domingo, 14 de agosto de 2022

Comentando o último volume de Ōoku: E Fumi Yoshinaga conseguiu fechar seu mangá muito melhor do que eu esperava.

Ōoku (大奥) começou a ser publicado em 2004 e foi o primeiro mangá de Fumi Yoshinaga que conseguiu atrair a atenção da crítica.  A autora saiu do nicho do BL, ou do shoujo com temas homoeróticos e se projetou como uma autora capaz de construir uma trama que impressionou pela sua densidade e dificuldade de execução.  E deixo claro, para quem não me leu escrevendo esse tipo de coisa antes, você pode discutir temas sérios em qualquer gênero ou demografia, mas tem gente que acredita que não e, por isso mesmo, Ōoku fez diferença na carreira de Yoshinaga para muita gente. A série foi indicada à vários prêmios e venceu alguns dentro e fora do Japão.

Se você não leu nenhuma das minhas resenhas anteriores, há uma tag Ōoku  com textos sobre todos os volumes, além dos filmes, prêmios etc.  Ainda assim, vou resumir em linhas gerais a trama.  Início do século XVII, uma praga, a varíola vermelha, se abate sobre o Japão e leva a morte 75% dos homens, em especial, os jovens.  Com a queda da população masculina, as mulheres precisam assumir as funções que antes eram dos homens, inclusive a de xógum.  Para esconder o que estava ocorrendo no país e impedir que o país fosse conquistado, o Japão se fechou para o contato direto com o estrangeiro em 1633.  Durante quase três séculos o xógum foi uma mulher, e uma das expressões do seu poder era o Ōoku, um harém cheio de homens jovens, quando a maioria das mulheres não tinha como ter um marido para chamar de seu.

Com o passar das décadas, porém, a doença foi recuando, uma vacina foi inventada e as mulheres começaram a perder o poder.  O volume #19 nos mostra como chegou ao fim o Xogunato das mulheres e como a História foi apagada para que qualquer vestígio desse período caísse no absoluto esquecimento.  O volume #19 se passa entre 1868, ano da Revolução Meiji e termina em 1871, quando é enviada aos Estados Unidos a Missão Iwakura, que levou um grupo de cinco meninas, dentre elas Tsuda Umeko, de seis anos de idade, para que estudassem e retornassem ao país e ajudassem a promover uma educação moderna para as meninas.

Ōoku é um mangá de ficção científica, é assim que o gênero história alternativa (ucronia) é enquadrado, o que Fumi Yoshinaga nos traz de novidade é que ela cria um ponto de divergência (a doença) e um ponto de convergência, coisa que não costuma acontecer nesse tipo de narrativa.  Quando é criada uma linha histórica alternativa, ela segue sem interrupção, mas a proposta de Fumi Yoshinaga era corrigir o desvio e explicar como a História do Japão voltou aos seus eixos.  E, sim, ela conseguiu.  Ela não seguiu o percurso que eu esperava, mas ela foi lá e fez.  Aliás, depois de acompanhar o mangá por mais de uma década, eu fiquei com o coração na mão.  Será que essa mulher consegue realizar a tarefa?  Vai ferrar o mangá lá no final?  Não.  Ela acertou.  Quando a gente esperava que ela fosse se perder, ela dava a volta por cima e jogava a peteca lá em cima de novo.  Realmente, um fenômeno.

O volume começa com a guerra civil (Guerra Boshin), que opôs as forças do Xogunato Tokugawa e as de Satsuma e outros aliados que logo se tornaram as forças do imperador (mikado).  Como já vinha fazendo no volume anterior, a autora reafirmou que o imperador  Kōmei, que era contra a abertura ao Ocidente, foi assassinado, e que Tokugawa Yoshinobu é um covarde.  Como sempre, Yoshinaga fugiu de desenhar combates e temos o começo do conflito, cenas estáticas e, a seguir, alguém contando para outra personagem, normalmente Tenshō-in, viúvo da antepenúltima xógun, Iesada, como as coisas tinham acontecido.

O destaque da primeira parte do volume foi Katsu Kaichu, oficial que tinha caído em desgraça com Yoshinobu, mas que é chamado por ele para assumir as tropas do xogunato evitando que ele mesmo pegasse em armas contra tropas imperiais.  E Katsu é uma personagem histórica, como a maioria dos que aparecem nesse mangá e ele sobrevive ao final do xogunato das mulheres.  Enfim, há um conflito claro entre o Japão do futuro, aquele que Katsu sonha ajudar a construir, unido e evitando que o país seja espoliado por tratados desiguais como a China estava sendo, e as tradições que precisavam ser deixadas para trás, ou adaptadas a favor do país.  Nesse intuito, Katsu quer conduzir a uma paz que não represente a destruição dos Tokugawa, não por amor à Yoshinobu, mas por respeito a xógum que veio antes dele, Iemochi e seus ancestrais.  Há um embate entre ele e o comandante das tropas imperiais, um daimio de Satsuma chamado Saigo Takamori (*e vi foto dele e Yoshinaga a usou como referência visual, com certeza*).

