domingo, 22 de fevereiro de 2026

“Venham para o Brasil?” O Oscar pode vir: “Ainda Estou Aqui” e “O Agente Secreto” levaram a exuberante cultura de fãs online do Brasil para o Oscar. (Artigo traduzido)

Saiu um artigo no The New Yorker sobre a força do Brasil no Oscar, vi os prints  no perfil da Fernanda Torres no Facebook e fui atrás do link.  O foco da matéria é como os brasileiros costumam se mobilizar na internet para apoiar o cinema nacional e os artistas e que os organizadores do Oscar perceberam isso, entrevistam vários brasileiros, críticos de cinema, estudiosos da sétima arte, pessoas que trabalham no meio.  É um texto bem rico.  Para quem quiser ler o original, ele está aqui.  Mantive a estrutura do artigo do jeito que foi publicado.  Depois que ele terminar, deixo alguns comentários. 

A atriz brasileira Fernanda Torres e o ator Wagner Moura foram ambos indicados ao Oscar. Ilustração de Anjali Nair; fotos da Getty Images.

Notas sobre Hollywood

“Venham para o Brasil?” O Oscar pode vir: “Ainda Estou Aqui” e “O Agente Secreto” levaram a exuberante cultura de fãs online do Brasil para o Oscar.

Por Michael Schulman
20 de fevereiro de 2026

Se você é o tipo de fã obcecado pelo Oscar que programa o despertador para tocar bem cedo na manhã do anúncio das indicações (eu também!), talvez tenha notado algo curioso no mês passado: antes mesmo do anúncio começar na transmissão ao vivo do Instagram da Academia, os comentários já estavam repletos de emojis da bandeira brasileira. E com razão. "O Agente Secreto", o aclamado filme do diretor Kleber Mendonça Filho, recebeu quatro indicações — não apenas a de Melhor Filme Internacional, categoria para a qual foi a indicação oficial do Brasil, mas também a de Melhor Filme, Melhor Ator (Wagner Moura) e uma categoria inédita, Melhor Elenco. (Adolpho Veloso também se tornou o primeiro brasileiro indicado a Melhor Fotografia, por seu trabalho em "Sonhos de Trem".) Isso aconteceu um ano depois de "Ainda Estou Aqui", o elegante drama político de Walter Salles, ter sido indicado a Melhor Filme e Melhor Atriz (Fernanda Torres) e ter conquistado a primeira vitória do país na categoria internacional — uma conquista que inspirou euforia nas ruas do Brasil, onde o Carnaval estava a todo vapor.

A entrada fulminante do Brasil na corrida pelo Oscar não é uma anomalia. Após o escândalo #OscarsSoWhite, há uma década, a Academia incorporou milhares de novos membros, tornando-se não apenas mais diversa racialmente, mas também mais abrangente geograficamente. Mais de um quinto dos votantes do Oscar agora estão fora dos Estados Unidos. Talvez como resultado disso, filmes estrangeiros têm conquistado espaço fora da categoria internacional e competido em todo o mapa do Oscar, desde o thriller coreano "Parasita", que, em 2020, se tornou o primeiro filme em língua não inglesa a ganhar o prêmio de Melhor Filme, até o indiano "RRR", que, em 2023, ganhou o prêmio de Melhor Canção Original com a contagiante "Naatu Naatu". Filmes internacionais agora chegam com frequência à disputa de Melhor Filme, entre eles "Drive My Car" (Japão), "Nada de Novo no Front" (Alemanha), "Anatomia de uma Queda" (França) e o problemático "Emilia Pérez", um musical francês em espanhol ambientado no México, lançado no ano passado. Este ano, “Guerreiras do KPop” está prestes a ganhar os prêmios de Melhor Animação e Melhor Canção Original, e o filme norueguês “Valor Sentimental” recebeu nove indicações, incluindo Melhor Filme e Melhor Diretor (Joachim Trier). O Oscar, que antes era um evento centrado na indústria cinematográfica de Hollywood, agora está mais próximo dos Jogos Olímpicos.

