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sexta-feira, 19 de agosto de 2016

Mangá de Fuyumi Souryo sobre Maria Antonieta estréia no Japão


Em junho passado comentei que Fuyumi Souryo, autora de Mars, estava lançando um mangá sobre a juventude de Maria Antonieta.  A peculiaridade é que o mangá foi uma produção para venda direta, uma colaboração entre o Château de Versailles (*o museu*) a Glénat e a Kodansha.  Enfim, agora, o primeiro capítulo do mangá finalmente foi publicado no Japão, noticiou o Comic Natalie.  Como imaginava, em uma revista seinen, a Morning.    O nome do mangá é simplesmente Maria Antonieta (マリー・アントワネット), imagino que loga tenhamos scanlations por aí.

sexta-feira, 20 de março de 2009

Ventos de Mudança para baixar



Algumas pessoas pediram que eu colocasse em *.pdf a minha história para facilitar a leitura. Eu peguei então os três primeiros capítulos e converti. Agora é possível baixá-los separadamente no 4shared. Também organizei as tags para facilitar a procura no blog, basta olhar os nomes dos capítulos e fica fácil. Para baixá-los, basta clicar: Capítulo 1, Capítulo 2, Capítulo 3. É possível, também baixar uma versão com os três capítulos em um só arquivo. Basta clicar aqui. Continuo no aguardo dos comentários para decidir quiser sigo postando ou não. Como disse, tenho o capítulo 4 escrito para revisão, mas não tenho capítulo 5. Eu joguei este post para cima, porque talvez algumas pesoas não o tenham visto ainda.

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2009

Capítulo 2: A Decisão de uma Vida (Parte 10)


Se você está lendo este post, deve ter passado pelo capítulo 1. Se caiu aqui por engano, clique para retornar para a parte anterior, se você clicar na tag Rosas, poderá acessar todos as partes que coloquei no blog até aqui. Agora, você está na décima e última parte do capítulo 2. Quem estiver perdido é só perguntar. Continuarei a postagem até o terceiro capítulo. Depois, só se realmente houver interesse. Aguardo comentários dos leitores e leitoras, sugestões e críticas.


Ventos de Mudança
Capítulo 2: A Decisão de uma Vida (Parte 10)

Alan, a contragosto, afastou-se de Flora e foi em direção à Alda, pois a dança havia terminado e precisava falar-lhe. Lívio cedeu-lhe a vez. Estava sendo chamado em outro lugar.

— Está tudo pronto para partirmos esta noite.

— Eu não partirei com vocês, primo. — Alda explicou. — Tenho uma missão a cumprir aqui, antes.

— Como não!? Vai nos trair como seu pai fez com o meu? — Havia ódio em sua voz outra vez.

— De forma alguma e desfaça esta cara de cão raivoso, ou vão achar que está querendo me matar... Ouça bem: — Falou em voz baixa e com um sorriso nos lábios. — Devo me casar amanhã. Não, não me interrompa, por favor. Devo fazer isso por meu pai. — Fez pausa. — Vou ao encontro de vocês logo em seguida e levarei o Príncipe Guilherme comigo. — Ele lhe lançou um olhar incrédulo. — Confie em mim. Sei que é difícil para você, mas tente. Eu encontrarei com vocês no caminho ou mesmo no Castelo do Amanhecer. Não vou trair a sua confiança.

— O que me garante que fará isso? Se Guilherme for executado, nós... — Estava ainda incrédulo.

— Minha palavra, meu primo. É o que posso lhe oferecer neste momento. Não tenho nada, além disso. Se vocês tentarem libertar o Príncipe Guilherme, podem não ter tempo de fugir. — Completaram a dança.

— Quem é seu noivo? — Quando Alda o apontou com os olhos. Alan ficou sem palavras.

— Afaste-se agora antes que desconfiem. — Fez pausa. — Esperem por nós, meu primo!

— Até o Castelo do Amanhecer então. — Beijou-lhe a mão e se foi.
XXX
Neste momento a Rainha foi anunciada e entrou, majestosa, junto com Marina, que, por sua vez, parecia extremamente abatida. As danças prosseguiram e Alda se viu obrigada a dançar com Humberto De Dorsos que quase esmagou seus pés com sua imperícia. Alan, contrariando o que esperavam dele, posto que Konrad estava dançando com Flora, foi tirar a Princesa para dançar e esta sem saber o que e responder, lançou um olhar de dúvida para a Rainha.

— Vá, minha querida. Seu primo merece esta honra. — Já no meio do salão, Marina falou:

— Acho que não vou com vocês. — Gaguejou, desviando os olhos.

— O que você disse? — Ele estava tão indignado que sem perceber quase esmagou a mão da moça.

— Ai! Minha mão! — E depois de refeita: — Isso mesmo que ouviu. Eu não vou. — Ela estava trêmula. — Eu tenho medo, muito medo... — Falou num sussurro.

— Depois de tudo que viu e ouviu? Lembra do que eu disse à tarde? Você vai nem que seja arrastada. — Falou com raiva, sem que o sorriso cortês deixasse sua face conforme conselho de Alda.

— Você está me machucando! — Ele prendeu sua mão outra vez. — Solte-me ou eu vou gritar.

— Se desejar ser culpada do meu sangue... Vá em frente, grite! Nossas vidas estão em suas mãos. — Ele falou olhando bem fundo nos olhos da moça. — A decisão é sua. — Acrescentou calmamente.

— Não quero que você morra. — Gemeu. — E não quero morrer, também.

— Eu sei que não. Mas de que vale viver desta forma? — Sua voz tremeu e por um momento a capa de ódio que o protegia, caiu, e ela pode ver que bem lá dentro ele também tinha medo. — É hora de irmos.

A Rainha, notando o movimento, chamou Richard:

— Mande alguém obstruir-lhes o caminho. — Sussurrou. — Seja o mais realista, possível.

— Perfeitamente, Senhora. Eles vão querer libertar o jovem Guilherme e eu farei com que tenham problemas, mesmo que pequenos. — Ela assentiu.

— E Richard! — O outro se deteve. — Não mate Alan De Brier. Controle seus impulsos, por hoje.

Alan se retirou, quase arrastando Marina, embora tentasse parecer o menos suspeito possível. Flora, porém, notando-lhe os movimentos e foi atrás deles.

— Alan, aonde vai? E por que arrasta a princesa? — Não havia ciúme em sua voz, só preocupação.

— Tenho uma missão e devo partir, agora. — Fez pausa. — Seu tio lhe dirá tudo. Confie em mim. — Ela foi em sua direção e lhe deu um rápido beijo nos lábios. Sussurrando: “Eu confio.” Nesse ínterim, Alan soltou Marina que assustada e, também enciumada, começou a recuar em direção ao salão. Konrad chegou, logo em seguida, não viu o beijo, mas achou a cena suspeita.

— Alan, que faz aqui? — Seu olhar era de desconfiança. — Alteza, por que está tremendo?

— Konrad não se interponha, estamos partindo. — Alan falou tentando manter o controle da situação.

— Partindo!? E para aonde, posso perguntar? E o que a Princesa faz aqui? Responda-me! — Tinha sido treinado para morrer pela realeza se preciso fosse. — Não me faça chamar a guarda, Alan. — Ameaçou.

— Konrad, não é nada do que está pensando. Marina e eu...

— Vá sozinho, Alan. Eu não vou. — Disse Marina se acovardando. — Ele vai partir, Sir Konrad, não lhe faça mal. Ele não queria me ferir... — Konrad estava confuso. — Acredite em mim.

— Marina, não seja tola! Você vem comigo. — Disse segurando o braço da moça.

— Não, eu não vou! — Choramingou e Richard apareceu à distância com alguns guardas.

— Alan, ouviu a dama. — Fez pausa e continuou em voz baixa. — O que pretende fazer de sua vida, meu amigo? Está metido em alguma sorte de traição? Ainda há tempo de voltar atrás!

Alan não respondeu, somente pegou Marina pelo braço e foi puxando-a em direção aos estábulos. Konrad estava ferido, mas, mesmo assim, ia defender sua princesa, só que Flora entrou na sua frente.
— Konrad deixe-o ir, por favor! — Era torturante para ele fazer qualquer coisa que a desagradasse, mas era preciso... “Suas emoções a cegaram, mas eu não posso permitir que o mesmo me aconteça!”

— Não posso! Seria traição, traição! — Gaguejou e, desvencilhando-se dela com carinho, mas firmeza, gritou: — Sir Richard! Traição!

— Pare onde está, De Brier! — Gritou Richard do alto de sua voz.

— Me pegue primeiro, canalha! — E voltando-se para Marina: — Vê o que fez, sua tola? Se não correr terá nosso sangue sobre sua cabeça. — Fez pausa. — E viverá com essa culpa até o fim dos seus dias!

— Me perdoe. — Falou Marina entre lágrimas. — Me perdoe!

— Então corra! Por Deus, corra! — Foi o que fizeram, caçados de perto pelos homens de Richard. Konrad não poderia lutar por causa de seus ferimentos, deixou-se ficar parado observando e lamentando: “Alan, meu amigo, por que fez isso comigo. Terei que odiá-lo, agora! Terei que perseguí-lo! Por que decidiu ser um traidor? Por quê?”

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2009

Capítulo 2: A Decisão de uma Vida (Parte 9)


Se você está lendo este post, deve ter passado pelo capítulo 1. Agora, você está na nona parte do capítulo 2. Se caiu aqui por engano, clique para retornar para a parte anterior, se você clicar na tag Rosas, poderá acessar todos as partes que coloquei no blog até aqui. Quem estiver perdido é só perguntar. Já estou chegando ao fim do segundo capítule e continuarei a postagem até o terceiro capítulo. Depois, só se realmente houver interesse. Aliás, será que vale a pena criar uma enquete para saber de qual personagem as pessoas gostam mais?


Ventos de Mudança
Capítulo 2: A Decisão de uma Vida (Parte 9)

— Saiba, Alan que o apoiarei em tudo o que fizer hoje. — De Sayers comentou quando estavam prestes a ir para o baile. — E aguardarei a sua volta.

— Eu agradeço sua confiança, senhor. — Sua voz estava um pouco trêmula devido à emoção. — Espero que explique à Flora porque parti. Nós...

— Com certeza, meu filho. Com certeza. Só que antes tenho um presente para você. — E dizendo isso retirou a belíssima bainha, com a espada, que pendia de sua cintura e colocou no rapaz. — Fica melhor em um jovem como você. — Os olhos de Alan se arregalaram. — Mas lembre-se que esta espada só lhe será fiel enquanto estiver ao lado da verdade. Isso é fundamental!

— Mas, Senhor... É parte da herança de Konrad. — Ele disse sem jeito. — É um tesouro de família.

— Você também é parte de minha família, rapaz. Desde que tomei o lugar de seu pai... — Sua voz tremia sempre que recordava seu amigo. — Além disso, Konrad não está pronto para empunhá-la, e Evilblood já lhe deu uma outra espada. — Disse isso e o beijou, neste momento, Konrad e Flora entraram. O rapaz sentiu-se ofendido pela cena, retesou os músculos do rosto mas nada disse. A princípio, quando fora enviado para Corte, odiara seu pai por isso, depois compreendera que era para seu bem, para que se tornasse um grande guerreiro, só que agora, sentia como se seu lugar tivesse sido ocupado por outro, tanto no coração de seu pai quanto no de Flora. Já Flora sentiu o quanto eles estava furioso. Ela não sabia o que estava acontecendo, mas sentia o que ele sentia, ou conseguia ler seus sentimentos. Ela ficou confusa. Coisas estranhas estavam acontecendo nos últimos tempos.

— Pai, todos esperam por nós. — Ao ouvir a voz de Konrad, Alan corou imediatamente, pois entendeu a intensidade do seu olhar. Este, logo em seguida, desviou seus olhos para Flora que em sua simplicidade, seria para ele, e para Alan também, a mulher mais bela da festa. — Creio que devemos ir. — Disse mordendo o lábio inferior e reprimindo seus sentimentos. “Não posso explodir a cada contratempo. Devo honrar minha educação, o homem que se move de acordo com seu coração é sempre um tolo.”
XXX

No salão de baile, Lívio procurava uma pessoa com os olhos e logo que a viu ao lado do Marquês De Mülle, foi em sua direção, com um sorriso gentil.

— Muitas boas noites, Senhor Marquês. — Depois, se voltando para Alda, beijou-lhe a mão e fez uma mesura. — Esta mais bela do que antes, admiro sua versatilidade. E desejo cumprir minha promessa, com sua permissão, Senhor, é claro. — Alda não estava acostumada a ser chamada de bela por ninguém, salvo seu pai. Considerou o elogio bem-vindo e lançou um olhar suplicante para o pai.

— Tem minha permissão, meu jovem, só que... Não teme Humberto De Dorsos?

— Temo encontrar com ele em uma noite escura como temeria encontrar o próprio diabo, pois sendo imprestável como cavaleiro, ele me destruiria com um simples toque, ou com sua cara feia. — Os três sorriram ante o comentário. — Mas aqui, na frente de todos, ele não pode me tocar. — Ele olhou em volta para ver se não era ouvido. — Algumas vezes, ser sobrinho da Rainha pode ser uma benção. — Sorriu de novo. — Perdoe minha franqueza, Senhor, mas, creio que odiaria a mim mesmo se não dançasse com a Senhora Alda pelo menos uma vez.

