domingo, 1 de dezembro de 2019

Comentando A Revolução em Paris (França/2018): Era para ser um filme 'revolucionário" sobre a Revolução Francesa, mas não foi!


Já que devo ter que dar aula de Revolução Francesa no ano que vem, fui assistir ontem ao filme A Revolução em Paris, a película mais recente sobre a mais importante revolução da História ocidental (*sim, não se discute, ainda que você possa gostar mais de outra*).  Não achei o filme grandes coisas, uma boa ideia, sem dúvida, retratar a Revolução a partir de dois pontos de vista, o do povo, a massa, e o do rei, mas muito mal executado.  Nesse sentido, devo dizer que curiosamente, o título nacional é mais coerente que o original que é Un peuple et son roi, porque vemos muito do povo, mas pouco do rei.  


Primeira aparição do rei.
Fora isso, parece que um dos objetivos do diretor/roteirista,  Pierre Schoeller, é que você esteja com um caderno na mão marcando com um X no nome das personagens históricas conforme elas apareçam em tela e elas são muitas e elas ainda discursam. Bem chatinho isso, sabe?  Não dormi, nem tive sono, mas fiquei pensando o tempo inteiro em como aquele filme poderia, sim, ser muito melhor. Curiosamente, em um filme que, sim, dá protagonismo às mulheres, há uma figura cujo silêncio chega a gritar: Maria Antonieta (Maëlia Gentil).  Ela é xingada, as lavadeiras cantam seus muitos pecados, mas não lhe dão o direito de fala. 


As mulheres na Assembleia não em direito de fala.
 Como fazer um resumo desse filme?  O próprio diretor disse em entrevista que é uma crônica de acontecimentos, então, é isso que é na maioria do tempo, uma sequência de acontecimentos datados de forma linear.  Só que, no comecinho, ele se dá ao direito de fazer uns flashbacks da vida da personagem Basile  (Gaspard Ulliel), o que pode gerar certa confusão.  Enfim, começamos com a Queda da Bastilha e acompanhamos um grupo de personagens - um vidraceiro e sua família, Basile, o moço órfão e que encontra na revolução o amor e um sentido na vida - passando por vários eventos da Revolução devidamente legendados ("14 de julho de 1789, Paris, Queda da Bastilha*) e, às vezes, com um subtítulo qualquer para enfatizar sua importância.  


Os homens desmantelando a Bastilha.
De salto em salto, com raros desses eventos tendo algum desenvolvimento maior, terminamos com a execução de Luís XVI (Laurent Lafitte) com direito a um rei carregado de arrogância mesmo em seus minutos finais, muito sangue e uma cabeça exposta pelo carrasco em uma longa sequência final. 



A alegria de ver o sol brilhando na rua pela primeira vez.
O diferencial desse filme e que se coaduna com a sua proposta expressa no título original, e vermos muito do povo comum na tela.  No filme, o povo - esse bloco que nada tem de monolítico - é a motriz da Revolução Francesa, não são os políticos, embora eles tenham um grande tempo em tela, mas os homens e mulheres comuns que garantiram aos franceses de nossos dias que eles possam ter igualdade, liberdade e fraternidade.  Alguns deles, como Basile, ou as crianças, passam por um processo de radicalização e insensibilização diante da violência que vai em uma escalada ao longo da película.  E nem chegamos a ver o período Jacobino da Convenção (5/9/1793-27/7/1794) em toda a sua extensão, só nos deram um gostinho.


Esse rei em nada se parece com o dos
quadros e relatos sobre Luís XVI.
A Revolução em Paris é como um daqueles livros sobre a Revolução Francesa que a gente lia em Moderna II, como A Multidão na História do George Rudé.  Só que a questão do movimento de massa, da fome, do inverno, das crenças, não é trabalhada no filme com a atenção necessária.  A maioria das personagens inventadas para o filme são gente pobre, comum, que abraça os ideais revolucionários, mas como são muitas, não recebem o devido aprofundamento.  De todas elas, somente o vidraceiro (Olivier Gourmet), chamado de Tio por todos, sua esposa (Noémie Lvovsky), Basile e  Françoise (Adèle Haenel) são razoavelmente desenvolvidos, mas é só, tudo é muito fragmentado.


Reine Ardu, uma personagem histórica, lidera as mulheres.
O filme poderia ser mais interessante se optasse, e seria algo ousado, em focar realmente na multidão e somente nela, mas o diretor quis tecer subtramas e parte do princípio, que o expectador tem na cabeça toda a cronologia da Revolução Francesa e conhece intimamente suas personagens, já que ninguém será devidamente introduzido, no máximo terá uma legenda com seu nome embaixo. Filipe Egalité (Gérald Cesbron), Lafayette, Marat (Denis Lavant), Danton (Vincent Deniard), Saint-Just (Niels Schneider), Robespierre (Louis Garrel), Desmoulins (Etienne Beydon) etc. todos estão no filme.  E eu posso estar errada, mas duvido que a média dos franceses saiba todos esses fatos e fotos, ou que o ensino de História por lá se baseie em decorebas. 