Saigo Takamori quer a destruição dos Tokugawa e é responsável por um discurso extremamente misógino, pois ele culpa as mulheres que lideraram o Japão pelo atraso do país e todas as desgraças e humilhações que a nação estava sofrendo.  Mulheres não devem governar.  Aqui, Katsu tem que usar os ingleses para impedir a destruição de Edo (Tokyo).  Ele estava disposto a usar a tática de terra arrasada se Saigo continuasse no seu intento de invadir Edo e saqueá-la, caso sua condição de destruição completa dos Tokugawa não fosse levada adiante.  Os ingleses tinham negócios que dependiam de Edo e eles pressionam Saigo, que é obrigado a ceder e negociar.

Há novas negociações e Tenshō-in, Takiyama (o supremo camareiro do Ōoku) e o príncipe Kazu, viúvo de Iemochi e que, na verdade, é uma mulher e irmã do imperador morto, seguem com Katsu.   Tenshō-in e o Príncipe Kazu ficam atrás das cortinas, mas como Saigo continua exigindo a destruição dos Tokugawa, ela sai do seu esconderijo e se revela, inclusive usando como prova as cartas do imperador  Kōmei confirmando sua identidade.  É dela o discurso mais forte do volume, mostrando o quanto ela amava a esposa, Iemochi e exigia que os Tokugawa fossem tratados com dignidade.  Quando o príncipe Kazu, na verdade, Chikako, aparece na história, ela parecia ser uma das personagens mais detestáveis que já apareceram na série, com o tempo, porém, graças ao amor de Iemochi, ela se torna uma das mais dignas e interessantes do mangá.


Iemochi e Chikako acabam formando um casal lésbico que desenvolve um companheirismo e um afeto uma pela outra que as destacaram entre outros pares da série.  E, para quem não lê Ōoku, o protagonista é o harém e, não, as personagens, elas vêm e vão, e a maioria dos casais da série tem um fim trágico.  E Iemochi rompeu com muita cosia, talvez por ter noção de que o Xogunato estava vivendo seus últimos dias, como optar por não se reproduzir por vias naturais.  Ela adota um dos seus parentes e Chikako assume a responsabilidade de zelar pelo futuro do menino.  

Após a intervenção de Kazu/Chikako, Saigo, quando é exposta, inclusive, a conspiração contra o imperador morto, recua e decide reescrever a história.  Como todos os xógum sempre usaram títulos e nomes masculinos, bastava promover o apagamento da história.  Ele estabelece uma data para que Kazu saia do Ōoku e siga para sua nova moradia, assumindo seu nome de viúva, Seikan-in, e o hábito de monja budista.  Tenshō-in deveria abrir mão de seu nome de viúvo e retomar sua identidade anterior e voltar para Satsuma.  O Ōoku seria dissolvido e todos os registros do xogunato das mulheres, também.  Yoshinobu seria poupado, mas teria que viver recluso em sua província natal.

Takiyama propõe uma comemoração para o avistamento da floração da azaléa e outra flor que eu não me recordo. Ele também vai até o último escriba presente no harém e o orienta a escrever os acontecimentos até o último dia, mesmo que tudo fosse destruído depois.  E ele pede a Crônica de um Dia Agonizante, que narra a história do xogunato das mulheres desde a chegada da praga para ler. O  Ōoku deveria ser limpo e os homens que ainda estavam residindo no harém, independentemente de sua posição, iriam tomar parte da celebração.  O Príncipe Kazu participa da festa vestida de mulher e causa forte comoção.  Terminada a festa, ela vai embora.  No dia seguinte, seria a hora de Tenshō-in.

Takiyama manda pendurar os kamishimo, os belíssimos quimonos que eram usados no Ōoku no corredor principal.  Ele usara o seu na festa no dia anterior.  Yohinobu tinha proibido que os homens do Ōoku envergassem a vestimenta quando se tornou xógum, para o horror de Takiyama.  O Grande Camareiro ordena que seu pajem, Nakano, siga com Tenshō-in e que ele se juntaria a ele depois.  O garoto órfão iria voltar para a casa do tio, mas Takiyama propõe que ele more em sua residência e continue a servi-lo.  Na verdade, ele pretendia não abandonar o Ōoku e iria praticar seppuku, suicídio ritual dos samurai.

Aqui, eu realmente fiquei um tanto decepcionada.  Eu acreditei por mais de um volume que Takiyama morreria com o Ōoku, era o esperado, eu estava até preparada para chorar e tinha evitado ler o volume por causa disso.  Bem, ele não morre.  Como poucas personagens estavam tão ligadas ao xogunato das mulheres e ele foi a personagem que mais durou na história, afinal, ele foi introduzido no volume #13 e permaneceu como um dos protagonistas desde então, foi um tanto surpreendente que Fumi Yoshinaga tenha optado por salvar Takiyama e, mais do que isso, permitir que a personagem se reinventasse de novo, graças ao seu amor pelos estudos, em especial, de idiomas.  Só para lembrar, ele começou como um jovem de família samurai que queria estudar, mas cuja família caiu em desgraça e ele teve que se tornar um prostituto especializado em se vestir de mulher.  É nessa condição que ele conhece Masahiro Abe (❤️), a última grande ministra do xogunato das mulheres e levado para o Ōoku, onde ele ascendeu para se tornar o Grande Camareiro do harém.  E, detalhe, ele adota Nakano e o torna herdeiro de todos os seus bens.

