sábado, 19 de setembro de 2020

Comentando o capítulo 4 de Orgulho & Preconceito (BBC/1995): Finalmente, a camisa molhada!

 

Estava aqui procurando algum site que falasse do colapso das redes de contato pela internet da época, 1995, acho que se chamavam BBS (Bulletin Board System), mas não encontrei.  Só que acabei tropeçando em uma matéria com entrevista do Andrew Davies, roteirista da série Orgulho & Preconceito, dizendo que não queria que a cena da camisa molhada de Colin Firth fosse sexy, ele queria que fosse uma sequência engraçada.  E foi, meu senhor, eu lhe asseguro, mas foi sexy, também.  O problema é que o mesmo Davies comentou que queria Colin Firth completamente nu na cena do lago que precedeu a camisa molhada.  Mas por qual motivo estou começando dessa forma?  Porque a cena se tornou icônica e parece perseguir Colin Firth até hoje.  Eu lamento?  De forma alguma... Até deixo logo embaixo uma das várias vezes em que ele aceitou parodiar a cena:

Chegamos, enfim, ao episódio 4, ele é um dos que mais oferecem o ponto de vista de Mr. Darcy, isto é, aquilo que foi criado para a série, que não é material do livro.  Começamos já com o desdobramento do infeliz pedido de casamento de Darcy para Elizabeth.  Transtornado (*aliás, é uma palavra que eu devo repetir outras vezes*), o mocinho volta para a casa da tia e se tranca no quarto para escrever uma carta contando sua versão dos fatos, isto é, do motivo para prejudicar o romance de Bingley com Jane e sua relação pessoal com Wickham.  

Jane Austen gosta de cartas, ela escrevia muitas, como era comum entre as pessoas letradas de sua época, e as coloca em seus livros.  Esta carta em especial mostra a angústia de Darcy, sua necessidade de justificar seu malfeito, no caso Jane-Bingley, e a vergonha e necessidade de contar como Wickham quase destruiu a vida de sua irmã e a dele.  É um longo flashback em que vemos tanto o Darcy de hoje, que evitou Jane quando ela visitou as irmãs de Bingley e Londres, quanto o jovem Darcy que conviveu com Wickham na infância e início da juventude.  Essas memórias do mocinho desvelam, também, o amor que ele tem pela irmã e como deve ser pesado para ele, que perdeu o pai quando tinha somente 23 anos, ou um pouco menos, assumir propriedades, responsabilidades sociais e a educação de Georgiana.

O segredo sobre a tentativa de sedução de Wickham visava poupar não somente o bom nome da família, mas os sentimentos da menina.  Porque é essa a forma como Georgiana é apresentada no livro e na série.  Jane Austen parece estabelecer que 15 anos é cedo demais para que uma moça possa se relacionar com alguém, ou ser exposta na sociedade, ela pode parecer uma mulher, mas ainda não é.  Esta ideia está presente em pelo menos mais um livro da autora, Razão & Sensibilidade.  Comentei sobre isso na resenha da série de 2008.  Os cuidados de Darcy em relação à irmã ficarão mais evidentes no próximo episódio, claro, e como eu assisti a série tantas vezes, posso estar projetando as coisas.  OK.  

A sequência da escritura da carta mostra Darcy em agonia, é como desnudar parcialmente sua alma.  E ele começa completamente vestido e vai tirando a roupa externa até ficar somente com a camisa.  Acredito que a ideia era essa, Darcy tira a casca que exibia diante da boa sociedade até se mostrar vulnerável ao tocar no ocorrido com sua irmã.  Ao encontrar Elizabeth para lhe dar a missiva, ele não diz palavra.  Só lhe dá a carta e vai embora, não somente das vistas da mulher que o rejeitou, mas de Rosings.

