quinta-feira, 23 de janeiro de 2020

Comentando Adoráveis Mulheres (EUA/2019): Novos Ares para um Velho Clássico


Segunda-feira, fui assistir Adoráveis Mulheres (Little Women) de Greta Gerwig e estou martelando a resenha já por algum tempo.  Não sei ainda como esse texto vai ficar, muito provavelmente, vai extrapolar aquilo que normalmente chamo de resenha (*e que nem sempre merece esse nome*), porque sei que não vou me conter mesmo. Tentando organizar as coisas, vamos lá!  Adoráveis Mulheres revisita um livro que é um dos mais queridos da literatura norte americana e considerado um pioneiro quando se trata de literatura juvenil para meninas.  A película faz parte das comemorações dos cento e cinquenta anos da obra de Louisa May Alcott, lançado em 1868.  

Se você visitou o blog na segunda, ou depois, viu que eu publiquei a tradução de um artigo de 2018  da revista New Yorker que fazia referência ao então futuro filme e discutia como a obra, Little Women (*e sua continuação, Good Wives*), se tornou um fenômeno literário que foi transposto para várias mídias: teatro, cinema, TV, quadrinhos, animação (*três delas japonesas*), musical etc.  Vou contar em linhas gerais a trama do livro semi-autobiográfico, que é mais que conhecida, e começarei a comentar o filme logo em seguir.


Quatro irmãs que se amam, apesar das diferenças. 
E foi muito bonitinha a cena da Jo chorando pelo cabelo perdido.
Little Women conta a história das quatro irmãs March (Meg, Jo, Beth e Amy), mostra seu amadurecimento e a transição da adolescência para a idade adulta com suas alegrias e dores (Bildungsroman).  Elas estão em uma condição econômica muito precária, porque seu pai, que se voluntariou como capelão na Guerra de Secessão (1861-65), perdeu a fortuna da família.  As meninas moram com a mãe, a quem chamam carinhosamente de Marmee, e a criada, Hannah, que continuo com elas mesmo depois do empobrecimento.  Jo, a protagonista, que lamenta ser uma garota e, não, um rapaz, deseja ser escritora, e detesta trabalhar como acompanhante da Tia-avó rica. Quando começa a história, ela tem 15 anos e escreve peças que encena com as irmãs.  Logo no início do livro, durante um baile, ela acaba conhecendo e ficando amiga do recém-chegado Laurie, neto de Sr. Lawrence, o vizinho rico da família. 

Os laços entre os Lawrence e os March se estreitam graças a essa amizade e o Sr. Lawrence termina por apoiar a família tornando sua vida menos dura.  Já a filha mais velha, Meg, se apaixona pelo tutor de Laurie, John Brooke, para desespero de Jo, que queria que todas as irmãs permanecessem sempre juntas e da tia velha, que deseja que as meninas façam bons casamentos e possam trazer alguma fortuna e alento para a família.  Quando suas esperanças em Meg, a mais bonita das irmãs, são frustradas, já que Brooke é pobre e Jo resiste aos seus “conselhos”, a velha passa a investir na caçula, Amy, que responde positivamente aos seus ensinamentos, pois ela sonha em ser uma dama e poder usufruir de todos os benefícios que o dinheiro pode comprar.  Enquanto isso, Beth, a mais tímida das irmãs, tem como consolo a sua música e acompanhamos a saúde da menina oscilar ao longo das páginas.  Para Beth, não há sonhos de casamento, nem de carreira, todos só querem que ela fique na família o máximo de tempo que conseguir.


Jo e Laurie eram os melhores amigos.
Essa história terna e cheia de detalhes da vida cotidiana das garotas, questões que a maioria dos escritores homens não queria relatar e muitas das poucas mulheres que escreviam acreditava que não valia a pena relatar, foi sucesso imediato e possibilitou para a autora mais do que se sustentar e aos seus parentes, ela se tornou um dos grandes nomes da literatura Norte Americana.  Alcott inspirou-se em suas irmãs e família para escrever Little Women, a grande diferença em relação ao livro é que ela permaneceu solteira por vontade própria e controlando sua vida e fortuna, algo que seria impossível para uma mulher casada.  

Revisitando o Clássico Mais uma Vez, como fazer diferente?

O filme de Gerwig é a terceira adaptação de Little Women dirigida e roteirizada por mulheres.  A primeira foi o filme de 1994, a segunda, a minissérie da BBC de 2017.  Ambas as adaptações já eram uma leitura feminista de um livro que discute os direitos das mulheres, suas limitações e possibilidades em uma sociedade patriarcal, no entanto, elas não perdiam de vista que Little Women é uma obra moralizadora, que desejava ensinar bons comportamentos e valores para suas leitoras.  Gerwig manteve essas preocupações de época no filme acrescentando um tom de humor e crítica em vários momentos.  


Amy é a última esperança da família, na opinião da Tia March.
Por exemplo, a questão do casamento da protagonista do livro, a própria Jo, por exigência do editor é tratada no filme levando a audiência a refletir sobre a essa imposição e o que isso significava em termos dos comportamentos exigidos de homens e mulheres em uma determinada época.  Segundo o sujeito, uma boa heroína é a que se casa, ou morre, no final de um livro.  Os leitores não vão pagar para ler a história de uma mulher que termina sozinha.  Guardem essa ideia para quando eu for falar do par romântico de Jo (Saoirse Ronan) no filme de Gerwig.