Esse humor pode se tornar vingativo se provocado. No ano passado, a atriz espanhola Karla Sofía Gascón, de “Emilia Pérez”, foi indicada à Melhor Atriz concorrendo com Fernanda Torres, uma das estrelas de cinema mais queridas do Brasil. Em entrevista a um veículo de imprensa brasileiro, Gascón especulou que a equipe de Torres estava tentando prejudicá-la; os fãs brasileiros rapidamente se mobilizaram contra ela. Depois que uma jornalista canadense trouxe à tona tweets ofensivos do passado de Gascón, os brasileiros amplificaram o escândalo online, transformando a corrida pelo Oscar de 2025 em algo como uma rivalidade entre Brasil e Espanha no futebol. “O Oscar se tornou a Copa do Mundo para nós”, disse-me Rodrigo Teixeira, produtor de “Ainda Estou Aqui”. Depois que Torres ganhou o Globo de Ouro, Teixeira pegou um voo da LATAM de Los Angeles de volta para São Paulo, e a tripulação do avião o recebeu com aplausos. “Foi como se eu tivesse ganhado uma medalha de ouro. Pensei: ‘Meu Deus, o que está acontecendo?’”. Um motorista de Uber o parabenizou; Os restaurantes lhe ofereceram refeições gratuitas. Dois meses depois, após a vitória no Oscar, o piloto do voo de volta anunciou que a equipe de "Ainda Estou Aqui" estava a bordo, e o avião inteiro explodiu em aplausos. No Carnaval, ele e seus colaboradores foram recebidos em casa "como as Kardashians".

Como a temporada do Oscar coincide com o Carnaval, os triunfos cinematográficos brasileiros inspiram celebrações extravagantes na vida real. No ano passado, as pessoas se vestiram de estatuetas do Oscar e de Fernanda Torres. A cerimônia foi projetada nas paredes dos prédios, e a drag queen Pabllo Vittar interrompeu seu show para exibir o discurso de agradecimento de Salles. O Carnaval deste ano contou com uma multidão de Wagner Mouras e até alguns Kleber Mendonça Filhos. ("É um smoking normal, e você coloca cabelo grisalho — e fala calmamente, muito culto", disse Teixeira.) Fabio Andrade, professor de cinema no Vassar College, me mostrou um vídeo de uma mulher vestida de perna peluda saindo de um tubarão, uma imagem surreal de "O Agente Secreto". Ilda Santiago, diretora executiva do Festival do Rio, me contou que sua rede de cinemas de arte está patrocinando um concurso de sósias de "O Agente Secreto" durante o fim de semana do Oscar, uma sequência do concurso "Ainda Estou Aqui" do ano passado, que atraiu "filas que davam a volta no quarteirão". A Academia retribuiu a atenção; no outono passado, realizou seu primeiro evento no festival de Santiago, juntamente com um jantar que contou com a presença do CEO da Academia, Bill Kramer, e de personalidades globais como Juliette Binoche.

Se você não vê esse nível de mania pelo Oscar vindo, digamos, da Noruega, há vários motivos para isso, entre eles a história política recente do Brasil, seus prolíficos fãs online e outras peculiaridades do temperamento nacional. “Somos um povo muito apaixonado”, disse-me Aianne Amado, crítica de cinema e acadêmica de Aracaju. “Gostamos de declarar nosso amor.” Amado concluiu recentemente um doutorado estudando a cultura dos fãs brasileiros, que tem origem na gloriosa história do futebol no país, mas que desde então se apegou a estrelas pop internacionais. Veja a proliferação do bordão “Venha para o Brasil”, que surgiu em 2009 como um apelo sincero a artistas — Madonna, Justin Bieber — que, de outra forma, poderiam ignorar o país em suas turnês mundiais. A frase evoluiu para uma piada interna autoconsciente nas redes sociais (a estrela de “RuPaul’s Drag Race”, Alaska Thunderfuck, a usou como título de uma música em 2017), e agora muitos músicos vão ao Brasil, sabendo que atrairão multidões enormes. Em maio passado, Lady Gaga atraiu mais de dois milhões de pessoas para seu show gratuito na praia de Copacabana.

