domingo, 6 de outubro de 2019

Sobre críticas válidas e generalizações daninhas: o caso dos animes de mecha


Não sou bem fã de anime de mecha, ou especialista nesse gênero, mas a gente já viu o bastante deles desde que Robotech/Macross (超時空要塞マクロス) desembarcou por aqui mais de trinta anos atrás, quando eu estava no Ensino Médio.  Posso meio que dar as características gerais da maioria deles:
1. O protagonista, não todos os pilotos, mas o principal deles, é sempre um adolescente, normalmente, do sexo masculino.  O objetivo, claro, é criar uma identificação entre o público alvo (masculino) e o jovem herói.
2. O herói nem sempre é o melhor dos pilotos.  No início da série, nunca é, ele tem o dom, o talento especial.  Pode ser que ao longo dos episódios, ele se torne o melhor dentre seus pares, mas seu protagonismo não depende disso.
3. Normalmente, há mais de um piloto de mecha na história, nem sempre há uma mulher entre eles.  Quando existe, essa menina tende a ser um piloto excepcional, talvez o melhor do grupo.  Vide Asuka em Evangelion (新世紀エヴァンゲリオン), ou Myria em Macross/Robotech.
Mirya, de Robotech/Macross foi uma das primeiras
piloto de mecha a aparecer em animes.
4. Animes de mecha para meninas são exceção e como tal confirmam a regra de que o gênero é prioritariamente para garotos.
 5. A roupa dos pilotos homens e mulheres tende a ser a mesma, ainda que fora do cockpit exista fanservice envolvendo as meninas.  As roupas das piloto de Gunbuster (トップをねらえ!/ Top o Nerae!) era fanservice total, verdade, mas elas pilotavam na mesma posição dos homens e eram as protagonistas da série.  Resumindo, elas tinham história, eles não tinham nenhuma.  E se não viu Gunbuster ainda, você está perdendo tempo na sua vida.  
A crítica pontual transformada em generalização. 
Chega a ser ofensivo dada a importância
do gênero mecha para a animação japonesa.
Feita essa lista, Darling in the FranXX (ダーリン・イン・ザ・フランキス) não representa todo o gênero, é somente um exemplo ruim de como meninas piloto são apresentadas na animação japonesa.  Essa imagem aí em cima, que eu rejeitei no grupo do Shoujo Café, mas voltou a aparecer na minha TL do Facebook, é um desserviço para os fãs de anime em geral, porque reforça a ideia de que todas as animações de mecha são feitas por pervertidos que se divertem colocando mulheres em situação humilhante.  Não são.  É por causa dela que estou escrevendo este texto, aliás.

Sim, isso é horrível, mas é representativo
de todos os animes de mecha?
Uma das coisas que me incomodam, e sempre fico furiosa comigo mesma quando escorrego e faço isso, é a generalização.  Um anime não representa todos os animes, ainda que possa trazer vários clichês recorrentes nos desenhos animados do mesmo gênero.  Por exemplo, há o gênero harém, você sabe que vai encontrar lá um/a protagonista cercado/a de pretendentes, pode ser shounen, shoujo, seinen, mas é isso aí o ponto de partida.  

A roupa das meninas é ruim,
mas Gunbuster é muito bom.
Em anime de mecha, vai ter robô gigante e lutas entre eles e se você é fã hardcore do gênero talvez esteja mais preocupado em avaliar se o desenho mecânico dos robôs é de qualidade, ou não. Por exemplo, nunca consegui convencer meu marido a assistir a versão antiga de Lenda dos Heróis Galácticos (銀河英雄伝説), que nem é um anime de mecha, porque ele se preocupa com desenho mecânico e, bem, esse não é o principal atrativo de LOGH.  Agora, nessa nova versão, há uma preocupação muito maior com a aparência das espaçonaves, ele até parou para olhar. 

Escaflowne é um anime de mecha, entre outras coisas.
Eu não sou fã de mechas, mas Escaflowne (天空のエスカフローネ), que é um anime de mechas entre outras coisas, é um dos meus favoritos.  A série não me atraiu pelos robôs, mas pela história, da mesma forma que o primeiro Macross/Robotech. Agora, eu não sou fã de séries de mecha, nem sou o público alvo prioritário desse tipo de material, salvo por exceções como Guerreiras Mágicas de Rayearth (魔法騎士マジックナイトレイアース) e Escaflowne.  Mesmo Gunbuster, me pegou pelo drama, pela forma como teorias científicas foram bem apresentadas no seriado.  Resumindo, o fanservice nesse tipo de anime é algo secundário, ou pode nem existir.  