Outro aspecto importante do novo Little Women é que o filme dialoga de forma intensa com a biografia da autora, deixando em evidência não somente as questões de gênero, mas as de classe.  Há inclusive um diálogo inventado para o filme, e que está em um dos trailers, entre a Tia March (Meryl Streep) e Jo para marcar que uma mulher rica, que deseje manter o controle sobre seus bens, pode ficar solteira, mas que as sobrinhas, por serem pobres, precisam casar.  Quando Jo revela para velha senhora que deseja ter uma carreira, Tia March deixa claro que isso não existe, mulheres respeitáveis não podem ter uma profissão e deixa claro que as carreiras possíveis para o sexo feminino são todas assemelhadas à prostituição.  


Meg se apaixona e se casa com um homem
pobre, mas ela gostaria de ser rica.
Tia March é uma criatura nascida no século XVIII, ela é contemporânea das heroínas de Jane Austen e é possível ver nessa discussão ecos do livro Emma, que foram muito bem retratadas no filme da ITV (*resenha*).  Lembrem da humilhação de Jane Fairfax, uma moça de boa família que, obrigada pela pobreza, precisa trabalhar como governanta.  O filme de Gerwig, apesar de dar mais destaque para Meg que a série da BBC de 2017, o que foi muito bom, não coloca na tela as lamúrias da jovem, a mais bonita das March a única que se lembrava de quando a família tinha sido rica, por ser pobre e  ter que trabalhar.  E qual era seu emprego?  Ser governanta de crianças que ela chamava de mal educadas.  O tempo passou, mas o ideal para uma dama da boa sociedade era estar distante do mundo do trabalho, mesmo em uma sociedade que a valorizava.  

Uma dama poderia e deveria fazer caridade, mas trabalhar?  Mesmo uma mulher pobre só deveria fazer os trabalhos domésticos, o que já era muito.  Aliás, mais uma vez deixaram de fora de uma adaptação o mais importante capítulo de Meg chamado "On The Shelf", que é quando é discutida a enorme carga de trabalho de uma dona de casa e como a jovem precisava de ajuda das outras mulheres (*a criança é de toda a tribo*) para cuidar dos gêmeos, de seus afazeres e dar atenção ao marido, que estava sendo negligenciado.  Trata-se de uma crítica ao modelo de esposa vitoriana que muita gente idealiza até hoje.  No filme, as March trabalham muito, mas só se mostra as tarefas de caridade.  Sim, isso é uma falha e grave dessa adaptação.  Até se usa Meg para  discutir a questão da pobreza, mas principalmente depois de casada e para reforçar que uma esposa deve viver de acordo com as possibilidades do marido.  Meg escolheu seu caminho, ela queria ser esposa, e desejou se casar com um homem pobre, Brooke (James Norton), deve aprender a se contentar com isso.


O filme não mostra o noivado de Meg e Brooke, só o casamento.
Falando nele, uma das minhas críticas à minissérie de 2017 (*resenha: 1 - 2/3*) foi terem praticamente anulado o rapaz.  No filme de Greta Gerwig, ele tem várias cenas, a maioria inventadas, já que a sequência do noivado, a melhor cena da Tia March no livro, foi cortada.  O problema das novas cenas de Brooke é que elas estão lá para marcar o quanto o rapaz é arcaico e fora de sintonia com as moças da família March.  Ele é o sujeito conservador, enquanto todas as outras personagens masculinas são progressistas, por assim dizer.  Brooke é um bom homem, mas não tem imaginação, é conservador e limitado.  Todas as cenas ternas do moço que estão no livro, e lá Meg diz que os olhos  castanhos são os mais românticos e não os azuis do ator, ficaram de fora.  Enfim, mas Brooke é a personagem mais prejudicada em todas as adaptações, o único que teve um pouco de sorte foi Eric Stoltz em 1994, de resto... 

Pronto, já me desviei do foco... Vamos voltar!  Não pensem mal do filme, ele é bom, um dos seus méritos é romper absolutamente com a narrativa linear, algo que nenhuma outra adaptação se propôs a fazer.  Não vemos a transformação das meninas em mulheres.  Começamos com as moças adultas e isso é muito inusitado, porque não somos convidados a observar o seu crescimento, mas as suas lembranças de tempos melhores ou piores.  A memória é sempre seletiva e o filme se constrói tendo isso como linha mestra, tenham certeza.  O problema de uma obra nesse formato, com tantos flashbacks, é que alguém que não conheça a história pode se perder.  Uma pessoa já comentou comigo que não conseguiu entender uma determinada cena, se o que estava ocorrendo era verdade dentro da trama, ou uma ficção dentro da ficção.


