terça-feira, 17 de setembro de 2019

Comentando Bacurau (Brasil/2019): Um Convite à Resistência


Hoje, assisti Bacurau, filme dirigido por Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles.  Bacurau vem causando comoção, ganhou o prêmio do júri em Cannes, e vem sendo saudado como uma película genial.  Enfim, gostei do filme, mas não me senti impactada por ele, na verdade, comparado com O Som ao Redor e Aquarius, achei esse trabalho de Kleber Mendonça Filho mais interessante, no entanto, ainda não foi dessa vez que o Novo Cinema Pernambucano conquistou meu coração, mas Bacurau é bem interessante um misto de filme de ação, faroeste, crítica social e ficção científica, talvez, mais coisa ainda.  Mas vamos para o básico da história:

Brasil, alguns anos no futuro, oeste de Pernambuco.  Teresa (Bárbara Colen) está voltando para Bacurau, cidade onde nasceu, em tempo para se despedir de sua avó, Carmelita  (Lia de Itamaracá), a matriarca da cidade.  Passado o funeral, coisas estranhas começam a acontecer.  Bacurau some do mapa gerado por satélite, é como se a cidade nunca tivesse existido.  Pouco depois, os habitantes da cidade começam a ser mortos e o sinal de celular desaparece.  Bacurau está isolada.  Pacote/Acácio (Thomás Aquino), um matador que havia se regenerado, vai atrás de Lunga (Silvero Pereira), uma espécie de cangaceiro pós-moderno, para tentar organizar as defesas da cidade.  

O enterro da matriaca.
É difícil resenhar Bacurau sem dar spoilers, muito difícil mesmo.  Na verdade, uma das minhas impressões é que o próprio filme entrega cedo demais a ameaça que ronda Bacurau, o mistério deveria ter sido mantido por um pouco mais de tempo.  Ainda assim, é um bom filme, não me cansei em nenhum momento de estar na sala de cinema, diferente do que aconteceu com Era Uma Vez em... Hollywood, que tem quase a mesma duração.  Se Bacurau fosse mais longo, eu não me cansaria, porque o filme não tem barriga alguma e o ritmo consegue variar sem que isso prejudique a narrativa.  Agora, vejo nele mais um filme de ação, esquemático em alguns momentos, do que um grande manifesto sobre o Brasil contemporâneo, como muita gente vem defendendo. 

Como pontuei, acredito que o filme entregou o ouro cedo demais, poderíamos esperar mais para conhecermos os vilões, e demorou-se muito no primeiro ato, quando poderia se estender mais na parte final que enfoca a resistência de Bacurau. Quando chegamos na vingança, aquele momento catártico que nesse tipo de filme é o mais importante, afinal, os habitantes de Bacurau são submetidos a grandes crueldades, a coisa vai rápido demais.  Poderia ter sido diferente.

Forasteiros aterrorizam o povoado.
Além de filme de ação, Bacurau é uma ficção científica social, questionando as relações violentas que começam a se desenhar em nossos dias e podem se agravar.  Por exemplo, o grande drama da população de Bacurau é que a água foi apropriada por uma empresa com a conivência da prefeitura e a população depende de carros-pipa.  A privatização do que deveria ser coletivo, a carência de serviços básicos, não está muito distante de nossa realidade.  Esse Brasil distópico, que o filme só sugere, tem pena de morte e execuções públicas.  Vemos a questão de relance na TV.  E, sim, não explorar esse futuro é um problema que parece rondar os filmes brasileiros que estão se aventurando na ficção científica social.  Assisti a resenha da Mikannn de Divino Amor, outro filme que mostra um futuro próximo distópico, que apontava o mesmo defeito na película.  

E Bacurau nem parece distópico o suficiente, na verdade, ele é, também, uma utopia.  O povoado é marcado por uma tolerância e solidariedade, características que serão fundamentais para a resistência.  A população se apoia, trai o grupo quando a situação se torna (*quase*) desesperadora, ou  ninguém aponta o dedo na cara de ninguém. E como o filme enfatiza este último aspecto?  Com excesso de nudez naturalista e cenas de sexo casual. Parece que o Kleber Mendonça Filho curte essas coisas, basta pegar seus dois filmes anteriores.  É positivo ver a diversidade de corpos na tela (*jovens, velhos, gordos, magros, brancos, negros etc.*), mas a coisa parece forçada, sem real conexão com a história.  


Lunga se torna o líder da resistência.
Quando você menos espera, alguém aparece transando de relance, a câmera é jogada em cima de corpos em êxtase, ou simplesmente as pessoas aparecem nuas em situações inusitadas, como regando as plantas.  Desculpe, não há naturalismo que justifique gente regando plantas sem roupa.  O uso exagerado dos nus frontais impacta a classificação indicativa do filme e, repito, não colabora com a narrativa.  O tema da prostituição aparece inclusive atrelado a esse aspecto e me parece mal trabalhado no filme, especialmente, a questão da violência.  Fica parecendo que ser prostituta, ou prostituto, em Bacurau é bem legal, você pode trabalhar onde quiser e transar em qualquer espaço, porque o perigo são os forasteiros.  E, ainda assim, a sequência que envolve uma prostituta levada à força não tem continuidade, só silêncio quando ela retorna.

