segunda-feira, 2 de dezembro de 2019

Artigo Traduzido: Hagiografia: Fanfiction medieval

Maria Madalena de  Frederick Sandys, 1858-60.
Quando me deparei com esse artigo no site The Medievalist, não pude resistir, precisava traduzi-lo.  O autor consegue fazer uma ponte interessante entre as fanfictions modernas e as hagiografias (*as vidas de santo*), documentos fundamentais para se compreender a religiosidade medieval.  Fora isso, ele usa como exemplo ilustrativo Maria Madalena e mostra um grande conhecimento de cultura pop.

Eu trabalhei com hagiografia da graduação ao doutorado, algumas das minhas vidas de santo franciscanas são contemporâneas à Legenda Áurea.Sim, havia muita flexibilidade, essa possibilidade de estimular a piedade com vários túmulos de um mesmo santo e relíquias multiplicadas por aí (*como as versões de uma mesma personagem, ele cita o Coringa*) eram normalmente toleradas.  Só que eu estudei um caso extremo em que essa história de múltiplas versões da mesma vida de um santo, no caso Francisco de Assis, não foram toleradas, pois eram vistas como um estímulo à dissenções e heresias, a Igreja Católica exigiu que fosse estabelecida uma versão oficial e que todas as outras variantes fossem destruídas.  Não funcionou, mas durante séculos tivemos somente a versão autorizada, a de Boaventura.  E nesse arrasto destrutivo, os documentos ligados à Clara de Assis, terminaram sumindo, também.  


Noli me Tangere, 1514 de Ticiano.
Enfim, leiam o texto, coloquei uma ou outra nota, elas estão no final.  O que está entre colchetes é acréscimo meu.  A parta da cronologia parece chata, mas traz preciosas informações.  Estranhei muito que ele não citasse Gregório, o Grande, já que ele foi o primeiro a associar Maria Madalena à prostituição.  Há um erro que percebi, e vou colocar uma nota corrigindo.  Não sei como o autor confundiu as datas, mas, vá lá, pode acontecer, o texto é bem informal.  Como havia poucas imagens, acrescentei algumas por minha conta.  Preservei as legendas das originais.

Hagiografia: Fanfiction medieval

Por Ken Mondschein

Os medievais tinham sua própria forma de ficção - e recontaram a história de Maria Madalena.


Mary Magdalene and Jesus, Martin Schongauer, 1473.
Então, eu finalmente vi o Coringa. E, enquanto a última contribuição de Todd Phillips ao Bat-Universo se desenrolou como uma discussão informal na escola de cinema conduzida a uma fruição infeliz, isso me fez pensar em "cânone" - o que ele é e qual Coringa (o de Joaquin Phoenix, de Heath Ledger, de  Jared Leto, de Mark Hamill, de Jack Nicholson ou de Cesar Romero) é a versão "real" do personagem.

A resposta é, é claro, todos eles são - porque todos eram Coringas"oficiais", aprovados pelas autoridades eclesiásticas, ou seja, os donos dos direitos autorais. Mas outras versões do personagem, como as descritas em fanfiction, não são. O gênero de ficção de fãs - e eu o dignificarei com o apelido de "gênero" - começou com os fanzines de Star Trek na década de 1960 e, desde então, se tornou uma bola de neve na Web com sites como fanfiction.net e "An Archive of Our Own".[1] 


Todos os Coringas são canônicos e se dão lucro
para a empresa, qual o problema?
Às vezes, a fanfic leva uma vida separada do trabalho do qual é derivada: a franquia Cinquenta Tons de Cinza começou como um fanfic de Twilight, e Harry Potter and the Methods of Rationality de Eliezer Yudkowsky e Last Ringbearer de Kirill Yeskov tornaram-se famosos por sua imaginação para retrabalhar seu material de origem. E às vezes os dois chegam a se cruzar: a franquia Star Trek era famosa por aceitar "spec scripts" feitos por fãs. [2]

Tudo isso é tão antigo quanto a literatura. As pessoas na Idade Média também escreveram fanfic, mas o seu cânone - o cânone original - era a Bíblia, e o enredo era o drama da salvação. Novos personagens - santos - eram constantemente adicionados ao universo ampliado e, assim como Boba Fett, até os personagens existentes eram reescritos em formas que o público achasse mais satisfatórias do que os originais. Para usar o termo preferido pelos historiadores da religião, o nome do gênero da escrita sobre santos é hagiografia, que é a forma no grego para ... "escrever sobre santos".

