sexta-feira, 24 de janeiro de 2020

A maioria dos homens japoneses não tira licença paternidade


Segundo levantamentos feitos no Japão em 2018, cerca de 82% das mulheres das companhias privadas tiram sua licença maternidade, enquanto no caso dos homens não chegamos a 6%.  Entre os funcionários públicos, que são concursados e gozam de certa estabilidade, a porcentagem chega a 21%.  E isso em um país no qual a licença é de até 1 ano para ambos.  A discussão ganhou destaque, porque recentemente o Ministro da Saúde, Trabalho e Bem-Estar Social, Shinjiro Koizumi, de 38 anos, pediu sua licença paternidade para acompanhar sua esposa, Christel Takigawa, e virou notícia não somente no país, mas no mundo, porque encontrei o nome dele não no Sora News, minha fonte primária, mas no New York Times.  

Koizumi, que é descrito no NYT como um sujeito que vem construindo sólida carreira e que pode, um dia, chegar a primeiro-ministro, é o primeiro membro do governo na História do país a pegar sua licença paternidade e falou publicamente sobre o assunto estabelecendo que, sim, está fazendo isso também para dar o exemplo.  Já discutimos anteriormente a queda de natalidade no Japão e a recusa das mulheres em se casar, isso, aliás, é fenômeno em parte considerável da Ásia.  Comentamos, também, sobre um estudo feito sobre o governo Japonês que destacou que sem uma mudança nos papéis de gênero (*como homens e mulheres devem se comportar para serem vistos assim em sociedade*), a coisa não irá acontecer.  Nesse mesmo post, comentei que é preciso mudar a forma como o capitalismo japonês opera, o que, bem, pode não ser do interesse dos empresários.

O ministro e sua esposa.
Passando para o SN, eles levantam essa questão.  Boa parte dos homens japoneses não tira licença paternidade, porque é pressionado no trabalho para não fazer isso. Mecanismos de garantia do emprego precisariam ser criados (*aqui, é a Valéria escrevendo*). Nem é só isso, aliás, achei um artigo da CNN, comentando a questão e que trás o caso de um funcionário que ousou tirar a sua licença e foi punido ao retornar, colocado em uma função muito pesada e submetido à pressões, ele terminou sofrendo danos a sua saúde física e mental.  E, quando tiram a licença, normalmente, a licença é de, na média, cinco dias.  Fora isso, é meio que culturalmente assentado (*olha os papéis de gênero*), que homens não devem abandonar o trabalho, nem se a lei lhes permitir, para cuidar dos filhos.

Só que o SN foi um pouco mais fundo, na redação do site há um funcionário que tem uma criança de 3 anos.  Perguntaram a ele por qual motivo não tirou a licença, já que a redação do Sora News é um lugar acolhedor e que não promove esse tipo de pressão.  O sujeito deu duas respostas, a primeira é que nunca conheceu nenhum homem que tenha usado o benefício, então, ele decidiu não usar.  Segundo, o ambiente de trabalho é cem vezes menos estressante do que cuidar de um bebê.  Ele não defendeu que as mulheres fiquem em casa, mas que uma rede de creches  e escolas maternais de qualidade e acessíveis poderiam acolher as crianças pequenas sem sobrecarregar os pais.

Redação do Sora News.
Enfim, eu gosto de maternar, mas tenho que concordar com o funcionário do SN que cuidar de um bebê e de uma criança pequena é muito mais desgastante do que dar aula.  Claro, eu não trabalho em três turnos, minha carga é menor, mas, ainda assim, depois de sete meses de licença maternidade (*6 meses + férias*), eu, Valéria, é um relato pessoal, afinal, queria voltar correndo para a sala de aula.  Amo minha filha, mas não me imagino sendo mãe que fica em casa, faria mal para a minha saúde mental.  Agora, no Brasil, muitas mulheres não podem fazer isso, elas tem medo de serem demitidas, ou não podem voltar ao trabalho, porque pagar uma escola infantil consumiria o mesmo, ou mais, do que recebem.  Já os homens brasileiros tem uma licença muito menor e é muito comum que a figura do pai não exista mesmo no núcleo familiar.  

No Brasil, com o confisco de direitos trabalhistas, nosso futuro está bem nebuloso, porque o modelo é os EUA, único país desenvolvido sem licença maternidade remunerada, e até o que temos pode nos ser tirado.  Agora, no Japão, a despeito da pressão dos empregadores e colegas, o problema é cultural e, claro, um homem pode fugir de cuidar de um bebê e, ainda assim, ser visto como bom pai, uma mulher, se tentar fazê-lo, ou fizer, será julgada duramente e isso independentemente do país.

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1 pessoas comentaram:

(desculpe a falta de acentos, eu nao tenho no teclado)
O que nao se fala e que o salario cai pela metade e os impostos estao ai pra a gente pagar. Apenas a mulher que tira a licenca maternidade, e diga-se de passagem, so tira porque pari, que e de dois meses e meio (o restante e a dita licenca para a educacao do filho onde se ganha apenas 60 por cento do salario) tem desconto no imposto da previdencia e seguro saude, os outros tem de pagar. Nao sao todas as mulheres que podem receber o dinheiro da licenca maternidade. Apenas as que pagam o seguro do governo. As exigencias pra mulher receber a licenca de cuidar dos filhos sao ainda maiores. O parto aqui custa uma fortuna e mesmo recebendo a ajuda do governo, dependendo da cidade, nao cobre o valor total (que e o meu caso). Estou gravida e tenho estabilidade na minha empresa, mas prevejo um arroxo nas financas da casa com minha licenca. Meu marido tambem vai tirar, mas nao por um ano, pelo fato de nao termos dinheiro pra sustentar a casa nesse periodo. Queriamos muito poder tirar mais. Felizmente ele nao sofre pater-hara (assedio de paternidade)na empresa, mas eu sofro mater-hara na minha. A situacao e bem triste. Nem vou comentar a questao de falta de creches que nao posso passar nervoso.

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