domingo, 25 de agosto de 2019

Para quem quiser assistir Éramos Seis de 1994 + Algumas Considerações sobre a Novela e o Brasil do Futuro



Para que estiver interessado em passar os olhos pela novela Éramos Seis do SBT, encontrei no Youtube boa parte dos capítulos.  Parece ser exibição de alguma TV portuguesa.  A qualidade do vídeo e dos cortes não é das melhores, há lacunas, mas eu sentei para assistir e fiquei presa por vários capítulos seguidos.  O link está aqui.  Espero que não derrubem os vídeos.  Enfim, dei um salto para a segunda fase e vi que Dona Lola já estava viúva e passando por sérios problemas financeiros.  E, bem decidi fazer alguns comentários dessa parte da trama juntando com o momento atual do Brasil.  Sim, é um post político e histórico, se não quiser continuar, pode pular.  Há muito mais coisa no blog.

Estamos, desde o governo Temer, passando por uma revisão das leis trabalhistas, defendidas por boa parte da mídia e alguns formadores de opinião como um entrave ao desenvolvimento econômico.  E vale tudo, claro, para tirar direitos dos trabalhadores, os empregos, falo dos sólidos, não dos em tempo parcial, a legalização do bico, ou com salários menores, não apareceram.  Continuamos com os 13 milhões de desempregados e sem Ministério do Trabalho, porque, bem, ele não importa nesse momento, afinal, é lembrança de Getúlio.  

A família no primeiro capítulo.
Como não poderia deixar de ser, o próximo passo do desmonte da rede de seguridade social é atacar a previdência, privando as viúvas, a maioria recebendo salário mínimo, de uma pensão integral.  Agorinha, li um imbecil dizendo que Getúlio Vargas, com suas leis trabalhistas e previdência social, atrasou o desenvolvimento do Brasil em 200, ou 300 anos. Sim, ele escreveu isso. Mas vamos às pontes com Éramos Seis:

Início dos anos 1930, Júlio, o pai provedor acabou de morrer. Como ainda não há previdência social universal, só algumas carreiras a possuíam, Dona Lola não tem pensão, apesar do marido ter trabalhado muito a vida inteira. Como a família era grande, o salário era pouco, houve o esforço para comprar a casa, as economias são escassas, aliás, foram gastas com remédios e cuidados médicos.  O SUS não existia ainda, também.  Viúva, ela termina dependendo da caridade de parentes ricos e outras pessoas que possam lhe fazer pequenos favores, o que é muito humilhante.  Mas o que fazer?  Não se esperava que uma mãe de família de sua classe social tivesse uma carreira, Dona Lola seguiu exatamente o que a sociedade esperava dela.  Essas exigências, claro, tornavam as mulheres extremamente vulneráveis quando viúvas, solteironas, ou órfãs.  Mas os feminismos ainda estavam engatinhando no Brasil.

Das três irmãs (Jussara Freira, Denise Fraga
 e Irene Ravache)
, somente Olga (ao centro), a caçula, 
tinha uma profissão, era professora, como o pai.  A solteirona Clotilde,
apesar de prendada e capaz de se sustentar, era alvo de pena.
Dona Lola tem que intensificar suas encomendas de tricô para tentar sobreviver e sustentar a casa, mas tem que dispensar a empregada idosa e negra, Durvalina, que sempre esteve com a família.  Veja, empregada doméstica não é "da família", porque em caso de crise, a família fica, a empregada vai embora.  Preocupada, porque Dona Lola não é uma pessoa sem coração, ela consegue lhe um emprego na casa de um vizinho bondoso, mas é a velha é que oferece um jantar de despedida porque tem umas economias. Ah, sim! A empregada, claro, também não pode se aposentar, apesar de ter bem uns 80 anos. Ela depende da bondade dos patrões. Mas não foi Getúlio quem olhou pelos empregados domésticos, foram, principalmente, os governos do PT.

O filho que faz medicina, um rapaz esforçado e brilhante, tem que largar a faculdade, porque curso de medicina, ou qualquer outro, mesmo em instituição pública, era pago. O jovem se tornou arrimo de família e precisa sustentar a casa e a mãe e a irmã normalista. Talvez, se o curso fosse público e, também, gratuito, Carlos teria um destino melhor, teria mais chances.  Sem as universidades públicas e gratuitas, o sonho do ensino superior, de estudar medicina, em especial, estava fora do alcance mesmo da maioria dos jovens da classe média branca.  Era  (*e continua sendo*) para poucos, muito poucos.  

Na fase da infância, os problemas eram menos complicados de resolver.
Ouvi recentemente o testemunho de um sujeito, militar de alta patente, que seu sonho era estudar medicina, preparou-se passou para uma universidade pública, mas mesmo na universidade pública, o curso era caro e em período integral.  Ele precisava trabalhar, a família não tinha posses, a vida militar acabou sendo a sua opção.  As escolas militares superiores remuneram seus alunos, ainda que o soldo seja pequeno.  Tive um professor no mestrado que uma vez apresentou dados de pesquisa que apontavam que em tempos de crise, crescem as vocações militares e religiosas (*católicas*).  Enfim, a carreira desse conhecido foi bem sucedida, ele disse não se arrepender das suas escolhas, mas será que não poderia ter sido diferente com uma estrutura de apoio melhor aos estudantes?  E veja que o que temos está sendo desmontado nesse momento.  Algumas universidades e institutos federais só tenham recursos até setembro.

Não é bobagem escrever isso. Afinal, a Globo vai estrear em breve uma nova versão de Éramos Seis. Comprou o roteiro de 1977, o mesmo usado em 1994, e como a história se passava em São Paulo, havia todo um discurso contra o Getúlio ditador, já que um dos pontos altos da trama é a Revolução Constitucionalista de 1932. Essa parte da novela é uma das melhores e, sim, para os paulistas o Governo Vargas foi bem pesado em seu começo, afinal, acabou com a República do Café com Leite e privou os políticos do estado de participar do poder.  Será que o discurso contra o Getúlio ditador, pode se misturar com o discurso contra o "pai dos pobres", já que querem demonizar as leis trabalhistas?Claro que se mantiverem o original será uma manobra muito difícil.  

A família na nova novela.
Éramos Seis é um retrato da classe média baixa branca entre as décadas de 1920-40, mas, talvez, o que teremos nessa nova versão seja um belo retrato do nosso possível futuro: sem leis trabalhistas sólidas, sem previdência social decente e sem universidade pública e gratuita.  Um paraíso, mas para poucos.

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