domingo, 7 de fevereiro de 2021

Menina japonesa de 13 anos se torna campeã mundial de capoeira e vamos desmontar essa história de que não se trata de arte marcial


O jornal japonês The Mainichi trouxe uma matéria divulgando a vitória de Akari Tachi, uma menina japonesa de 13 anos, no mundial Sub-14 de capoeira.  "Uma estudante do ginasial na cidade de Hakusan (Ishikawa) no centro do Japão venceu a divisão Sub-14 de uma competição mundial de capoeira de arte marcial brasileira que foi realizada online em meio à pandemia do coronavírus."  Repostei a matéria achando curioso de ter sido on line.  Bobagem minha, claro, porque é uma demonstração de de movimentos específicos.  Mas não é por causa disso que eu estou escrevendo o post, ainda que considera muito legal que crianças e adolescentes japoneses se interessem por capoeira e algumas escolas do país tenham clubes de Capoeira. O que me surpreendeu foi gente vir comentar que Capoeira não era arte marcial era dança.

Realmente, não sei de onde as pessoas tiraram essa história de que a Capoeira não é uma modalidade de luta que parece dança, porque precisa do gingado que é marcado por palmas e instrumentos musicais de origem africana, aliás, parecer dança era uma forma de enganar os senhores e possibilitar que os negros, a maioria escravizados, treinassem sem serem detectados.  Obviamente, essa enganação não durou muito, porque a Capoeira foi posta fora da lei durante o Império e estava discriminada no primeiro código penal da República (1890). “Art. 402. Fazer nas ruas e praças públicas exercício de agilidade e destreza corporal conhecida pela denominação Capoeiragem: andar em carreiras, com armas ou instrumentos capazes de produzir lesão corporal, provocando tumulto ou desordens, ameaçando pessoa certa ou incerta, ou incutindo temor de algum mal;”  E assim permaneceu até 1937, quando passou a ser legal durante o governo de Getúlio Vargas, graças aos esforços de Mestre Bimba.  Pergunto aos que dizem que capoeira não é arte marcial se o Estado iria se preocupar em prender capoeiras por serem praticantes de uma dança fofinha.  Abaixo, um mestre de Kung-Fu descrevendo a Capoeira como uma "arte marcial completa":

A  maioria dos capoeiras eram homens negros e pobres e o Estado sabia que eles poderiam ser mortais, por isso ser praticante de Capoeira foi algo proibido por tanto tempo.  Há escolas de Kung Fu que são muito artísticas, seus praticantes parecem dançarinos, mas ninguém em são consciência vai dizer que não se trata de uma arte por ser esteticamente interessante, plástico, bonito, enfim.  Quando comentei essa coisa da dança no twitter, um praticante de capoeira veio comentar que quando houve isso, pergunta para a pessoa se ela quer dançar com ele, se pode dar somente uns três passinhos.  A pessoa recusa, claro, porque sabe que está falando bobagem.

Mais do que isso, na verdade, ignorar que a Capoeira é uma arte marcial, é fazer pouco caso da luta do povo negro, da sua resistência à violência dos senhores de escravos e do Estado.  É, também, uma forma de discriminar a cultura de seu próprio país.  Os japoneses reconhecem que a Capoeira é arte marcial, incluem capoeiristas em seus jogos, há pelo menos um mangá em andamentoobre a luta (Batuque), a luta é amplamente anunciada pelo mundo como arte marcial brasileira, mas você se nega a observar as evidências históricas e diz que não temos arte marcial genuinamente brasileira.  E nem vou me prolongar tanto, termino comentando um causo, que apareceu ficcionalizado na novela Lado a Lado da rede Globo, que foi o embate entre um mestre de Jiu-jitsu importado pela Marinha do Brasil para instruir seus homens e um capoeira.  O fragmento abaixo veio do jornal   “A Pacotilha”, São Luís e data de 14 de junho de 1909, a ilustração é do mesmo ano e da revista Careta.  Mantive a grafia original da época.