Elizabeth não lhe perdoa, claro, mas ela começa a refletir sobre o quanto sua família se comporta mal, algo, aliás, que ela já sabia.  É como se caísse sobre ela uma verdade pesada que seu pai, como se vê em uma cena futura, não parece ligar.  Quando Elizabeth tenta impedir que Mr. Bennett deixe que Lydia passe uma temporada em Brighton na casa do Coronel Foster, onde está o regimento de Wickham, alegando que a irmã caçula pode trazer problemas para ela e para a família, ele acha que é bobagem.  Lydia aprenderá com a vergonha e ninguém jamais desprezaria Elizabeth e Jane por causa das irmãs idiotas, ou da mãe.  Sabemos que não é bem assim e Mr. Bennett é parte do problema, também.  Lydia vai ser alvo fácil de Wickham, ainda que eu acredite que ele irá se arrepender do casamento com ela... Mas isso não está no livro. 😉

É de estranhar que Darcy tenha julgado Jane tão mal, porque ele, que é tão reservado, acredita que a moça não demonstra seu afeto por Bingley da forma esperada.  Aqui, acredito que Jane Austen tente ridicularizar o orgulho masculino, essa certeza de saber "o que as mulheres são e querem", e de classe, também.  Ele deplora os maus modos da mãe das moças, que não esconde que o dinheiro de Bingley é uma virtude importante, mas espera que as moças demonstrem efusivamente o seu amor por esses homens endinheirados. Afinal, ele não esperava ser rejeitado por Elizabeth, não quando ele valia tanto e ela tão pouco.  E a parte de Georgiana na carta, bem, Wickham é um lixo.

Elizabeth antes de voltar para casa tem outro embate com Lady Catherine que, tentando mostrar sua cortesia e preocupação com a moça e Maria, tenta prendê-las em Rosings até que tenha como mandar escoltá-las de volta.  Imagina, duas moças sozinhas em um coche de aluguel!  Elizabeth bate o pé, quer voltar para casa, está com saudades do pai.  Aqui, Lady Catherine expressa outro dos preconceitos de gênero.  O que é uma filha para um pai?  Ainda que fosse a mãe...   Pais se preocupam com filhos homens.  Elizabeth bate o pé e, na despedida, Mr. Collins faz questão de marcar para a prima que ela abriu mão de tudo aquilo ao rejeitar sua mão.  

Aqui, Elizabeth faz troça dele sem que ele perceba e Jennifer Ehle fica ótima nessas cenas em que mostra um humor refinado e inteligente que articula as palavras com os olhares.  Quando penso nos "fine eyes" que cativaram Darcy, penso na atriz.  E Charlotte, de longe, olha para ela e Mr. Collins acena par a esposa com uma mãozinha torta.  Confesso que fiquei imaginando aquela mãozinha esquisita e ria acariciando Charlotte, ou qualquer mulher, deu nojinho.  Será que para Charlotte vale a pena o esforço?  Ao que parece, sim.  Ser solteirona e dependente parece ser um destino pior.

De volta ao lar, temos cenas que marcam a passagem do tempo.  Há toda a discussão sobre a partida do regimento e a viagem de Lydia.  Mrs. Bennett achando que seria uma oportunidade de ouro para a caçula.  A esposa do Coronel Foster, um homem que parece ter por volta dos quarenta anos é uma adolescente, ou pouco mais que isso, ela e Lydia são iguais nos hábitos fúteis e na mente vazia.  Kitty se sente ofendida em não ser convidada e termina sendo torturada pelo pai com aquelas frases debochadas sobre sofrimento educativo.  

Mr. Bennett é um bully e um pai muito irresponsável, repito, apesar de amoroso com Elizabeth.  Normalmente, as pessoas culpam Mrs. Bennett, uma mulher visivelmente pouco refinada e que quer garantir o futuro das filhas e sua segurança a qualquer custo, e escusam o pai, que é quem realmente deveria tomar as rédeas da situação.  Como escrevi na resenha do primeiro capítulo, quando Jane vai a cavalo para Netherfield e enfrenta a chuva, ele é cúmplice da esposa.  Os tios Gardiner vem visitar Longbourn, a propriedade dos Bennett, com seus filhos.  Assim como a minissérie inventou um nome para Mrs. Bennett, "Fanny", inventou um nome para uma das meninas, "Alicia".  Eu fui ao livro para ver se eu tinha me esquecido.


E Elizabeth reencontra Wickham, que tinha fracassado em sua corte à herdeira Mary King.  Agora, Lizzie tem a versão de Darcy sobre a história que o rapaz contou e parece perder a fé no sujeito.  No livro, quando Elizabeth termina a leitura da carta, ela se mostra transtornada e quer acreditar que Darcy mente.  A minissérie mostra a angústia de Darcy e deixa para Elizabeth uma dúvida bem menos carregada de emoção.  O fato é que Wickham já não tem mais poder sobre a heroína nesse capítulo 4 e ela diz para ele que Mr. Darcy se torna mais agradável com a convivência.  Wickham não é trouxa, desiste de seduzir Lizzie e sabemos bem em quem ele irá focar.

