quinta-feira, 2 de janeiro de 2020

Comentando História de um Casamento (Netflix/2018): Como a falta de Diálogo pode separar duas pessoas que se amam



Comecei meu ano assistindo História de um Casamento (Marriage Story) e foi a melhor escolha que eu poderia ter feito.  O problema, claro, é que estando em casa, um filme de duas horas demorou bem umas quatro para ser assistido.  Eu prefiro o cinema, sério, porque lá posso me envolver totalmente com a película que, neste caso, teria com certeza me emocionado mais se eu não tivesse que parar para atender telefone, olhar o que Júlia estava fazendo, almoçar e tudo mais.  Enfim, ainda assim, fiquei realmente impressionada com a atuação dos protagonistas – Scarlett Johansson e Adam Driver – e com a exposição de um doloroso processo de separação.

Sim, não vou considerar como spolier que o filme é sobre o fim de um casamento e de como esse processo é doloroso para todos.  O que vemos no processo é como um casal, Charlie (Adam Driver) e Nicole (Scarlett Johansson), que se amam e são amigos, não conseguem dialogar e acabam colocando fim a um casamento de 10 anos.  Separados geograficamente, já que Nicole volta para a Califórnia, enquanto Charlie fica em Nova York, começam uma luta judicial pela guarda do filho, Henry (Azhy Robertson).  O que poderia ser um divórcio amigável, escala para uma luta judicial violenta e cara que acaba desgastando ambos, comprometendo tudo de bom que eles tinham vivido juntos.

Algo que os une e que os separa.
Depois de Dois Papas, preciso me curvar a esta outra produção da Netflix.  Trata-se, sim, se um filme de primeira grandeza e é realmente ruim que não tenha ido para o cinema no Brasil.  Ao longo do filme, não consegui deixar de simpatizar com ambos os protagonistas.  No fim das contas, ainda que eu possa defender que Nicole pudesse lidar melhor com algumas questões, afinal, a família dela tinha se tornado a família de Charlie, um sujeito que vinha de um lar muito problemático, há questões de gênero importantes neste filme.

Nicole era uma grande atriz, porém, ela tinha sacrificado seus projetos no cinema e TV em prol do marido, um diretor de teatro alternativo.  Ambos fizeram sucesso juntos, mas a carreira que ela tinha não era a carreira que ela queria.  Eles acabaram sendo vistos quase como uma entidade coletiva, mas o gênio era ele.  O rapaz não sabotou a carreira da esposa, mas centrado em si mesmo, ele não conseguiu ver sua infelicidade.  E aí entram as expectativas sociais, espera-se que uma mulher veja sua carreira como secundária, ser uma boa esposa, ser uma mãe exemplar  é o que deve ser sua prioridade.  Obviamente, não estamos no universo de A Vida Invisível, não estamos mais nos anos 1950, mas um sujeito como Charlie só percebe a infelicidade de Nicole quando a perde.

A cena do portão é uma metáfora.
Ambos, se amavam, terminei o filme acreditando nisso, no entanto, em algum momento perderam a capacidade de dialogar, isso, claro, se um dia a tiveram.  Quando a gente casa apaixonado, caso dos dois, tendemos a ser complacentes com coisas que não queremos, ou gostamos. Só que, um dia, o sentimento que aquece a relação, que nos faz largar emprego, mudar de cidade, repensar nossos gostos, pode se esvair.  O que sobra?  Pode ser que o amor segure a relação, a amizade, a cumplicidade, mas, em muitos casos, as pessoas se acomodam pelos filhos.

Nicole tinha uma rede de proteção, uma mãe dominadora (Julie Hagerty), verdade, mas que a acolheu em sua casa confortável com o filho, ainda que ela se recuse a romper com Charlie, de quem gosta muito, por causa do divórcio.  Além da mãe, Nicole ainda tinha uma irmã, cunhado, amigos na Califórnia, além de uma proposta de emprego na TV.  Largar, Charlie não foi um sacrifício.  Agora, para ele, ficar sem o filho que amava, a esposa e estrela de sua companhia de teatro foi um duro golpe.  A forma como o filme apresenta o sofrimento de ambos é diferente.  Nicole parece lidar melhor com a situação, afinal, foi ela que deu início ao processo, já o marido, expõe o seu sofrimento de forma mais explícita, assim como a esperança de restaurar seu casamento, é a parte mais fragilizada.  Mas não pensem que estou tomando partido, porque a gota d'água para Nicole parece ter sido uma traição e a gente sempre fica no "ela disse, ele disse", sem testemunhos de terceiros a respeito.

Quem vai cortar o cabelo de Charlie?
E o filme traz toda uma discussão sobre o sistema legal norte americano, ou da Califórnia, porque acredito que as leis de divórcio e custódia sejam estaduais mesmo.  Nicole e Charlie tinham combinado resolver tudo sem advogados, amigavelmente.  No Brasil, isso só é possível quando não há filhos envolvidos.  No caso americano, parece que mesmo com filhos, em caso de acordo, é possível conversar e evitar os tribunais.  Só que o acordo não vem.  Nicole quer o filho com ela na Califórnia.  Charlie quer o filho com ele em Nova York.  O que o moço não sabia é que o fato de ter se casado na Califórnia, do filho ter nascido nesse estado, seriam usados contra ele.