"Desde muito tempo vem preocupando as rodas esportivas o jogo do Jiu-Jitzú, jogo este japonês e que chegou mesmo a espicaçar tanto o espírito imitativo do povo brasileiro que o próprio ministro da marinha mandou vir do Japão dois peritos profissionais no jogo, para instruir os nossos marinheiros. […]”Na ocasião em que o ilustre almirante Alexandrino cogitava em tal medida, houve um oficial-general da armada que disse ser de muito melhor resultado o jogo da capoeira, muito nosso e que, como sabemos, é de difícil aprendizagem e de grandes vantagens. […] “Essa observação do oficial-general foi ouvida com indiferença. […] Sobraram razões ao nosso oficial general quando dizia que o brasileiro ‘sabido, quando se espalha, nem o diabo ajunta’. (Grifos nossos).  Para o Mestre André Lacé (s.d.), Francisco da Silva Ciríaco, mais conhecido como Macaco Velho, nascido em Campos, foi um dos mais afamados capoeiristas no Rio de Janeiro, na virada do século 19 para os 20. Era o mestre preferido pelos acadêmicos de medicina, fenômeno que se repetiu na Bahia, décadas mais tarde, com Mestre Bimba. Foram esses estudantes que insistiram no confronto da Capoeira (Macaco Velho) com o jiu-jitsu (Sada Miyako, campeão japonês). Evento que acabou ocorrendo, no dia 1º de maio de 1909, com um fulminante desfecho: aplicando um literalmente surpreendente rabo-de-arraia, Ciríaco encerrou a luta em alguns segundos. Mesmo existindo uma versão – jamais comprovada – de que Ciríaco teria utilizado um recurso, digamos, de rua, mesmo assim, luta é luta, vale-tudo é vale-tudo, e ninguém jamais poderá negar o mérito da vitória. Tanto assim, que Mestre Ciríaco saiu vitorioso do Pavilhão Internacional Paschoal Segreto, com o povo cantando pelas ruas “a Ásia curvou-se ante o Brasil”. No dia seguinte, a Capoeira foi notícia em quase todos os jornais, valendo registrar, por oportuno, a ocorrência de algumas redações cautelosas, quase envergonhadas da própria cultura brasileira, como a nota do jornal do Commercio (02.05.1909, pág. 7):  O sportman japonez do tão apreciado jogo jiu-jitsu foi hontem vencido pelo preto campista Cyriaco da Silva, que subjugou o seu contendor com um passo de capoeiragem”."

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5 pessoas comentaram:

Que menina incrível!

Fui buscar mais informações e descobri que foi o pai dela, que também é praticante da capoeira, quem a influenciou! Fico feliz com pais (homens) que incentivam suas filhas assim, isso me parece tão raro e difícil. Muito bom ter uma família fomentando sonhos, escolhas e confiança em suas meninas.

Encontrei três vídeos da Tachi (ela se apresenta em português!!!)


https://youtu.be/lxSWo4C7s8I

Round 1
https://youtu.be/MqcXBWouyhs

Round 2
https://youtu.be/1MqKGX8bzc8

Eu não sou daqui
Eu não tenho amor
Eu sou da Bahia
De São Salvador
Olha, eu não sou daqui
Marinheiro só
Eu não tenho amor
Marinheiro só
Eu sou da Bahia
Marinheiro só
De São Salvador
Marinheiro só
Ô, marinheiro, marinheiro
Marinheiro só
Ô, quem te ensinou a nadar
Marinheiro só
Ou foi o tombo do navio
Marinheiro só
Ou foi o balanço do mar
Marinheiro só

Paranauê.... Paranauê Paraná....
Adorei a notícia

Por falar em capoeira e Japão...
jogava muito Tekken (game japonês) com Eddie ... 1 capoeirista

Pesquisem no YouTube "capoeira no MMA", e vejam um monte de gringos apanhando bonito

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