quarta-feira, 21 de abril de 2010

Comentando O Clube de Leitura de Jane Austen


Na verdade, tanto o livro quanto o filme poderiam se chamar “Jane Austen ensina a salvar o seu casamento”. Nem o livro, nem o filme são excelentes, mas se você é fã de Jane Austen ou deseja algo leve que se coloque de forma consistente entre o drama e a comédia romântica, trata-se de uma boa escolha. Não sabe do que se trata? Segue a sinopse:

Seis meses. Seis livros. Seis membros.

O Clube de Leitura de Jane Austen leva a leitura dos clássicos a novos patamares de paixão nesta comédia romântica interpretada por um elenco de primeira. Quando cinco mulheres e um homem se reúnem para discutir a obra da famosa escritora inglesa, percebem que os problemas românticos de Emma, do Sr. Darcy e das irmãs Bennet não são muito diferentes dos seus próprios. Encontrando conforto, inteligência e sabedoria nas páginas das obras e entre os membros do clube, eles descobrem que, em assuntos do coração, tudo o que precisam fazer é perguntar: o que Jane faria?

Eu já cheguei a conclusão de que qualquer coisa que tenha a palavra Austen ou o nome de um de seus livros no título vende, ou, pelo menos, chama a atenção. Não poderia ser diferente com o livro de Karen Joy Fowler. Engraçado é que, pelo que pesquisei, The Jane Austen’s Book Club nunca foi publicado em português... O Brasil, às vezes, anda na contramão do mundo. O filme nem sei se estreou no cinema, deve ter sido na época que eu estava enrolada com a tese e nem me liguei muito. Mas, sempre que eu ia até a Livraria Cultura, lá estava o DVD do filme na prateleira dos livros em inglês de Jane Austen. Decidi me dar de presente de aniversário. Faz mais ou menos um mês que assisti e imediatamente decidi ler o livro, que se enquadra naquele gênero chamado de Chick Lit: subgênero da literatura de ficção feminina que discute questões importantes para as mulheres modernas normalmente de forma bem humorada e leve. Assim, na linha O Diabo Veste Prada e Bridget Jones. Por conta disso, a resenha precisava ser coletiva.

Acho que senti vontade de ler o livro quando assisti o documentário dos extras falando das adaptações e escolhas feitas pela roteirista e diretora. Estou interessada nesse tipo de discussão desde que li o livro A Arte da Adaptação de Linda Seger, aliás, adaptações é o tema do último Shoujocast (*Já escutou?*). Enfim, segundo a diretora e roteirista Robin Swicord, cada personagem do livro era uma protagonista de Austen, com algumas exceções. Jocelyn é Emma. É ago muito óbvio, basta ler o livro. Allegra é Marianne Dashwood, sem suas qualidades, eu diria. Sylvia é Anne Elliot, e uma personagem adorável (*mudaram no filme, comento depois*). Prudie é Fanny Price, e como não li até hoje Mansfield Park, tenho medo de ela ser tão mala sem alça quanto a personagem. Grigg, o único homem do grupo é Catherine Morland, a mais jovem e imaginativa das protagonistas de Austen. Já Bernardette, a mais velha, é uma mistura de várias personagens matronas de Austen, como Mrs. Jennings e Mrs. Gardiner, que eu tenha reconhecido. É uma das melhores personagens do livro.

Pois bem, o filme fez mudanças sérias e, a meu ver, muitas foram injustas. Não falo em tornar as personagens 10 anos mais jovens, embora os motivos sejam questionáveis. O que pesou a favor de Allegra, pois aos 20 você até pode ser uma mimada inconseqüente e chata, mas aos 30 isso é ridículo. Eu falo de mudanças sérias, como tornar o Grigg um sujeito classe média alta, quando ele era o menos abastado de todos, até para combinar com Catherine Morland. Mas o pior foi transformar Prudie, chatíssima no filme, mais chata ainda no livro, em Anne Elliot. Não sei qual a semelhança entre a centrada, sofrida e altruísta protagonista de Persuasão e uma personagem depressiva que não dá valor ao que tem e acha que não merece ser amada. Ela não precisava de um clube de leitura, mas de um analista. Aliás, a maldade foi transformar o marido de Prudie, um homem gentil e apaixonadíssimo por ela em um egoísta só para justificar a vontade da desequilibrada de pular a cerca com um aluno adolescente.