O Marquês lamentou outra vez a sorte de sua filha, enquanto observava os dois se afastando rumo ao centro do salão. De Sayers entrando, procurou com os olhos alguém conhecido e achou De Mülle, indo postar-se ao seu lado. De longe, ele não perdia de vista, também, o trio formado por Konrad, Flora e Alan e analisava o impasse daqueles três corações que tanto amava.

— Eles partirão esta noite, Louis. — Fez pausa. — Quisera que Konrad partisse com eles, também.

— Minha filha não irá com eles. — Respondeu sem adulterar a expressão vazia de seu rosto.

— Como, não?! — O Conde se assustou. — Sua filha pareceu muito decidida... Tão diferente de você, para dizer o mínimo. — A face do Conde permaneceu imóvel, mas por dentro estava furioso com aquele covarde que outrora chamara de amigo. — Como conseguiu demovê-la? Seu...

— Não demovi ninguém, De Sayers. — Louis manteve sua expressão despreocupada, mas por dentro sentia-se cada vez mais humilhado. — Ela se casa amanhã. É tudo. — Disse com os olhos baixos.

— Amanhã?! Como?

— A Rainha o exigiu e para que eu não sofresse uma retaliação, ela aceitou.

— Sacrificou-se por você? Deus! Aja como homem pelo menos uma vez em sua vida! Pague o preço e não arraste sua filha para lama junto com você!

— Não depende de mim agora. Ela não se parece comigo, como tão bem ressaltou. Ela é mais De Brier do que eu nunca consegui ser e já se decidiu. — Fez pausa. — Além disso, De Sayers, fale por si mesmo, pois não é meu, o filho que age como se tivesse sido engendrado por Richard Evilblood.

— Se estivéssemos em outro lugar, garanto-lhe que pagaria esta afronta com sua vida.

— Perderia seu tempo comigo, De Sayers? — Ele balançou a cabeça. — Como bem sabe, sou pior do que um verme e faz muito tempo que sou um morto, em vida. Não sou digno do seu aço, honrado De Sayers. — Disse suspirando resignado.

domingo, 1 de fevereiro de 2009

Capítulo 2: A Decisão de uma Vida (Parte 8)


Se você está lendo este post, deve ter passado pelo capítulo 1. Agora, você está na oitava parte do capítulo 2. Se caiu aqui por engano, clique para retornar para a parte anterior, se você clicar na tag Rosas, poderá acessar todos as partes que coloquei no blog até aqui. Agora estamos caminhando para o final do capítulo e quem estiver perdido é só perguntar. Continuarei a postagem até o terceiro capítulo e depois, só se realmente houver interesse.

Ventos de Mudança
Capítulo 2: A Decisão de uma Vida (Parte 8)

Marina procurou Alan em todos os lugares possíveis, estava cada vez mais confusa e a idéia de vê-lo no exílio, o que significava necessariamente, não vê-lo nunca mais, a atormentava. “Mas por que me preocupo com ele quando ele me trata tão mal?” Nos jardins, avistou Konrad com Flora, mas Alan não estava com eles. Terminou por encontrá-lo no mesmo estábulo do dia anterior com Elaine e Haroldo. Ao vê-la entrar correndo, todos se espantaram e se colocaram de pé.

— Alan, eu precisava vir. — Falou esbaforida. — Sua Majestade o considera perigoso! A Rainha vai mandá-lo para o exílio. — Elaine lançou um olhar aterrorizado para seu irmão. — Você precisa fugir. — Disse segurando-o pelos dois braços e ele se desvencilhou rapidamente, afastando-a.

— É o que pretendemos fazer esta noite, se bem se recorda. — Falou levemente irônico.

— Eu vou com vocês. — Falou.

— Vai conosco!? — Haroldo se espantou. — O que aconteceu?

— Nada aconteceu. — Respirou e ficou bem ereta. — Simplesmente decidi ir com vocês. — Tentou parecer firme e decidida. — Creio que preciso conversar com a Rainha das Fadas e entender melhor essa história... Se não gostar, eu volto.

— Vai conosco e se não gostar volta? — Alan balançou a cabeça. — Você não tem nenhum juízo, tem?

— Claro que tenho. — Ela respondeu ofendida. — Como falei, eu quero conversar com a Rainha das Fadas. Além disso, sou a princesa. — Os três olhavam para ela, Alan, perplexo; Elaine, com alguma simpatia; Haroldo, achando que tudo seria engraçado se suas vidas não estivessem em risco. — Se for tudo um equívoco, eu retornarei e vocês estarão livres para irem onde quiserem.

— E se formos os monstros mentirosos que você imaginou? Já pensou nisso? Pode ser tudo um plano para matá-la ou pior... E o que você faria então? — Alan comentou com humor e até ensaiou um sorriso. — A partir do momento que iniciarmos a missão, Alteza, seremos considerarmos traidores. Nossas vidas não valerão mais nada!

— O que no seu caso não será muito diferente da situação em que me encontra atualmente, não é? — Haroldo comentou e Alan deu de ombros. — Aliás, este é meu caso também.

— Se for mentira, vocês terão que se ver com a Rainha, pois com certeza, ela irá pensar que me levaram à força, não é mesmo? — Falou achando que iria aborrecer Alan, mas o rapaz soltou uma sonora gargalhada.

— Você é a pessoa, mas idiota que já conheci, sabia?

Marina sentiu-se ofendida e humilhada e Haroldo, percebendo o que estava acontecendo, começou a falar para que ele parasse de rir e prestasse atenção:

— Muito engenhoso, Princesa. Certamente seria mais fácil convencer a Rainha e quem mais interessasse de que a seqüestramos. — Fez pausa. — Mas eu tenho algo para mostrar a vocês dois. Elaine sabe o que é. Venham comigo.

— Para aonde? — Perguntou Alan.

— É segredo... Ou era, até agora. — E Haroldo deu uma piscadela.
XXX
Foram os quatro se esgueirando de cocheira em cocheira, ou melhor, tentando. Marina nunca fizera essas coisas e estava com medo e nervosa. Alan não sabia se Haroldo era confiável. Já Elaine, conhecia o caminho e conhecia Haroldo. Estava tranqüila. Por fim chegaram a um estábulo abandonado. O lugar estava em péssimo estado e não havia ninguém em volta. Haroldo abriu a posta com cuidado e entrou com Elaine nos seus calcanhares. Já Marina ficou parada:

— Sua Alteza primeiro. — Alan disse com uma mesura seca. — Agora que veio tem que entrar.

Marina entrou, mas havia tanta poeira que ela começou a tossir.

— Você não costuma limpar isso aqui?

— Se eu limpar, deixa de parecer um lugar abandonado. — Haroldo disse. Ele foi até o centro do aposento e pegou uma chave que estava pendurada em seu pescoço. — Foi meu pai quem construiu esse lugar, e o único que sabe de sua existência, sou eu mesmo e Elaine.

— Você costuma trazer minha irmã para lugares como este? — Alan perguntou em um tom de poucos amigos.

— Não meu irmão, eu venho com meus próprios pés. Mas este não é o pior lugar aonde tenho que ir. Haroldo é meu amigo e ninguém me respeita mais do que ele. — Elaine falou com voz pausada e tranqüila. Alan corou um pouco e Marina ficou impressionada porque ele não respondeu. Elaine não se parecia fisicamente com sua mãe, mas nesse momento Alan a viu ali e isso o assustou.

— Me desculpe, eu não deveria pensar mal de seu amigo.

Haroldo ergueu uma das suas sobrancelhas. Obviamente, Alan não conhecia Elaine. Ela não era uma tola. Haroldo abaixou-se e abriu o alçapão.

— Eu não posso acender lamparinas aqui. Tenham cuidado com o degrau. — Foi só ele falar e Marina escorregou, iria cair escada abaixo se não fosse amparada rapidamente por Alan.

— Deve ter mais cuidado. — Disse isso e a soltou rapidamente, embora ela desejasse que ela não o fizesse. — Estou começando a achar que você faz estas coisas de propósito, sabia?

— O que? — Ela perguntou rápido.

— Sorte sua eu estar aqui. — Ele disse virando o rosto.

— Está escuro, eu não estou acostumada a lugares como estes, como deve bem saber. — Marina falou para dissipar seu constrangimento.

Cegaram diante de uma porta. Havia um painel como feito de vidro. Haroldo tocou-o com sua mão e a porta abriu como se por efeito de magia. Alan e Marina ficaram assustados.

— Luz! — Haroldo ordenou depois de fechada a porta e o aposento se iluminou como por mágica. — É aqui que venho sempre que posso. — Disse apontando um objeto enorme, parecido com um barco, que jazia no centro do aposento. — É meu tesouro. — Alan rodeou o objeto com curiosidade.

— O que é isso? — Disse tocando na superfície de metal.

— É o veículo que vai nos tirar daqui. — Falou com simplicidade. — É uma nave. Ela não é como a que trouxe minha família até aqui, mas pode voar bem alto e rápido. Meu pai utilizou parte do que sobrou do nosso veículo para construí-la. Como ela é menor e gasta menos energia, o estoque de baterias que trouxemos do meu mundo pode durar por décadas. Desculpem... Vocês não estão entendendo nada, não é? — Alan tinha um olhar curioso e Marina estava com a boca abertas. — Quando meu pai a construiu, acho que pensava em fugir do reino, talvez cruzar o oceano. Vocês chamam de “Grande Mar”, não é? Mas ele se foi antes de poder fazer isso... — Suspirou. — Passo boa parte das minhas noites aqui, trabalhando e estudando. — Estava explicado o porquê da aparência doentia do rapaz. — Eu tinha que estar pronto para partir e aprender o máximo de coisas possíveis até então. — Ninguém entendeu muita coisa do que ele disse, e Alan interrompeu curioso:

— Meu amigo, como este... este... este “barco”, vai nos tirar daqui?

— Voando! Pelos ares como um pássaro e mais rápido do que vocês jamais sonharam. — Disse eufórico. — Ah, mas eu já tinha dito isso, não é? Você quer que eu explique... por onde eu começo... — Ficou parado olhando para a nave.

— Isso é loucura. Definitivamente... — Marina sussurrou para Elaine e Haroldo ouviu.

— Não é, não! — Ele tocou a superfície perto do que parecia ser uma porta, fazendo com que parte dela se erguesse deixando à mostra um painel de controle. O rapaz apertou alguns botões e a porta se abriu e uma voz, uma voz de mulher, o saudou:

— Olá, querido, boa tarde! — Marina e Alan se assustaram, mas Elaine simplesmente explicou:

— É Safira o comp... Como é mesmo, Haroldo?

— É o computador da nave. Isso não é mágica, é ciência. Essa voz, na verdade, procede de uma máquina construída por meu pai, seu timbre, sua intensidade, sua presença ou ausência pode ser programada por mim. — Tanto Alan como Marina ficaram na mesma, ainda ia demorar um pouco para que Haroldo pudesse aprender a traduzir melhor seus pensamentos e conhecimentos.

— Esta é uma forma muito fria de se referir a uma amiga, querido. — A nave reclamou.

— Claro, bem, como nada é perfeito, eu devo ter feito alguma coisa de errado e Safira pensa que é um ser humano. — Disse sorrindo, afinal estava com um humor maravilhoso. Poder mostrar aquilo tudo lhe dava enorme prazer. — Entrem. Não tenha medo, Marina. Entre. — Marina quase lhe perguntou quem lhe havia dado a permissão de chamá-la pelo nome, mas decidiu deixar pra lá. — Aqui dentro há lugar para todos nós, inclusive Alda e o Príncipe Guilherme. Tenho tudo pronto para esta noite basta que estejam aqui. — Explicou plenamente satisfeito da sua engenhosidade.

— Mas estamos sob a terra! — Alan exclamou. — Como...

— É um mero detalhe, mas se eu explicar agora perde a graça. — Alan suspirou frente o comentário.

— Quando partiremos então? — Perguntou Elaine.

— Durante o baile. — Alan falou. — Estarão todos tão ocupados que não irão notar nossa ausência. Ou não irão notar em tempo de nos impedir de partir.

— Então Elaine e eu estaremos a postos, para quando vierem. — Depois notando o medo nos olhos de Marina: — Você virá não é?

— Claro, claro que... — Respirou fundo. — Claro que sim.

— Pode ter certeza que ela virá. Nem que eu tenha de arrastar sua Alteza até aqui. — Alan ameaçou.

— Por que tem que ser sempre tão grosseiro comigo? Saiba que não estou acostumada a ser tratada desta forma tão rude. — Falou com indignação e Alan debochou.

— Creio que se tivessem lhe tratado como você merece, não seria tão mimada e irritante!

Marina ia replicar, mas Elaine interveio:

— Acho que não podemos perder tempo discutindo. — Era a voz da razão. — Tenho que voltar para as cozinhas, podem desconfiar de minha ausência e da de vocês, também.

— Corretíssimo. Vamos sair daqui. — Haroldo falou, subindo a escada e abrindo de novo o alçapão. — Até daqui a pouco, Safira. Esteja pronta.
— Como sempre, querido.

Chegando no estábulo, primeiro Elaine saiu, depois Marina e, por fim Alan que ao virar em direção à capela deu de cara com Sir Richard.

— Parece que nossos caminhos sempre se cruzam, jovem De Brier. — Falou com ironia, pois sabia exatamente da onde ele vinha e, depois do torneio, se sentia com um humor excelente.