Saoirse Ronan e  Timothée Chalamet  pareciam
 realmente estar se divertindo em algumas cenas.
De qualquer forma, discordo de uma crítica (*a primeira que li, no ano passado, mas não tenho o link*), que a diretora quis falar de tudo, só pelo que comentei de Mr. Brooke e da cena do noivado com Meg, que foi absolutamente omitida, vocês já sabem que não procede.  Ela fez uma seleção de passagens do livro e tentou articulá-las dentro de sua proposta alternativa de narração da história baseada nas memórias das protagonistas, especialmente de Jo e Amy (Florence Pugh).  Temos sequências novas inventadas para o filme e outras que foram mantidas para o bem da narrativa.  Por exemplo, na adaptação de 2017, omitiram o vestido queimado de Jo.  Por isso, Meg a proibira de dançar.  Nessa versão, ela mostra o remendo para Laurie e eles vão dançar na varanda, longe das vistas de todos.  E há outra cena inventada para ilustrar que Jo deve ter queimado outros tantos vestidos por distração... 

Enfim, a cena em que Jo e Laurie se conhecem é bem simpática, porque Saoirse Ronan e  Timothée Chalamet são duas gracinhas e eles parecem estar se divertindo muito, além de convenceram como adolescentes.  No original, a cena é ligeiramente diferente. Agora, tiraram Mr. Brooke desse primeiro baile e mudaram a forma como ele se apropria da luva de Meg, que é o início do flerte entre os dois.  A não linearidade e a forma como a autora trabalha com a questão da memória são os pontos fortes do filme, os que lhe dão sabor e novidade.  Greta Gerwig provou que é possível tomar uma obra mais que conhecida e, respeitando-a, brincar com a sua estrutura.  Sim, o filme é bom, repito, mas não vou ainda aclamar Greta Gerwig como gênio, porque muitas das discussões de gênero e classe aparecem de maneira forçada, declamadas como em alguns produtos nacionais (*novelas, filmes*) que eu não canso de criticar, ou ainda, o que é pior, de maneira grosseira.  E, bem, o livro é tudo, menos grosseiro.  


Se o filme fosse linear, eu DU-VI-DO que muita
gente não ficaria com raiva de Jo por rejeitar Laurie.
Jo nunca cresce nesse filme

Se fosse uma adaptação convencional de Little Women, começaríamos com o Natal sem presentes, Jo se lamentando por ser uma garota e Meg por não serem mais pessoas ricas.  Passaríamos pelas discussões sobre Jo ter que crescer, usar chapéu, prender seu cabelo (*aquilo que ela tinha de mais bonito*) e deixar de usar saias curtas de menina.  Afinal, ela já é uma moça e se fosse no Brasil da mesma época, talvez, aos 15 anos já estivesse casada.  Enfim, só que o filme já começa com Jo em Nova York.  Nenhum problema nisso se a diretora/roteirista estivesse atenta a uma questão muito importante.  A Jo de Nova York já tinha mais de vinte anos e aprendera que deveria reprimir o seu lado moleca.  Ela passara por dois duros golpes, o primeiro, ter que recusar o amor de Laurie e colocar distância (*nesse caso, geográfica*) entre eles, o segundo, ser preterida por Tia March, que preferiu levar Amy para a Europa no lugar dela.  

A decisão da tia tinha sido culpa da própria Jo, ou assim, ela pensava, porque a jovem tinha desprezo pelos bons m odos que Amy dominava com perfeição e se comportou mal em uma série de visitas a outras senhoras que ambas se viram obrigadas a fazer.  Amy era uma companhia melhor para a velha senhora do que a protagonista, que sequer se preocupara em tentar aprender francês, além disso, era a chance para arrumar um bom partido para a sobrinha mais prendada.  Há um diálogo no filme no qual a velha coloca isso com todas as letras para a garotinha de 12 anos.  E, sim, detalhe, em nenhum  momento o filme nos diz a idade das moças. Quem não conhece o livro, fica no escuro.  


Toda essa sequência parece inspirada em Titanic. 
Em nenhum momento fica claro onde aconteciam
esses arrasta pés animados e racialmente democráticos.
A ida de Jo para a cidade grande fora arranjo de sua mãe, ela ficaria como professora-governanta das filhas de uma amiga, a Sr.ª Kirke, que era dona de uma pensão.  Seria uma forma de alegrar a moça que estava triste fazia meses.  Mas a própria Jo via possibilidades em Nova York; lá ela começa a sua vida de escritora.  A excitação da cidade grande com suas possibilidades termina por suplantar a ideia de penitência.  Só que nada disso está no filme de Gerwig.

Apesar da Jo adulta abrir nosso filme, ela continua se comportando do mesmo jeito da adolescente de 15 anos.  E temos essa Jo adulta com comportamento adolescente, porque, para a roteirista-diretora, isso dá para a protagonista uma dimensão mais feminista.  Não se enganem, a ideia é essa.  Jo continua se comportando como uma menina, correndo pelas ruas, dessa vez de Nova York,  com as saias levantadas para cima do joelho e sem chapéu.  Aliás, o Frock Flicks já publicou um texto delicioso sobre os cabelos nesse novo Little Women, um artigo bem bondoso para a média do site, e que merece ser lido.  Mas elas nem falaram dos chapéus, as mulheres da família March, todas elas, a mãe inclusa, parecem abominar uma peça fundamental da indumentária de uma mulher respeitável no século XIX, seja Jo, seja Amy, não importa.  Se me lembro bem, só Meg casada aparece de chapéu e, bem, talvez por Brooke ser um conservador.


