sexta-feira, 17 de janeiro de 2020

Lista de material escolar gera polêmica ao pedir kit de médico para meninos e kit de cozinha para meninas (*entre outras atrocidades*)


Gênero é algo que a gente aprende.  Se você frequenta o Shoujo Café já deve ter me lido explicando que gênero são papéis aprendidos socialmente um montão de vezes.  Você aprende a ser homem e aprende a ser mulher e  os papéis que você pode e/ou deve desempenhar podem variar dependendo da época, do lugar, da classe social.  Há um modelo geral, mas ele não é estático.  E isso tudo nada tem a ver com genitais, ou com desejo sexual (*ser hetero, homo, bi, whatever*), mas tem a ver com poder e com manutenção de desigualdades.

Colocaram MENINA e MENINO em caixa alta para ninguém ter dúvida.
Muito bem, anteontem foi notícia que uma escola em Teresina, capital do Piauí, uma das melhores do estado e muito bem avaliada nacionalmente, teve uma de suas listas de material exposta na internet.  A escola pediu kits de profissão, brinquedos.  Deve ser educação infantil, exatamente aquela fase na qual os tais papéis de gênero são aprendidos e introjetados. A escola pedia brinquedos de uso comum, kits profissionais, para os meninos, de médico, bombeiro, mecânico; para as meninas, cozinha e cabeleireiro. Pedem, também, carrinho para menino e boneca para menina. Bola somente para os meninos, está escrito.  Tudo muito explicadinho mesmo.

Tudo bem explicadinho.
Não pensem que essa lista não tem sentido pedagógico. Quem montou pode nem ter a consciência clara do que está fazendo, talvez, na Nova Era em que vivemos, acredite que tudo isso é natural, afinal, há brinquedos de menina e de menino. Da mesma forma, meninos devem desejar algumas profissões, meninas, outras, ou nenhuma, afinal, melhor ser bela, recatada e do lar.  Mas vou ficar só na perversidade econômica dessa divisão profissional por gênero.  

Programas como Masterchef fizeram aparecer esses kits
"neutros" de cozinha nas lojas de brinquedo. E se o menino
quiser cozinhar?  Não pode ter panelinha só rosa e lilás.
Vejam só, um médico, um mecânico especializado, um bombeiro recebem salários melhores, na média, que uma cabeleireira.  A maioria dos cabeleireiros melhor remunerados, que estão na mídia, são homens.  Não lembro de nenhuma mulher que apareça como cabeleireira das estrelas, afinal, ninguém entende melhor do que as mulheres gostam do que o amigo gay.  Trata-se de um estereótipo, mas  ele é tão forte, tão forte, que é fácil entender por qual motivo você tem que deixar claro que esse kit de brinquedo é para meninas.

Agora, se vem escrito COZINHA
e não Chef é para menina, com certeza. 
Pode colocar rosa e lilás.
Agora, falemos do kit de cozinha.  Cozinhar é uma arte, a meu ver é a única parte do trabalho doméstico, que é massacrante e repetitivo, que tem algo de criativo.  No entanto, a cozinheira, quando mulher, é somente uma pessoa do sexo feminino que faz comidinhas gostosas.  Se é mãe, irmã, tia, avó, ela não precisa ser remunerada, porque tudo é feito com amor e carinho.  Os primeiros programas de culinária nas TVs, mesmo com mulheres como apresentadoras e estrelas, buscavam reforçar essa imagem familiar da mulher que cozinha para os seus, por amor, sem pretensões profissionais.  Mesmo quando uma mulher decide cozinhar para fora, raramente ela será tratada com o respeito de um chef, ela é a cozinheira na maioria dos casos.  A maioria dos "melhores cozinheiros do mundo" são homens.  Para as mulheres, ainda é um campo muito difícil.

Se está escrito "Chef", coloca em caixa azul,
porque menino pode usar, também.
É fácil entender isso.  Se cozinhar é uma arte, tem que ser coisa de homem.  Quem são os maiores artista da humanidade?  Agora, por qual motivo isso se dá?  Um chef de cozinha normalmente precisa dedicar longas horas a sua profissão.  Se comanda uma cozinha de um grande hotel, ou restaurante, talvez, precise dedicar 10 até mais horas de seu dia ao trabalho.   Se for um homem chef e tiver filhos, certamente caberá à esposa, ou a uma mulher contratada para isso, cuidar das crianças.  Ele poderá trabalhar tranquilo, viajar para fazer ou ministrar cursos, crescer na profissão, enfim, sem se preocupar com questões domésticas maios sérias.  Pode sofrer com o sacrifício, mas será visto como alguém que está fazendo o melhor pelo bem estar dos seus.  E se for uma mulher?  Não pode!  "Imagina abandonar um filho para trabalhar desse jeito?"  "Não é trabalho de mulher, não de mulher que ame a família!"  

