terça-feira, 23 de fevereiro de 2010

Comentando Um Olhar do Paraíso


Como não sei quando vou gravar o podcast, decidi comentar O Olhar do Paraíso (Lovely Bones) aqui, pois preciso fazer algumas considerações. A primeira delas é que os trailers enganam e muito. Para quem não conhece a história, um resumo rápido. Susie Salmon é uma adolescente feliz, com uma família muito carinhosa, com um pai que a adora, e vivendo o seu primeiro amor. Mas ela não sabe que é observada pelo vizinho e que um dia, na volta da escola, seria enganada, estuprada e morta por ele. Morta, Susie Salmon se descobre presa no limbo entre o mundo dos vivos e o céu, observando seu assassino sair impune e sua família se destruindo por causa da dor. Ela parece ter uma missão a cumprir antes que sua alma possa se libertar. A partir daqui, pode haver algum spoiler, prossiga por sua conta e risco.

Gostei do elenco. Todos interpretaram bem os papéis. A menina Saoirse Ronan defende muito bem a sua Susie nos momentos de alegria e de dor (*e nós sofremos com ela, sentimos pena dela*), Susan Sarandon fazendo a avó amalucada que tenta ajudar a fechar as feridas, Mark Wahlberg como o pai obcecado e amoroso, Stanley Tucci que faz um assassino que dá frio na espinha (*entendi a indicação ao Oscar de ator coadjuvante e virei fã dele, pois como ele está diferente do marido gracinha de Julie & Julia*), Rose McIver que cresce na tela como a filha que se alia ao pai na obsessiva investigação do assassinato da irmã. Só Rachel Weisz me pareceu um pouco apagada como a mãe de Susie, el atua bem, mas o papel estava aquém de suas capacidades. De qualquer forma, se alguma coisa ainda fez valer o filme foi o elenco, o drama familiar, e o mergulho na vida do assassino. O resto deixa muito a desejar.


A idéia da alma presa entre dois mundos não me é desagradável, muito pelo contrário. Me parece muito mais interessante que tramas com reencarnação. No entanto, e desculpem se parece um spoiler, o filme nos engana, pois parece que o motivo para a alma da menina estar presa é resolver o seu assassinato, quando, na verdade, é algo muito diferente. Também são raros os momentos em que a menina faz alguma forma de contato com os vivos. E quando ela incorpora na colega de escola com poderes mediúnicos não é para ajudar a resolver o crime, mas para beijar o garoto que ama... Olha, fazia tempo que eu não via um filme ser erodido de forma tão magnífica, especialmente nos seus momentos finais.

Outro problema do filme é a temporalidade. Susie foi morta em 1973, e isso é dito no trailer. O pai leva 24 meses revelando os filmes que a menina tinha feito com a máquina que ganho de presente. Ele faz isso porque tinha prometido e é uma forma de prolongar a presença da menina. No entanto, os recortes de jornal do assassino, que passa a vigiar a irmã de Susie, têm data de 1977. Quatro anos! Só que o irmãozinho de Susie continua interpretado pelo mesmo ator e eu pelo menos não senti a passagem do tempo.


O filme é muito bonito, as cenas do limbo são um deleite, a angústia da menina é palpável, assim como sua alegria, o drama familiar é intenso e é o melhor do filme. Perder um filho ou filha pode acabar com um casamento feliz, pode abrir velhas feridas, pode causar alienação. E imagina quando nem sequer encontramos o corpo? Só que é no final que o filme erra a mão, perde a tensão, que a reconciliação familiar passa a ser mais importante que pegar o assassino. E, caramba, acho que quem estava assistindo queria que o assassino fosse preso. Não adianta matarem o cara por providência divina, ele precisava ser punido mesmo, pela justiça terrena, especialmente depois que ficamos sabendo quantas pessoas ele matou.

Por mais terrível que o assassino fosse, ele me pareceu incoerente em um ponto, e se alguém souber mais sobre psicopatas serial killers pode me ajudar aqui. Eu sempre imaginei que um psicopata escolhesse o mesmo tipo de vítima ou usasse o mesmo modus operandi. O criminoso do filme sempre mata mulheres, mas podem ser de qualquer idade e a forma de agir não é a mesma. Ele tem perfil de pedófilo, mas não mata somente meninas. Não sei, ficou estranho. Como não li o livro, não sei se lá a coisa é diferente. Eu até gostaria de ler Uma Vida Interrompida: Memórias de um Anjo Assassinado, pois parece que o livro de Alice Sebold saiu com este nome por aqui, para confirmar se o livro é tão problemático como o filme, ou foi problema de roteiro.