A primeira filha se casa.
Enfim, Jo é elogiada como excelente professora em vários momentos do filme, mas só parece fazer sentido quando se está falando que ela deu aulas para Beth (Eliza Scanlen), quando acontece a discussão sobre como as escolas para meninas são de baixa qualidade e é definido que Amy será educada em casa depois de ser duramente punida pelo professor.  Em Nova York, Jo não é mostrada em nenhuma cena, nem que seja pequenininha, dando aulas para as meninas, ou brincando com elas.  Mas, enfim, o Prof. Bhaer, que carrega o título com seu nome, não é mostrado dando aula para ninguém.  Aliás, e isso é outra inovação do filme, é  Friedrich Bhaer o primeiro homem a aparecer nesse novo Little Women.

Arrumaram um Home para Jo que não é um prêmio de consolação

O Prof. Bhaer é minha personagem masculina favorita de Little Women e, normalmente, ele só aparece no último terço de qualquer adaptação, pois Jo o conhece em Nova York.  A opção de Gerwig é curiosa, isto é, colocá-lo no filme antes de Laurie, mas não me pareceu positiva e vou explicar o motivo.  Normalmente, a gente se afeiçoa a Laurie, a depender do ator que veste a personagem, se apaixona por ele, só para que Jo nos frustre e rejeite a proposta de casamento do rapaz mais de uma vez.  Até hoje, conheço gente que não perdoa a Jo de Winona Ryder  por ter quebrado o coração do Laurie de Christian Bale, em 1994.  


Esse Prof. Bhaer é bem moderninho.  Você poderia esbarrar com ele
 em uma universidade, ou mesmo na rua em nossos dias.
Mas a ideia de Louisa May Alcott era deixar Jo solteira, afinal, ela era o modelo da personagem, mas foi impedida disso.  Por conta dessa questão, que já é conhecida de muito tempo, uma das discussões sobre o Prof. Bhaer, e isso está no artigo que traduzi, é que ele seria uma espécie de piada da autora, já que lhe obrigaram a casar Jo.  Esta é uma teoria a qual se agarra muita gente.  Aliás, há quem esteja lamentando que Gerwig não teve a coragem de deixar Jo solteira em sua adaptação, eliminando o professor, e ido ainda além, feito a moça se assumir lésbica, porque, bem, uma mulher no século XIX só rejeitaria o casamento por questões de orientação sexual e, não, por não desejar se tornar propriedade do marido.  Mas sigamos... 

Bhaer é descrito no livro como um alemão, muito gentil e culto, com um cabelo desalinhado (*porque ele sempre mexe no cabelo quando está pensando, ou debatendo com os alunos*), barba e um tanto corpulento (*gordo, talvez*).  Ele tem por volta dos 40 anos e Jo está chegando nos 25.  Ela escreve para casa falando do professor com insistência e muito carinho e admiração, mas assegura para a família que não há o que temer, porque ele é muito mais velho e que ela e SOMENTE um bom amigo. Só Laurie nunca finge engolir essa história, mas isso é no livro.  E o alemão também é muito pobre e cuida dos dois sobrinhos órfãos.  


Laurie se declara e é rejeitado.
Isso é a Jo do livro descrevendo Bhaer, tentando colocar imperfeições nele, fingindo que não tem interesse afetivo algum pelo sujeito, enquanto se preocupa com seu bem estar e em prestar-lhe pequenos serviços femininos como costurar seus botões.  De qualquer forma, muita gente toma a descrição como acurada, não um despiste de Jo, de qualquer forma, ainda que não fosse perfeita, a descrição estaria perto da realidade.  O primeiro contato deles no livro é quando Jo vê o professor ajudando uma criada a carregar algo muito pesado e lamenta que a jovem tenha que fazer trabalhos tão pesados, um cavalheiro.

Como já  expliquei, e está  no filmr, o editor a obrigou a arrumar um marido para Jo e ela decidiu que não iria juntar a heroína com Laurie não somente por birra, mas para romper com um clichê.  E há uma piada sobre isso no filme.  "Por que não casar a sua heroína com o vizinho?" Por fim, Jo termina casada com o Prof. Bhaer, depois de alguns desencontros e um namoro bem divertido de acompanhar.  O único beijo do livro inteiro é trocado pelos dois, por iniciativa da protagonista, debaixo de um guarda-chuva, porque (*e isso a autora nos diz*) Jo nunca conseguiu aprender a se comportar de forma adequada de verdade.  A autora quis pregar uma peça, mas não consigo ver o professor como um consolo para uma solteirona, mas o amor da vida de Jo.  