Segundo Amado, os fandoms proliferaram online nos anos 2000 no Brasil, quando o país adotou o Orkut, rede social pertencente ao Google, permitindo que até mesmo regiões remotas se conectassem por meio da cultura pop; a própria Amado era uma grande fã dos Jonas Brothers. Como o Orkut era praticamente restrito ao Brasil, não era particularmente útil para contatar celebridades, mas seu isolamento gerou uma cultura de fãs vibrante que se espalhou para o Tumblr, Facebook e Twitter. Os usuários dessas plataformas agora são especialistas em mobilizar multidões nas redes sociais: em 2020, a versão brasileira do "Big Brother" bateu o recorde mundial de votos recebidos por um programa de TV, com um bilhão e meio de votos. "As pessoas realmente aprenderam a usar as ferramentas digitais para impulsionar os participantes", disse Amado. "Então, já sabemos como eliminar um participante e impulsionar outro e estamos usando as mesmas táticas no Oscar agora."

A saga de Gascón foi apenas o começo. No mês passado, Oliver Laxe, o diretor franco-galego de “Sirāt”, criticou duramente os “ultranacionalistas” brasileiros na Academia, dizendo: “Se os brasileiros indicassem um sapato, todos votariam nele”. Os brasileiros inundaram a página do Instagram de Laxe com emojis de sapatos. Mas Amado achou essa reação relativamente discreta: “Dá para perceber quando as pessoas só querem engajamento às nossas custas. O filme dele não é lá essas coisas, e ele quer usar o poder online brasileiro para criar algum momento para si mesmo”. Timothée Chalamet, que concorre com Moura ao prêmio de Melhor Ator, sabiamente evitou uma briga; em dezembro, ele promoveu “Marty Supreme” na convenção C.C.X.P., em São Paulo, e se enrolou em uma bandeira brasileira feita por fãs com seu rosto estampado.

O sucesso mundial de “O Agente Secreto” começou em maio passado, quando estreou em Cannes. Tanto Moura quanto Mendonça ganharam prêmios, e a Neon adquiriu os direitos de distribuição do filme na América do Norte. “Na maioria das vezes, os cineastas latino-americanos precisam ir para a Europa e a América do Norte para obter reconhecimento e, assim, serem importados de volta para casa”, disse-me Carlos Gutiérrez, diretor do Cinema Tropical, um distribuidor de filmes latino-americanos com sede em Nova York. “Existe todo um sistema de festivais que faz parte de um sistema geopolítico tradicionalmente muito eurocêntrico. É por isso que acho que os brasileiros estão comemorando tanto, porque não é muito comum ter filmes consecutivos sendo premiados tanto em festivais europeus quanto no Oscar.”

Essa ânsia por reconhecimento internacional tem raízes profundas. Em 1950, após o Brasil sofrer uma derrota traumática para o Uruguai na Copa do Mundo (conhecida como a "Golpe do Maracanã"), o escritor brasileiro Nelson Rodrigues cunhou o termo "complexo de vira-lata" para explicar o persistente sentimento de inferioridade pós-colonial do país. Essa autoimagem de nação de cachorros de rua (vira-lata significa literalmente "vira-lata"), Amado me disse, levou a uma ânsia por validação externa: "Sempre olhamos para os Estados Unidos e para a Europa, e nos desvalorizamos". Em 2014, o choque do Golpe do Maracanã pareceu se repetir, quando o Brasil perdeu a semifinal para a Alemanha por 7 a 1 — em solo brasileiro, nada menos. "Isso destruiu a autoestima dos brasileiros", disse-me Teixeira, o produtor. O país entrou em uma espiral de desânimo. A humilhação no futebol coincidiu com uma crise econômica que interrompeu anos de crescimento e com uma crise política que resultou no impeachment da presidenta do Brasil, Dilma Rousseff, em 2016.

Quando Jair Bolsonaro venceu a presidência em 2018, com uma mensagem populista de direita semelhante ao movimento MAGA, um de seus alvos foi a arte, incluindo o cinema. “Foi uma grande crise, o primeiro ano de Bolsonaro no poder”, lembrou Ilda Santiago, do Festival do Rio. “Basicamente, tivemos que fazer financiamento coletivo.” Antes de sua eleição, o cinema brasileiro vinha ganhando projeção internacional. Em 1999, “Central do Brasil”, de Salles, foi indicado ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro e de Melhor Atriz (para Fernanda Montenegro, mãe de Fernanda Torres). Cinco anos depois, “Cidade de Deus”, de Fernando Meirelles, recebeu quatro indicações, incluindo a de Melhor Diretor. Sob Bolsonaro, o financiamento estatal secou e o governo passou a pintar os artistas como aproveitadores que desperdiçavam o dinheiro dos contribuintes.