Maria Madalena, representada em Köln,
Dombibliothek, Codex 1117 fol. 101r
Vejamos a sempre popular Maria Madalena como exemplo. Sua última encarnação, como símbolo cristão do feminino e da fertilidade, deriva do livro de Michael Baigent, Richard Leigh e Henry Lincoln, A Linhagem do Graal (Holy Blood, Holy Grail),  de 1982, uma obra pseudo-histórica sensacionalista, mas extremamente popular, que alegou que os primeiros reis medievais da França eram descendentes de Cristo e Maria Madalena e que o “san graal” ou “Santo Graal” era na verdade o “sang real” ou “Sangue Sagrado” de Cristo. Essa teoria (se é que pode ser chamada assim) foi adotada por Dan Brown em seu infeliz best-seller O Código Da Vinci, que se tornou um filme de Tom Hanks. No entanto, incluindo a fanfic de Brown da teoria da conspiração de Baigent, Leigh e Lincoln, houve nada menos que quatro encarnações da personagem, cada uma com uma história diferente.

Maria Madalena aparece pelo nome na Bíblia cristã em cinco lugares distintos: Como mulher assediada por demônios em Lucas 8: 1–2; na crucificação em Marcos 15:40; uma breve menção como seguidora de Jesus em Mateus 27: 55–56; no sepultamento em Mateus 27:61; encontrando o túmulo vazio em Mateus 28: 1, Lucas 24: 1–10 e João 20: 1; e, finalmente, anunciando a ressurreição aos discípulos em Marcos 16: 9–10.


A Legenda Áurea é a maior compilação de vidas de santo
 feita no Ocidente e, claro, reescreve muitas
histórias ao gosto do século XIII.
Compare isso com a extensa biografia que ela recebe na Legenda Áurea do século XIII, escrita pelo dominicano Jacobus de Voraigne (m. 1298), onde se torna uma mulher de linhagem nobre e apóstola por seu próprio mérito que viaja para o sul da França, para pregar as Boas Novas e realizar milagres enquanto viva e depois da morte - o mais interessante é ajudar mulheres no parto, salvar crianças da morte e levar seus seguidores a um templo submerso revelado uma vez por ano à beira-mar. (Essas histórias, particularmente o santuário submarino, remanescente da história de Melusina, podem ser uma memória cultural de um culto pagão à fertilidade que foi assimilado no curso de cristianização da área e que aparece no romance vencedor Booker prize Possessão (Possession) de A.S. Byatt. [3] Por outro lado, Jacobus de Voraigne não menciona Jesus expulsando seus demônios: de uma endemoniada potencialmente perturbadora, Maria Madalena foi transformada em uma "confiável" confessora e penitente.

Mas versões diferentes ainda persistiram. Por exemplo, duas grandes igrejas  de peregrinação medievais - Vézelay, na Borgonha, e Saint-Maximin, perto de Aix-en-Provence - afirmavam ser o local de sepultamento de Maria Madalena. Muito parecido com a Disney assumindo o Universo da Marvel (ou de Star Wars ... ou Os Incríveis), a Igreja gostava de manter controle abrangente do “universo estendido” e fundir versões diferentes em um cânone abrangente. Mas versões não oficiais - "crença leiga" - ainda persistiam. Dessa maneira, a hagiografia era, assim como a ficção de fãs moderna, um meio de pegar uma narrativa compartilhada e transformá-la para atender a diferentes necessidades sociais.


Basílica de Santa Maria Madalena de Vézelay.
Uma linha do tempo de Madalena

Início do primeiro século d.C.: A Maria Madalena histórica, Lázaro e Marta vivem na Palestina. Segundo a tradição grega, Madalena retirou-se com a Virgem [Maria] para Éfeso e lá morreu. Segundo a tradição latina, Madalena, com a irmã Marta e o irmão Lázaro, viajam para Provença, onde espalham o evangelho. Lázaro se torna bispo; Maria Madalena vive penitente por trinta anos em uma gruta em La Sainte-Baume. No final de sua vida, os anjos a transportam fisicamente para a igreja de Saint-Maximin, perto de Aix-en-Provence, onde ela morre.