Jo poderia ter ficado sozinha, afinal, o filme rompe com tanta coisa.
O problema é que Greta Gerwig não teve a coragem de deixar Jo solteira, como alguns poderiam esperar, tampouco quis correr o risco de alguém a acusar de ter dado um consolo qualquer para sua heroína caso escolhesse um ator mais próximo da descrição do livro, ou mais maduro.  Por isso, escalou o francês Louis Garrel para o papel. O ator de 36 anos passaria sem problemas por alguém bem mais jovem. Eu já tinha visto o moço como Robespierre em Revolução em Paris, se vocês retomarem a minha resenha, vão ver que eu o achei super bonito e sexy.  

Estranhei que ele fosse escalado para ser o professor, procurei em vão fotos dele caracterizado para  o papel.  Encontrei uma com a barba por fazer e achei que não era do filme, porque, bem, estar com barba por fazer é diferente de ter barba, vamos combinar.  Os Bhaer anteriores, salvo o de 2017, não têm barba, mas estão sempre bem barbeador, porque aquele tipo de aparência pode ser interessante em nossos dias, mas naquela época isso seria visto como uma aparência desleixada. Só que a ideia de colocá-lo como Bhaer é exatamente essa, que ele cause uma forte impressão em todas as pessoas que tem alguma apreciação pelo sexo masculino, de fazê-las suspirar pelo professor exatamente por satisfazer modelos atuais de beleza.   Jo tem que ficar com esse sujeito!  Vejam que gostoso ele é!  E como olha para ela!  Não, Jo, você não pode perder essa chance!


Laurie passa a levar uma vida desregrada depois de rejeitado
 por Jo.  O filme retrata muito bem essa parte.
Já o Laurie de Timothée Chalamet é um menino e vai continuar parecendo jovem e imaturo demais até a derradeira cena do filme.  Na verdade, acho que vai acontecer com o ator o que ocorreu com outros que parecem carregar a aura de eterna juventude.  De repente, lá pelos trinta e cinco anos, eles vão parecer velhos de repente, enfim... Bhaer é desde a primeira cena um homem adulto; Laurie, nunca será.  Você pode preferir Chalamet, achá-lo bonito e interessante, não é o que está em disputa, mas pode procurar as reações na internet ao filme e confirme o que estou dizendo.  Foi uma estratégia para evitar a decepção e para atiçar a imaginação da audiência.  

Daqui a pouco vai estar cheio de fanfic Bhaer-Jo por aí e romances alternativos com conteúdo adulto de Little Women nos quais o o professor tem a aparência de Garrel.  Eu apostaria dinheiro nisso.  Agora, se vocês procurarem, vão achar já coisas nesse sentido, inclusive livros inteiros, mas com Jo-Laurie do Christian Bale, principalmente.


Esta cena em particular foi bem interessante.  É o momento em que
Laurie compreende realmente onde estão os seus sentimentos. 
Desde o início, o objetivo da diretora é que a audiência junte Jo e Bhaer, Amy e Laurie, porque a primeira cena do vizinho é com a irmã caçula.  E, sim, Florence Pugh mereceu sua indicação para coadjuvante e ela e Timothée Chalamet convencem como um casal, aliás, seu romance é o mais interessante do filme. Em todas as adaptações, mesmo quando Laurie efetivamente parece ter descoberto que a mulher da sua vida é Amy, muita gente reclama, range dentes, e diz que não ficou convencida.  Pois bem, ao colocar Louis Garrel como Bhaer a diretora não deu somente material para que as pessoas imaginem fanfics, mas alterou totalmente a relação dele com Jo, a dinâmica da história.  

Se na adaptação de 1994, o Prof. Bhaer já parecia avançadinho demais, liberal demais, o de 2019, frequenta bailes que lembram aquele da terceira classe do Titanic (*acredito que a referência da sequência foi essa mesmo*), entorna muita cerveja e não tem nenhum problema em chamar Jo pelo seu apelido desde as primeiras cenas.  Mas voltarei a isso daqui a pouco.


Jo em Nova York, correndo no meio da rua.  Só que ela não é
mais a tomboy de 15 anos.  Neste filme, ela nunca cresceu.
Artistas Mulheres Existiam no Século XIX

Falei lá em cima em grosseria, pois bem, há várias cenas no filme que eu considero grosseiras, mas nenhuma se compara com aquela na qual Jo esculacha o Professor Bhaer depois dele avaliar seus textos.  Vamos lá, em Nova York, Jo ganha dinheiro escrevendo literatura sensacionalista barata.  Isso era considerado sub-literatura e visto como material que poderia desencaminhar a juventude e os espíritos fracos.  Terror, histórias de pirata, romances apimentados, havia de tudo.  São os precursores dos quadrinhos, material que só seria possível com a produção industrial de revistas e e  a alfabetização em massa promovida nos países mais modernos da época, em especial, os protestantes. Dime Novels eram o seu nome e tinham esse nome porque custavam cerca de um dime (centavos de dólar).

Até relativamente pouco tempo atrás não sabíamos que Alcott tinha escrito esse tipo de literatura. Ela era lembrada por seus romances bem comportados e edificantes. Ela o fazia sob pseudônimo e não eram somente mulheres a fazer isso.  Quando, no livro, Bhaer comenta sobre esse tipo de literatura, não o que Jo escreve, em particular, ele faz julgamento moral sobre aquelas histórias publicadas em jornais e revistas baratas, no caso, o Volcano, e está pensando de forma moralizadora, chegando a comparar esse tipo de literatura com bebidas alcoólicas (*veem por qual motivo o professor não beberia álcool, nem ofereceria para Jo?*).  