— Acredito que seja o destino. Boas tardes, Sir Richard. — Cumprimentou e passou direto, sem muita cortesia e o outro simplesmente abriu-lhe caminho. “Jovem tolo, tão logo consiga a espada, eu terei seu sangue em minhas mãos, como tive o de seu pai!”, pensou com um brilho maligno nos olhos.

sexta-feira, 30 de janeiro de 2009

Capítulo 2: A Decisão de uma Vida (Parte 7)

Se você está lendo este post, deve ter passado pelo capítulo 1. Agora, você está na sétima parte do capítulo 2. Se caiu aqui por engano, clique para retornar para a parte anterior, se você clicar na tag Rosas, poderá acessar todos as partes que coloquei no blog até aqui. Quem estiver perdido é só perguntar. Continuarei a postagem até o terceiro capítulo e depois, só se realmente houver interesse.




Ventos de Mudança
Capítulo 2: A Decisão de uma Vida (Parte 7)

A ansiedade de Marina foi crescendo no decorrer do dia. Não conseguia acreditar em tudo que ouvira e vira, mas, ao mesmo tempo, tinha medo de que tudo não passasse da mais absoluta verdade. Queria ter certeza. Mas como? Saiu de seu quarto e foi até os aposentos da Rainha. O criado disse que ela não estava e ela disse que aguardaria pela madrasta. Não sabia quando a Rainha retornaria, ou mesmo se retornaria, só que não tinha outra idéia no momento. Não adiantava procurar por Alan ou Alda, eles já tinham suas certezas, Marina precisava das suas.

Começou a observar o ambiente, sua madrasta tinha um excelente gosto para móveis e decoração em geral. E tudo primava pelo luxo e pela elegância. Aquele não era o quarto de sua mãe, o quarto onde ela morrera. O Rei dera aposentos novos para sua segunda esposa, afinal, poderia ser de mau agouro usar o da Rainha anterior. O quarto novo era maior, com janelas com vitrais magníficos e a mobília era a mais nova de todo o castelo, tinha vindo das terras do Sul, do país de Dominique. Marina estava examinando uma tapeçaria que trazia uma cena de caçada quando seus olhos caíram sobre uma redoma de vidro, dentro havia um cristal. Ela nunca atentara para aquele objeto. Claro! Ele sempre estivera coberto, só que, agora, sentiu-se subitamente atraída por ele. Era o cristal do seu sonho! “Eu não deveria tocá-lo. Não é correto, não é...”

Retirou a redoma com cuidado e colocou-a sobre um móvel. “É lindo! E como brilha! Como brilha!” Tocou o cristal e ele começou a emitir um brilho intenso, assim como o seu próprio medalhão. “É a luz outra vez! Aquela mesma luz!” A imagem de um homem belíssimo surgiu dentro do cristal, sua boca se movia, mas Marina não conseguia compreender, só percebia sua extrema agonia e desespero, tão torturantes que ela pode senti-los nitidamente. “É como no meu sonho! Quem é ele?”

— Fale comigo! Quem é você? Por que está preso? — Ela não conseguia ouvir o que ele dizia. — Por favor, que posso fazer para ajudar você? O que?

A Rainha entrou. Seus olhos dardejaram de raiva quando viu onde Marina havia mexido. Correu e cobriu o cristal com a redoma, fazendo com que a luz se extinguisse e a imagem do homem desaparecesse. Depois pegou Marina pelo braço e a sacudiu:

— Nunca mais toque nas minhas coisas, ouviu? — Ela estava quase gritando. — Nunca mais! — Percebendo que a estava machucando, a Rainha soltou a outra.

— Por que? Que cristal é esse? — Estava confusa. — Por que todos me dizem coisas e não me explicam o por quê? — Fez pausa. — Quem era o homem do cristal?

— Homem no cristal? Você está imaginando coisas. — Falou ainda com raiva na voz. Depois percebendo que a estava sobressaltando mais do que deveria, acrescentou: — Você é muito curiosa, Marina, um dia poderá ter sérios problemas se não se controlar. — Disse com voz doce, mas ainda assim em tom ameaçador.

— Majestade, eu não sou nenhuma criança boba. — Respirou fundo. — Há muitas coisas estranhas ocorrendo por aqui. Aquele mago...

— Você é muito impressionável, menina. — Olhou bem para ela. — O que lhe disseram? Que eu era uma bruxa? Que enfeiticei seu pai? Que bebo o sangue de criancinhas em orgias noturnas com Sir Richard ao meu lado? Que outras histórias contam sobre mim? — Ela sorriu. — Ora, querida, muitos invejam minha posição, desde que seu pai era vivo.

— Não, não foi isso que o mago disse... Só que... Sempre me tratou bem, eu não acredito no que disseram, não posso acreditar... — Estava tateando nas palavras.

— Então, por que teme? Se nada tem contra a minha pessoa, deveria confiar em mim, não é mesmo? — Ela acariciou a cabeça loura de Marina, como faria com um bichinho de estimação. — Ou acha que pode sair por aí cavalgando e libertando o povo oprimido? — Falou debochando dela. — Isso é uma grande tolice. Se você ainda fosse a filha de De Mülle... Viu o que ela fez hoje? Uma vergonha! — Disse com ar de censura. — Eis a falta que uma boa mãe faz.

— Não me acha capaz de fazer coisa alguma por mim mesma, não é? — Ela estava se sentindo desafiada, e conhecendo sua índole, era exatamente isso que a Rainha sabia que ocorreria. — Me acha uma boba?

— Não, absolutamente. — Fez pausa e sentou-se. — Eu só a considero muito sensível e penso que não deveria ouvir essas tolices. Mas pode acreditar que essas histórias irão cessar quando seu primo partir daqui. Acredito que sua presença seja daninha. É um De Brier, afinal. — Comentou como que casualmente.

— Partir? Vai permitir que volte com o Conde De Sayers, então? — Não conseguia conter sua curiosidade, principalmente, quando o assunto era Alan.

— Com De Sayers? Não, de forma alguma. Eu irei enviá-lo para o Sul. A ilha de Valteil. Conhece? — Quem não conhecia aquele inferno na terra? Um pântano terrível e fétido, com feras devoradoras de homens por todo o lugar? — Irá viver no exílio, é a única forma de neutralizar sua má influência. Ele é um símbolo, um estímulo para os rebeldes deste reino. Os De Brier devem ser apagados da memória de todos.

— Exílio?! — Os olhos de Marina se arregalaram. — Mas ele não fez nada, Senhora. Por quê?

— Ele não precisa fazer, minha querida, basta que ele exista. Este é o grande problema deste rapaz. Ele deveria ter deixado de existir faz muito tempo, mas seu pai foi magnânimo. Eu devo ser prática. — Fez pausa. — Não se perturbe com isso. Já disse estas preocupações não devem ocupar sua cabecinha.

— Sim, creio que tem razão. — Estava pálida. Começava a ter grandes dúvidas. “Talvez a única que possa resolver minhas dúvidas seja a Rainha das Fadas...” — Com licença, Majestade, creio que deseja descansar. — Recebeu a permissão e saiu, com o coração apertado.
XXX
Alda trocou-se e foi em busca de seu pai, todos a olhavam para ela com espanto, admiração ou desdém. Em outra situação isso poderia despertar algum sentimento nela, mas não na situação em que estava. Não era como se não se importasse, mas estava anestesiada. Erik comentava sua atuação calorosamente, afinal estava orgulhoso dela, como nunca esteve antes!

— Esteve maravilhosa, Milady. — O rapaz falou empolgado, deixando de lado os seus movimentos contidos. — A última batalha foi...

— Você é suspeito para dizer isso, Erik. Afinal, você é meu amigo. — Alda deu um sorriso sem graça.

— Talvez aceite melhor uma opinião externa, Senhora. — Disse Lívio se aproximando e vencendo sua timidez. — Seu desempenho foi soberbo. — O rapaz fez uma mesura. Alda olhou para ele com desconfiança pouco disfarçada e Erik se colocou em guarda. — Perdão, creio que fui rude. — Sua voz era melodiosa e acentuada por um sotaque que Alda não reconheceu. — Sou Lívio De Gaglione, ao seu serviço, Senhora. — Apresentou-se tomando sua mão e depositando um leve beijo.

— Agradeço o elogio, Senhor, mas devo encontrar meu pai. — Alda não queria intimidades com ele, pois era sobrinho da Rainha, e não estava disposta a conversar com desconhecidos.

— Vi o Marquês De Mülle perto do chafariz. — Falou e depois comentou: — Ouvi falar muito de seu pai na universidade. Um de meus mestres sempre elogiou sua inteligência, perspicácia e o fato de incentivar as artes e as ciências.

— Mestre!? Qual mestre? — Alda perguntou desconfiada.

— Mestre Leonardo De Ceravel, o renomado filósofo.

— Ele foi meu professor por algum tempo. — Alda comentou com um sorriso rápido. — Creio que meu pai gostaria de ter notícias de Mestre Leonardo. — Fez pausa, não deveria perder seu tempo em conversas tolas, mas... — Mas creio que fui rude. Este é Erik, meu grande amigo e escudeiro. — Os dois se cumprimentaram.

— Eu o vi na audiência, Senhor. Não quis combater? — Erik tentou mostrar-se gentil, embora não desejasse dividir a atenção de Alda com ninguém.

— Onde eu estava, era o lugar mais seguro para mim. — Passou a mão bem feita bem feita pelos cabelos para domar uma mecha rebelde que lhe caía sobre a testa. — Sou tão mal cavaleiro que se tivesse participado, com certeza, todos se lembrariam mais do meu fiasco que do triunfo da Senhora Alda. — Comentou bem humorado. — É uma fama que eu dispenso. — Alda sorriu de novo e não conseguiu resistir mais.

— Mas o que estudou na universidade? Como está Mestre Leonardo?

Começaram a conversar e Alda se maravilhou com inteligência e elegância do rapaz que diferia de todos os outros que conhecera até então. Tocava diversos instrumentos e falava algumas línguas, era versado em filosofia e nas letras, além disso, era extremamente gentil, o único problema, e um bem grande por sinal, era o fato de ser sobrinho da Rainha. O rapaz também começou a apreciar a companhia da moça que não falou nem de fitas e vestidos nem de como eram maravilhosos os guerreiros e, se antes, pretendia somente matar sua curiosidade, sentia agora que encontrara a primeira pessoa capaz de entender sua natureza.

Alda apresentou Lívio a seu pai, invertendo o que seriam as boas regras da corte, e este também ficou encantado pelo rapaz e esqueceu que deveria repreender a filha. Conversaram sobre muitas coisas, desde arquitetura, até o cultivo de vinhas e oliveiras. Seu sotaque, ao contrário do de Humberto, que era áspero e só acentuava seu débil conhecimento da língua, só tornava sua voz mais doce e encantadora. O Marquês o considerou um noivo ideal. Entretanto, sabia que o compromisso com Humberto De Dorsos não poderia ser esquecido e sentiu seu coração pesado, outra vez. De repente, o próprio Humberto aproximou-se deles, com uma expressão furiosa no rosto.

— Acredito, Senhora, que me deve desculpas. — Falou em um tom “amigável”.

— Desculpas, Senhor? Não compreendo o motivo. Foi derrotado em um combate justo. — Alda foi sarcástica.

— Não seja ridícula, mulher! — Esbravejou e Erik quase se atirou em cima do gigante, mas Alda o conteve com o olhar. — Não deveria estar na liça. Aquele não era lugar para uma dama. — Falou em tom alterado que o tornava ainda mais ameaçador. — Sua atitude imodesta, humilhou-me, Senhora.

— Creio que a Senhora Alda não pretendia humilhá-lo, Senhor. Foi o acaso que fez com que se encontrassem. — Lívio interveio calmamente. — Além disso, seria uma lástima nos privar da atuação de alguém tão habilidoso, só porque... só porque se tratava de uma mulher. — Continuo com voz pausada. — Eu mesmo não vejo nisso limitação, ou vergonha alguma... — Terminou com um cumprimento para Alda.

— Quem é você para se meter quando falo com minha noiva? — Perguntou em voz tão alta que todos que estavam por perto olharam para eles e tanto Lívio quanto Erik ficaram perplexos, o último, aliás, ficou pálido como um fantasma. — Meta-se com sua vida!

— Sou Lívio De Gaglione. — Disse tentando manter a fleuma enquanto seu desejo era ser tragado pela terra. Afinal, escolhera para cortejar uma mulher comprometida e com alguém bem perigoso. Humberto lembrou-se então que já o vira e quem ele era. — Eu não sabia que estavam noivos. Eu lamento muito! — Não era um pedido de desculpas, mas a expressão de sua tristeza pela situação de Alda.

— Posso ser sua noiva, Senhor. Isto é inevitável, como bem sabemos. — Comentou com mordacidade. — Só que não tem direito de me dar ordens, devo satisfações ao meu pai somente.

— Por enquanto, pode ser, mas amanhã isto irá mudar e há de me respeitar, pois serei o seu senhor. E farei com que saiba disso desde o primeiro instante. — Ameaçou e os olhos de Alda faiscaram. Foi então que Humberto percebeu que sua aproximação tinha sido infeliz outra vez. — Creio que nos veremos no baile hoje. — Disse sem graça. Podia parecer que não, mas ele realmente desejava que seu casamento fosse feliz.