Escândalo!
Os chefs, os médicos e outros profissionais de elite que ganham bem normalmente sacrificam sua vida familiar, mesmo que seja para garantir o melhor para ela.  Por isso, é bom ensinar desde cedo que as meninas não podem almejar essas profissões, ou mesmo imaginar que podem torná-las menos cruéis, elas precisam ficar em casa e garantir que os homens possam ter tranquilidade para serem criativos, competitivos e, claro, para que ganhem mais dinheiro.  Isso precisa ser ensinado desde cedo.  Ainda assim, kit de cozinha não se chama kit de chef, mesmo com tantas temporadas do programa na Bandeirantes e joguinhos de panelinha cinza, preto e de outras cores neutras, melhor não arriscar.  Cozinha não remunerada é lugar de mulher, a qualificada é para os homens.

A tomar pela lista de material, menina não joga bola.
Por isso, também, a bola para os meninos.  Eles precisam ser ativos, correr.  As meninas precisam ser ensinadas a cuidar de seus futuros bebês, de preferência sentadinhas e sem sujar seus uniformes escolares.  "Ah, mas elas podem brincar de bola!"  Então, por qual motivo a lista de material foi tão específica?  Carrinho, também.  Menina não deveria imaginar que pode dirigir, salvo o carro da Barbie, mas ele é muito caro para entrar na lista de material, ou, vai saber, talvez quem fez a lista se incomode com isso, também.

Menino cabeleireiro ainda é tabu, porque a profissão
parece estar atrelada à concepções à respeito da
orientação sexual dos profissionais da área.
Não pensem que esse tipo de lista de material seja novidade.  O que é novo e saudável é que as pessoas reclamem, coloquem na internet, façam o contraponto.  Claro, que esse tipo de coisa, que estava se tornando cada vez mais rara e envergonhada, pode ganhar força nesse momento em que vivemos, mas se a gente resistir, é possível impedir que sejamos tragados por essa onda de reacionarismo que quer criar pessoas infelizes, sejam homens, ou mulheres, e reforçar desigualdades, porque tenham certeza que a cozinheira vai receber menos que o médico e ter menos status na sociedade, também.  

Kit médico, menino na caixa.
E vejam que mesmo dentro do grupo dos médicos, que é bem equilibrado em número de homens e mulheres na profissão, elas recebem menos.  Motivo?  Se alguém precisa se dedicar à família, que seja a mulher.  Nada de dividir tarefas.  Se um casal da mesma profissão precisar avançar na carreira, talvez, a esposa tenha que abrir mão para que o marido vá primeiro.  Afinal, depois, ele vai fazer o mesmo pela mulher.  Vai mesmo?  E, claro, mulheres valem menos, porque gênero é relacional, mas, como pontuei lá em cima, reforça desigualdades.  Se as coisas de homem são mais valorizadas é porque os homens valem mais, por isso, mulheres, mesmo em profissões masculinas, continuam sendo mulheres e, portanto, inferiores.  Agora, se a profissão é vista como feminina mesmo, os salários tendem a ser mais baixos e, claro, os homens tendem a fugir delas.  Por isso mesmo, kit de cabeleireiro é para menina, não para menino.  

Serviços gerais, menina desenhada.

Mas, claro, poderia ser ainda mais agressivo esse negócio, porque há o kit de serviços gerais.   Você daria para o seu filho esse tipo de brinquedo?  Mas muitas meninas recebem como presente.  É bem pedagógico, se a menina for pobre e/ou negra, mais ainda, aliás.  Para essas futuras mulheres, aliás, é legítimo trabalhar longas jornadas, mas sempre recebendo baixíssimos salários.  É sua sina, seu destino.  A culpa por deixar os filhos para trás estará sempre com elas, assim como com outras mulheres profissionais, mas elas precisam mais do que todas nós, ganhar o pão de cada dia.  Obviamente, não pegaria bem colocar isso em uma lista de material escolar em uma escola de classe média, afinal, não é bem o futuro que os pais e mães imaginem para suas filhas.

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3 pessoas comentaram:

Precisamos expor mesmo! Infelizmente, é muito difícil uma reflexão geral sem exposição.

Como piauiense, quero deixar bem claro o meu choque, pois o Dom Barreto, a escola em questão já trouxe muito orgulho ao meu estado, que é como sendo estado nordestino é discriminado, e ainda é mais discriminado do que uma Bahia, um Pernambuco, por exemplo. Mas de fato, o Piauí, a despeito de ter uma grande oposição ao governo atual, é bem reacionário no que diz respeito a papéis de gênero. Mesmo assim não esperava isso de uma escola como o Dom Barreto. Mas enfim é como eu digo: O mal não é nem a pessoa em si e sim, a maneira como essa pessoa discursa no cargo que ocupa. Se uma ministra usa seu poder para reforçar o machismo e ter a coragem dizer que ele é benéfico para a sociedade e o presidente eleito a apoia, as pessoas se sentem livres para discriminar as mulheres abertamente. Lamentável isso e como piauiense, estou bastante envergonhado

É o esgoto do mundo transbordando, agora que os ratos estão escancaradamente no poder.

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