Escaflowne é um raro exemplo de anime shoujo de mechas.
No afã de problematizar as coisas, muita gente acaba dando munição para o inimigo.  Quer criticar Darling in the FranXX?  Critique essa série naquilo que ela merece ser criticada e não faça generalizações que podem depreciar todos os animes de mecha.  Fora que esse tipo de imagem, a que motivou este texto, só reforça aos olhos do grande público que os otaku, só para usar o termo mais corrente entre os fãs, são pervertidos, machistas e até perigosos.  E, não, generalizar para marcar posição não é uma boa estratégia e você não será mais feminista, ou menos feminista, se conseguir separar o joio do trigo.  Fora que existe também uma regra de ouro que eu busco seguir "Achou ruim?  Lhe ofendeu?  Não assista."  

Há fanservice em Evangelion, mas Asuka pilota na
mesma posição que Shinji e é melhor piloto que o protagonista.
E, concluindo, se não é algo criminoso, deixe os outros em paz.  Há espaço para quase tudo e querer reformar um anime problemático como Darling in the FranXX é esforço inútil.  Se é o único anime de mecha que você conhece, há muitos animes de mecha desde Gundam (機動 戦 士 ガ ン ダ ム) e vários deles tem mulheres em situação digna e sendo mostradas como competentes.  Basta procurar, dei um monte de exemplos só nesse post.  Coisa velha, eu sei, mas deve sair todo ano pelo menos uns cinco animes desse gênero.  Se Darling in the FranXX foi sua introdução para esse tipo de anime, eu realmente lamento, mas como pontuei, há coisa muito melhor e nem precisa procurar muito.

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1 pessoas comentaram:

Generalizações sempre são ruins e daninhas, como preconceito,vai boato aqui e ali e quando você vê já te transformaram em anti cristo só por sem quem é. O Darling poderia ser sido muito mais de um jeito louco em discutir a sexualidade. Até nas críticas que vejo não se observa um ponto: O passivo,a pessoa que recebe é sempre vista como degradante,inferior, não digno de respeito, até em nossos palavrões "Vá tomar no C@", "Vá se fu@@@","Ele ficou de quatro". Enquanto ativos em sua posição é vista como positivo "Ele é um fo@@@@@","Que cara fo@@@, "Aquela mulher é fo@@". E animei quando apareceram os Nines, dos 10 clones uma fêmea,02, e todos os 9 eram machos, que mostraram ali um literal power bottom. Mas a questão todinha que ele é covarde, como a relação do Mitsuru com Hiro,que poderia trabalhado a questão da bissexualidade e no final,dele pilotar com Hiro,poderia ter acontecido,mas em vez disso botaram com o Nine Alpha,que não tem significado nenhum. Ou falar abertamente que os Nines eram machos e a 02 era especial por justamente ser uma fêmea,que aqui abro uma parada que li em Promethea do Alan Moore,sobre o poder do feminino, da relação que poderia ficar em ativos e passivos como iguais,mas quem detém o poder são os passivos,a mulher e os homens passivos. Mas todas essas possibilidades de construir algo legitimamente bom são jogadas no lixo em nome da segurança e ser melhor aceita pelo grande público, como a sexualidade sendo explorada só nas meninas e os meninos deixados de lado, como se mulher não tivesse desejos sexuais e sendo completamente confuso em sua mensagem,discordo dele ser propaganda daquele bolso,versão inteligente,japonês Shinzo Abby,por justamente não firmar e se arriscar. Sabe uma das coisas que imaginei? Como antes se pilotava apenas com o parceiro selecionado seria manejar o robô como sexo sem amor.Lá no final aconteceria ao descobrirem que o amor,o sexo com amor e desejo, que dava uma força anormal para o Franxx, cada um escolheria o seu parceiro que seria homem com homem,mulher com homem e um Franxx adaptado para mulher com mulher para lutar contra um ser que nega a individualidade,que quer apagar o vínculo humano da sexualidade,como muitas ditaduras e como esta acontecendo aqui na censura de valores cristãos de extremistas que querem apagar a diversidade sexual e apagar o amor e o sexo,amor apenas para deus,Pastor,o sexo apenas reprodutivo para criar mais ovelhas. Enfim,Franxx tinha um conceito que poderia ser grandioso,mas escolheu o caminho dos covardes para ser melhor aceito pela maior quantidade de pessoas possível,é a historia sobre atravessar a rua: OU você fica ou passa de uma vez,quem fica hesitante no meio do caminho acaba atropelado.

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