segunda-feira, 23 de dezembro de 2019

Esperança Garcia a mulher escravizada que ousou, no século XVIII, escrever uma petição ao governador reclamando de maus tratos sofridos + Sugestão de Documentário


O Conselho Estadual da Ordem dos Advogados do Brasil no Piauí (OAB-PI) concedeu simbolicamente à Esperança Garcia o título primeira mulher advogada desse estado.  Quem foi Esperança Garcia?  Eu nunca havia ouvido falar dela, lido nada sobre ela, mesmo que ela aparecesse citada no samba enredo da Mangueira deste ano.  Esperança Garcia foi autora de um texto pioneiro em termos de direitos humanos, direito da família e das mulheres na História do Brasil.  E acabei descobrindo que há um curta metragem sobre ela.  Tem uma matéria aqui.  Queria poder assistir, foi lançado este ano, mas não em circuito comercial.  

Esperança nasceu em uma fazenda de propriedade dos jesuítas, onde hoje fica o município de Nazaré do Piauí. Tinha 9 anos de idade, quando a ordem foi expulsa do Piauí pelo Marquês de Pombal, em 1759.  O que sabemos dela é que foi levada como escrava para uma fazenda estatal e que tornou-se cozinheira do administrador, o capitão Antônio Vieira de Couto, que cometia abusos.  Tornou-se cozinheira, teve sua primeira criança aos 16 anos.  Em 1770, com 19 anos de idade, escreveu uma carta ao governador da capitania do Maranhão (*não havia Piauí*), Gonçalo Lourenço Botelho de Castro, denunciando os maus-tratos que sofria. Pedia ainda para retornar à Fazenda Algodões e para ter sua filha batizada.

Quando você olha essas mulheres negras, você as
imagina capazes de escrever?  Ainda mais petições
às autoridades reclamando de maus tratos?
Ela não deveria saber ler, muito menos escrever, mas os jesuítas lhe ensinaram, ou, talvez, nunca saberemos ao certo, ela tenha aprendido sozinha, observando outros lerem, ou textos escritos.  A carta é bem organizada, muito mais do que outras cartas que eu tenha visto escritas por pessoas humildes, sejam elas de cor, ou não, da época.  Segue a petição escrita por Esperança:
"Eu sou uma escrava de V.S.a administração de Capitão Antonio Vieira de Couto, casada. Desde que o Capitão lá foi administrar, que me tirou da Fazenda dos Algodões, aonde vivia com meu marido, para ser cozinheira de sua casa, onde nela passo tão mal. A primeira é que há grandes trovoadas de pancadas em um filho nem, sendo uma criança que lhe fez extrair sangue pela boca; em mim não poço explicar que sou um colchão de pancadas, tanto que caí uma vez do sobrado abaixo, peada, por misericórdia de Deus escapei. A segunda estou eu e mais minhas parceiras por confessar a três anos. E uma criança minha e duas mais por batizar. Pelo que peço a V.S. pelo amor de Deus e do seu valimento, ponha aos olhos em mim, ordenando ao Procurador que mande para a fazenda aonde ele me tirou para eu viver com meu marido e batizar minha filha.


De V.Sa. sua escrava, Esperança Garcia”
Não podemos esquecer.
A carta, de 1770, nunca foi respondida.  Sabemos que Esperança Garcia fugiu da fazenda e oito anos depois seu nome foi mencionado em uma relação de trabalhadores da Fazenda de Algodões. Entre os escravizados foi mencionado um casal Ignácio e Esperança. Ele, um negro de Angola, de 57 anos; ela, crioula, com 27 anos; na relação, aparecem também sete crianças.

Esperança pode ser um caso único, ou o primeiro, mas pode, também, ser uma pista da complexidade das relações na sociedade brasileira colonial.  Escravos e escravas que sabiam ler e escrever, senhores que eram analfabetos.  Escravos e escravos que ousavam escrever petições às autoridades, mesmo que não fossem ouvidos.  é importante, também, a evidência de que as mulheres em especial não eram um bloco monolítico, sempre assujeitadas, sempre excluídas do mundo das letras.  Sim, não é bom tornar exceções regras, mas é pior ainda nãos e questionar a respeito de estereótipos, ou da invisibilização dos feitos daqueles que a sociedade considera subalternos, sejam mulheres, negros, indígenas, mestiços, pobres etc.  Segue um documentário sobre Esperança Garcia e a escravidão no Maranhão daquele período que achei no Youtube:


A História do Possível, um conceito importante criado pela minha orientadora de doutorado, é aquela que não tem medo de fazer perguntas, porque acredita no plural do humano e que as respostas podem não ser sempre as mesmas a depender de quem pergunta e do que pergunta.  Espero que vocês entendam o quão importante é contar esse tipo de história em nossos dias, quando temos uma guerra para eliminar quase trinta anos de estudos históricos tirando qualquer protagonismo daqueles que são considerados subalternos em relação aos homens que se acham brancos e cristãos, que são ricos, e podem reescrever a História a seu bel prazer.  Dentro dessa nova e tão velha narrativa, um dos objetivos é naturalizar e legitimar a escravidão.  Enfim, usei como fonte para esse post o texto do Observatório do Terceiro Setor e a Wikipedia.  

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