Ela pediu a opinião dele e, depois, deu chilique.
Não há nada de pessoal, ainda que ele desconfie que Jo escreve esse tipo de conto.  Seu único esforço é salvá-la de algo que ele e boa parte da sociedade considerava degradante.  Há tutela, claro, não estou discutindo isso e, como Little Women é uma história moralizadora, Jo acolhe a correção e pensa na vergonha que os país iriam sentir dela.

No filme, Jo pede a opinião de  Bhaer diretamente e lhe dá suas histórias para que ele leia.  Pede sua opinião pessoal.  Quando ele avalia que o material é de baixa qualidade e que ela pode fazer melhor, temos uma explosão, o filme faz parecer que ele a critica por ser mulher.  "Por qual motivo ele não escreve suas próprias histórias então?"  É uma das coisas que Jo lhe pergunta.  "Ser crítico é muito fácil!"  Ela defende, também, as qualidades da literatura popular, algo que Alcott jamais faria, porque ela própria escondeu seus escritos. Eu lembrei da mocinha de Lady Bird e, bem, eu não gosto de lembrar dela, nem gosto de ter uma Jo que se pareça com esse tipo de personagem.


Amy quer ser artista, mas termina por perceber
 que não era tão talentosa quanto imaginava.
Voltando ao ponto inicial, ela pediu opinião, ele deu de boa vontade, o tipo de literatura que Jo escrevia era considerada subliteratura naquela época, ele quer ajudá-la e isso nada tinha a ver com o fato dela ser mulher.  Nada.  O discurso feminista que ela despeja é absolutamente imaturo e estéril, fica somente o fato dela precisar do dinheiro para cuidar da família e de Beth.  É possível ser feminista é não precisar inventar esse tipo de cena e a própria Gerais consegue fazer isso no mesmo filme.

A história de que ela trabalha para dar alento para Beth, mandá-la para a praia, estava na adaptação de 2017, também, da mesma forma, mas não há, de novo, o comentário do professor de que ser pobre não é justificativa para degradação. Ele se sente culpado e se desculpa como pode.  Enfim, depois dessa cena, a última dos dois em Nova York, Bhaer não teria motivo algum para ir atrás de Jo.  Nenhum mesmo.  Na verdade, aquela cena era um rompimento e sem algo mais para justificar o sentimento entre os dois, coisa que aparece em outras adaptações, como o professor poderia ter a mínima esperança em relação ao amor de Jo? Ah, sim, ele tem o corpo e o rosto do Louis Garrel, ela jamais o rejeitaria... E, claro, o professor nunca imaginou que Jo estivesse noiva de Laurie, fator fundamental para que ele se mantivesse em silêncio a respeito dos seus sentimentos.  Viu como a Greta Gerwig não pode ter sido acusada de falar de tudo?


Laurie e Amy tem uma discussão muito mais adulta sobre o
papel das mulheres na arte e na literatura do que Jo e Bhaer.
Há outras cenas que tentam discutir a discriminação sofrida pelas mulheres escritoras e redimensionar isso em termos feministas, mas acredito que o acerto do filme não se deu com Jo, mas com Amy.  Se Jo queria escrever, Amy queria pintar.  No livro, ela desiste por não ter talento e acaba, ao se casar com Laurie, se tornando uma patrocinadora de artistas.  O filme, ao dar maior destaque para Amy, conseguiu discutir de forma muito madura como as mulheres artistas são discriminadas e excluídas.

Amy acredita não ter talento, osso está no livro, mas Laurie lhe diz que quem decide o que é talento são os homens e eles não querem competição.  Fiz a ponte direta com o filme Retrato de uma Jovem em Chamas, quando Marianne  diz que mulheres são proibidas de estudar anatomia masculina, não por pudor, mas para que não possam produzir arte de alta qualidade.  Pode-se, também, lembrar de Persusão de Jane Austen, quando se discute quem escreve a História e decide quem entra e quem não entra, quem fez algo de importante para ser lembrado.  Homens escrevem, eles falam de si mesmos, não das mulheres.  


É Amy quem estimula Jo a escrever sobre sua própria experiência.
Se afirmo que o filme não consegue discutir de forma equilibrada a questão das mulheres escritoras no Caso de Jo, reforço que, aqui, com Amy, ele acertou.  Mesmo quando Jo está discutindo o que ela deve escrever e que falar de mulheres não é importante, é a personagem de Amy que dimensiona a questão.  Quem define o que é importante?  Será que não existe uma audiência que está sendo alienada?  O Shoujo Café, este blog, foi criado exatamente por isso.  Falar da produção das mulheres e para mulheres é importante, alguém precisa fazer isso, que seja uma mulher e dane-se quem acredita que "coisas de mulherzinha" não deveriam receber atenção.  A própria Alcott precisou se convencer disso e ficou rica.  O filme fez excelentes discussões sobre a questão, ainda que tenha sido desastrado em vários momentos.