— Com certeza. — Alda sentiu que os olhos de Lívio estavam sobre ela e que o brilho de felicidade havia desaparecido deles e lamentou sinceramente. “Espero que não me despreze por isso!” — Peço, porém, que mantenha a devida distância. Saiba que só o aceito por não ter outra opção e só suportarei a sua presença quando isso se tornar absolutamente inevitável!

— Meus respeitos, meu sogro. — Disse ele ignorando o último comentário de Alda, ainda tentou pegar a mão da moça, mas ela a retirou com nojo. — Nos veremos mais tarde, então. Com licença. — E se foi.

— É um boçal! — O Marquês falou involuntariamente. — Não deveria tê-lo deixado furioso, minha filha.

— Não pude resistir e acredite, meu pai, eu ainda farei pior do que isso, esteja certo. — E lembrando-se que Lívio ouvira e do que poderia pensar. — Não pense mal de mim, Senhor. Eu...

— Como poderia? Sei bem como as coisas acontecem no nosso meio... Nem sempre é possível escolher. Embora lamente profundamente a sua sorte. — Seu tom de voz era profundamente triste agora. — Espero vê-la no baile, hoje.

— Eu também espero. — Ele fez menção de se retirar e ela segurou sua mão. — Espero que dancemos esta noite, talvez seja o meu primeiro e último baile. — Esta atitude era imprópria, ela sabia, mas decidira a fazer o que lhe viesse em mente e o rapaz pareceu não se importar, aliás, pareceu encantado.

— Será um prazer, Senhora, e uma honra. — Sorriu o sorriso mais encantador que Alda já vira. — Com licença, Senhor Marquês, creio que precisam conversar, agora. — Beijou a mão que o segurava e se foi, fazendo com que Alda corasse ligeiramente.

— Parece ser rapaz excelente. — O Marquês comentou melancólico. “E você caiu de amores por ele, minha filha.”

— É verdade. — Falou Alda acompanhando com os olhos a silhueta elegante do moço se afastando. — Ele em nenhum momento me recriminou nem se espantou, é um cavalheiro. — Concluiu com tristeza.

quinta-feira, 29 de janeiro de 2009

Capítulo 2: A Decisão de uma Vida (Parte 6)


Se você está lendo este post, deve ter passado pelo capítulo 1. Agora, você está na sexta parte do capítulo 2. Se caiu aqui por engano, clique para retornar para a parte anterior, se você clicar na tag Rosas, poderá acessar todos as partes que coloquei no blog até aqui. Quem estiver perdido é só perguntar. Continuarei a postagem até o terceiro capítulo e depois, só se realmente houver interesse. Esta parte do capítulo é o fim do torneio. Eu reformei a versão anterior, porque estava muito pobre. Espero que tenha ficado pelo menos um pouco mais emocionante.


Ventos de Mudança
Capítulo 2: A Decisão de uma Vida (Parte 6)

Como Humberto e o Desconhecido foram sempre vitoriosos, por fim tiveram de se enfrentar. Richard estava torcendo sinceramente pelo Desconhecido e, já sabendo quem ele era, aguardava ansiosamente pelo desfecho do torneio. Lívio, também, mostrava-se bastante excitado e como detestava torneios, isso aguçou a curiosidade de sua irmã.

- Não consigo compreender, meu irmão, porque está tão interessado se sempre odiou torneios? - A moça que perguntava era a sobrinha da Rainha. Ela usava um elegante vestido vermelho, mas parecia pouco confortável dentro dele.

- Mana, sempre é possível tirar lições mesmo de um esporte bárbaro e violento. - Falou untuoso. - Por exemplo, o cavaleiro sem nome usa a inteligência e não a força para obter a vitória e isso me agrada. - Comentou com um sorriso.

- Bárbaro e violento! Você escolhe palavras fortes para justificar a sua covardia! Se eu pudesse estaria na liça competindo. Mas minha tia me proibiu! - A moça sorriu de forma amarga. - Não seria apropriado para uma mulher, disse ela... Pensei que minha tia não se importasse com essas tolices.

- Na verdade, não acredito que ela se importe. - Lívio comentou com voz neutra.

- Se não se importa, por que a proibiu então? - Lamentou-se. - Mas, com certeza, haverá uma próxima vez. - Ao contrário do irmão, ela era um excelente cavaleiro.

- Verdade... Eu acho que algumas mulheres bem poderiam tornar essa bobagem mais interessante. - Comentou misterioso.

- Está debochando de mim, meu irmão?

- Eu?! - Ele balançou a cabeça. - De forma nenhuma. Tais discriminações são profundamente injustas. Ninguém deveria ser obrigado a fazer ou não fazer alguma coisa.

- Não tente usar minhas palavras para propor idéias subversivas. - Ela falou indignada. - Eu não sou a favor da anarquia.

XXX

Após um rápido intervalo para que pudessem cuidar de ferimentos e descansar, os dois oponentes apareceram na liça. De um lado o imenso Humberto de Dorsos, com seu capacete em forma de caveira. Do outro, o esguio Cavaleiro Desconhecido, com sua armadura brilhante e elmo com asas. Naquele momento boa parte da audiência estava decidida. Preferiam o Cavaleiro Desconhecido. E ele arrancava suspiros das donzelas presentes e provocava ciúmes em alguns homens. Konrad, particularmente, invejava sua boa sorte. "O dia era meu! Não acredito que tenha tido tanto azar!"

Flora tinha se recuperado, mas ainda estava nervosa e cochichou com Alan para que Konrad não ouvisse:

- Você acha que ela tem alguma chance?

Alan respirou fundo e balançou a cabeça.

- Eu não sei. Se eu tivesse que apostar, apostaria em Humberto... Mas se ela chegou até aqui... - Fez pausa. - Quem sabe?

O Desconhecido também sabia que tinha poucas chances. Na verdade, tudo iria depender de rapidez e sorte. Se o combate se prolongasse, o mais forte teria maiores chances de vencer. Como nunca estivera em um torneio, sentia-se feliz por ter chegado até o fim, só que sendo o oponente quem era, tinha que vencer. Era imperativo.

E os dois se lançaram ao combate. Humberto com violência, o outro com cuidado. O Desconhecido teria que se apoiar na sua habilidade e rapidez para vencer o gigantesco Humberto que com seus golpes violentos o desequilibrava do cavalo. O Marquês De Mülle estava tão pálido e rígido que a Rainha ofereceu seu médico. Já Richard achava muito curioso o comportamento do marquês. Que motivos ele teria para se preocupar com a sorte de um cavaleiro? Ainda que fosse um filho... Richard sorriu, o primeiro sorriso desde o começo do torneio, e passou a prestar muita atenção ao combate. No meio dos escudeiros, Erick também estava tenso. Ele fora contra aquela "aventura", claro, mas suas palavras caíram no vazio.

- Ela é boa. Não sou especialista nessas coisas, mas acho que dá para levar numa boa.

- O quê? - Erick deu um salto quando ouviu a voz de Haroldo. - "Numa boa"?

- Sim, vai dar tudo certo. Não acho...

- Xiii! Ninguém pode saber... - Erick ficou ainda mais tenso. Quantas pessoas já sabiam?

- Ah... Não me diga que você realmente não acredita que isso vai ser um segredo. Ui...

A lança do Desconhecido quebrou. Humberto pretendia derrubá-lo e jogá-lo sob os cascos de seu cavalo, mas o outro se mantinha firme na sela. Ainda com a lança partida, o Desconhecido arrebentou o estribo da sela de Humberto com um golpe certeiro. Ele foi ao chão, mas não sem antes puxar o pé do oponente. O Desconhecido, mesmo caindo, ainda conseguiu sacar a espada. Flora agarrou a mão de Alan.

- Vocês conhecem o cavaleiro, não é? - Konrad perguntou. - Quem é ele?

Alan não respondeu nada, nem Flora que continuava a apertar a mão do rapaz com mais força do que ele imaginava que ela pudesse ter. Humberto começou a caçar o oponente com golpes furiosos que sempre eram defendidos com dificuldade. Só que mais rápido, o Desconhecido rodeou Humberto que ficou com o sol nos seus olhos, e com perícia admirável, ele começou a ganhar terreno. A audiência aplaudia e vibrava a cada lance. A destreza do Cavaleiro Desconhecido tornava a força de Humberto quase sem valor em um combate à distância, por isso, ele se lançou sobre o adversário de forma temerária. No chão, os dois rolaram, Humberto acertou a mão do Desconhecido e ele perdeu sua espada. "Agora acabou", pensou a Rainha olhando para o lívido De Mülle ao seu lado.

Humberto pretendia se colocar sobre ele, com todo o seu peso, dominando-o e esmurrando-o até que pedisse misericórdia, não seria galante, é bem verdade, mas seria eficaz. Só que para sua surpresa o outro sacou a adaga e antes que ele fizesse qualquer coisa colocou-a contra seu estômago.

- Creio, Senhor, que eu ganhei. - Ele pensou em resistir e o outro apertou mais a lâmina. - Se enfiar a adaga bem aqui, nenhum médico poderá salvá-lo. - Disse com voz arfante, mas firme. - Peça misericórdia ou... - A ameaça era real e apesar de humilhante, Humberto gritou a palavra final.

- Misericórdia. - Brados se elevaram de toda a audiência e o Marquês respirou aliviado, limpando seu suor frio com um lenço. Agora, sabia que outra tempestade estava por vir.

- "Ele" é muito bom! - Alan exclamou, com um sorriso condescendente de quem tinha matado a charada.

- Realmente. Mereceu a vitória. - Konrad teve que admitir contra a vontade e Flora sorriu também.

Humberto se levantou e afastou-se e a Rainha dirigiu a palavra ao vitorioso.

- Receberá o prêmio pela vitória e uma prenda da donzela que escolher. - Disse conforme o costume. - Só desejo que tire o seu elmo, tão bom cavaleiro, não deve temer mostrar o seu rosto.

Qual não foi a surpresa porém quando ao arrancar o elmo, duas longas tranças caíram sobre os ombros do cavaleiro que revelou ser não um homem, mas uma mulher. Era Alda, filha do marquês De Mülle. Todos ficaram perplexos. "Ora, ora, se não é a donzela que deu de beber a Guilherme de Auston... Muito interessante!", pensou Jerôme que não se esquecia de um rosto. "Ela é louca de verdade, mas pelo menos sabe lutar, não contou nenhuma mentira.", Alan pensou divertido. "Que mulher admirável ela é! E como é bonita! Ridicularizou todos esses brutos, com graciosidade.", Suspirou Lívio, já reconsiderando a idéia do casamento como algo agradável, embora não soubesse que Alda já estava comprometida. "Se eu estivesse lá, ela não teria vencido. Imagine, só, ser derrotado por uma mulher! Eu nunca passaria por uma humilhação como essa!", Konrad pensou com uma pontada de desprezo. "Isto é injusto! Se ela pode participar, eu também deveria ter o direito! Ela não é melhor do que eu!", Lucília pensou ofendida. "Eis sua vitória Dominique, delicie-se com ela!", Richard pensou com prazer, aplaudindo vigorosamente.

- Isto é um ultraje. - A Rainha gaguejou lívida e fuzilando De Mülle com os olhos enquanto que Richard, contra todos os seus hábitos, soltou uma sonora gargalhada. Humberto sentiu o chão abrir-se sob seus pés. "Maldita! Há de pagar bem caro por esta humilhação! Sua noite de núpcias será inesquecível, eu garanto.", jurou, lívido de raiva.

- Creio que não há ultraje algum, Majestade, já que não havia regras que impedissem minha participação. Além disso, minha vitória sobre estes dignos cavaleiros só vem confirmar o quanto eu merecia estar aqui. - Disse orgulhosamente e encarando a Rainha como ninguém fazia há muito tempo. "Realmente, ela não é feita do mesmo material que De Mülle.", pensou Richard, "Será um casamento muito infeliz."

Alda recebeu olhares de admiração de Lívio, Alan e Richard, entre outros. Marina sorriu também, muito embora temesse pela segurança de Alda dali para frente. Afinal, ela havia ofendido a Rainha. Humberto simplesmente se retirou seguido por seu pai e a Rainha deu por terminado o torneio, o mais rápido possível, sem grandes festividades. Alda nem pode escolher sua "prenda". De Mülle não sabia onde ela queria chegar, mas temeu quando viu o olhar que Humberto lançou sobre ela. Breve estariam casados e, então, o que seria de sua filha?

domingo, 25 de janeiro de 2009

Capítulo 2: A Decisão de uma Vida (Parte 5)


Se você está lendo este post, deve ter passado pelo capítulo 1. Agora, você está na quinta parte do capítulo 2. Se caiu aqui por engano, clique para retornar para a parte anterior, se você clicar na tag Rosas, poderá acessar todos as partes que coloquei no blog até aqui. Quem estiver perdido é só perguntar. De qualquer forma, continuo a postagem até o terceiro capítulo e depois, só se realmente houver interesse. Estou na parte do torneio. Acho que nao consigo me sair bem descrevendo essas cenas e gostaria mesmo de algum feedback.


Ventos de Mudança
Capítulo 2: A Decisão de uma Vida (Parte 5)

— Denis sempre confiou mais em sua força que na inteligência. — Konrad comentou com ar de crítica. — Veja só o resultado. — Flora suspirou. Tudo aquilo parecia tão sem significado. Qual a graça nestes combates simulados? — Se eu estivesse em seu lugar seria diferente.

