demonstram vários registros históricos da imprensa mineira da época.

Curiosamente, pouco antes do decreto de Vargas, criminalizando o futebol feminino, o ano de 1940 viu surgir em Belo Horizonte o primeiro time feminino de Minas Gerais, que ganhou repercussão nacional, uma agremiação chamada Mineiras F.C., que veio se juntar a times como Casino Realengo e S.C. Brasileiro, que frequentavam normalmente as páginas dos jornais esportivos brasileiros, antes da onda de repressão iniciada pelo decreto da Era Vargas.

Mesmo com o fim da proibição de mulheres jogarem futebol no Brasil, em 1979, a regulamentação da modalidade feminina só aconteceu em 1983, e graças à mobilização das próprias jogadoras. Especialistas avaliam que os cerca de 40 anos de proibição do esporte no Brasil deixaram um saldo extremamente negativo, com péssimas condições de trabalho e falta de patrocinadores. Além de tudo, um enorme vácuo em relação à criação de uma cultura brasileira do futebol feminino, no país das chuteiras. O futebol feminino foi sufocado e relegado à clandestinidade com argumentos banais e sem respaldo médico."
Pioneiras.
Como desenvolver o esporte dessa forma?  Na verdade, muitas práticas e legislações contribuíram para o atraso e o não investimento no esporte feminino no Brasil.  Minha mãe apanhava da minha avó quando criança e adolescente por querer brincar com bola, nem precisava ser futebol, ela preferia vôlei.  Eu presenciei uma menininha sendo repreendida pela mãe mais de uma década atrás por pegar uma bola.  Não é que meninas não queiram jogar, não gostem de jogar, não sejam capazes de jogar, elas sofrem várias recriminações e estímulos para que não o façam.  E os salários, claro, não são atraentes, isso se você conseguir um emprego.

De qualquer forma, somente em 1983, o esporte foi regulamentado no Brasil.  Eu lembro do Radar, time feminino que volta e meia virava notícia.  Normalmente, quando algo aparecia na TV, meu pai, meus tios e mesmo as mulheres mais velhas, comentavam de forma grosseira a "aparência" das jogadoras.  "Tudo sapatão!" (*Algumas eram, e daí?*) "Se querem jogar futebol tem que usar uniforme de mulher.  Deviam usar sainhas.".  Lembro na escola uma vez, umas meninas da minha turma, 8ª série, e mais novas jogando futebol e o coordenador, um velho todo empertigado, tomando a bola e passando um sabão nas garotas, porque futebol não era esporte de mulher.  Era um horror.  


Antes de Marta e Formiga, Sissi foi genial e muito discriminada.
As coisas andaram bastante e não interpretem isso como "Ah, agora está tudo bem!".  Está, não, a gente precisa melhorar muito, mas temos que ocupar os espaços.  Pela primeira vez, a TV aberta está transmitindo a copa.  Pela primeira vez, há álbum de figurinhas na banca.  é de pouquinho em pouquinho que a gente avança.  Às vezes, se dá um salto, mas se a gente se distrai, pode ser voltar atrás sabe-se lá quantas casas.  É isso!  Viva a seleção brasileira e vamos torcer por essas mulheres valentes, porque para ser jogadora de futebol, aqui, ou em qualquer lugar, é preciso ser muito forte e não desistir diante dos obstáculos.  E, para quem está em São Paulo, tem exposição no Museu do Futebol.

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1 pessoas comentaram:

Valeria, li essa notícia há pouco dias e a compartilhei no mural do FB. É inacreditável! Ah, se houvesse uma máquina do tempo pra mostrar pra essa imprensa machista e a todos os envolvidos como o futebol feminino se fortaleceu, mas que sim, há muito a se fazer ainda!

Comprei com muito orgulho o álbum de figurinhas semana passada! Na banca perto de casa onde o adquiri, o mesmo estava escondido numa parte de trás, enquanto o álbum da Copa América totalmente em destaque na frente, que raiva!

O trabalho mesquinho feito há décadas contra o futebol feminino foi tão bem-feito que não questionamos a não paralisação das atividades em dias de jogos do Brasil ou a ausência de uma tabela gigante com todos os jogos colada numa parede no local de trabalho ou estudo (no curso onde estudo espanhol, ano passado, colaram na entrada uma página enorme das chaves dos jogos do Mundial Masculino, pergunta se há um equivalente esse ano pro feminino?)

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