domingo, 27 de novembro de 2022

E teremos um filme sobre o Chevalier de Saint-Georges!!!! Bom, ou ruim, eu estou muito contente.

Ontem, o Youtube me sugeriu o trailer de um filme previsto para 2023 chamado Chevalier.  Quando olhei para a imagem congelada com um homem negro em roupas do século XVIII, não acreditei que poderia ser, mas, sim, é um filme sobre o Joseph Bologne, Chevalier de Saint-Georges.  Você já ouviu falar dele?  O Mozart Negro, um dos maiores violinistas de seu tempo, um dos maiores esgrimistas, também?  Eu ause dei um berro, porque o trailer em si é muito empolgante, ainda que eu imagine que tente apresentar Saint-Georges em um revolucionário político maior do que ele talvez fosse, mas vou deixar o trailer abaixo e retomo depois.

Agora, vou falar um pouquinho, porque não sei muito mesmo, sobre esta incrível personagem.  Joseph Bologne (1745-1799), Chevalier de Saint-Georges, era filho de um nobre francês e de uma escravizada negra.  Nascido na ilha de Guadalupe, foi trazido para a França pelo pai ainda menino e recebeu a melhor educação disponível para um jovem da nobreza.  Tornou-se mestre de esgrima e excepcional violinista.  É considerado o o primeiro negro compositor de música erudita, foi maestro e se apresentou diante da corte francesa e inglesa, quando visitou o país.

Conheceu vários dos maiores compositores de sua época, como Mozart, Sallieri e Gluck.  Um dos seus apelidos é Mozart Negro, aliás, há uma biografia sobre Saint-Georges que tem esse nome (*está baratinha e eu acabei de comprar*).  Duelou diante da corte francesa com o não menos fantástico Chevalier D'Eon (*nem lembro se já fiz post sobre ele, mas falei do anime de 2006*).  Segundo consta, Saint-Georges parece ter cedido a vitória para o idoso D'Eon (*que foi obrigado pelo rei Luís XV a lutar usando roupas femininas*) por deferência.  O fato é que Saint-Georges lutou muitos duelos, mas se recusava a matar seus oponentes, mesmo quando a coisa era para valer.

Saint-Georges pode ter influenciado Olympe de Gouges (*resenha do quadrinho*), pioneira na luta pelos direitos das mulheres, a quem conheceu em um dos salões da nobreza francesa, a se posicionar contra a escravidão.  Foi amante da não menos extraordinária  Lady Worsley (*resenha do filme da BBC*).  Segundo consta, recusou o assédio de uma importante atriz do círculo de amizades da rainha Maria Antonieta, Marie-Madeleine Guimard, e ela influenciou a soberana a negar a indicação do Chevalier para a direção da Ópera de Paris.

O grande amor da sua vida, no entanto, parece ter sido Marie-Joséphine de Comarieu, Marquesa de Montalembert, que tinha um daqueles salões que reuniam homens e mulheres de letras às vésperas da Revolução Francesa.  Ela era casada com um homem muito mais velho, o marechal  Marc-René de Montalembert.  Marie-Joséphine engravidou do Chevalier, seu marido descobriu e vingou-se tomando-lhe a criança para deixá-la morrer.  Segundo um dos biógrafos do Chevalier, Gabriel Banat, Saint-Georges pranteou aquela criança até a sua morte.

Com a Revolução, perdeu os privilégios da nobreza, mas aderiu ao movimento atraído pelo discurso de igualdade, liberdade e fraternidade, que apagaria o fato dele ser bastardo, mestiço e discriminado por causa disso.  Alistou-se na Guarda Nacional em 1789 e chegou a Coronel, comandando a Légion Américaine, apelidada de Légion Saint.-Georges, o primeiro da Europa composto somente por negros e mestiços, um deles, o pai de Alexandre Dumas.  Só que Saint-Georges caiu em desgraça com os jacobinos (*novidade*), ficou 18 meses preso.  Escapou da guilhotina, mas decidiu sair da França indo para a ilha de São Domingos, onde estava ocorrendo a Revolução Haitiana.  Ali, há controvérsias se participou de alguma ação a favor das tropas de Toussaint Louverture. O fato é que a saúde de Saint-Georges já estava declinando e ele acabou se dedicando nos últimos meses de vida a sua música.

Não sei se o filme será bom, ou somente OK.  Ele já se assume como baseado em fatos reais, o que já abre espaço para muita invenção.  De qualquer forma, Saint-Georges merecia uma minissérie, mas comecemos com um filme. Há tantas histórias a serem contadas e tantas personagens que merecem chegar às telas, seja do cinema e da TV, que estou feliz só de saber que este filme vai sair. Ao invés de fazerem filmes colocando atores e atrizes negros em lugares onde eles não poderiam estar, é muito mais importante contar as histórias de pessoas negras que existiram, que lutaram, brilharam, sofreram e que não são conhecidas do grande público.  Por isso, este filme já nasce grande. E o ator que faz o protagonista, Kelvin Harrison Jr., é muito bonito.  Lindo, na verdade.  

Concluindo, Saint-Georges é uma das personagens que, depois de saber da sua existência, eu me espantei de não fazer nem uma pontinha na Rosa de Versalhes, uma pequena omissão, afinal, ele era do círculo do Duque de Orleans, uma das personagens vilanescas do mangá.

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