A partir daí, Elizabeth parte com os tios para uma viagem no norte da Inglaterra, Derbyshire que, segundo a Wikipedia, tem algumas das paisagens mais belas da Inglaterra.  A série explora bem a paisagem e o fascínio de Elizabeth pela região.  "What are young men to rocks and mountains?" (O que são os rapazes diante das rochas e montanhas?) A tia tinha crescido em Lambton, uma cidade perto de Pemberly, a propriedade de Darcy.  Por mais estranho que possa parecer, algumas dessas grandes casas e suas cercanias eram abertas à visitação.  A tia propõe uma visita, Lizzie não quer ir, mas ao ser assegurada de que Darcy não está, ela aceita.  A visão de Pemberly imponente faz com que a moça relembre a proposta de Darcy.  Ela podia ser senhora daquilo tudo.  Já havia algum afeto por Darcy nesse momento?  Não há como saber.

A governanta apresenta a casa e seus tesouros.  O que mais salta aos olhos é como ela se refere afetuosamente ao patrão.  Obviamente, é uma criada, uma dependente dos Darcy, mas ela se mostra tão verdadeira e, o mais importante, ela pontua que Wickham, cujo retrato ainda se encontra entre os demais, tinha se revelado um jovem de vida muito torta.  Mrs. Gardiner olha de forma questionadora para a sobrinha e a moça tem que confessar que conhece ambos.  A governanta mostra, então, o monumental retrato de Darcy na galeria e Elizabeth novamente parece se questionar sobre sua recusa.

Antes disso, há outra sequência inventada com Darcy em Londres treinando esgrima.  Colin Firth está muito bonito, como não poderia deixar de ser, e ele decide que voltará antecipadamente para casa.  Aqui, temos a frase "I shall conquer this! I shall!" (Eu vou vencer isso! Eu vou!).  Minha dúvida:  Vencer significa conquistar Elizabeth?  Insistir mesmo depois de ter sido rejeitado, ou esquecer o sentimento? Whatever, você decide.  O fato é que ele retorna para Pemberly e dá uma paradinha para se aliviar do calor e nadar um pouco.  É mais um momento em que Darcy se despe de sua imagem rígida e pública só que, agora, para se entregar a um pequeno prazer em sua propriedade.  O que ele não poderia imaginar é que voltando para casa iria dar de cara com Elizabeth.  

A cena é de total constrangimento com a moça se apressando para dizer que tinham lhe dito que ele não estaria de volta tão cedo e ele perguntando, esquecendo e perguntando de novo pela família dela.  Colin Firth faz aquela carinha de embaraçado comum em vários de seus filmes e pede licença.  Para os padrões da época, ele estava quase pelado e a tia de Elizabeth faz questão de dizer que ele é tão bonito quanto no quadro.  A moça quer ir embora desesperada.  O que ele iria pensar dela?  Enfim, ela não tinha feito nada de errado, mas se recorda do passado, claro.  De como o rejeitou e que compartilha de alguns dos segredos dele.  E Darcy corre, corre muito para se colocar em condições e alcançá-los antes que eles partam.  E ele está vestindo a mesma casaca verde, acredito que a mesma roupa mesmo, que ele usava quando a pediu em casamento a primeira vez.

Agora, em seu ambiente natural e dispostos a vencer, ele se mostra cordial e gentil com os tios de Elizabeth e com a moça.  A heroína inclusive comenta com a tia que não entende o motivo de tanta gentileza, no que Mrs. Gardiner retruca "Não sabe mesmo?"  Elizabeth não é boba, ela aceita as gentilezas do moço, mas quem tem que tomar as rédeas da situação é Darcy mesmo e é o que ele faz, inclusive perguntando se ela aceitaria conhecer sua irmã.  O episódio termina com a carruagem que leva Elizabeth e os tios partindo e Darcy na beira da estrada.  Ela vai virar?  Sim, ela se vira, ela não é indiferente, há alguma chance e os créditos sobem.  Depois desse capítulo, as adaptações de obras de Jane Austen nunca mais seriam as mesmas, e a carreira de Colin Firth, também.

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