domingo, 5 de abril de 2020

O Rapaz que era uma Moça: O Romance de Silêncio


Até ontem, eu nunca tinha ouvido falar do Le Roman de Silence, que poderia ser traduzido mais como O Romance (história) de Silêncio.  Silêncio é uma pessoa, o protagonista desse romance de cavalaria do século XIII, na verdade, a protagonista, porque se trata de uma menina.  Sabe A Princesa e o Cavaleiro (リボンの騎士)?  Pois é, Le Roman de Silence é uma versão medieval que lembra muito o mangá de Osamu Tezuka.  E, não, Tezuka não tinha como saber que ele existia, antes que alguém comece a ter ideias.

Enfim, o tal Le Roman de Silence só tem um único manuscrito conhecido, unzinho só.  Ele foi encontrado em 1911, junto com outros escritos, inclusive uma carta escrita pelo rei Henrique VIII (!!!!!), em um baú onde se lia "papéis velhos e sem interesse" que estava em Wollaton Hall em Nottingham.  Só terminaram de olhar os tais papéis sem importância em 1927, entre eles estava Le Roman de Silence, cujo autor er aum tal de  Heldris of Cornwall.  A primeira edição do texto, que tem 6.706 linhas em versos otossílabos,  só veio em 1972 e eu nunca tinha nada  sobre a história que vou resumir a partir daqui. 

A edição em inglês está bem cara.
Nossa história começa antes do nascimento de Silentius, ou Silentia, caso descubram seu sexo biológico.  O rei da Inglaterra baixa um decreto proibindo que mulheres herdem terras e títulos no país.  O motivo tinha sido punir coletivamente o sexo feminino por causa de dois condes que teriam se matado por causa de uma mulher.  Depois dessa palhaçada, o re, que se chama Evan, parte para Winchester com trinta de seus cavaleiros e lá dão de cara com um dragão.  Nenhum deles tem coragem de enfrentar a fera e o rei oferece como prêmio tesouros incontáveis e a mão de qualquer mulher que o herói desejar.  

Aparece um cavaleiro chamado Cador, que era apaixonado por uma das damas da rainha, chamada Eufemie, ele mata o dragão, mas antes de exigir seu prêmio, ele cai enfermo, porque foi ferido veneno da fera (*tipo Tristão em Tristão e Isolda*).  O rei diz que a mulher (*curandeira*) que salvar o bravo guerreiro, poderá escolher o homem que quiser em matrimônio.  Eufemie salva Cador, os dois se casam e recebem a fortuna prometida.  Além disso, quando o pai da jovem morre, o rei permite que Cador herde o Condado da Cornualha.

A menina é criada como menino.
Agora começa a história de Silêncio.  Eufemie engravida e Cador decide que se nascer uma menina, ela será criada como menino, para garantir que ela herde terras e tudo mais.  Me pergunto o motivo, afinal, eles deveriam ter tempo de gerar outra criança já que parece que foi casar e engravidar.  Enfim, mas o sujeito queria garantir as coisas.  Nasce uma menina e, graças a uma entidade mágica chamada Natureza (*sim, é o nome dela*),  nunca se viu criança tão bela.  A parteira, no entanto, embarca no plano e afirma publicamente que é um menino.  O Conde manda que o seu senescal leve Silêncio para ser criado longe da corte, em uma floresta e tendo somente a companhia da parteira.  A menina deve aprender a ser um menestrel e um cavaleiro.  E, sim, ela se torna perfeita em ambas as artes.

Ela cresce ignorante do seu sexo biológico até que seu pai revela a verdade e exige que a menina continue sendo um menino.  Ela obedece.  Aos doze anos, no entanto, a criatura mágica chamada de Natureza, aparece (*metáfora para a menarca?!*) e exige que Silêncio abandone os papéis de gênero masculinos e aprenda a fiar e tudo mais que uma moça deve saber.  Silêncio percebe que ser mulher a colocará em posição de inferioridade e se recusa a obedecer.  Desesperada com a possibilidade de que alguém descubra seu segredo, ela usa ervas para escurecer sua pele e foge com dois menestréis que passaram pela cote de seu pai.