Só para ilustrar, Prudie, a única que tem a mesma idade no livro e no filme, 28 anos, e é professora de francês. Explica-se no livro que ela nunca quis ser pesquisadora por preguiça, que é mais fácil lecionar, mas ela não se sente feliz com a profissão. O marido é esforçado, amoroso e ela o considera bonito e bom demais para si. E entra em parafuso quando ele compra passagens para Paris, para que os dois possam comemorar o aniversário de casamento. No filme, colocam o sujeito cancelando as passagens para acompanhar o chefe em uma viagem, e tratando a questão como bobagem, para mostrar o quanto ele era insensível com a esposa que desejava muito a viagem. Além disso, ele é viciado e games e deixa Prudie em segundo plano, fora que é burrinho que dói.

No livro, ela fica com raiva dele, porque acha “insensível” que ele compre as passagens, afinal, é melhor imaginar a França, fingir que sabe tudo sobre o país, do que se decepcionar com ele. Ein?! Pois é assim mesmo! No livro o homem é um santo e ela faz pouco caso dele, não por ser burrinho, mas por não ser rico como um Mr. Darcy. Fora o desprezo que ela tem pela própria mãe, que é hippie, meio doidona, mas gente muito boa. Enfim, a Prudie do livro é muito chata, muito pedante, muito recalcada. E eu achava que no filme ela era uma intragável. Nada!

A outra mala do grupo é Allegra, que vive pulando de amor em amor e voltando para a casa dos pais quando tem seu coração partido. Ela é egoísta em relação ao drama da separação dos pais, às necessidades da mãe, e volta e meia se quebra praticando esportes radicais. É ela quem defende em certo momento do livro que Charlotte Lucas é gay. Allegra é lésbica militante, mas, para mim, suas qualidades são ultrapassadas pelos defeitos. Se Marianne tinha como grande virtude a devoção pela irmã e é isso que a redime aos meus olhos, Allegra não tem nada disso. Aliás, o final do caso dela com a picareta da Corinne é diferente do final do livro. E para melhor. Mas no filme, ela está saindo da adolescência e eu até consigo vê-la com alguma complacência.

Foram as duas chatas, todas as demais personagens são legais. Jocelyn é Emma, há quem não goste da única protagonista rica de Jane Austen, mas eu gosto. Jocelyn é mimada, também, como Emma, claro, mas se erra o faz tentando acertar, ajudar os outros. Ela foi superprotegida pelos pais e quer organizar o mundo do seu jeito. É criadora de cães da raça Rhodesian Ridgeback, porque eles reconhecem a hierarquia, apesar de ter gênio forte, e por serem matriarcais. É Jocelyn quem chama Grigg para o clube, pensando em fazer com que o rapaz se interesse por Sylvia, sua amiga que acabou de ser chutada pelo marido depois de mais de 20 anos de casamento. No livro, onde elas já passaram dos 50, são mais de 30 anos. Só que Grigg, leitor de ficção científica, aliás, eles se conhecem em um hotel quando ela foi para uma reunião de criadores de cães, e ele para uma convenção de ficção científica (*destaque para os hilários fãs de Buffy, foi a pequena parte que sobrou com eles no filme*), não conhece Jane Austen, mas se apaixona por Jocelyn desde o primeiro momento, eu acho. Daí, aceita o desafio. O livro de Jocelyn é Emma, claro.

Grigg, aliás, é uma graça nas duas versões (*e o ator Hugh Dancy é um fofo*). No filme, ele mal tem 30, é ecologista e anda de bicicleta para cima e para baixo. Inteligente, apesar de não saber nada de Austen, e de bom coração, acaba ganhando a simpatia das mulheres do clube que, salvo pela própria Jocelyn, percebem por quem ele se interessa. A casa do sujeito no filme parece um parque de diversões. O livro dele é Abadia Northanger e ele lê inclusive os Mistérios de Udolpho o livro dentro do livro de Austen. As ávidas leitoras do clube, nunca tinham sequer se dado ao trabalho de procurar pela obra... As mulheres do clube ficam maravilhadas, aliás, ele está acostumado a conviver com mulheres mais velhas, porque tem três irmãs. No livro ele é menos empolgado e juvenil, afinal, já é um homem de mais de 40 anos. E isso não muda muito a personalidade dele, mas nos dá dois Griggs. A parte em que ele vira Mr. Darcy (*"Qualquer selvagem pode dançar!”*) foi cruelmente cortada do filme, como a maioria das tiradas mais inspiradas, como as memórias das personagens e elas é que dão muito mais cor à história.