Em 2022, Bolsonaro perdeu a reeleição para o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, do Partido dos Trabalhadores; desde então, Bolsonaro está preso por tentativa de golpe. Tanto "Ainda Estou Aqui" quanto "O Agente Secreto", lançados logo após essa bem-vinda mudança política, se passam principalmente na década de 1970 e dramatizam a vida sob a ditadura militar brasileira, que durou de 1964 a 1985 — um período que coincidiu com a era Bolsonaro e cujos horrores ele minimizou em seus discursos de campanha. "Havia uma tendência a pintar a ditadura militar sob uma luz muito mais positiva, sugerindo que o país era economicamente bem-sucedido, que as coisas estavam mais organizadas, que havia progresso, quando os dados mostram exatamente o contrário", disse Bruno Guaraná, professor de cinema e televisão da Universidade de Boston, nascido em Recife. "E esses filmes contestam isso."

No Brasil, os cinéfilos tendem a preferir filmes de Hollywood — “Lilo & Stitch” e “Minecraft: O Filme” lideraram as bilheterias do ano passado —, mas “Ainda Estou Aqui” e “O Agente Secreto” se tornaram sucessos nacionais que podem lembrar os brasileiros de seu recente contato com o autoritarismo. (Não é coincidência que ambos os filmes tenham repercutido nos EUA, onde temos nossa própria ameaça autoritária para nos preocupar.) Uma tentativa de boicote conservador a “Ainda Estou Aqui” fracassou. “Até pessoas da direita foram assistir ao filme e adoraram”, afirmou Teixeira, o produtor. Em 2019, Bolsonaro censurou a estreia de Moura na direção, “Marighella”, sobre um revolucionário de esquerda; no mês passado, depois que Moura ganhou o Globo de Ouro por “O Agente Secreto”, Lula ligou para parabenizá-lo, dizendo ao ator que ele era “um motivo de orgulho para este país”. "O Agente Secreto", assim como "Ainda Estou Aqui", destaca a resistência das vítimas da ditadura, mesmo após a morte. "A força desses filmes está realmente ligada a esse sentimento de sobrevivência", disse Andrade, professor de Vassar.

A outrora lendária proeza do futebol brasileiro, por sua vez, já viveu dias melhores. Teixeira — uma das várias pessoas com quem conversei que mencionaram a derrota para a Alemanha em 2014 — teorizou que o entusiasmo nacional pelo Oscar preencheu o vazio deixado pela Copa do Mundo. "O cinema está substituindo o futebol na alma dos brasileiros, e isso é lindo", disse ele, radiante. "É um momento de orgulho. O Brasil é bom em alguma coisa. Não somos mais ruins. Somos bons em cinema. Somos bons em arte e estamos vencendo!" ♦


 Há problemas no texto?  Sim.  O fato do autor do artigo não conhecer o Orkut não significa que era "coisa de brasileiro", ainda que a rede fosse muito popular em nosso país.  Em outro momento, ao falar de Bolsonaro, o texto diz: "Tanto "Ainda Estou Aqui" quanto "O Agente Secreto", lançados logo após essa bem-vinda mudança política, se passam principalmente na década de 1970 e dramatizam a vida sob a ditadura militar brasileira, que durou de 1964 a 1985 — um período que coincidiu com a era Bolsonaro e cujos horrores ele minimizou em seus discursos de campanha.".  

Bem, bem, não sei o que o autor quer dizer com coincide, mas, como historiadora, tenho que afirmar que são períodos distintos.  Bolsonaro é um entusiasta da Ditadura Militar.  O fato de não termos punido devidamente os que participaram do Regime e muitos deles continuaram na política, há a perpetuação de mitos que alimentam a apologia à Ditadura, mas a era Bolsonaro, se é que ela existiu, não coincide com a Ditadura.  Não há continuidade, salvo na impunidade.

Outra  coisa, uma das especialistas entrevistadas no texto, Aianne Amado, diz que “Sirāt” é um filme ruim.  Bem, o fato do diretor ter sido babaca não torna o filme ruim.  Ele foi um dos mais celebrados da temporada.  Considero que o comentário de Amado foi quase  coisa de fã babão.  Da mesma forma que dizer que o amor pelo cinema nacional está substituindo a paixão pelo futebol no Brasil é piada.  Simples assim.  E a fala não vem do articulista norte-americano, que fique claro.

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