Françoise se torna uma das militantes mais engajadas.
Todos esses, quando entravam em cena estavam caracterizados como nos famosos quadros que ilustram os livros e estão nos museus. Eu olhava e sabia quem era Danton (*bem corpulento*), Robespierre (*sua casaca listrada e os óculos*), Marat (*uma caricatura ambulante encarnada por um ator excelente*) e vários outros.  Mas eles não eram devidamente apresentados para quem estava assistindo ao filme, não tinham conexões para fora da assembleia, eles simplesmente estavam lá.  E os partidos?  Em nenhum momento ouvi falar em jacobinos, talvez, eu tenha perdido alguma coisa, embora estivessem todos os seus líderes ali diante dos nossos olhos.  

Os deputados monarquistas levam a Declaração dos
Direitos do Homem para a aprovação do rei.
Falaram em Gironda, Cordeliers e Sans-Culottes, mas sem dizer o que eram, o que defendiam.  Fala-se de clubes, mas não se explica o que são, também.  Era mais fácil olhar e dividir os sujeitos entre monarquistas e os que queriam se livrar do rei.  E não houve no filme aquela introdução didática com algum nobre mostrando-se insensível com o povo, maltratando os pobres, ou o que seja, simplesmente, a revolução aconteceu sem que se quisesse convencer a audiência, dos motivos.  Sabe você assistir uma minissérie do segundo capítulo?  Meio assim, o público leigo, ou que esqueceu as lições básicas sobre a Revolução Francesa que se vire.

O Massacre do Campo de Marte. 
Um dos pontos altos do filme.
Outro exemplo de que o filme não é para o público leigo, é que, no início do filme, uma personagem acusa outra de ser "partidário de Filipe Egalité", o Duque de Orleans (*veja a resenha do filme Maria Antonieta*), um dos piores conspiradores contra Luís XVI, porque tinha interesse em tomar o trono para si.  Ele é a única personagem masculina da Rosa de Versalhes que pode ser chamada de vilão.  Enfim, fiquei esperando até a cena longuíssima da condenação de Luís XVI, quando mais de vinte deputados aparecem votando, para ver Filipe Egalité em cena, porque, bem, o voto dele é importante, mas, para o diretor, não era relevante mostrá-lo como personagem.


A irmã e o cunhado de Françoise são mortos.
O caso do Marquês de Lafayette (1757-1834) é ainda pior, porque ele não aparece em cena nenhuma vez, por isso, não escrevi o nome do ator que o interpreta.  Ele é citado, ele é acusado, mas ele não é mostrado.   Não chega a ser uma difamação em sentido amplo, simplesmente, o diretor/roteirista toma como verdade as acusações da historiografia mais tradicional, de que Lafayette seria monarquista e traidor, e não as discute.  Ele é outro que não tem o direito de fala no filme.  


Basile e Françoise se entendem.
A Revolução em ParisO filme abraça essa versão como verdade e ao apresentar o Massacre do Campo de Marte (*17 de julho de 1791*), uma das poucas passagens bem detalhadas no filme, não mostra a multidão enforcando dois suspeitos de espionagem, nem atirando na Guarda Nacional.  Na versão do filme, os soldados de Lafayette atiraram primeiro, ele era anti-povo e um assassino.  O filme não mostra os massacres de setembro, nem sequer fala deles, pula acontecimentos indigestos, que apontam inequivocamente para os abusos cometidos durante a Revolução.  É uma escolha que não me agradou.


Basile via o rei como uma divindade.  E o circo pegando fogo e
Maria Antonieta na janelinha como se nada tivesse com o caso.
Falando do rei, e que presença cênica tem o ator Laurent Lafitte, o diretor disse na entrevista que linkei que queria apresentar um Luís XVI diferente, que não fosse uma vítima da Revolução.  Bem, o filme rompe absolutamente com os relatos que temos sobre a personalidade do rei e se afasta por completo da sua imagem nos quadros de época.  Luís é descrito como inteligente, mas tímido, gostava de trabalhos manuais (*ele fazia chaves e fechaduras*), era muito religioso e normalmente gentil com todos.  E ele era obeso.  Até nesse detalhe o filme rompe com a imagem histórica do monarca, ele é xingado pela multidão de "gross", "gordo", e eu fico procurando o "gordo" em tela e não acho.  