As March são Hippies do século XIX

Para mim, uma das graças dos filmes, seriados, novelas históricas é que as pessoas se comportam de forma diferente daquela de nossos dias.  Precisa ser assim.  Como uma das melhores sequências de Orgulho & Preconceito (1995), Darcy quer abraçar e consolar Lizzie, mas não pode fazer isso, porque não seria apropriado.  Há toda uma angústia nessa cena.  Ou então, Emma, o mangá da Kaoru Mori, não o livro de Austen, quando finalmente a protagonista e William não resistem e trocam o primeiro beijo, mandando às favas toda as ponderações sobre o que é certo e errado.  Nesta adaptação de Little Women, não existe nada disso, nenhuma trava.


Tia March fez um bom trabalho com Amy,
mas ela só usa chapéu quando está na França mesmo.
Sim, isso incomoda muito, porque uma das passagens do livro mais ternas é quando o professor finalmente chama Jo de Jo, abandonando o Miss March.  E, bem, eles são íntimos desde o primeiro encontro.  Quando esse tipo de deslize acontece, porque duvido que seja opção simplesmente, só imagino a falta de pesquisa histórica e/ou a ignorância literária dos envolvidos.  E o mesmo vale para quando Meg chama Mr. Brooke de John e escandaliza Jo.  Quando eles teriam ficado tão íntimos?  No filme de Greta Gerwig, ninguém tem problema em se tratar pelo primeiro nome, abraçar e beijar pessoas semi-desconhecidas e do sexo oposto.  Em umas das últimas cenas, Meg, já casada, abraça e beija o Prof. Bhaer no rosto logo que o conhece sem pensar duas vezes.  Talvez, as moças do Frock Flicks estejam corretas e as March sejam hippies do século XIX.  

Eu me aborreci com a sequência em 1994, quando a Marmee de Susan Sarandon faz um discurso na frente de Laurie e Mr. Brooke sobre o absurdo que era obrigar as mulheres a usar espartilho e Meg (Trini Alvarado) fica absolutamente sem graça diante dos rapazes.  Neste filme, na primeira visita de Laurie, quando ele leva Jo e Meg em casa, porque a mais velha torceu o tornozelo, Marmee já está dizendo para ele chamá-la de “mãe” se quiser, e as moças, não Jo, porque ela poderia não se importar, isso faria sentido, não se importam se estão descompostas, ou de levantar as saias da irmã mais velha na frente do rapaz.  


As moças do Frock Flicks brincam que os hippies do século XIX
eram os pré-rafaelitas.  Esta foto é a única na qual eu
onsigo ver algo de pré-rafaelita em Little Women.
Podem até achar que eu estou sendo dura demais, eu não me importo.  Não estou analisando uma obra que rompeu com a realidade, ou que navega entre o mundo real e a fantasia, como Cordel Encantado, ou Orgulho e Paixão.  Little Women de Gerwig se propõe não somente a ser uma adaptação do livro, mas, também, a discutir as limitações impostas às mulheres em uma sociedade patriarcal.  É preciso ser muito pouco exigente para deixar essas coisas passarem.

Enfim, nem sei se há ainda alguém lendo meu blá-blá-blá, mas o comportamento das personagens parece tão inadequado em alguns momentos, que é difícil digerir sem desligar metade do cérebro.  As moças do Frock Flicks falaram dos cabelos, mas não é somente isso.  Há a falta de chapéus das mulheres e de alguns homens, também.  As saias de Amy, Beth e Jo continuam curtas quando já deveriam ter o comprimento das usadas por mulheres adultas (*mas ninguém sabe quando tempo se passa no filme, enfim...*) e os homens evitam usar gravata.  Não falo somente de Laurie em seu tempo de rebeldia, a coisa extrapola isso.  Laurie adolescente e depois de casado evita gravatas, ou usa sei lá o quê, o professor idem.  Homens não era dispensados de usar gravata em ambientes formais, usavam mesmo em outras situações, porque isso tina a ver com educação, respeitabilidade, elegância até bem pouco tempo atrás, mas parece que a moda é retirar o adereço, vide a novela Éramos Seis que está no ar na Globo.


O problema de Little Women não são somente os cabelos, sabe?
A informalidade das pessoas terminam culminando com a sequência constrangedora na qual o Prof. Bhaer aparece na casa de Jo.  Não sabemos quanto tempo passou, porque a temporalidade é frouxa no filme, mas ele é acolhido como se fosse um velho conhecido.  Pior, ele parecia ser a tábua de salvação da heroína.  Em um filme que se propõe a ser feminista, como se chega a esse ponto, de apresentar Jo como um caso perdido a ponto de seus familiares, todos eles, e Laurie (*que no livro demorou mais que os outros a digerir o professor*), a atiram sobre o homem?  Eu fiquei sem graça com a cena, sabe?  Salvo 2017, acredito que todas as outras versões resolveram melhor o enlace dos dois.