E para terminar, algo que me incomodou muito foi a domesticidade das mulheres e como isso é reforçado. Quando Susie é criança, sua mãe lia Camus. Muda a cena, mesmo lugar, close nos livros, e, quando ela é adolescente, os livros de cabeceira da mãe são sobre culinária e criação de filhos. A família é tudo e ela é uma dona de casa. Já a irmã de Susie é atleta (*ela semrpe está treinando*), inteligente, vigorosa. Os recortes do assassino sempre falam de “aluna brilhante”, “melhor da escola”, dos prêmios que ela recebeu. Só que quando seu futuro e mostrado, lá está ela gravidinha e com o marido/namorado. Não poderia ser sua formatura na faculdade? Ou participação em uma Olimpíada? Não, o destino é a maternidade. E Susie, quando tem a chance de ferrar com seu assassino, incorpora para beijar o garoto que ama e isso é o que a liberta. Lindo, não é? Só a avó - vista como doida - é que "parece" uma mulher dos anos 70.

E eu termino com cara de paisagem, Ghost é muito mais profundo e tocante e olha que eu não gosto desse filme. Fora que nos anos 70, auge do feminismo nos EUA, nos vem empurrar um modelo de mulher totalmente conservador e ultrapassado. Tá bom, me engana! Mas agora, é definitivo filme do Peter Jackson não me leva mais ao cinema, talvez, só em DVD e olhe lá!

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15 pessoas comentaram:

É sempre bom quando temos uma ida infeliz ao cinema poupada. Eu estava querendo ver esse filme, mas pelo que tenho ouvido falar ele não chega nem perto do que promete. É bem fraquinho mesmo. Dizem que o livro é bem melhor.

Parece interessante, mesmo com os furos que vc apontou. Vou procurar o livro.

Sobre pscopatas, nem todos são tão especificos. Alguns se apegam a apenas um aspecto em sua busca por alvos, no caso genero.

Então, infelizmente , um monstro que mata apenas pq sua vitima é mulher, não é irreal.

Eu quero ler esse livro, mas parece que não tem mais em nenhum lugar. Minha irmã leu e disse que é muito bom.

Eu li outro livro da mesma autora. O livro se chama Sorte e é auto briográfico. Nesse livro ela conta a história do estupro que ela sofreu quando estava na faculdade e todo o processo até a prisão do estuprador dela. Parece que ela escreveu esse livro enquanto escrevia The Lovely Bones. O editor dela achou que ela estava colocando muitos elementos da história dela no livro e sugeriu que ela escrevesse outro livro contando o que aconteceu com ela.

Eu queria muito ver este filme, mas pelo que disse (e confio no que disse) não compensa. Achei que seria algo lindo mas não parece ser. E eu (que sou uma "justiceira convicta, pelo menos gosto de um final justo) já experiente nesse negócio de decepção com filmes&livros que tem tudo para serem perfeitos ficarei livre dessa inutilidade. Parabéns pelo blog! Adoro muuito passar por aqui. :)

Alguma coisa me incomodou no trailer, lendo seu post acho que encontrei o que era e agora sou mais uma poupada. =D
Ghost ao menos é bem marcante prá mim, tenho medo dos trens da CPTM até hoje por causa dele, sempre acho que aquele encosto gritando "sai do meu vagão!" vai aparecer a qualquer hora! XD

Nenna, veja em DVD. O filme não é ruim, ele tem muitos problemas.

Luma, eu quero ler o livro. Eu realmente acredito que alguém fez besteira, mas que o livro deve ser interessante, sim. É pressentimento...

Olha, Mickey, fazia tempo que eu não odiava tanto um final de filme.

E, Anderson, obrigada pela explicação. ;)

Discordo da sua opinião, gostei da ideia do filme. Vingança nem sempre é o principal, acho que se ela podia escolher entre ferrar com o assassino e estar com quem ela ama, ela fez o certo ao optar por estar com quem ela ama, evoluir e se libertar de coisas pequenas é o melhor a se fazer, ela já estava morta, de que adianta ter vingança? Acho que talvez esse não tenha sido o momento de você assistir esse filme em específico, pelo que eu entendi do seu resumo esse é um filme que fala sobre libertação.
Sobre a mulher com ambições intelectuais que acaba virando dona de casa e a garota promissora que acaba engravidando antes do tempo... bom, isso é bem real e acontece bastante, as pessoas acabam encontrando satisfação e s esentem realizadas com coisas diversas, se há a opção ainda melhor. Nem todo mundo sonha em descobrir a cura para o câncer ou sanar os problemas do mundo.