O Tio e Solange, sua esposa, vão se radicalizando ao longo do filme. 
Ela estava na Queda da Bastilha, ele não estava.
Só digo o seguinte, com um rei com a atitude e o olhar de  Laurent Lafitte não rolava Revolução MESMO.  É como eu escrevi na resenha do filme Maria Antonieta (1938), se a rainha tivesse sido tão virtuosa durante o governo do marido, não haveria Revolução, não como ela aconteceu.  Enfim, não é questão de pintar o rei como vítima, porque a maioria dos filmes sobre a Revolução não o apresentam desse jeito, mas como um sujeito até legal que cometeu erros, porque não era talhado para governar.  


Esse menininho aparece o filme inteiro. 
Qual o nome do ator?
Como não nos mostram os motivos da Revolução, aquela introdução didática que todo filme costuma trazer, não sabemos o motivo de Luís não ser vítima.  Será por ser arrogante?  Por seu olhar de desprezo para com o populacho?  Sim, desde a primeira cena, quando Luís estava lavando os pés dos meninos pobres na Sexta-Feira da Paixão, momento que seria solene para um homem tão religioso quanto o rei era, ele é apresentado como antipático e olha com ódio para um menino,  porque o garotinho diz "um dia eu usarei tamancos". É nesta sequência que vemos Maria Antonieta rapidamente, risonha, cabeça de vento, super arrumada.  Em 12 de abril, Sexta-Feira Santa de 1789, as coisas já estavam bem feias em Versalhes, o filho mais velho dos monarcas já estava desenganado pelos médicos, morreria em 4 de junho.


De Versailles para as Tulherias, mas sem vermos
a coerção das mulheres e dos que estavam com elas.
De qualquer forma, pouco vemos do rei, apesar dele estar no título original e nem se trata de difamação, a forma como ele é apresentado é má ideia mesmo.  Luís é mostrado em breves cenas sempre super confiante e com um ar arrogante ou de raiva.  A caminho da guilhotina, ele aparece lendo um Salmo que fala de vingança.  É difícil conciliar esta imagem com tudo o que eu sei sobre Luís XVI, só consigo pensar que a escolha do diretor foi totalmente equivocada.  Agora, há uma cena excelente com Luís XVI, a única em que ele se mostra fraco, que é o sonho com três reis que fizeram a glória da França: Luís XI (Serge Merlin), Henrique IV (Patrick Préjeane) e Luís XVI (Louis-Do de Lencquesaing).  De novo, as figuras são quadros vivos e a cena é um dos poucos momentos em que o fato de parecer um teatro filmado, o que acontece em inúmeras sequências, não atrapalha a película.


O rei enfrenta o seu destino.
Destaque do filme vai para mostrar a participação das mulheres na Revolução.  Duas das personagens melhor desenvolvidas são mulheres: Solange (*acho que é seu nome*), a esposa do tio e Françoise, a lavadeira que acaba se apaixonando por Basile.  A participação das mulheres na Queda da Bastilha (14 de julho), pressionando a Assembleia, participando dos diversos acontecimentos é minuciosamente mostrada.  Curiosamente, a Marcha das Mulheres sobre Versalhes (5 e 6 de outubro), que começa de forma espetacular, e como está no início do filme, eu ainda acreditava que a película seria boa, é cortada.


A Marcha das Mulheres poderia ter
 sido um dos pontos altos do filme... poderia...
As mulheres juntas, de todas as idades, camponesas, burguesas, lavadeiras, jovens, velhas, a massa coreografada, a fotografia, tudo era lindo.  Há o discurso de Reine Ardu (Céline Sallette), uma personagem histórica que participou de vários eventos revolucionários com armas em punho e que sumiu em algum momento dos registros históricos, é empolgante.  Daí, quando eu espero que as mulheres cheguem a Versalhes e que Maria Antonieta tenha que ir até a sacada e se curve diante do povo, acaba.  Não temos nada disso e seguimos para uma cena anti-climática.  


Por qual motivo as mulheres não podem ser cidadãs pelnas?
Ainda assim, uma das melhores cenas do filme, repetindo que uma película, ou novela, não pode ser elogiada por sequências isoladas, é uma discussão fictícia sobre cidadania entre homens e mulheres.  Sai uma primeira versão da constituição com várias demandas populares acatadas, menos a cidadania das mulheres.  "Mas eu participei da Queda da Bastilha!"  "Eu estava lá, também!" "Eu peguei em armas!" "Todos são iguais, eu sou uma cidadã!"