Início do século III: Hipólito, bispo e mártir de Roma (m. 235), em sua exegese do Cântico dos Cânticos, escreve que a noiva que procura seu marido nos jardins prefigura tipologicamente Maria e Marta. Isso não apenas a primeira vez que um texto combina Marta e Maria Madalena, mas que identifica Maria Madalena com a Maria de Betânia, e estabelece Maria e Marta em seus papéis de testemunhas.


Relíquias de Santa Maria Madalena em Saint-Maximin.
407: Lázaro, bispo de Aix, é investido em Marselha. Seu túmulo na igreja de São Victor mais tarde leva à confusão entre o bispo do século V e o Lázaro bíblico, que ressuscitou dos mortos por Jesus.

Início do século V: Agostinho (no Sermão 232) explica Maria Madalena como uma nova Eva que, ao receber as notícias da Ressurreição, restaurou a ordem da criação e redimiu o pecado original: por uma mulher a morte, por uma mulher a vida. (A Virgem também age tipologicamente como uma nova Eva, trazendo Cristo ao mundo.)

c. 513–14: A um passo da unificação das Marias, Ambrósio, aumenta a “confusão de Marias” nos Evangelhos, ao sugerir em seu Expositio Evangelii secundum Lucam que pode haver duas Maria Madalena. [4]


Maria Madalena de Bernardino Luini, c. 1524.
720: Beda estabelece 22 de julho como o dia de festa de Santa Maria Madalena

745: Segundo o cronista Sigebert (século XII), os restos mortais da Madalena Latina foram transferidos de Saint-Maximin para Vézelay, a fim de salvá-los dos sarracenos. (A data é dada alternativamente como 749; a história provavelmente se originou no século XI.)

Início do século IX: A primeira vida de Maria Madalena, a vita eremitica, é escrita no sul da Itália, talvez por um monge cassianita. Esta vida une Maria Madalena com Santa Maria do Egito, uma santa penitente e ex-prostituta. Essa vida circula rapidamente, chegando à Inglaterra em meados do século IX.

886: As relíquias da Maria Madalena grega são transferidas de Éfeso para Constantinopla.


 Maria Madelena de Carlo Crivelli, 1480.
Amsterdam Rijksmuseum.
Final do século VII/início do século IX: está escrita a vita evangelica, uma reunião de todas as passagens bíblicas pertencentes a Maria Madalena, Maria de Betânia e a "pecadora" de Lucas. Provavelmente, é originário de Cluny e é significativo por unir todas essas personagens em uma mesma pessoa.

Século IX-X; Começam a aparecer sinais do culto a Maria Madalena - uma relíquia em Exeter, um altar em Halberstadt, Alemanha - no século X e em maior número no século XI.

1040: O Papa Bento IX menciona as relíquias de São Lázaro em conexão com a consagração da igreja de São Victor na Provença.

1050: A igreja românica do século IX em Vézelay, na Borgonha, que passou a ser associada a Cluny, é re-dedicada da Virgem para Maria Madalena. A igreja se torna um grande centro de peregrinação; é aqui, por exemplo, que São Bernardo pregou a Segunda Cruzada.

Início do século XII: Sigebert escreve seu Chronicon sive Chronographia; ele, juntamente com outros cronistas, data da transferência das relíquias de Maria Madalena para Vézelay no século VIII.


Maria Madalena (segurando um pote de unguento), Maria do Egito,
Margarida perfurando um dragão e um mártir segurando
uma palma, do Queen Mary Psalter, Biblioteca Britânica Royal MS 2 B VII, f. 308v.
1200s: Os cultos de São Lázaro e Santa Maria Madalena começam a se espalhar na Provença.

1209: A Cruzada Albigense começa.

1212: Gervásio de Tillbury menciona Lázaro como tendo sido um bispo provençal em sua Otia imperialia.

1229: A Cruzada Albigense termina.

1267: São Luís visita Vézelay e obtém algumas das relíquias de Maria Madalena para sua coleção particular. Claro, Saint-Maximin também afirma ter suas relíquias.

