domingo, 8 de setembro de 2019

A Agenda Moral e o caso da Censura aos Vingadores na Bienal do Rio: Sugestão de Entrevista


Não quero me estender muito nesse tema (*textos: 1 - 23 *), mas me vejo obrigada a tanto, e fui procurar uma entrevista que assisti no canal GGN com a antropóloga social Isabela Oliveira Kalil.  A pesquisadora estudou os movimentos pró-impeachment da Avenida Paulista, um dos pontos importantes, para mim, pelo menos, é a discussão sobre a pauta moral dos movimentos conservadores que tomaram as ruas.  Kalil distingue dois tipos de corrupção, aquela mais tradicional e rasa (*desvio de dinheiro público, por exemplo*), com outra ligada à valores e um modelo idealizado de família e sociedade.  Esse modelo, claro, não comporta um casal do mesmo sexo, por exemplo, ou associa somente às esquerdas as bandeiras de direitos humanos e individuais.  A pesquisadora chega a comentar que mesmo quando um político era ficha limpa, ele poderia ser rechaçado por esses grupos sob o argumento de que seria moralmente corrupto.


A família idealizada de muita gente é, além de heteronormativa,
branca, com dois ou três filhos, e saída de um
seriado de TV norte americano dos anos 1950.
Há um grande equívoco por parte de certos setores (*ditos*) progressistas em apontar que a agenda moral, que ajudou a eleger Crivella, Witzel e Bolsonaro, seria uma cortina de fumaça para o que realmente importa.  Enquanto muitos pensam assim, às vezes ancorados em conceitos materialistas (*tudo começa e termina na economia*), perde de vista que para vastos setores de nossa sociedade, importa, sim, que dois homens estejam se beijando em uma novela e que isso é visto como muito mais perigoso do que as milícias, a perda de direitos trabalhistas, ou previdenciários, ou muito mais incômodo do que não ter saneamento básico, ou vacina no posto de saúde.  Isso, claro, se a pessoa já não vê vacinas como parte da estratégia de dominação mundial dos comunistas.  


Enfim, a agenda moral, que é baseada em ignorância (*social, histórica e mesmo bíblica*) e medo, alimenta o ódio pelo "outro", que passa a ser visto como um inimigo é tão pesada e concreta quanto a agenda neo ou ultraliberal, como queiram.  Ela pode vir a prejudicar a  própria economia do país e já compromete a democracia brasileira, porque ela corrói nossos direitos, ela mata pessoas ao estigmatizá-las e pintá-las como inimigos de algo que é mais importante que tudo, a sua família.  O magistrado que derrubou a liminar que garantia que nenhum livro poderia ser confiscado na Bienal, sentiu-se autorizado por essa agenda moral e os que a apoiam a ignorar a constituição e as decisões do STF a respeito de crimes de homofobia.  Você pode estar se lixando para Vingadores, a Cruzada das Crianças, ou achar que as telenovelas da "Globo Lixo" tem que acabar mesmo (*Aqui, esquerda e extrema direita dão as mãos*), mas, talvez, a censura, que será feita por gente "terrivelmente evangélica", ou afins, poderá chegar até a sua série favorita da TV por assinatura, ou ao filme que está para estrear no cinema, ou mesmo o seu game.  Nem vou falar de mangás, porque eles, com certeza, iriam rodar.


Há vários movimentos organizados pleiteando não a proteção às famílias,
mas a um tipo de família e a exclusão de todas as outras.
Basta que consigam passar alguma lei semelhante as que vigoram na Rússia, ou em outros países autoritários e retrógrados quando se trata de direitos das minorias, que a existência de um homossexual na obra poderá tirá-la do mercado, ou impedi-la de entrar.  E você acha que um Crivella lê quadrinhos, joga games, ou vai ao cinema se não for para assistir filme da Record?  E sempre haverá quem apoie essa cruzada para salvar as criancinhas dentro do Congresso e temos, claro, um presidente que se elegeu exatamente por ter uma agenda moral.  Esses discursos em si já são atos de violência, mas podem se materializar em ações de extermínio contra pessoas vulneráveis.


Este gráfico da violência, segundo  Johan Galtung,
é bem interessante.  A origem da figura está na imagem.
Eu estou lendo um livro sobre censura em telenovelas (*e se alguém tiver um mais geral, que abarque cinema para indicar, eu agradeço*) que mostra o quanto a censura dependia do gosto do oficial.  Um beijo, o tom da interpretação de um ator/atriz, uma palavra (*Escrava Isaura ficou proibida de trazer em seu texto a palavra "escravo", por exemplo*), tudo poderia atiçar os censores.  Filmes para o cinema eram censurados e recebiam cortes por motivos banais e não estou falando de filmes políticos, um dos casos que conheço, por exemplo, é o da censura a um dos filmes de Jornada nas Estrelas já nos anos 1980.  O que censuraram, não sei, mas era comum que filmes fossem exibidos no cinema com cortes.


A censora disse ao autor que se ela não estivesse de férias,
a novela não teria sido aprovada e que a escravidão
deveria ser apagada de nossos livros de História.  
Enfim, o áudio da entrevista está ruim, é um dos problemas do GGN, mas ela toca em vários pontos importantes para ajudar a pensar a censura ao quadrinho dos Vingadores na Bienal e outros casos de censura e autocensura (*caso da novela da Globo*) ocorridos esta semana.  Selecionei a partir do momento em que é feita a pergunta direta sobre a pauta de valores, mas vale assistir todo o vídeo.  E me desculpem pelo vídeo tão longo.

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2 pessoas comentaram:

Mais uma vez, você super sensata.
Eu fico cada dia mais desiludida com tudo isso que vem acontecendo. E o pior é que não vejo um bom horizonte em 2022.

O difícil é pensar em COMO vamos chegar em 2022...

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