Outra pessoa na audiência também notou que já havia visto o cavaleiro em algum lugar e sorriu quando o viu vencer o oponente. “Quando souberem quem é o cavaleiro... Será um escândalo!” Outros combates se seguiram, até que chegou a vez de Humberto que venceu, outra vez, com facilidade e rapidez.

— Se eu estivesse lá, este bárbaro não teria chances! — Konrad resmungou e Flora acariciou sua mão com carinho, compreendia seu mau humor. — Ele já estaria fora do torneio.

— Nós sabemos disso, Kon. Haverá uma próxima vez! — O rapaz tomou a mão que acariciava a sua e a beijou com devoção, fazendo com que Alan se sentisse incomodado pela primeira vez.

— Eu sei que haverá, só que eu havia prometido ganhar este torneio em sua honra. Deve estar decepcionada comigo. — Disse com um olhar meloso que despertou o ciúme de Alan que se conteve.

— Na verdade, estou feliz que esteja ao nosso lado ao invés de estar correndo riscos lá embaixo, não é Alan? — A moça falou tentando quebrar a tensão entre os dois.

— Assim, não sou eu o único a esquentar o banco. Na verdade, eu desejaria que estivéssemos juntos na liça. Só que poderia haver um empate. — Brincou melancólico.

— Não haveria empate. — Konrad falou com superioridade e Flora sentiu um calafrio e se envolveu no seu xale. Deveria se agasalhar mais.

Chegou a vez do Cavaleiro Desconhecido, outra vez, ele teria que enfrentar Felipe De Grace, outro dos jovens cavaleiros, o melhor depois de Konrad. Os dois se bateram e Felipe levou a melhor, derrubando o oponente com um golpe astucioso e rápido. Rapidez, aliás, era sua especialidade. Marina estava suando frio, Flora desviou o rosto, já Alan e Konrad se mostravam cada vez mais excitados, afinal, tinham escolhido o cavaleiro sem nome como seu favorito. Caído, o cavaleiro rolou sobre seu próprio corpo e ergueu-se antes que Felipe pusesse fim ao combate, sacando sua espada e pondo-se em guarda. Os dois começaram a lutar no chão.

— É melhor desistir, pois não há ninguém que possa me vencer na arte da espada. — Disse com ar afetado. Era uma mentira, pois nem Konrad, nem Richard, nem Jerôme, haviam perdido para ele.

— Sempre há uma primeira vez, Senhor. — O cavaleiro disse simplesmente.

Os dois lutaram por muito tempo, um não conseguindo vantagem sobre o outro. Mas Felipe perdia a concentração quando os duelos se alongavam demais, então em um descuido, terminou desarmado. Só que se jogando no chão, recuperou a espada, e retornou à luta. O Cavaleiro Desconhecido deixou que se levantasse, cavalheirescamente, antes de reiniciar o ataque, só que Felipe, usando de um golpe sujo, lhe deu uma rasteira, o Desconhecido, no entanto, não largou o punho da espada e a encostou em uma região bem sensível do corpo do oponente.

— Creio, que se não desejar perder sua virilidade, Senhor, deve se render, agora. — E foi o que ele fez sem hesitação. E a platéia vibrou no que tinha sido o melhor combate até então.

XXX

Filipe se retirou absolutamente humilhado e quando estava já fora da liça, deu de cara com alguém que não via há muito tempo.

— Jerôme! — Seu tom de voz traiu involuntariamente sua emoção. — Vo-você aqui? Eu pensei...

— Não poderia deixar de assistir seu primeiro e retumbante fracasso. — Fez pausa. — Ou seria o segundo? — O outro ficou rubro e Jerôme pensou: “Ah! O tolinho ainda me deseja, não é mesmo?”

— Para você é fácil falar... — Felipe queria matá-lo ou se jogar nos seus braços, o que fosse possível. — Mas por que não estava na liça, também? Será que perdeu suas capacidades na sua jornada de... Como você dizia mesmo? “Iluminação”, não é isso?

— Sua Majestade achou por bem que eu não tomasse parte para não estragar o dia de alguém. — Falou desdenhando. Pensara no início que esse alguém era Konrad... Agora, sabia estar enganado. — Para seu governo, estou melhor do que nunca. — Disse fingindo ajeitar as pregas do seu belíssimo manto. “Ele está debochando de mim, como sempre fez! Mas não perde por esperar!”, pensou Filipe furioso. — Ah, antes que se vá não poderia deixar de elogiá-lo, meu amigo. Você está cada vez mais parecido com sua irmã Liliane. Aliás, ela ainda está esperando por mim? Ou conseguiram empurrá-la com algum tolo? Depois de tudo que se passou... — Dito isso, afastou-se rindo, enquanto Filipe, rubro e visivelmente abalado, pelo torneio, e pelo reencontro, tentava juntar os cacos de sua dignidade. “Ainda hei de me vingar!”

Todos se admiravam da habilidade e astúcia do cavaleiro Desconhecido. Afinal, quem seria ele? Nem a Rainha sabia, mas sua destreza começava a preocupá-la. De Mülle parecia extremamente preocupado com seu bem estar e suspirava aliviado quando os combates eram encerrados.

— Creio que precisa me apresentar este cavaleiro, Louis. Quem ele é? — Ele não respondeu. — Está dormindo de olhos abertos, De Mülle?

— Não, Majestade, é que o combate me deixa nervoso, muito nervoso... mas após o torneio, farei questão de apresentá-lo. — Fez pausa. — É o meu melhor “homem”. — Completou com orgulho.

XXX

O cavaleiro que discutira com Alan, Sir Martin iria entrar na liça e enfrentar Humberto de Dorsos. Ele montava um imenso cavalo de batalha, e mostrava confiança. Ambos os cavaleiros tinham vencido dois combates, Humberto, na verdade, um só, já que Konrad sofrera o infeliz acidente.

— Se alguém pode vencer esse Humberto de Dorsos, aí está ele. — Falou Konrad.

— Humberto de Dorsos vai disputar a final do torneio com o cavaleiro Desconhecido. — Alan falou de braços cruzados. — Esse Martin vai perder.

— Pode ser...

O combate começou. Os dois cavaleiros fortemente armados cruzaram lanças. No segundo choque, Martin, mesmo menor, conseguiu atingir Humberto com um golpe certeiro e ele perdeu seu escudo. Voltaram a se bater e Humberto trocou a lança pela espada. Era uma arma enorme e ela se abateu sobre o elmo de Martin. Ele não rachou, mas o cavaleiro desequilibrou e caiu do cavalo.

Com uma rapidez surpreendente para o seu tamanho e peso, Humberto desceu do cavalo preparou-se para enfrentar o outro no chão. Martin retirou rápido o elmo que estava muito amassado.

— Ele não deveria tirar o elmo. — Alan comentou.

— Mas ele na poderia lutar com ele. — Konrad ponderou. — Tem um corte na cabeça.

— Só que assim ele fica bem mais vulnerável... — Konrad aquiesceu e Flora estava com os olhos vidrados na arena.

Humberto esperou que ele se desvencilhasse do capacete e se posicionasse e atacou. Pegara a massa e o outro ainda usava espada e escudo. Apesar de Martin manter-se firme e usar bem o escudo, a força de Humberto era tamanha que ele foi sendo destroçado. Golpe sobre golpe, e a audiência não conseguia respirar. Martin lançou o escudo destroçado sobre Humberto e recuou. Este sequer pareceu sentir a pancada.

— Ele é muito forte! — Exclamou Alan.

A partir daí tudo foi muito rápido. Martin se esquivou uma ou duas vezes. Estava arfante, e sua testa sangrava cada vez mais. Sua esposa grávida, na audiência, gemia tão alto que alguns pensavam que fosse desmaiar. Humberto investiu mais uma vez e a massa acertou-lhe o maxilar e ricocheteou no braço. Ouviu-se o “crack”, mesmo por cima da armadura, foi um golpe tão forte que o metal se partiu, a carne rasgou e o osso quebrou. A verdade, tanto o maxilar quanto o braço estavam fraturados. Um ou outro ferimento fazia parte do esperado em um torneio, mas fraturas expostas não era coisa comum nesse tipo de festividade. E o pior é que Humberto parecia disposto a continuar investindo. Ele só parou porque Martin gritou e desfaleceu pouco depois do último golpe.

— Acho que seu cavaleiro será o próximo, De Mülle. — Disse a Rainha que parecia deliciada. Humberto era realmente um grande cavaleiro, não deveria ter impedido Konrad de lutar. Ele teria poucas chances.

De Mülle estava mortalmente pálido. Se já estava preocupado antes, agora ele estava desesperado e seu coração parecia querer explodir. Não muito longe dali, Flora quase desfalecera e Konrad a estava amparando, enquanto Alan correra em busca de água e sais de cheirar.

— Ele pode matá-la, Alan... — Ela balbuciou quando Alan voltou.

— Matar? Matar quem? — Konrad perguntou, olhando de um para outro e Alan entendeu. Ele realmente conhecia o cavalo.

— Flora está assustada... — Alan falou baixo enquanto afagava a mão de Flora.

— Motivo não lhe falta... Esse bárbaro quase destroçou Sir Martin. — Konrad estava indignado. — Afinal, ele não sabe que é um jogo?

— Ao que parece, ele não está aqui para jogar. — Alan falou sério. — Mas o Desconhecido já deve saber disso. — E ele olhou para o lado e viu que Marina olhava para ele e estava pálida como um fantasma. Ela também sabia, ele pensou.

sexta-feira, 23 de janeiro de 2009

Capítulo 2: A Decisão de uma Vida (Parte 4)


Se você está lendo este post, deve ter passado pelo capítulo 1. Agora, você está na quarta parte do capítulo 2. Se caiu aqui por engano, clique para retornar para a parte anterior, se você clicar na tag Rosas, poderá acessar todos as partes que coloquei no blog até aqui. Quem estiver perdido é só perguntar. Se estiver indo rápido demais, paro de postar por ma semana. Enfim, qualquer comentário, sugestão ou crítica será lida e desde já agradeço pela atenção. Estou postando hoje, porque ao que parece não há notícia alguma para o blog. Mais tarde, devo resenhar o volume de Honey & Clover que terminarei de ler hoje.


Ventos de Mudança
Capítulo 2: A Decisão de uma Vida (Parte 4)

Ao entrar em seus aposentos seu pai já estava a sua espera. E bastou olhar para ele para saber que algo ocorrera. Algo ruim.

— Pai, o que o está atormentando? — Perguntou ajoelhando-se a seus pés e segurando sua mão.

— Tenho uma notícia... — Respirou pesadamente e pôs a mão na cabeça. — E espero que não me odeie pelo que irei que dizer.

— Odiá-lo, pai? Como poderia fazer isso? — Estava começando a ficar ansiosa, pois o pai era um homem equilibrado, não se lembrava de vê-lo em tal estado desde a morte de sua mãe... ou um pouco antes. — O que quer que seja, pai, eu jamais o odiaria. Eu, também, preciso fazer algumas perguntas... As profecias...

— As profecias!? Realmente, eu sei que precisa saber... Entenda que não é fácil para mim, nunca foi. — Fez pausa e respirou fundo. — Filha, sou um covarde, o pior de todos os vermes e, agora, tudo vem sobre mim. Só, que eu não queria que você sofresse, mas ela exigiu...
— O que a Rainha exigiu, pai?

— A Rainha deseja que você se case. — Falou sério e Alda contraiu o rosto involuntariamente.

— E é da sua vontade, pai. Pouco me importa o que a Rainha quer. — Em outra situação o marquês seria capaz de rir do comentário, pois só mesmo uma mente juvenil poderia vir a dizer coisas como estas. — Você é meu pai, a decisão é sua e sei que me quer ao seu lado...

— Recorda-se como herdei as terras que possuo, com certeza. Ao casar com a noiva que meu irmão rejeitou, herdei parte de suas terras. — Ela fez que sim com a cabeça. — Digo, que em nenhum momento, pude ter qualquer queixa contra sua mãe. Ela foi a melhor das esposas, mesmo que eu não a merecesse. “Ou a amasse.” — O marquês evitava deliberadamente o assunto.

— Pai, seja direto, por favor.

— Eu traí meu próprio irmão! — Fez pausa. — Mas eu realmente acreditei que Marc desejava o trono, e que o povo e os nobres o apoiariam. Ele era meio-irmão do Rei e todos o amavam, acreditavam que ele seria um governante muito melhor. — Fez pausa. — E com certeza, ele seria.

— A Conspiração Sangrenta, é a isso que se refere? Pelo que sei, Sir Marc desapareceu, nunca mais foi visto. Sabe do seu destino, pai? — Perguntou curiosa.

