Tropecei nessa entrevista com Yukari Ichijo, uma das grandes mangá-kas dos anos 1970 e 1980 ainda em atividade, e traduzi. Somente depois de chegar no final percebi que era a PARTE 3. Bem, depois traduzo as demais partes, acredito que são quatro ao todo. Como a coisa foi fragmentada em temas, não acredito que seja um grande problema, não. A minha maior dificuldade é traduzir mesmo, porque eu não sei japonês, dependo de ferramentas da internet, por isso, desde já peço desculpas por qualquer imprecisão. Nem sempre consigo compreender algumas nuances, mesmo conhecendo o assunto.
Como a entrevista está em um formato estranho, se você abrir o original irá entender, juntei as frases quebradas em parágrafos. As ilustrações, no entanto, estão no texto original e as mantive nos lugares nos quais aparecem. De qualquer forma, é sempre bom ler essas mangá-kas das antigas falando de seu trabalho e Yukari Ichijo é uma das mais interessantes. Tenho outra entrevista dela no blog, que não traduzi, mas comentei; ela está aqui. Segue a entrevista:
Os inúmeros mangás de Yukari Ichijo são todos ricos em concepção, e eu fico impressionado cada vez que os leio. A variedade é incrível, do sério à comédia, e todos são muito divertidos. Não consigo deixar de me perguntar o que se passa na cabeça de Ichijo. Yuki no Serenade (雪のセレナーデ), Designer (デザイナー), Pride (プライド), Koikina Yatsura (こいきな奴ら), Suna no Shiro (砂の城), Yuukan Kurabu (有閑倶楽部). Como essas obras surgiram? Ela também compartilhou algumas histórias importantes que podem te dar dicas para pensar em ideias.
Aqui é Shimo, do Hobonichi.
Ichijo: A propósito, tenho um truque para ter ideias para histórias.
— Uau, qual é?
Ichijo: Normalmente, quando você está sem ideias e não sabe o que fazer, você senta na sua mesa e pensa: "Coloca isso para fora, coloca isso para fora, coloca isso para fora." Mas uma história nunca surge assim. Até agora, os lugares onde as histórias surgiram com mais facilidade foram no banheiro ou na banheira, ou quando estou apenas andando sem rumo pelo meu caminho habitual. Descobri que são nesses momentos que elas surgem. Então, se eu ficar sentada parada na minha mesa, elas não vão surgir. É importante fazer coisas com as quais você está sempre acostumada. Sinta-se à vontade e mova-se como que em transe. É aí que as histórias sempre surgem.
— Que interessante.
Ichijo: É interessante, não é? Além disso, o silêncio absoluto não funciona. Por exemplo, em uma cafeteria, há um pouco de agitação, mas não é muito barulhento e não me afeta diretamente. Como uma dessas pessoas, descobri que as ideias me vêm com mais facilidade quando estou distraída. Acho que é por isso que tantas pessoas desenham seus storyboards em cafeterias. Em momentos como esses, é mais provável que eu tenha aquela sensação de "algo vindo à tona".
— Essa é uma ótima descoberta.
Ichijo: Além disso, você pode tomar um banho relaxante. Relaxamento completo não é bom, mas você pode relaxar e esvaziar metade do seu cérebro. Talvez seja semelhante à meditação zazen. Então, uma boa ideia é ficar olhando fixamente para as nuvens. Quando deixo meu cérebro relaxar assim, acho mais fácil ter ideias. Se você estiver travado em um projeto, por que não tentar isso?
── Obrigado. Vou tentar! Qual trabalho foi um ponto de virada para você, Ichijo-san?
Ichijo: Foi Designer. Até então, mesmo dizendo que podia fazer o que quisesse, eu sempre obedecia ao que meu editor me mandava fazer. Achei que precisava de um seguro, caso surgisse algo que eu realmente quisesse fazer. Mesmo que me pedissem para fazer algo um pouco difícil, eu tinha que aceitar em silêncio, e quando chegasse a hora, eu tinha que ser capaz de dizer: "Você sabe o quanto eu me segurei até agora, né? Eu vou fazer isso." Essa era a hora de Designer.
— Ah. Como você decidiu trabalhar em Designer?
Ichijo: Eu estava em bons termos com meu editor na época, então, quando me pediram para fazer uma série em quatro capítulos, eu disse a eles: "Deixem-me desenhar como eu quiser." Eu sabia que havia certas coisas que eu não podia desenhar na Ribon,[1] então eu iria explorar os limites, mas não desenharia nada que fosse absolutamente proibido. Então eu disse que não mostraria o storyboard a eles, e que também não teria nenhuma reunião.
— O quêêê!?
Ichijo: Que reação é essa? (risos)
— Mas isso pode mesmo!?
Ichijo: Bom, foi um caso totalmente excepcional. Eu disse a eles que só queria desenhar um mangá relacionado à moda, e começamos Designer sem nenhuma reunião.
— Foi realmente um projeto pessoal.
Ichijo: Sim. Eu queria desenhá-lo. Depois que terminei a primeira parte, entreguei ao meu editor, e ele disse: "Então essa é a história."
— Editores são basicamente como leitores, não são? (risos)
Ichijo: Então, parece que se tornou popular de uma maneira um pouco diferente de antes, e fiquei feliz quando a serialização aumentou de quatro para seis capítulos.
— O que te inspirou a criar a história de Designer?
Ichijo: Às vezes, primeiro imagino uma cena que quero retratar, e depois penso na história. Em Designer, a pessoa que eu queria retratar era Ootori Reika (*A rainha do mundo do design e mãe biológica da personagem principal, Ami) Naquela época, a igualdade de gênero não era realmente uma realidade, e era uma época em que as mulheres tinham que trabalhar três vezes mais que os homens para alcançar o mesmo status. Eu queria retratar uma mulher que "abriria mão de tudo para ser estilista". Além disso, em outros mangás shoujo relacionados à moda, é comum vermos histórias em que o autor rouba a ideia de outra pessoa e diz: "Eu que fiz!", mas eu queria rejeitar isso. Então, quando a subordinada de Otori rouba o design de Ami (a personagem principal) e diz: "Eu que fiz, sensei!", ela responde: "Não zombe de mim!". Eu também queria desenhar isso.
E então, “território sagrado”. Designer”é o território sagrado dela. O resto, ela pode fazer o que quiser. Eu queria retratar uma mulher firme, que se agarra apenas a uma única coisa. E no final, há uma cena em que Ootori-san volta e recomeça do zero. Eu pensei que, sem esse tipo de coragem, você não seria capaz de fazer o que realmente quer. Depois de desenhar, me senti revigorada e exausta. Acho que meu próximo ponto de virada foi Koikina Yatsura. Até que ponto posso me distanciar de ser uma artista de mangá shoujo? Não apenas coisas femininas, mas um mangá shoujo que homens também possam ler.
— Acho que não havia muitos naquela época.
Ichijo: Não havia muitos. Mangá shojo policial (risos). Comédias de ação sem romance. Nunca pensei que realmente faria algo assim.
(Continua)
2026-03-06-SEX
[1] Só para explicar, não havia revistas shoujo para mulheres adultas (ladies' comics ou josei) nos anos 1970, por isso encontramos séries que não são necessariamente infanto-juvenis em revistas como a Ribon, a Margaret e outras. No entanto, pelas falas de Ichijo, havia limites, mas eles acabavam sendo esticados ao máximo para os padrões atuais.



















































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