1279: A cripta da Madalena em Saint-Maximin é aberta pelo príncipe Angevino Carlos de Salerno e seus restos mortais são examinados. De acordo com a crônica de Bernardo Gui (ca. 1311-31), um cheiro doce é observado e uma folha de palmeira cresce da sua língua.


Tilman Riemenschneider, Maria Madalena,
1490-92, do altar da Magdalen, de Münnerstadt,
Bayerisches Nationalmuseum, Munich
1270: Jacobus de Voragine escreve a Legenda Áurea, que inclui o translado das relíquias para Vézelay

1311–31: Bernardo Gui escreve sua crônica.

1315: Os dominicanos de Saint-Maximin produzem o Livro dos Milagres de Santa Maria Madalena, demonstrando a eficácia de suas relíquias e a impotência das que estão em Vézelay.

Depois de 1458: A Legenda Dominicana une a dinastia Angevina, os dominicanos, Maria Madalena e Jesus Cristo.

1600: Clemente VIII envia um sarcófago para Saint-Maximin para os restos mortais da santa. Sua cabeça é mantida em um vaso separado.


Maria Madalena lendo  (1445) de Rogier van der Weyden.
1793: A gruta de La Sainte-Baume é destruída pela Revolução.

1814: La Sainte-Baume reconstruída.

1822: A gruta é reconsagrada.

1859: La Sainte-Baume é restabelecido como local de peregrinação.

Final do século XIX aos nossos dias: ocultistas como Bérenger Saunière começam a unir Maria Madalena aos Merovíngios, aos cátaros, aos cavaleiros templários, aos cultos pré-cristãos de fertilidade, à Capela Rosslyn, aos OVNIs, à Área 51 e qualquer outra coisa que favoreça. mentes pequenas podem pensar.

1969: A Igreja separa oficialmente Maria Madalena, Maria de Betânia e a "mulher pecadora".

Monica Bellucci como Maria Madalena.
1982: É publicada uma Linhagem do Graal, alegando que Jesus e Maria Madalena foram os ancestrais da dinastia merovíngia da Gália franca.

2003: Dan Brown publica O Código Da Vinci.

2003: Monica Bellucci interpreta Perséfone, a esposa/namorada/parceira do Merovíngio, em Matrix: Revolutions.

2004: Monica Bellucci interpreta Maria Madalena/da Betânia/a mulher pecadora no filme espetáculo gore pré-Vaticano II de Mel Gibson, A Paixão de Cristo. Coincidência?

Ken Mondschein é professor de história na UMass-Mt. Ida College, Anna Maria College e Boston University, bem como um estreito de esgrima e justificador. Clique aqui para visitar o site dele.

[1] No livro Fanfiction: Why Fanfiction is Taking the World, organizado por Anne Jamison, é mostrado que as primeiras fanfictions são bem anteriores e datam do final do século XIX.  As mais antigas, segundo este livro são envolvendo Sherlock Holmes e o Dr. Watson.  Surpresa nenhuma, mas, sim, a versão de que tudo começaria com Jornada nas Estrelas ainda é a que mais circula, especialmente, na internet. O livro tem edição em português, também.
[2] Um "spec script", também conhecido como roteiro especulativo, é um roteiro não comissionado e não solicitado. Geralmente, é escrito por um roteirista que espera ter o roteiro analisado e eventualmente comprado por um produtor, produtora ou estúdio.
[3] Eu tenho o livro Possessão e não sei onde coloquei.  Em 2017, resenhei o filme baseado no livro.  Sei que ele se afasta bastante do original, nem sequer menciona Maria Madalena, ou dá muita bola para o tal santuário submerso, mas é um filme bem interessante.  A resenha está aqui.
[4] Aqui, não sei por qual motivo, o autor deu uma grande deslizada.  O Ambrósio mais importante desses primeiros séculos da igreja cristã ocidental é Ambrósio de Milão (340-397).  Fui procurar por desencargo de consciência a autoria e datação do texto Expositio Evangelii secundum Lucam (Exposição do Evangelho segundo Lucas) e, sim, é de Ambrósio de Milão.  Enfim, está mais de um século antes do que o autor colocou.  Talvez a cronologia tenha outros problemas, mas eu não parei para checar o resto, talvez devesse.

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