— Marc sempre teve o dom de atrair os piores perigos, seu irmão, o rei, sempre conspirou contra sua vida. Eu fui amigo de Marc... Antes mesmo de ele conhecer Estevão ou Michael de Sayers. O rei sabia que era menos competente, menos amado pelo povo... Não é muito fácil conviver com um irmão que seja tão superior. Eu sei bem disso... — Ele suspirou. — Marc desapareceu subitamente, por muito tempo, acreditei que teria fugido para não terminar nas mãos do carrasco... Mas ele era muito corajoso para isso e jamais abandonaria Estevão. — Falou em desalento. — Eu odiava Estevão, acreditei que apoiaria Marc em seus intentos, afinal, eles eram muito amigos. Eu tinha certeza de que fugiria para o além mar assim que fosse acusado mas, ao contrário de mim, ele nunca foi um covarde, nunca foi. — Alda estava compreendendo o que o atormentou por todos aqueles anos. — Ele ficou. Ficou para que o nome da família não fosse maculado, acreditou, até o último momento, que o Rei veria que era inocente, acreditou que Marc viria em sua defesa, como De Sayers o fez. Que tentaria esclarecer tudo. Só que ele não veio. Ele nunca mais foi visto. De Sayers tentou, mas não foi ouvido. E eu tive que acusá-lo no tribunal. Eu o acusei meu próprio irmão, entende? Sem ter certeza! — Cobriu o rosto com a mão. — Porque o odiava, queria suas terras, sempre quis! E a Rainha me garantiu que era verdade, disse que minha cooperação era uma demonstração de fidelidade, e que eu seria recompensado se apoiasse seus intentos.

Alda estava estarrecida diante das confissões e da angústia de seu pai.

— Só que eles, todos eles sofreram, não só meu irmão... Elizabeth, Estevão, Alan... Você viu seus olhos! Ele me mataria se pudesse... No fim, eu descobri que tudo era parte de uma vingança de Evilblood. De Sayers me avisou e eu não acreditei. Eu não quis acreditar, mesmo sabendo que Michael sempre dizia a verdade. Só que não foi Richard quem o acusou, fui eu. — Sua voz era do mais profundo desespero e ele batia no peito. — Lembrar do olhar de Estevão quando compreendeu a traição, o desprezo de Elizabeth, o desprezo de todos. Dezenas de vidas foram destruídas com meu auxílio! — Fez pausa. — Todos os mortos eram fiéis ao Rei, todos os pilares do Reino foram derrubados e ela tem poder absoluto agora. Absoluto! — Sua voz estava absolutamente estraçalhada pela dor. — Se você não existisse... Se você... Com certeza, eu teria me matado. Mas você precisava de mim, por pior que eu fosse...

— E a Rainha das Fadas, pai? Por que nada fez? E o Conde por que ele não foi morto, também?

— A Grande Silena estava morrendo e Ádina, bom, eu até hoje não compreendo porque ela se ausentou do mundo... De Sayers só está vivo porque é intocável. É o Guardião da Espada! Mas tomaram seu filho como penhor. — Alda não compreendeu muito bem o que isso significava. — Ah, minha filha! Se eu pudesse fazer o tempo voltar, se pudesse...

— Mas não pode, pai. — Poderia ter falhado em tudo, mas nunca falhara como pai e ela o amava, mesmo sabendo que era um covarde. Agora conseguia compreender a reação de Alan. Como se sentiria se estivesse em seu lugar? — Mas não é isso que o atormenta, pai. É o casamento, não é?

— Ela ameaçou me matar, deixar você ao desalento, ou pior... Disse que deixaria Evilblood nos destruir, porque, também, sou um De Brier. Fazia tanto tempo que ninguém me fazia recordar disso, eu quase tinha me esquecido. — Sorriu amargo. — Ela quer que se case com um homem horrível. Eu sei que vai odiá-lo, vai odiá-lo, e eu vou me odiar se permitir. — Ele segurou a filha pelos ombros. — Quando me casei com sua mãe, casei porque era a única forma de cair nas graças de meu pai, porque ele odiava Estevão por se recusar a casar com a noiva que ele lhe escolhera, só por isso. Só que quando a vi percebi que poderia amá-la e me esforcei até a sua morte.

— É o homem da cicatriz, não é pai? Um homem alto e feio? — Ele assentiu. — Eu o vi hoje. — Alda olhou o pulso que o outro havia segurado e percebeu que havia uma mancha roxa.

— Você o viu? Quando? — De Mülle perguntou aflito. — Ele ousou tocar em você? Ele a feriu. — O homem estava pálido e Alda optou por fazer pouco caso.

— Ele é forte, pai. Mas só segurou o meu pulso. — Alda imaginou o que poderia ser aquele colosso descarregando sua raiva em alguém. — Com certeza, ele deve ser um aliado importante. — Ela se levantou, pois teve uma idéia súbita. — Eu só preciso me casar com ele, não é pai? Se não fizer isso ela irá destruir você?

— Querida, ele é um monstro, falei com ele. — Olhou para o pulso da filha e imaginou que coisas horríveis poderiam acontecer com ela. — Fala em casar como se fosse algo simples. — Balançou a cabeça. — Terá que viver com esse homem, terá que dormir com ele, ter os filhos dele... — Estava enojado. — Eu... Se pedir ajuda à De Sayers, talvez,... ou se fugirmos...

— Pai ela irá achá-lo e será pior. Além disso, eu tenho uma missão aqui, não tenho? — Ele empalideceu. — Não tente se enganar nem mentir para mim. O senhor sabe mais do que quer me dizer. — Respirou fundo. — Eu conheço o meu dever, pai. Farei o que esperam de mim. Eu só preciso me casar com ele e você estará a salvo e é isso o que farei, nem mais, nem menos. — Ele esperava que ela explodisse, era o que seu gênio indicava que faria, essa reação passiva, quase cínica o desconcertou.

— Filha, filhinha, se é por mim que faz isso... Não, não faça. Vai se destruir como eu me destruí.

— Pai, você não tem escolha, nem eu. — Fez pausa. — Odiaria qualquer um por isso mas você é meu pai. Eu o amo e quando se ama alguém, mesmo que saibamos que a pessoa tem falhas, as aceitamos, porque o amor não impõe condições. — Se levantou. — Você é meu pai e me ensinou isso. Acredite em você pelo menos uma vez, pode ter falhado em todo o resto, mas não falhou comigo. Só peço que confie em mim e não se espante com nada que eu vier a fazer daqui para frente, nem tente me impedir. Eu peço que me jure isso. — Falou solenemente e ele obedeceu com voz embargada:

— Eu juro... não juro pela minha alma, pois sei que está perdida, mas juro pelo espírito de sua mãe, que sei que descansa em paz. — Fez pausa. — Juro que não a impedirei.

— Boa noite, então, pai. Creio que precisamos descansar para o que quer que aconteça amanhã — Disse beijando-o e indo se deitar, só que o marquês, com certeza, não conseguiria fazer o mesmo, pois se via atormentado, por seu passado, por seu presente e pela sua perspectiva de futuro.

Alda também não estava calma. Quando entrou no seu quarto sentiu as lágrimas nos olhos viu que suas mãos tremiam e suas pernas pareciam não querer obedecê-la. Mas se começasse a corar, talvez não parasse mais e precisava descansar, se preparar para o que viria depois. Precisava ser forte, mas forte do que nunca fora antes.
XXX

A manhã do outro dia chegou, rápida para uns, não tanto para outros. Guilherme fora acorrentado no pátio, ao relento e chicoteado, estava muito ferido e o frio tornava seu suplício ainda pior, não fosse sua constituição física privilegiada, teria perecido, com certeza. Fora um tolo, sabia, aquela parada na taverna deveria poderia sido evitada. Mas, raios, como poderia saber que era uma armadilha? Que o vinho estava com drogas e que as mulheres tinham sido pagas para distraí-los e entregá-los aos homens da Rainha? Agora seus companheiros estavam mortos e ele iria se juntar a eles em breve, muito breve... Só uma lembrança o consolava neste momento. Quem seria a dama que se arriscou para lhe dar de beber? Quem seria ela? Não vira seu rosto e sua voz... Mas de nada adiantava isso agora! “Se escapar daqui, hei de encontrá-la de novo! Eu juro que farei isso!” De onde estava viu quando os postulantes saíram da capela rumo ao palácio, o mesmo percurso que ele fizera alguns anos antes. Suspirou, saudoso de sua inocência perdida e de seus sonhos estraçalhados. Alguém, sem que percebesse, se aproximou dele, saído das sombras:

— Perdão, cavaleiro! Se soubesse o que ocorreria, palavra eu não tomaria parte nisso. — Era o rapaz moreno que estava no grupo que o capturou, seus olhos negros estavam cheios de piedade. — Se eu tivesse algum poder, tais penas seriam abolidas. — Guilherme ergueu sua cabeça orgulhosamente:

— Não preciso de sua piedade, nem da piedade de ninguém! — Havia muito ressentimento em sua voz. — Vivi como um homem e vou morrer como um. Se veio aqui pensando que me veria suplicar por minha vida, esqueça. Prefiro morrer da forma mais cruel a macular minha honra.

— Nunca vou conseguir compreender as loucuras que os homens fazem pelo que chamam de honra... — Comentou com sua voz melodiosa, marcada pelo doce sotaque do sul. — De qualquer forma, eu lamento o desperdício de sua vida. É uma pena. — Disse se afastando, iria vagar até que fosse hora de se apresentar no grande salão.

Ele era sobrinho da Rainha e havia sido chamado com um propósito determinado que o desagradava, mas que deveria cumprir. Afinal, não tinha nada a perder. Não herdaria nada de seu pai, mas a vida da corte e as artes da cavalaria o entediavam tanto! Queria seguir na academia, ou na igreja, mas o desentendimento de sua família com o pontífice fechou-lhe todas as portas, assim sendo, deveria buscar um casamento vantajoso. Era uma questão de sobrevivência. Só que casar, era a última coisa que desejava, não quando havia tantos livros para ler e tanto para descobrir! Para piorar sua situação, detestava as futilidades femininas e a perspectiva de se ver obrigado a cortejar uma dama qualquer, embrulhava seu estômago. Sua aversão era tão intensa que muitos pensavam que era efeminado, o que não era absolutamente verdade. “Mesmo que um dia encontre uma mulher que me agrade e com quem possa conversar mais do que dez minutos sem me entediar, é óbvio que jamais me deixarão desposá-la. Além disso, como poderia encontrar alguém assim?”

Ia absorto em seus pensamentos quando viu uma cena: uma pessoa vestindo uma armadura em uma cocheira deserta. Mas havia algo de inusitado nesta cena banal, pois não era uma pessoa qualquer, era uma das damas que estava no salão na noite anterior. “O que ela pretende fazer? Não, ela não teria coragem... Mas, com certeza, seria bem divertido.” Afastou-se, antes que alguém, a dama, claro, percebesse a sua presença. Só que a bela imagem da moça que se vestia, para sua surpresa, permaneceu bem nítida em sua mente.
XXX

— Todos nos sentimos honrados, por este dia e creio que suas famílias ainda mais. — A Rainha falava antes de ordenar os novos cavaleiros. — Vocês se mostraram dignos desta grande honra e espero que seus nomes possam se cobrir das glórias que somente os atos virtuosos e justos podem trazer.

De Sayers sentia-se orgulhoso e ao mesmo tempo indignado. “Como esta mulher ousa dizer tais coisas? Ela que não passa da mais vil das criminosas!” Olhou para Konrad, ele estava resplandecente em sua túnica branca, bordada de dourado, seus olhos cristalinos cheios de lágrimas, parecia um anjo, só que, atrás dele, estava a sombra maligna de Richard Evilblood. Flora olhou para ele por um instante, admirando sua beleza quase sobrenatural, só que seus doces sentimentos não eram para Konrad, mas para Alan que estava a seu lado. Sabia que o coração de Alan estava pesado, mesmo que ele mesmo não dissesse nada, afinal, entre eles as palavras eram desnecessárias. Konrad notou que no decorrer da cerimônia, mesmo quando Flora olhava para ele, seus “olhos” eram para Alan e sentiu seu coração inundou com um súbito ciúme, um sentimento que desconhecera até então, mas que viria a acompanhá-lo por muito tempo dali para frente. Só voltou sua mente para o que ocorria quando ouviu solenemente a Rainha pronunciar:

— Levante-se Sir Konrad De Sayers! — Pôs-se de pé, imponente e recebeu das mãos de Richard uma belíssima espada. “Esta espada... Não, não pode ser.”, De Sayers achou que deveria estar se confundindo.

— Mostre-se digno de usá-la, meu jovem. — Richard falou com ar orgulhoso.

A visão daquele jovem cavaleiro, de beleza perfeita e ar gracioso, feriu particularmente um dos homens que assistia a cena, fazendo com que acariciasse a cicatriz horrenda que lhe deformava o rosto. Humberto de Dorsos apreciava a beleza, por certo, mas ela sempre o fazia lembrar daquilo que não possuía. Ele procurava insistentemente encontrar com os olhos de certa jovem. Ela não estava presente.

— “Pai, ela não está aqui! Como vou me aproximar dela se ela não está aqui!” — Comentou em sua língua materna, para que ninguém mais pudesse entender.

— “Não seja tolo, Humberto! Está levando muito à sério a idéia de casamento.” — Depois condescendendo o velho disse. — “Pois, bem, está certo, é a primeira vez que passa por isso, é natural que esteja ansioso. Eu vou procurar saber o motivo da ausência, não se preocupe.”

— Estais dispensados, meus nobres. Ver-nos-emos no torneio. — Disse a Rainha se retirando.

— Senhora, preciso falar-lhe. — Marina pediu, pois não conseguira conciliar o sono durante toda à noite e tivera pesadelos terríveis, nos quais se via presa em um cristal mágico.

— Mais tarde, querida. Mais tarde. — Disse se afastando.

Marina procurou Alda com os olhos, mas não a viu, em compensação seus olhos encontraram os de Alan e estes pareciam tão cheios de desprezo por ela que a moça desviou os seus e foi em busca do Marquês De Mülle.
— Senhor Marquês, onde está Alda?