Não tinha prestado atenção nesse filme antes e agora fiquei com vontade de assistir.

Olha, conseguir que um criminoso serial seja preso e impedir que outras mulheres tenham o mesmo destino que você não é vingança, é justiça. E mais, é pensar um pouco além de seu próprio umbigo, coisa que um espírito "evoluído" deveria fazer. E se a mocinah poderia incorporar na coleguinha a qualquer momento, é brincar com a audiência só deixar isso para o final, porque e´la quer beijar o gatinho.

E vender mulheres domesticadas é ótimo para os homens, não para as mulehres. E vend~e-las todas assim é falsear a realidade. Parece que todo o esforço acad~emico da menina, ou sua dedicação ao esporte foram para conseguir ser uma mamãe feliz. Ou que a maternidade transforma as mulehres em seres sem outra coisa na mente que seus filhos, sua casinha e o que vão preparar para o almoço. Aliás, deve ser para isso que nos ensinam a ler, para lermos sobre puericultura e culinária.

Mas vá ver o filme e tire as suas conclusões. Para mim foi uma boa idéia, mal conduzida e mal acabada.

Eu acredito que há coisas além de sucesso acadêmico ou esportivo. Há pessoas que são felizes cuidando só da casa (e não só mulheres), que amam estar com os filhos e que não trocariam isso por sucesso algum no mundo. Há pessoas que têm mais esse instinto que outras, um dia eu quero ter uma família (não uma tradicional) e pra mim essa ideia já é bem mais importante que qualquer sucesso acadêmico/profissional/etc. algumas pessoas já nascem assim e ter uma família não significa excluir uma carreira profissional/esportiva, aliás, na maioria dos casos do nosso país a mãe trabalha fora (dupla jornada) e se tem uma coisa que eu não posso falar mal do meu pai é que ele sempre ajudou a minha mãe com as tarefas domésticas, apesar de não serem todos os maridos que se dispoem a ajudar. E sinceramente, se hipotéticamente eu tivesse que escolher entre reestruturar a minha (possível)família ou pegar um assassino não tenha dúvidas de que eu escolheria a minha família, sempre.

De qualquer forma você está certa quanto ao que é moralmente correto, parar o assassino em primeiro lugar, mas as pessoas são humanas e cometem erros e têm desejos. Acho que pra uma garota de doze anos, poder dar um beijo na pessoa que ela amava deve significar bastante. Ela nunca vai experimentar isso outra vez (ou talvez só experimente em outra encarnação, sei lá), pode ser errado mas é isso que faz a gente humano, colocar os nossos próprios desejos à frente do que é moralmente correto pq nós temos desejos e sonhos e somos falhos por colocar nossas vontades a frente do que é correto.

Kadu, só mulheres podem "optar" pelo lar e isso as torna vulneráveis em uma sociedade patriarcal. O filme retratava um momento chave do feminismo e ofereceu personagens femininas clichês e maternais. Os homens não podem reclamar desse tipo de imagem, porque eles não podem e devem se colocar nesse papel e SÓ nesse papel, pois ele implica em abrir mão de poder e autonomia.

E mais, TODAS as mulheres do filme são assim. Estranho, não? Para quê investir em sucesso acadêmico e atlético e ganahr prêmios se você só quer ser mamãe?

No mais, se você passa 5 anos no limbo obserando o sofrimento de sua família, se você descobre que o cara que te estuprou e matou fez isso com uma dezena de mulheres, acredito que você iria querer mais do que beijar o garoto. Ou que beijasse, mas desse a dica. O filme tenta vender como romântico um individualismo brutal, um egoísmo sem tamanho e, claro, é isso que a liberta. Isso não me convence.

Mas veja o filme e tire suas conclusões. Se eu descrever a cena em detalhes, eu darei um spoiler que pode estragar a graça do filme para algumas pessoas.

Kadu, e ninguém optou pelo lar para reestruturar a família, aliás, muito pelo contrário. Mas de novo, veja o filme.

O que acontecer com o assassino?

O assassino morre no final, mas na espécie de acidente, a Suzi tem a oportunidade de ter o corpo encontrado, e o seu assassino preso, mas prefere beijar o galã da novela.

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