sábado, 28 de março de 2020

Coronavírus levou Daniel Azulay e com ele vai parte da minha infância


Nasci em 1976, lembro de passar as tardes com minha mãe e meu irmão assistindo aos programas do Daniel Azulay na TVE (*no Rio não se chamava TV Cultura*).  Minha mãe fazia os brinquedos de sucata que ele ensinava, as dobraduras de papel e desenhava a Turma do Lambe-Lambe.  Eles eram tão importantes na minha vida com lá nos meus seis, sete anos quanto o Sítio do Pica-Pau Amarelo, que passava na Globo.  


Na minha infância mais remota, Turma da Mônica nunca chegou perto da importância da Turma do Lambe-Lambe.  Não sei se na 1ª série, ou na 2ª, minha mãe desenhou na página de abertura de cada um dos meus quatro cadernos (*Português, Matemática, Ciências e Estudos Sociais*), uma personagem do Daniel Azulay.  Sei que tive uma merendeira da Damiana, a minha personagem favorita da Turma do Lambe-Lambe, e acho que minha mãe comprou livrinhos, quadrinhos e outras coisas, também.Ele fez parte da minha infância e foi um pioneiro dos programas infantis educativos em nosso país.


Mais tarde, casada e morando em Brasília, tive a oportunidade de conhecê-lo pessoalmente.  Acredito que tenho uma foto com ele em algum lugar, mas seria difícil encontrá-la agora.  Ele veio para um dos Kodama, a convenção de animes, mangás e tudo mais que coubesse, que acontecia no Distrito Federal.  Lembro de meu marido, que também cresceu assistindo os programas do Daniel Azulay, todo animado e dizendo que era fã dele desde criança.  Jamais esquecerei a cara do Daniel Azulay, o constrangimento, porque foi, de ter um galalau pulando emocionadíssimo de estar diante dele.  Mas ele sorriu e bateu a foto.  


Enfim, Daniel Azulay, que era desenhista, autor de livros e jogos interativos para infanto-juvenis, entre tantas outras coisas, deve ser a pessoa mais famosa a morrer por conta do coronavírus em nosso país até o momento.  Esta semana, um maestro (Martinho Lutero Galati de Oliveira) e uma maestrina (Naomi Munakata) paulistas foram ceifados, mas eles eram menos conhecidos do grande público que Azulay.  O artista estava com 72 anos, pertencia ao grupo de risco, e estava ainda mais vulnerável por causa de um tratamento contra leucemia.  Alguns podem dizer "Ah, ele viveu bastante!", ignorando o sofrimento do próximo e de seus parentes e amigos.  Sim, acredito até que tenha vivido bem, mas cada vida importa, à despeito do que alguns empresários e o próprio presidente pensam.  


Importa a vida do artista, a da empregada doméstica que os patrões infectados não dispensaram, a do morador de rua, a da adolescente que não deveria morrer, porque não é "grupo de risco", a da mãe saudável de duas meninas pequenas etc.  E, não se enganem, outros vão morrer, já estão morrendo, pois é clara a subnotificação, e não serão poucos, ainda que a maioria sejam anônimos que não vão aparecer na TV, a não ser como tristes números da tragédia que poderia ser minimizada.

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1 pessoas comentaram:

Adorava os programas com o Azulay.
Lembro até hoje do "pincel mágico", revelando o desenho aos poucos.
Muito do meu amor por desenho e quadrinhos veio da admiração por ele.
Uma perda muito sentida, com certeza.

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