— Ela está indisposta, Alteza. — Mentiu, porque ele mesmo não sabia da filha. — Mas creio que mais tarde estará melhor.

XXX

Cerca de uma hora depois, todos estavam reunidos para o torneio. As arquibancadas eram amplas e estavam enfeitadas com as cores do Reino. Havia espaço para a nobreza e parte dos burgueses mais importantes. Já os populares se aglomeravam a certa distância para assistir, afinal, não era todo o dia que um espetáculo desses acontecia. Alan estava profundamente aborrecido de ter que ficar na audiência ao invés de participar, mas teve que se conformar e sentar-se ao lado de Flora que fazia de tudo para animá-lo. Ela, por sua vez, estava bem perto de Marina que usava um belíssimo vestido azul da mesma cor do véu que lhe enfeitava os cabelos. Ela fazia o possível para não olhar para os dois, mas algo dentro dela latejava.

A Rainha tinha escolhido os lugares com cuidado e simetria e isto não ocorrera por acaso. No entanto, algo a preocupava e ela procurava Richard com os olhos. “Ele não ousará me desobedecer! Não quando fui tão enfática!” Entretanto, lá estava Konrad, na liça prestes a enfrentar Humberto de Dorsos. O jovem usava as cores de Flora na forma de um lenço vermelho amarrado em seu pulso direito, já Humberto não tinha recebido prenda alguma de nenhuma das damas presentes. O arauto anunciou os dois cavaleiros. “Não se preocupe, Majestade.”, Richard falou subitamente ao seu ouvido embora ela soubesse que corporeamente, ele não estava ali. “Tudo ocorrerá como espera.”

Os dois cavaleiros partiram para o embate, só que sem motivo aparente, o cavalo de Konrad tropeçou e corcoveou, e terminou caindo por terra violentamente. Não fosse Humberto um cavaleiro experiente e contido a tempo seu animal, teria acontecido um acidente ainda maior. Konrad foi arremessado da cela. Com a queda, o rapaz destroncou o ombro direito, entre outros ferimentos menores, já seu belíssimo cavalo quebrou a pata, tendo que ser sacrificado.

— Sir Konrad, o senhor está bem? — Perguntou um escudeiro que veio em seu auxílio.

— Sim, estou e posso voltar à liça. Ai! — Gemeu involuntariamente, pois o escudeiro tocou seu braço direito para ajudá-lo a se erguer. — Isso não é nada. Não é nada. Dê-me outro cavalo! Qualquer cavalo! — Sua ordem não foi cumprida, pois o médico da Rainha, se aproximando concluiu:

— Sir Konrad, o senhor não tem condições de lutar hoje!

— Ridículo, eu estou muito bem posso segurar as rédeas com o braço direito e lutar com o esquerdo. — Bravata de adolescente! Por mais hábil que fosse, todos sabiam que tal manobra era pouco provável.

— Eu repito meu diagnóstico, Majestade, Sir Konrad está impossibilitado.

— Sir Konrad, seja prudente e sente-se na audiência, isto é uma ordem. — Ela sabia que este espetáculo tinha sido proporcionado pelos poderes de Richard. — Haverá outros torneios no futuro, meu jovem.

Konrad foi retirar a armadura e obedeceu a contragosto. Seu lábio inferior estava sangrando e seu ombro doía muito. Humberto foi considerado vencedor do primeiro combate, por desistência do oponente e isso fez com que Konrad se sentisse profundamente humilhado. Os próximos a entrarem na liça seriam Sir Denis que acabara de ser armado, também, e um cavaleiro que havia se inscrito em nome do Marquês De Mülle. Este cavaleiro se aproximou de Marina e pediu-lhe uma prenda. A moça aquiesceu cedendo um lenço azul, mas corou profundamente. “Eu não acredito! É loucura!”

— Não sabia, Louis, que havia trazido um cavaleiro. — A Rainha comentou tentando esconder sua curiosidade. — Espero que seja habilidoso o bastante para valorizar a vitória do jovem Denis. — A Rainha falou com desdém. — A propósito, onde está sua filha?

— Indisposta, Majestade. Coisas de mulher. — Fez pausa. — A notícia de ontem à noite não lhe fez bem. — Falou com ar desconfortável e sem olhar nos olhos da Rainha.

— Espero, para o seu próprio bem, que a indisposição seja passageira...

Os dois cavaleiros se lançaram ao combate. Denis era pesado, corpulento e seus golpes mais violentos, só que o outro cavaleiro era ágil, apesar de sua altura. Além disso, era mais leve e usava a força do inimigo contra ele mesmo. Depois de algum tempo, Denis se cansou de tentar uma estratégia mais refinada e decidiu investir na derrubada do oponente usando todo o seu peso. O cavaleiro Desconhecido – como a torcida já o estava chamando – esquivou-se e conseguiu desequilibrá-lo. Antes que o jovem cavaleiro se pusesse em guarda, o Desconhecido saltou do cavalo e colocou-lhe a espada na garganta, pondo fim ao combate.

Alan notou que já conhecia aquele cavalo, mas achou que deveria estar imaginando coisas, deveria ter guardado a imagem de algum dos cavalos que vira nas cocheiras reais. Já Flora, entretanto, teve certeza do que via, mas guardou para si as suas descobertas.

quarta-feira, 21 de janeiro de 2009

Capítulo 2: A Decisão de uma Vida (Parte 3)


Se você está lendo este post, deve ter passado pelo capítulo 1. Agora, você está na terceira parte do capítulo 2. Se caiu aqui por engano, clique para retornar para a parte anterior, se você clicar na tag Rosas, poderá acessar todos as partes que coloquei no blog até aqui. Quem estiver perdido é só perguntar e qualquer comentário, sugestão ou crítica será lida e desde já agradeço pela atenção.


Ventos de Mudança
Capítulo 2: A Decisão de uma Vida (Parte 3)

Alda não foi correndo atrás de Marina, ela que voltasse sozinha, já que estava tão disposta. Esperou um pouco até que a outra se afastasse e decidiu retornar para seu quarto deixando Alan, sua irmã e o outro rapaz para trás. Tinham decidido se encontrar no outro dia, quando surgisse a primeira chance. Sabia, porém, que o primo desconfiava dela, já os outros dois pareciam as pessoas mais plácidas e agradáveis do mundo, ainda mais em condições estranhas como aquelas. “São crianças ainda... Ou parecem ver o mundo com olhos benevolentes.”

Na verdade, a coisa era bem diferente. Elaine seguiria Alan para aonde ele fosse, ainda mais agora que o reencontrara, e Haroldo seguiria Elaine sem pensar duas vezes, especialmente porque nada tinha a perder, ou pelo menos ele pensava assim. Ambos, no entanto, tinham medo. Mas com tanta gente gritando e esperneando, era melhor que não aumentassem a confusão.

Para chegar até o palácio sem atrair muita atenção, Alda deveria passar pelo lugar onde o jovem Guilherme estava sendo supliciado. Tinha pena dele e ao mesmo tempo admiração, pois estava lutando pelo que era direito e, agora, estava sendo humilhado por isso. “Deve ter sede, fome e frio...” Decidiu que podia e devia fazer algo por ele. “Pouco me importa o que pensem!”

— Erik, Me dê o seu cantil. — O outro obedeceu prontamente, mas quando viu o que ela estava prestes a fazer, tentou impedir.

— Milady, não deve fazer isso! É temerário...

— Eu sei! — Deu um sorriso rápido, envolveu-se mais ainda em sua capa e subiu os degraus. Os guardas tentaram impedir.

— Pare onde está! A Rainha proibiu!

— Como sabe se não estou aqui seguindo ordens de sua Majestade? — Falou usando de toda a autoridade e imponência que poderia arregimentar. Era nessas horas que agradecia o fato de ser tão alta, pois poderia se tornar ainda maior aos olhos de gente simplória. — Ouse me tocar e assuma as conseqüências. — Aproveitando a hesitação do guarda, ela chegou até o Príncipe que olhou para sua figura envolta pelo pesado manto verde e pela escuridão como se fosse uma aparição. — Beba! — Deu-lhe um gole d’água. — Saiba que virão resgatá-lo em breve. — Sussurrou e não teve certeza de que o outro escutara, mas ele esboçou um sorriso.

— O que acha que está fazendo, mulher? — Uma voz plena de autoridade. O homem a interpelou e teria mesmo agarrado seu braço, não fosse a intervenção de um jovem cavaleiro.

— Deixe-a em paz, Capitão! Ele está fadado a morrer, esta água só irá reavivar seus sentidos. — Fez pausa. — Não é isso que deseja? — Era o belo rapaz que Marina apontara, o que tocava harpa e flauta e tinha se ausentado da corte por algum tempo.

O Capitão parou onde estava, o que queria dizer que o outro era alguém importante. Mais importante do que o homem que arrastara Guilherme pelo salão.
— Permita-me que termine esta tarefa, Senhora. — Ele fez uma mesura profunda. — Este não é um lugar adequado a uma dama. — Ele tinha um corpo elegante e movia-se com a languidez e flexibilidade de um gato. Alda não deixou de notar que Marina tinha bom gosto para homens, mas beleza não era tudo.

— Uma dama deve estar onde sua presença se faz necessária... Mas creio que é hora de ir. — Voltou-se para Guilherme: — Coragem, Senhor! Não me decepcione! — O rapaz acorrentado agarrou sua mão com tanta força que ela quase não conseguiu se mover. Era uma demonstração de que estava bem vivo. E o olhar que lhe lançou era intenso. “Deve estar com febre... as feridas podem estar infeccionando.” Os olhos azuis do rapaz brilhavam e havia fogo neles... Febre? Vontade de viver? Desejo de vingança? Tudo isso junto.

— Jamais faria isso, Senhora. — Ele a soltou. — Sua imagem estará para sempre em meus pensamentos, dama de verde. — Ela se foi e tão logo ela desapareceu das vistas deles, Jerôme derramou todo o conteúdo do cantil sobre a cabeça de Guilherme.

— Não esperava que eu o mimasse como aquela tola, não é Guilherme De Auston. — Ele sorriu lentamente. — Mas não deixou de ser um espetáculo interessante... um consolo para o heróico cavaleiro preste a encontrar a morte. Talvez eu escreva uma balada sobre seus últimos dias. — E se foi.

XXX

Depois do incidente, Erik a acompanhou até a entrada do palácio, temeroso de que sua Senhora pudesse se meter em alguma confusão pelo caminho, ou que o Capitão viesse atrás dela tomar satisfações. Até onde sabia, Alda estava desarmada, e mesmo se estivesse, o Capitão era um homem grande e poderia não estar sozinho. Alda baixou o capuz e se identificou. Os guardas do palácio a deixaram passar sem perguntas. Lá dentro, somente a tênue luz das velas iluminava o corredor, gelado. Estava quase em seus aposentos quando alguém, saindo das sombras, se interpôs:

— Não deveria vagar sozinha pelo castelo a essas horas, Senhora. — O homem era estrangeiro, como seu sotaque pesado e a dificuldade com as palavras, indicavam. Alda notou, também, apesar da escuridão, que seu rosto era deformado por uma terrível cicatriz. Como não o conhecia, simplesmente tentou passar, só que o homem, com uma força descomunal, segurou seu pulso. — Falo, porque me preocupo.

— Não preciso que se preocupe comigo, Senhor. Sei me cuidar sozinha. Eu garanto. — Disse se esforçando para soltar o pulso. — Além disso, Senhor, — Sua voz assumiu o tom orgulhoso que a tornava ainda mais imponente. — não o conheço. Talvez de onde venha seja comum abordar as moças em lugares escuros, mas aqui convém que haja uma apresentação preliminar. Peço que solte o meu pulso ou vou gritar por socorro. — Ele soltou. — Com sua licença. — Deu-lhe as costas e foi embora.

“Ainda nos veremos de novo, minha noiva... Ainda nos veremos!” O homem era Humberto de Dorsos, e embora Alda não soubesse ainda, seriam apresentados no dia seguinte.

segunda-feira, 19 de janeiro de 2009

Capítulo 2: A Decisão de uma Vida (Parte 2)


Se você está lendo este post, deve ter passado pelo capítulo 1. Agora, você está na segunda parte do capítulo 2. Se caiu aqui por engano, clique para retornar para a parte anterior, se você clicar na tag Rosas, poderá acessar todos as partes que coloquei no blog até aqui. Eu gosto mais do capítulo 2 do que do capítulo 1, mas ele demora um pouco a esquentar, acho... o ideal seria postar mais uma parte hoje ou amanhã mesmo. Enfim, qualquer comentário, sugestão ou crítica será lida e desde já agradeço pela atenção.


Ventos de Mudança
Capítulo 2: A Decisão de uma Vida (Parte 2)

— Aquele não é meu primo, Alan?

— Parece ser, Milady. — Erik respondeu a pergunta.

— O que ele faz aqui? — Marina perguntou curiosa. — Ele também foi envolvido pela luz... Vamos segui-lo. — E foi atrás dele, sem esperar resposta. Alda e Erik se olharam e seguiram, também. “Para certas coisas, você não é nada indecisa, não é mesmo?”, pensou Alda que também estava curiosa.

XXX

— Será que ele vem mesmo, Haroldo? — Elaine perguntou ansiosa.

— Ele disse que viria... fique calma. — Disse olhando apreensivamente para a porta da estrebaria entreaberta. — Ele está a caminho, tenha certeza.