E falta falar sobre o fim de Tenshō-in, que é a personagem mais gentil dessa última fase do mangá.  Enfim, pelo acordo, ele estava condenado a voltar para Satsuma, sua terra de origem.  Enquanto ele está cuidando da recuperação de Takiyama, Kuroki, que está á serviço do Príncipe Kazu, pergunta se ele quer encontrar com seu irmão mais velho, um dos médicos que acompanhou os últimos momentos da xógum Iesada, esposa de Tenshō-in.  Seria uma forma de saber se ela foi, ou não envenenada, uma das desconfianças de Tenshō-in.  O Kuroki médico assegura que ela não foi envenenada, mas que desenvolveu icterícia e que ela e o bebê que esperava não puderam ser salvos.  Tenshō-in chora novamente a morte da esposa e decide que deve seguir em frente. Uma das damas de companhia da antiga xógum posa para uma foto fingindo ser Tenshō-in, afinal, a história oficial tinha apagado o xogunato das mulheres.

E temos o último capítulo com Tenshō-in integrando a Missão Iwakura à serviço de Takiyama, que se tornou um grande comerciante.  OK, foi opção de Yoshinaga salvar e reinventar o Grande Camareiro, mas ele me pareceu tão desrespeitoso com Tenshō-in.  Foi algo que não me caiu bem no final.  E temos Tenshō-in conversando com a pequena Tsuda Umeko e assegurando-lhe que ela como mulher poderia fazer grandes coisas e pedindo que ela guardasse um segredo, de que houve um dia em que as mulheres governaram o Japão.  Tsuda Umeko se tornou uma das maiores pedagogas japonesas e responsável pela estruturação da educação para meninas. Um bom fechamento para uma série que foi abertamente feminista.

Resta uma discussão: é possível apagar a história totalmente?  Bem, dentro da lógica da série, quando a doença começou a regredir, a antiga ordem começou a ser restaurada, porque ela nunca tinha sido revista de fato.  O xogunato das mulheres sempre manteve uma certa veneração pelo passado e os dois xóguns homens, já pós-vacina, em especial, o primeiro deles, se esforçou por impor uma nova ordem na qual as mulheres fossem excluídas, como uma vingança contra sua mãe (*a única figura realmente vilanesca em 19 volumes*) e sua esposa (*que o enganou para vencer a vilã*).  Ainda assim, seria muito complicado apagar todos os indícios desse passado.  Só que Yoshinaga não é historiadora e já no primeiro volume, ela tinha meio que estabelecido que setenta anos tinham sido suficientes para apagar a memória de um mundo dominado por homens, ainda que, e isso é importante, os tais indícios estivessem lá para quem quisesse ver.  


Estabelecido isso,  muitas vezes, os historiadores reafirmam ideias, que eu chamei em minha tese de doutorado de eco historiográfico, sem ir às fontes, afinal, já sabem tudo, ou sem questioná-las de fato.  As mulheres sempre estiveram subordinadas, o mundo sempre foi binário e heteronormativo, as hierarquias sociais sempre foram essas e, no nos dias de hoje, o capitalismo será eterno. 😁 Resumindo, um pequeno exercício de História do Possível poderia começar a expor as inconsistências dessa história oficial.  E o próprio mangá mostrou isso, quando a maravilhosa Yoshimune, a sétima xógum, foi até o escriba mais velho e entrou em contato com a Crônica do Dia Agonizante.

E assim terminou Ōoku, como o mangá foi fechado em dezembro de 2020, imagino que Fumi Yoshinaga não tenha interesse em revisitar a série tão cedo.  Ela pode fazer vários gaiden, se quiser.  Usando o Ōoku, ou alguma de suas personagens, espaço há.  Agora, eu fico feliz com o sucesso de Yoshinaga e que ela não tenha ficado de forma alguma presa a esta série.  Ela continua publicando Kinou Nani Tabeta? (きのう何食べた?), que já empatou com Ōoku em número de volumes e vai se tornar a obra mais longa da autora.  O que eu torço para que aconteça é que  Ōoku tenhamos mais live actions baseados no mangá.  

Como a amiga Érika comentou no Twitter, seria excelente se adaptassem o arco da vacina, porque a série é feita de arcos e o protagonista real da série sempre foi o harém, o  Ōoku, o espaço como algo que permanece, enquanto suas muitas personagens passam e se perdem no fluxo do tempo.   E é isso.  Obrigada, Fumi Yoshinaga, por me encantar com seu mangá, me fazer sofrer com os dramas das suas personagens e chorar vez por outra.  Infelizmente, não chorei nesse volume final, eu queria, queria mesmo, mas a não morte de Takiyama acabou com o clima para essas coisas.   ☺️ E já deu, né?  Precisamos de Fumi Yoshinaga no Brasil.  Para quem quiser, fiz um Shoujocast sobre Ōoku: 

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