Falando dos vilões, eles estão no limite do caricato, a riqueza nesse aspecto está na população de Bacurau.  Há uma discussão importante no filme (*e que deve parecer muito mais interessante para quem nunca parou para refletir sobre isso, ou ler/assistir Jessé Souza*) que é a do desprezo e forma (pre) conceituosa como gente do Sul vê o Nordeste.  Para as personagens malignas (*claro*), vindas de São Paulo e Rio de Janeiro, eles são diferentes dos nordestinos (*que são todos iguais*), eles são civilizados e brancos, tem sangue europeu (*italiano, alemão e outros*).  Só que em confronto com os "gringos", eles são pela primeira vez constrangidos a perceber que brasileiros branco não existe, que para os estrangeiros, somos todos iguais, inferiores, incivilizados, sujos etc.  Mas veja que ao falar "Sul" para englobar Sul, Sudeste e Centro-Oeste (*provavelmente*) é um equívoco, também.  Talvez, cada vez mais o Brasil esteja cindido entre Norte e Sul, mas ainda estamos um pouco longe de termos dois países mesmo, como parece que é a realidade do filme.

Os habitantes de Bacurau consomem uma droga natural. 
Uma espécie de alucinógeno.
A parte tecnológica do filme, como na maioria das ficções científicas nesse formato, é discreta.  Filmes como Bacurau, assim como Gattaca, não dependem de efeitos especiais, ou máquinas elaboradas.  Por exemplo, nesse Brasil do futuro, o sinal de celular pega em todo lugar e uma escola rural tem TV tela plana moderníssima.  Um sonho.  Não acho que vai se concretizar em breve esse cenário.  Os vilões tem gadgets mais elaborados, ainda que nada realmente impressionante e, repito, nem precisava ser.  Já o drone disco voador, no entanto, pareceu bem falso (*muito mesmo*) em algumas cenas.  Faltou cuidado, especialmente, no início do filme.

Agora, uma crítica mais séria, e esta eu fiz para Tropa de Elite 2: impossível um Brasil distópico em um futuro próximo sem religião. A única igreja de Bacurau está fechada.  Virou depósito de tralha.  Talvez, na utópica Bacurau, a religião, não a religiosidade, vejam bem, esteja banida, porém, em um futuro ainda mais fascista desse Brasil em que vivemos, a religião teria algum papel a desempenhar.  Se os diretores não queriam igreja em Bacurau, ressaltando a rebeldia do vilarejo, poderiam colocar o prefeito, um dos vilões, como um político pastor.  Cairia muito bem, aliás.  Só que a opção é apagar o elemento religioso me sugere duas coisas, ou eco da incompreensão por parte das esquerdas do papel da religião em nosso país, o que colaborou para chegarmos onde estamos hoje em termos políticos, ou medo de atrair alguma crítica.  Seja qual a opção, é lamentável.

Resistir é preciso.
Falando de elenco, dois destaques são Lunga e Domingas (Sônia Braga).  Sônia Braga é a médica da cidade, alcoólatra, com altos e baixos de humor, lésbica e muito bem casada.  Ela expõe a trama do prefeito de distribuir remédios tarja preta (*psicotrópicos*), uma espécie de droga comum nesse Brasil do futuro, para a população.  Só que em Bacurau há uma droga natural que toda a população consome e nada é explicado sobre ela, enfim... Domingas também enfrenta o vilão sem medo da morte, ela sabe ser acolhedora e, ao mesmo tempo, terrível.  Fosse um filme americano, valeria uma indicação de melhor coadjuvante com certeza.

Já Lunga é uma personagem interessantíssima, ele remonta à mística dos cangaceiros como Lampião com toques de bandido moderno e ecos de drag queen.  Ele é capaz de cometer crueldades, vocês verão no filme, sem pestanejar, mas pouco se diz a respeito dos motivos pelos quais Lunga entrou na lista dos procurados "vivo ou morto" do país.  Sabemos que ele atacou os empresários que se apropriaram da água, mas é só isso.  Sobre Pacote/Acácio, e o ator Thomás Aquino está muito bem, sabemos bem mais do que sobre o famoso criminoso.  De qualquer forma, Lunga é o líder implacável que Bacurau precisa para se defender dos ataques.  Assistiria uma série sobre Lunga sem pensar duas vezes, ou leria um quadrinho.  É uma personagem com grande potencial.

O ataque à Bacurau e a vingança final acontecem rápido demais.
Já concluindo, Bacurau cumpre a Bechdel Rule, pois tem várias personagens femininas que dialogam entre si sobre diferentes temas.  Teresa e a irmã falam sobre a avó morta, por exemplo.  Há muitas personagens femininas sem nome, mas que parecem gente que poderia ser da minha família.  Olhando várias cenas em Bacurau, lembrei das minhas tias-avós, da minha avó, das visitas da infância, ou mesmo de São Cristóvão, em Sergipe.  Teresa, Domingas e outras mulheres têm grande importância no filme que valoriza a ação comunitária como fonte de transformação social e resistência.  Eis que aí reside a força do filme.  Bacurau valoriza a união não dos fracos, mas daqueles que não sabem a força que tem.   O problema, pelo menos para mim, é sucumbir à barbárie.  Mas haveria outra alternativa? 

Não se sabe se Bacurau, que significa originalmente um pássaro bravo que só sai à noite, irá se auto-gerir, ou será tragada pela política desse Brasil do futuro, de qualquer forma, assim como os cangaceiros do início do século XX, ninguém jamais esquecerá da coragem de seus moradores.  Aliás, se não há igreja funcionando em Bacurau, há um museu histórico que guarda memórias de resistência, de luta e de esperança, renovadas pelas novas experiências da população do povoado.  Se puder, veja Bacurau.  É um bom filme e merece a bilheteria que em fazendo até agora.

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