Marat, o incendiário populista, e Saint-Just, o "anjo da morte".
O olhar dos homens para aquelas bravas mulheres é de deboche, desprezo e complacência.  Não se enganem, quando "homem" aparece nos textos revolucionários é "homem" do sexo masculino e branco, não estão pensando em outros.  Os nobres e a alta burguesia, nem pensavam nos pobres, aliás, neste primeiro momento, até o voto universal masculino é rejeitado.  Sim, tudo isso é discutido no filme.  Aliás, o que das discussões políticas da época este filme não discute?  Não saberia dizer, o problema é como discute.


Françoise e Basile.  Senti falta de cena em que obrigam
o rei a usar o barrete, mas o rei do filme jamais se submeteria.
Agora, se as mulheres do povo tem muito espaço, algo notável, repito, Maria Antonieta mal aparece e quando está em cena mostra uma apatia e ar afetado que não tem sustentação nos relatos dos seus últimos dias.  Algo que é sabido e relatado, está na Rosa de Versalhes, inclusive, é que quando a família real é capturada na Fuga para Varennes, a rainha ficou tão abalada que seu cabelo fica completamente branco.  Em A Revolução em Paris, Maria Antonieta continua impecável e com ar de alheamento em relação ao desespero ao seu redor.


Maria Antonieta é a atriz que está de frente.
No filme, Maria Antonieta, interpretada por uma atriz muito bonita, mas que em nada parece com as imagens que temos da original nos quadros, parece que não é com ela.  Uma nobre que fala em certo momento, e que eu suspeito que seja Madame Elisabeth (Lucile Durant), irmã do rei, parece mais preocupada com a situação desesperadora.  Já os filhos do rei e da rainha parecem estar meio drogados, crianças sem vida e sem ações relevantes na película, totalmente indiferentes aos acontecimentos ao seu redor.


Clémence (Emma Stive) molha seu
lenço no sangue do rei.  Souvenir.
O filme mostra, também, as mulheres que que permaneceram fieis a monarquia.  Uma delas em especial (Audrey Bonnet), que aparece desde o início do filme, é muito piedosa, cuida das crianças (*Clémence e o menino do qual falarei aí embaixo*) e considera um pecado grave que matem o rei.  Muito bem, ela não é a única mulher a se sentir assim, mas é a única que tem voz.  Agora, quando os homens falam pela monarquia, seu discurso é racional, ainda que sob falsas premissas, ou preconceitos de classe.  O das mulheres, por outro lado, é emocional.  De qualquer forma, a posição do filme é pelo povo e contra o rei o tempo inteiro.  Outra coisa, parece em alguns momentos um filme feminista, mas não se enganem, só parece.


Nós vemos as lavadeiras trabalhando
e cantando ofensas à rainha.
Elogios ficam para o figurino, inspirado diretamente nos quadros e gravuras de época, e a fotografia, que é muito bonita.  Espero que o Frock Flicks analise as roupas em algum momento futuro, porque realmente as coisas me pareceram bem acima da média.  Lamento não ter conseguido identificar o menino lourinho que participa do filme inteiro, do lava pés até as últimas cenas, ele luta nas Tulherias (*quando a família real tem que se refugiar na Assembleia e dali ir para a prisão no Templo*), se recusa a voltar para casa (*"Volte para a sua mãe!" "Não tenho mãe, ela foi morta."*), mata como se fosse gente grande e foi um inferno achar uma imagem dele.


Robespierre ainda não tinha tomado
o poder, mas era um grande orador.
É muito difícil resenhar um filme quando eu o considero ruim.  Perdi mais tempo escrevendo esse texto do que deveria e gostaria, e não consigo ver de outra forma esse A Revolução em Paris, o filme é fraco e chato.  O filme tem sequências excelentes se visas isoladamente, já o todo, não funciona.  Ele pontua alto ao representar as mulheres na Revolução, extrapola a Bechdel Rule, mas raramente vi uma Maria Antonieta tão mal representada.  De novo, o filme tem um lado e o leva à ferro e fogo.  Não o recomendo, eu deveria ter ido ver Adam, o concorrente do Marrocos ao Oscar e que deve ser um filme bem mais satisfatório.


Há outros fanarts no Tumblr.
Concluindo com uma tolice, mas eu morro se não escrever.  Olhei os atores que fazem Saint-Just e Robespierre e fiquei pensando que shipparia os dois fácil.  Sim, existe uma fujoshi adormecida aqui dentro, como o filme estava chato, ela acordou para observar outras coisas.  Pois bem, procurando fotos, não é que alguém no Tumblr teve a mesma ideia?  Coloquei o fanart.  E Louis Garrel (Robespierre) será o Professor Bhaer no novo Little Women.  Ainda não o vimos caracterizado, mas tenho tanto medo desse filme ser uma bomba que saber que o ator é bom, que tem uma idade razoável, não me serve de consolo.


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