Não demorou muito, a porta foi aberta lentamente, e um rapaz alto e moreno entrou. Elaine ficou de pé e os dois se olharam. Não se viam há tanto tempo... mas parecia que tinham se separado ontem. Alan lembrava-se bem de tudo e não esquecera os traços da sua irmã, no entanto, foi ela que sem esperar correu para ele com os olhos cheios de lágrimas e os dois se abraçaram.

— Alan, Alan, como eu senti sua falta! — Alan acariciava sua cabeça com carinho. — Às vezes... Às vezes, eu pensava que jamais veria você de novo!

— Como você cresceu! Se papai a visse agor... — Sua voz foi embargada pelas lágrimas. Ela era sua única família, a única família que lhe restara no mundo inteiro. — Ah, irmãzinha! Eu sempre tive certeza que nos encontraríamos, tão certo como sei que um dia farei justiça ao nosso nome.

Haroldo, também, não conseguiu segurar as lágrimas. Primeiro, porque adorava Elaine, era a pessoa mais especial sobre a face da terra para ele. Além disso, também perdera sua família. Quando chegaram a Corte, depois de caírem com a espaçonave, foram bem recebidos, afinal, a Rainha, mãe de Marina, sempre fora uma boa influência sobre o Rei e ela se tornou amiga da mãe de Haroldo. Só que ela morreu de parto, sua mãe, a médica, acabou sendo considerada culpada e toda a sua família caiu em desgraça. Com o segundo casamento do Rei tornaram-se mesmo fugitivos. Não sabia onde estavam seus pais, se mortos, se vivos e encarcerados em algum lugar. Na verdade, era melhor nem pensar sobre isso. Só sabia que ficou só, sob a guarda da Real. Consideravam-no perigoso, com certeza, embora não o suficiente para ser enjaulado! Alan pegou as mãos da irmã.

— Não são as mãos de uma dama. — Elas estavam maltratadas pelos duros trabalhos que lhe eram impostos. — Com certeza minha vida tem sido muito melhor que a sua. — A menina começou a soluçar alto e Alan beijou as mãos da irmã. — Mas juro que ela será melhor daqui para frente. Pode confiar em mim. — Já estava pensando em como fugir e levaria Elaine e Flora com ele.

Neste momento, Marina, que observava tudo por uma brecha da porta, se descuidou e a porta abriu com estrondo, assustando a todos.

— O que faz aqui? — Alan perguntou com toda a hostilidade que podia colocar em sua voz.

— É a princesa! — Elaine exclamou.

— Eu sei bem quem ela é. — Alan falou com seus olhos faiscantes e a voz grave. — Eu a vi hoje. — Os músculos do seu rosto se contraíram e fizeram com que parecesse mais velho do que realmente era.

Marina tinha caído no chão e Haroldo ajudou-a a se levantar. Acostumada a ser o centro das atenções, ela se recompôs rapidamente. E olhando para Alan, se desculpou, tentando dissimular o fato de que ficava muito perturbada na presença do rapaz.

— Desculpe-me, eu não queria interromper... — Ela tateava nas palavras. — Foi um acidente.

— Pois interrompeu e ficaria feliz se fosse embora! — Foi duro e Alda se meteu na conversa.

— Não precisa ser grosseiro com ela. Por que você sempre se comporta como se odiasse tudo e todos? — Ela respirou fundo. — A Princesa já se desculpou.

— Eu tenho motivos para odiar “tudo e todos”, se quer saber, Senhora. E principalmente, eu tenho motivos para odiar vocês duas pelo que seus pais fizeram.

— Eu não sou meu pai, Alan! E não pode me culpar pelo que ele fez. — “Se é que ele fez alguma coisa...”, pensou Alda, embora uma dúvida começasse a se aninhar dentro dela.

— Somos fruto daquilo que nossos ancestrais fizeram, está no nosso sangue!

— No seu sangue então, não, no meu! — Falou com voz alterada. — Aliás, temos o mesmo sangue, se bem me recordo. Somos primos-irmãos.

— Vocês, dois, poderiam gritar mais baixo, por favor. — Haroldo interrompeu. — Daqui a pouco todo o castelo vai aparecer por aqui prá saber o motivo dessa algazarra noturna. Não sei por vocês, mas se eu fosse descoberto as coisas iriam realmente ficar complicadas para mim.

— Alan, elas não têm culpa. Agindo assim, você estará fazendo o mesmo que fizeram conosco, que fizeram com nosso irmão. — Lembrar o incidente, fazia com que o rapaz visse a morte de Estevão, outra vez. — Não percebe isso? Não percebe?

— Se fizeram conosco, por que não teria o direito de fazer o mesmo? — Perguntou com voz furiosa.

— Porque é errado! — A voz de Elaine tinha um tom tão doce que qualquer um se acalmaria só de ouvi-la. — Um erro não justifica outro! Não as trate desta forma, eu suplico! — Ela o encarou com seus grandes olhos.

Alan baixou os olhos, ela tinha razão, ele sabia. Flora iria dizer a mesma coisa. Mas como esquecer tudo se ao olhar para elas só via seus pais? Marina, então, aproveitando que ele parecia mais calmo, perguntou:

— Você também foi envolvido pela luz... — Falou lentamente. — Tem alguma idéia do que seja?

— Luz!? Vocês, também? — Haroldo se espantou. — Por meio minuto, eu parecia um vaga-lume!

— E eu, também! — Elaine acrescentou. — Foi a sensação mais estranha de toda a minha vida.

— Todos nós e mais o Príncipe Guilherme, então. — Alda falou. — Precisamos descobrir o porquê.

Nisso pelo menos todos concordavam.

XXX

De repente, a mesma luz que os envolvera retornou e de dentro da parede saiu o velho mago que aparecera no salão e olhando bem para o rosto de cada um deles, falou:

— Por muitos anos, eu esperei por este dia. — Seu tom era solene. “Como nos Contos de Fada...”, pensou Marina. — As profecias finalmente hão de se cumprir, vocês foram escolhidos para libertarem o Reino da tirania de Dominique e entronizar o jovem Rei.

— Nós!? — Haroldo interrompeu. — O Senhor tem certeza que não pegou o grupo errado?

— Não! Eu tenho certeza. — Fez pausa. — Eis a Princesa que empunhará a Espada Sagrada como foi feito no passado, — Marina olhava para ele como se o velho estivesse louco e todos olhavam para a Princesa e pensavam que só um louco poderia achar que Marina poderia cumprir alguma missão. — Temos aquele cuja função será dar proteção a todos que precisarem. — Disse apontando Alan. — Aqui está aquela que cobrirá o inimigo com setas infalíveis como a chuva cobre a terra. — Falou apontando Alda. — Temos aquele que fará a mágica de onde ela não existe. — Pôs a mão no ombro de Haroldo. — Temos aquela cuja magia será tão grande quanto a da Rainha das Fadas. — Falou olhando para Elaine. — E, lá fora, ao relento, está o grande machado, e podem ter certeza de que seu braço poderoso não ficará em cadeias por muito tempo. Só falta um guerreiro, aquele que se abaterá sobre o inimigo como um vento furioso. Quando ele aparecer, então, venceremos.

— Isso é loucura! — Marina exclamou. — Minha madrasta não quer o mal do Reino. Foi a Rainha das Fadas quem levou meu irmão! Se Sua Majestade é dura, — E a moça pensou em Guilherme que sempre fora gentil com ela. — é para que o Reino não se esfacele por causa daqueles que não respeitam a lei e a ordem.

— Crê nisto, de verdade? — O Mago perguntou. — Ou tem medo de ver o que está acontecendo lá fora? — Ergueu seu cajado e ele brilhou com a mesma intensidade que no castelo. Parecia estar em chamas. — Poderes da Luz, que tudo permeia, mostre-nos o que se passa além deste castelo. — Como se fosse um filme, todos puderam ver morte e desolação, vilas queimadas, camponeses sendo expulsos de suas terras, violências feitas pelas tropas reais, reinos vizinhos invadidos.

— Tudo pode ser uma grande ilusão. Pode estar querendo me convencer para...

— Raios, mulher! Você é cega? — Alan explodiu. — Não vê que tudo isso é a pura verdade. É o que está acontecendo no mundo lá fora.

— Não pode ser verdade! Não pode! — Ela ia começar a chorar, com certeza. — Ela não faria isso!

— Talvez o passado seja mais convincente que o presente. — As imagens sumiram, e todos viram surgir o interior do palácio real o momento do nascimento do príncipe Eduardo. Lá estava a mãe de Haroldo e a Rainha jazia morta. — Marina não queria lembrar daquele momento, ver aquela cena, mas iriam obrigá-la a isso. — O Rei entra transtornado e toma a esposa morta nos braços, gritando que queria que ela vivesse e não aquela criança infeliz. Expulsa a mãe de Haroldo dizendo que eles deveriam sair do palácio real antes do pôr do sol, ou seriam todos executados, até mesmo o pequeno Haroldo. — Marina começou a chorar. Haroldo recordou que a ordem de deixar o palácio se transformou em uma espécie de permanência vigiada, já que o Rei temia “os poderes” de seus pais. — A criança indefesa também chorava. O rei, transtornado, a amaldiçoa dizendo que não viveria para sentar-se no trono e, em seguida, desembainha sua espada. Pretende matá-la, por certo, mas antes que pudesse cometer o ato tresloucado, um clarão inunda o quarto, e a grande Silena, a mais poderosa de todas as Rainhas das Fadas que já existiram, aparece imponente. Ela toma a criança nos braços e diz que o Rei jamais poria seus olhos sobre ela enquanto vivesse e que ele, sim, seria maldito, por amaldiçoar a sua Casa e que nunca haveria paz em seu reinado, não por obra de sua magia, mas, sim, devido a seus maus atos. Dito isto, ela desaparece, levando o menino. E a imagem se foi. — A criança vive e está em segurança, mas não neste mundo. Quando você, Princesa, abrir as portas do castelo de Kronnenveil, um novo reinado irá se iniciar.

— Eu vou perguntar à Rainha, ela não irá me esconder a verdade. — Balançou a cabeça, quase em prantos.

— Faça isso, sua tola, e irá ser a morte para todos nós! — Alan esbravejou e Marina olhou para ele espantada. Como poderia ousar chamá-la de tola?

— A Conspiração Sangrenta foi tudo uma mentira, então? — Alda perguntou tentando obter o máximo de informações possível.

— Sim, a maior de todas elas mas o Rei não sabia disso, até o último dos seus dias ele acreditou que havia sido traído. Ele era obcecado por essa idéia. — O velho fez pausa. — Somente quatro pessoas sabem que tudo não passou de uma mentira: o Marquês De Mülle, o Conde De Sayers, a Rainha e Richard Evilblood.

— Ele sempre tem um dedo em tudo... — Alda murmurou. — Mas, que devemos fazer então?

— Devem partir para o Castelo do Amanhecer, a Rainha das Fadas espera por vocês.

— Como chegaremos lá? — Haroldo perguntou e um mapa apareceu em suas mãos.

— Sigam este mapa. — Fez pausa. — Mas antes de partir devem libertar o Príncipe Guilherme.

— Como, se não temos armas? E são muitos os soldados. É uma tarefa impossível! — Alan perguntou.

— Estão sendo testados... Devem se mostrar dignos da grande missão que os aguarda. — Disse laconicamente. — Não se atrasem, a Fada Ádina espera por vocês.

— Eu não vou! — Marina gritou.

— O que disse? — Alan perguntou furioso. — Precisamos de você.

— Não vou, já disse. — Sua teimosia, traço mais evidente de sua personalidade, veio a tona com toda a força. — E se tudo não passar de uma mentira. Uma grande armadilha para me capturarem. Uma armadilha dos inimigos do Reino?

— Você é uma idiota! Não vê que tudo é a mais pura verdade!

— Quem me garante isso? Você, o filho de um traidor! — Alan estava tão furioso, e aquelas palavras o feriram tanto, que lhe deu uma bofetada.

— Alan! — Elaine gritou horrorizada. Alda também parecia chocada e no primeiro momento teve vontade de se atracar com ele, mesmo concordando que Marina era uma tola.

— Como ousa! Como ousa me tocar! — Gritou furiosa, passando a mão na face avermelhada. — Eu vou embora daqui.

— Lembre-se, Princesa, você é o eixo central da profecia. Ninguém pode fugir de sua missão.

— Pois encontre outra pessoa, Senhor Mago, porque eu não tenho nada a ver com isso! — E saiu. “Isso é uma loucura, uma grande loucura. Vou perguntar à Rainha, ela me dirá a verdade! A verdade!”

— É, pelo jeito alguém fundamental não quer embarcar nessa canoa... — “furada conosco”. Haroldo falou baixinho.

Alan estava olhando para a sua mão, sentia o rosto queimar um pouco, como se ele também tivesse levado uma bofetada. O olhar de reprovação de Alda e de sua irmã o incomodava. Nunca tinha batido em mulher alguma, nunca tinha sequer desejado, não tinha sido um bom começo aquele. Teria mais um inimigo dali para frente.

— Tenham certeza de que ela voltará. Ninguém pode fugir de sua missão, eu disse. — O velho começou a desaparecer. — Confio em vocês e minha missão termina aqui. Agora devem cumprir a sua, não desanimem! — Sumiu. Deixando todos com os corações pesados e cheios de dúvidas assustadoras.