E foi um corre-corre. "É sua última oportunidade de conseguir um homem!"  Ah, mas claro, ele tem o rosto e o corpo do Luis Garrel, então pode.  Não, não deveria poder.  E ter a cena do guarda-chuva e a frase "I have nothing to give but my heart so full and these empty hands." (Bhaer) "They're not empty now"(Jo) ("Eu não tenho nada a oferecer a não ser este coração tão cheio e estas mãos vazias." "Não estão vazias agora".) não aplacou minha ira. Para piorar, por uma alteração da ordem dos acontecimentos,  Jo estava economicamente confortável quando Bhaer chegou na sua porta, ela poderia continuar remando sozinha a sua canoa tranquilamente.  Ela não precisava de um príncipe para salvá-la de coisa nenhuma, não que o Prof. Bhaer original fosse esse tipo de personagem, claro.


Temos Jo e Bhaer debaixo do guarda-chuva, mas é tudo tão capenga.
Considerações Finais

Apesar de tudo o que escrevi, recomendo o filme de Gerwig por ter subvertido a narrativa, por encaminhar algumas discussões interessantes e por sugerir que se poderia fazer um Little Women focando em outra das irmãs.  Eu queria um filme sobre Amy, porque esse filme me mostrou que isso é possível e o resultado seria interessante.  Se a história fosse vista pela irmã caçula, se seu a or por Laurie fosse apresentado desde o início (*quando ele a visitou no exílio na casa da Tia March, que ficou fora do filme*), a história seria diferente e teria um novo sabor.

Aliás, eu lembrarei desse filme em especial pelo excelente tratamento dado para Amy e pelo desempenho de Florence Pugh e como se construiu a relação da personagem com Laurie, as discussões sobre arte e mulheres artistas, a reflexão sobre as questões econômicas que envolvem um casamento.  A atriz não deveria ser Amy aos 12 anos, mas os flashbacks esconderam bem a fragilidade.  Agora, Eliza Scanlen como Beth ficou abaixo das minhas expectativas.  Em 1949, 1994, 2017, tivemos Beths bem impactantes, que emocionaram mais com seu sofrimento.


Beth é a mais apagada das irmãs, mas mesmo o seu
 sofrimento não foi tão impactante nesta adaptação.
Beth teve até um bom espaço, porque interagiu com Mr. Lawrence e o ator que interpretou a personagem, Chris Cooper, trabalhou.  Ele teve boas cenas com várias personagens, poucas com Laurie, verdade, mas com Laura Dern, Eliza Scanlen e Saoirse Ronan.  Meryl Streep teve boas cenas no filme, achei que ela poderia ficar fazendo somente figuração de luxo e teve ótimas cenas, mesmo que a do noivado tenha ficado de fora.  Detalhe, a personagem não era irmã do pai das meninas, mas tia dele.  Mudaram no filme, motivo para isso não havia.  Ela bate idade com o avô de Laurie.  Infelizmente, com as mudanças, a personagem mais prejudicada foi Jo, mas é opinião minha.  Não indicaria Saoirse Ronan e foi justo Laura Dern aparecer por História de um Casamento no Oscar. A Marmee nesse filme tem algumas boas cenas, mas sua atuação foi bem limitada.

Espero que, no entanto, que o filme consiga dialogar com as novas audiências, que as meninas que ficam na internet dizendo que "o feminismo não as representa", estejam atentas aos diálogos de Meg com o marido, às falas de Jo e, especialmente, para a conversa de Amy com Laurie.  Uma mulher pobre não tinha opções de carreira, era o casamento o seu destino e, uma vez casada, ela dependeria do marido.  Deveria passar fome, ou viver na riqueza, a depender de quem fosse seu cônjuge.  Mesmo que tivessem bens, eles passariam a pertencer ao marido.  Não sei a legislação norte americana, mas na britânica, uma esposa que trabalhasse poderia ter seu salário apropriado pelo marido, ele poderia colocá-la na cadeia por não lhe dar seu dinheiro.  E olhe que ninguém fala de dote, porque, efetivamente, essa obrigação estava desaparecendo naquele momento.  Como pontuei em algum lugar, uma mulher poderia querer dicar solteira por vários motivos, ser lésbica era somente um deles.  


Há várias edições nacionais em nosso mercado.
De resto, foi uma adaptação superior a feita pela BBC em 2017, que só teve alguns bons desempenhos pontuais e imagens poéticas, mas pecou muitas vezes, por omissão, inclusive, mesmo tendo muito mais tempo.   Agora, Júlia insistiu muito para que eu a levasse para ver Little Women no cinema.  Achei que não era hora e, depois de assistir a película de Greta Gerwig, tenho completa certeza disso.  Quando tiver que apresentar uma adaptação para ela, certamente será o filme de 1994, não esse.  Agora, quando ela se familiarizar com o livro, com alguma adaptação, o filme de Gerwig pode ser uma boa pedida exatamente por inovar e, bem, quando se fala em adaptação de um clássico, ousar como ela ousou é algo a ser elogiado, mesmo com quaisquer ressalvas que eu tenha apontado aqui.  E se o filme servir para colocar alguma reflexão na cabeça de meninas vulneráveis ao discurso anti-feminista, eu já ficarei feliz.   Em uma escala de 0 a 10, daria 7 para o filme.



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