Merlim em manuscrito do século XIII.
Só que o seu talento como menestrel coloca sua identidade em risco, pois seus companheiros a invejam e decidem matá-la.  Eles não conseguem, afinal, ela é um excelente cavaleiro, mas a jovem tem que se refugiar na corte do rei Evan, aquele lá do começo da história.  A esposa do rei Eufeme (*que significa "mulher", enquanto Eufemie, nome da mãe de Silêncio é "bom conselho"*) se apaixona pela heroína e coloca sua identidade em risco.  Silêncio foge de qualquer contato sexual, porque, bem, isso poderia significar o seu fim.  Ofendida, a rainha jura vingança e um dia consegue atrair Silêncio até seu quarto, rejeitada novamente, ela acusa a jovem de tê-la violentado.  Lembra a história de José e da esposa de Putifar, seu senhor (Gênesis 39). Silêncio foge para a França para não morrer.

Na corte do rei da França, a jovem tem seu talento reconhecido, mas uma carta chegada da Inglaterra coloca sua vida em risco novamente.  O rei da França, que sabia da acusação de estupro, coloca uma missão impossível para o jovem cavaleiro: capturar o Mago Merlim e entregá-lo ao rei da Inglaterra.  Sim, Merlim, não qualquer mago.  Silêncio parte para a sua terra natal com trinta companheiros e consegue realizar a façanha.  Diante do Rei da Inglaterra, Merlim revela que o valente cavaleiro é uma mulher e que a rainha Eufeme mentiu e tem um amante travestido de freira.  Ambos são executados da forma mais cruel que o rei pode imaginar.

Edição espanhola do Romance de Silêncio.
Silêncio conta para o rei Evan a sua verdadeira história e, para completar, a criatura mágica chamada Natureza reaparece e transforma Silêncio de cavaleiro em uma donzela perfeita.  A jovem termina por se submeter à sua "natureza" e se torna a nova rainha do rei Evan, que pelo tempo que deve ter rolado nessa história, e levando-se em conta que omiti a primeira parte desse rolo todo, deveria ter pelo menos uns 50 anos, ou mais.

Trata-se de uma história no mínimo interessante pelas discussões de gênero que pode suscitar.  Vou ver se mesmo com o dólar obsceno, há alguma edição estrangeira, porque nacional não existe, que seja acessível.   Algo importante que se perde nesse post é que há uma oposição no texto em inglês entre Nature (*natureza*) e Nurture (*educação*) que se perde em nossa língua.  Dentro da lógica da história, não adianta o tipo de educação que uma menina receba, ela sempre estará limitada pelo seu sexo biológico.  Obviamente, junto com ele vem, na lógica dessa história, a heteronormatividade compulsória.  Aliás, quando Silêncio foge da corte de seu pai, ela temia ter que se envolver em algum ato de sodomia, ou ser forçada a isso por seus companheiros. Assim, Silencius parece aceitar tranquilamente a mudança de vida e nome, virando Silentia, ou seja, a natureza que estava em silêncio termina por recuperar sua voz.

Torikaebaya foi transformado
em mangá por Chiho Saito.
Agora, essa história do século XIII lembra bastante, Torikaebaya Monogatari (とりかへばや物語), uma história japonesa do século XII, veja que está pertinho, e que conta a história de gêmeos amaldiçoados.  O pai desagradou um espírito da natureza, e, como punição, seu filho se comportará como filha e a menina como um menino.  Os dois terminam indo parar na corte do Imperador e despertam paixões e interesses que colocam em risco o segredo de seu sexo biológico.  Só que no final da história, a maldição é quebrada e tudo volta para os seus devidos lugares, porque o gênero (*papéis socialmente aceitos para homens e mulheres*) estaria subordinado a uma natureza que sempre prevalece.  Obviamente, essa "dita natureza" é fruto de discursos e práticas que visam garantir a heteronormatividade e os espaços de poder e hierarquias entre homens e mulheres.  

De qualquer forma, como eu sempre escrevo, adoro aprender coisas novas.  Le Roman de Silence é novidade para mim, os discursos envolvidos nele, os paralelos com Tristão e Isolda, com a história de José do Egito, o mito da Donzela Guerreira (*Veja que Silencius morre no final, apesar de Silentia ficar viva*) são coisas que eu conheço bem.  A questão de escurecer a pele para se tornar repulsivo, ou enganar a família, aparece em um conto de fadas chamado Os Cisnes Selvagens (The Wild Swans), mas é obra da Rainha Madrasta Má para se livrar da princesinha, pois o rei, seu pai, a expulsa de casa.

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