É quando ele se mostra “menos bonzinho” com Jocelyn que ela percebe que o ama. A parte em que a irmã de Grigg, Cat, dá uma de cupido é muito boa. Grigg dá livros de Ursula K. Le Guin para Jocelyn e os dois só conseguem se entender depois que ela vence seus preconceitos. Primeira lição: Ficção científica também é coisa de mulher. Segunda e mais importante lição: quem ama lê os livros que o/a amado/a gosta. Eu preciso terminar de ler Duna, meu marido já leu alguns dos meus livros favoritos, como Os Pilares da Terra, eu não tenho sido justa.

Bernardette é a personagem mais sábia e, ao mesmo tempo, subestimada. E quem a subestima? Allegra e Prudie, as duas malas. Ela é autora da maioria das falas mais inteligentes e cheias de sabedoria. No livro, beirando os setenta, ela desistiu do espelho e tem uma aparência tétrica. No filme, ela é uma dondoca arrumadinha, mas a personalidade é a mesma. A melhor cena de Bernardette, sua conversa com o pretensioso e jovem escritor de romances de mistério é espetacular, foi cortada do filme. A diretora considera Bernardette a narradora. No livro, isso não fica claro. Mas ela pode ser, também, uma representação da própria Austen. Eu amei a Bernardette. Ela é a tia meio maluca e cheia de sabedoria que quase todo mundo adoraria ter.

E, por fim, Sylvia, amiga de infância de Jocelyn e que foi abandonada pelo marido. É legal ver Sylvia dando a volta por cima e perdoando o marido arrependido porque quer e, não, por não poder viver sem ele. Ela é bem Anne Elliot, com a diferença, que foi a protagonista de Persuasão que rejeitou o Capitão Wentworth. Sylvia casou com o namorado de Jocelyn, elas trocaram os namorados, só que Jocelyn logo seguiu adiante, e nunca se casou. Sylvia não tem o mínimo interesse em repetir a dose com Grigg. É interessante que ela serve de ponto de equilíbrio para várias personagens, Allegra, Jocelyn, o próprio marido, Daniel, e consegue ver a vida com olhos favoráveis para seguir adiante. No filme, ela não é Anne Elliot, mas Fanny Price: doméstica, caseira, maternal.

O capítulo de Sylvia é ótimo. E, claro, Daniel acaba, por mero acaso, lendo Persuasão, porque vê na contra-capa que é um romance sobre “perdão”. No filme, colocam o marido de Prudie lendo, também, e ela se desculpando. Sylvia não precisa ser perdoada e é Daniel, que usando o exemplo da carta do Capitão Wentworth, escreve uma carta pedindo perdão. Terceira lição: Uma carta resolve tudo. Basta ler Jane Austen e aprender como fazer.

Enfim, acho que O Clube de Leitura se enquadraria naquela categoria filme/livro elitista escrito para mulheres brancas, ricas e na meia idade. Ainda assim, é legal. Eu realmente recomendo, mais a leitura, menos o filme, mas os dois são muito bons. Bernardette, Grigg, Sylvia, Daniel e Jocelyn fazem valer o filme. E ainda que eu deteste as mudanças feitas para favorecer Prudie, ela não estraga a película. O filme está disponível em DVD e Blu-Ray no Braisl, o livro pode ser comprado em inglês em livrarias nacionais. E faz a gente querer reler Jane Austen, ler Jane Austen, discutir Jane Austen e montar um clube do livro. Ah, e não esqueça: quem ama lê os livros que o/a amado/a gosta. Isso é fundamental para manter a saúde de um relacionamento. ^___^


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