Enfim, não se trata de um filme de tribunal, mas de um película sobre como mesmo um casal que se ama pode se deixar levar pelas mágoas e sua relação pode se degradar em um confronto que poderia ser resolvido de outra maneira, conversando, negociando, percebendo as necessidades um do outro.  Bert Spitz (Alan Alda), o primeiro advogado de Charlie, é experiente e sabe do quanto pode custar emocionalmente e financeiramente um divórcio litigioso.  Ele tenta ajudar Henry, ele é um profissional, mas é, também, alguém que viveu muito e que não vê o caso como uma fonte de lucro.  Só que a coisa escala de tal forma que Charlie opta por um advogado caro, agressivo, e sem escrúpulos, Jay Marotta (Ray Liotta), afinal, o caminho seguido por Nicole já tinha sido esse ao contratar Nora Fanshaw (Laura Dern), uma experiente advogada de família.

Advocacia é um negócio lucrativo se tomarmos pelo filme.
Repetindo, não se trata de um filme de tribunal, mas os meandros jurídicos apresentados são importantes.  O fato é que o dano para a vida de Charlie, Nicole e Henry é imenso e, no fim das contas, alguém tem que ceder.  Quem será?  Por qual motivo?  Não irei dizer.  Assista ao filme.  E é bom não tentar comparar com Kramer vs. Kramer, porque esse filme, em especial, faz parte da onda de backlash contra as mulheres que começa em finais da década de 1970 e se estende pelos anos 1980.  Meryl Streep levou seu primeiro Oscar, mas ela é uma espécie de vilã do filme.  Afinal, qual mãe largaria seu filho para trás para partir em busca de uma carreira?  E, pior, depois que o pobre pai aprende a ser "pãe", a mulher volta para tomar-lhe o filho?  São filmes muito diferentes Kramer vs. Kramer e História de um Casamento.  Ambos são grandes filmes, mas um é machista, o outro, tenta ser mais equilibrado, já por mostrar que os papéis de gênero não são fixos, nem precisam ser.

A História de um Casamento cumpre a Bechdel Rule, tem um monte de personagens femininas com nome e as conversas entre Nora, a advogada, e Nicole, terminam de definir a parada.  É um filme feminista?  Não sei, mas é um filme que tenta ser justo com as partes envolvidas e discute de forma consistente os papéis de gênero, mostrando, inclusive, que as pessoas negociam essas funções dentro da sociedade.  Nada, aliás, que uma Judith Butler, entre outras autoras, já não tenha escrito, mas é mais fácil ver o filme e pensar sobre performances de gênero, do que ler a filósofa.

A grande discussão do filme e o ápice do desempenho dos protagonistas.
O fato é que História de um Casamento é um filme para adultos.  Eu, que vou fazer dezenove anos de casada, parei para pensar em quantas vezes já pensei em desistir e que um exercício válido é se perguntar se vale a pena continuar e o que você gosta em seu parceiro.  Talvez, se Nicole aceitasse fazer o exercício lá no início e se Charlie visse a esposa como alguém separada dele, com desejos próprios, projetos pessoais, as coisas pudessem ser diferentes.  

Enfim, assistir História de um Casamento é sofrido.  Mesmo com todas as interrupções, quando cheguei em uma cena, quase no final, com Henry e o filho, meus olhos se encheram de lágrimas.  No cinema, eu teria desabado, com certeza.  Scarlett Johansson está muito bem, também, mas ela é a parte dura do casal, por isso, a interpretação de Adam Driver é mais tocante.  Os dois estão indicados ao Globo de Ouro e espero que sejam indicados ao Oscar, porque, sim, a gente precisa premiar quem trabalha bem, quem entrega o trabalho bem feito e valorizar os filmes realmente adultos, quando eles nos são oferecidos.  E está aqui a primeira resenha do ano, espero que ela tenha feito justiça ao filme.

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3 pessoas comentaram:

Muito boa a analise. Tambem gostei muito do filme e Laura Dern maravilhosa como sempre. A questao da falta de dialogo e a disputa pelo filho me lembrou Kramer vs Kramer.

Ainda não tinha visto, esperava por uma resenha sua. Agora, verei. Muita abrigada.

Adorei a resenha! Sobre a questão do contraponto dos dois no filme, acho interessante como eles seguem caminhos opostos. Nicole começa fragilizada e abatida, mas se fortalece ao longo do processo e reconstrói sua vida. Charlie, muito autocentrado, não se dá conta do sofrimento que vive Nicole. Ele começa bem e pensa que tudo será resolvido amigavelmente. Mas ao longo do processo, ele vai se perdendo e isso vai prejudicando tudo que ele tem, até mesmo a bonita relação com o filho. A cena em que Charlie canta é muito, muito tocante.

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