sexta-feira, 4 de outubro de 2019

"Queria que a escravidão voltasse. Não ia ter conversa, você ia ter que fazer sexo comigo."


Uma vez, vários anos atrás, nem sei quando, mas ainda estava no doutorado, antes de 2008, portanto, houve uma palestra obrigatória no meu trabalho, coisa para todos os professores e funcionários na qual o palestrante estava comentando que gostava de História (*e sabia a disciplina, porque todo mundo sabe a minha matéria sem abrir um livro*) e falando de seus tempos de escola.  Disse que o professor, de quem ele sentia saudades, contava para a sua turma de 5ª série, todos meninos, na época o colégio militar não aceitava garotas, dos tempos da colônia, do senhor de engenho que deixava sua esposa dormindo, uma mulher que ele descreveu como gorda e branca (*senti cheiro de Casa Grande e Senzala aqui*), e descia até a senzala para se "divertir" com as escravas.  "Assim, se fez essa nossa nação mestiça!"  A tal diversão tem nome, estupro.

Bons tempos!  Pintura de Christiaen van Couwenbergh (1632).
Hoje, as mulheres negras não precisam se submeter a esse tipo de coisa, mas naturalizada a violência, romantizado mesmo o abuso, que era muito bom para quem o perpetrava, há quem lamente o fim da escravidão.  "Queria que a escravidão voltasse. Não ia ter conversa, você ia ter que fazer sexo comigo."  Sim, esta frase foi dita por um sujeito para uma colega de trabalho.  A matéria está na Folha de São Paulo.  Eunice Cides de Oliveira, 30 anos, funcionária do Club Med, foi abordada por um sujeito na frente de outros colegas na copa do escritório.  A moça relata:
"Eu estava na copa, conversando com as meninas. Esse funcionário pegou no meu braço, chegou dizendo que queria que a escravidão voltasse, que eu teria que fazer sexo com ele, repetindo o tempo todo que eu deveria fazer o que ele quisesse, como se fosse a coisa mais normal do mundo", Eunice afirma à Folha. "Ainda fazia gestos como se estivesse me chicoteando, fazendo sexo comigo."
O sujeito, conforme a notícia prossegue, foi demitido, mas o abuso e o descaso não se restringiu ao agressor que lamenta o fim da escravidão e o fim do estupro liberado de mulheres negras.  "Não ia ter conversa.", quer dizer muita coisa nesse contexto.  Que mundo chato, não é mesmo?  Agora as mulheres precisam consentir, até as negras.  Só que um supervisor fez pouco caso e ainda foi grosseiro com a vítima.  O print abaixo é do supervisor.  Parece que o comentário, que foi feito depois de Eunice comunicar sua licença médica, deveria ser enviado para outra pessoa.


A mensagem do supervisor.
Enfim, o homem da palestra que relatei sem maiores detalhes, o funcionário assediador, o supervisor que fez pouco caso, todos tiveram aulas de História em alguma escola.  Foram educados, também, por outros meios, família, igreja, jornais, telenovelas etc.  A escravidão é naturalizada, a violência é vista como algo normal e o estupro como um bônus para o homem branco (*ou que assim se vê*) que poderia, sem se importar com lei, ou reprovação, estuprar negras escravizadas.  Acredito que esse tipo de sujeito não teria problemas em violentar qualquer mulher em situação de vulnerabilidade.  Segue um outro causo.

Ano passado, uma colega de trabalho relatou uma confusão que aconteceu em uma padaria de Brasília, ela fazia inglês na sobreloja e todos foram ver o que estava acontecendo.  Um sujeito de meia idade assediou a caixa, uma jovem quase adolescente, negra.  Ela retrucou e o sujeito lhe disse uma série de obscenidades e que em 2019, gente como ela iria voltar a conhecer o seu lugar.  Obviamente, para esse homem, as coisas não mudaram com a velocidade que ele esperava depois das eleições.  Nem devem mudar tão cedo, ou tão tarde, acredito eu.


Rugendas.  O pudor das brancas não cabia às
negras.  Veja o senhor branco ali no canto.
Não vou dizer que fiquei tão surpresa com essa matéria da Folha, o que me surpreende é que o sujeito não tenha nenhum apreço por seu emprego em tempos como os nossos.  Que ele falasse obscenidades para a moça na rua, mas no local de trabalho?  Ainda que a empresa não tenha reagido com a energia necessária, é claro que ele iria rodar nem que fosse para salvar as aparências da empresa.

Antes de terminar, queria comentar o início da matéria, também.  Ela começa assim: "Eunice Cides de Oliveira, 30, temperava com azeite a sopa de legumes com frango que trouxe de casa, mimo do marido chef. Coisa de mulher: faz dieta por achar que está acima do peso (não está).".  O que dizer dessa introdução?  O que me vem a cabeça é que o objetivo da jornalista é criar empatia nos leitores.  Mulheres negras são sexualizadas em nossa cultura, vide a Xica da Silva, e o que suas representação na TV e no cinema evocam.  Só que a mulher  da notícia  foi assediada apesar de ser uma mulher honesta (*tem marido*), bem casada (*o esposa lhe prepara até as refeições com muito carinho*) e normal (*preocupa-se com sua aparência, em ser "saudável"*), enfim, não é uma qualquer, você pode ficar do lado dela.


Xica da Silva é apresentada como uma personagem sexualizada ao extremo.
Não é somente uma introdução piegas, como a crítica que vi em um dos comentários, mas uma triste e sincera tentativa de reforçar que Eunice, assediada, alvo de racismo, é vítima e, não, a responsável pela violência sofrida.  Infelizmente, neste mundo em que vivemos, quando as coisas parecem andar para trás, talvez esses recursos tendam a aparecer com cada vez mais frequência.  "O que você fez para merecer?".  Nada, ela é uma boa mulher, decente, apesar de negra.

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2 pessoas comentaram:

Nossa, não deu nem vontade de terminar de ler o texto sem sentir nojo por esse cara mano... Eu curso História, terceiro ano já, e ver uma notícia dessas me entristece muito...

O Brasil nunca deixou de ser aquele velho "Brasil Colônia". A única diferença é o smartphone na mão, e o xingamento no whatsapp.

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