domingo, 13 de maio de 2012

Comentando o Livro Catching Fire - Parte I: Algumas reflexões sobre o Mundo de Panem



Ontem, terminei de ler Catching Fire, segundo livro da trilogia The Hunger Games, de Suzane Collins. Foi uma leitura rápida, porque, enfim, a autora conseguiu me fisgar e eu quero saber como a história termina. Concluído o livro, é hora de escrever sobre ele. Decidi dividir minhas considerações em dois textos. O primeiro falará sobre o mundo criado por Suzane Collins, já que, agora, tenho muita informação sobre ele. O segundo texto – e tenham certeza de que não vou deixar de fazê-lo – falará sobre as personagens e a forma como os relacionamentos são orquestrados no livro. Mas prestem atenção no seguinte: não estaria lendo, e fazendo isso tão rápido, se não o considerasse pelo menos muito bom. É preciso deixar isso claro, porque vou criticar os pontos fracos do mundo criado pela autora e, talvez, alguém interprete isso como “Ah, o livro é ruim!”, “Não vale a pena ler!”, “Se ela não gostou, por que está lendo?”. Eu gostei, e exatamente por isso, quero falar dele, e dos outros livros. Esse texto é praticamente livre de spoilers, já que não vou discutir a trama em si.

Suzane Collins imaginou um futuro bem terrível para os Estados Unidos. Como a narração é em primeira pessoa, nossas informações chegam filtradas pela protagonista, Katniss, que começa a história como uma moça de 16 anos que é escolhida como tributo nos jogos sangrentos que lembram a revolta dos 13 Distritos de Panem contra a Capital. Katniss não é a melhor das narradoras, primeiro, porque ela é praticamente desprovida de uma educação mais elaborada e carece de informações que a ajudariam a entender organizações sociais diferenciadas e princípios científicos complexos; segundo, por características de sua própria personalidade, ela é arredia, desconfiada; terceiro, por causa do trauma das duas arenas, a primeira em The Hunger Games, a segunda, aqui, em Catching Fire. Apesar de tudo isso, Suzane Collins é muito boa na sua crítica à exploração extrema – desdobramento possível do nosso atual sistema capitalista – e os efeitos de uma sociedade controlada pela mídia, ela, ao mesmo tempo, exagera tanto na opressão que torna seu mundo bem irreal. Sim, como meu marido começou a ler os livros, a gente discutiu muito sobre isso e parte do texto só foi possível graças às nossas conversas.

A inspiração da autora é Roma. No entanto, assim como a maioria das pessoas que conhece muito superficialmente a história da República ou do Império, parece que Collins acredita que em Roma ou se era bigorna ou se era martelo. A frase veio de Voltaire, que a usou para a França do Antigo Regime. O que quero dizer é que nenhuma classe dominante historicamente conhecida oprimia uniformemente todas as outras classes. Sem diferença em graus de opressão, sem alguma recompensa, sem alimentar a possibilidade de ascensão social nesta ou em outra vida, qual seria o motivo para manter o sistema funcionando, afinal? E não adianta dizer que os Distritos 1 e 2 são privilegiados, porque estou me referindo a estrutura da sociedade dentro de cada Distrito. Faltam compensações, sobra exploração em níveis absurdos. Vejam alguns exemplos do livro:

A esposa do prefeito, mãe de Madge, amiga de Katniss, sofre de dores de cabeça crônicas. Katniss pergunta para a menina por que sua mãe não pode ser tratada na Capital. Madge responde que só se vai à capital a convite. Ou seja, até a mulher do prefeito é tratada como lixo pelo governo central. Qual a vantagem em ser prefeito? Qual a segurança que ele e sua família têm? Em outro caso, temos Peeta, que vem de uma família de comerciantes, o que seria uma elite dentro de um Distrito muito pobre, no entanto, ele não se alimenta muito melhor que os miseráveis do Seam, o bairro de mineiros onde Katniss mora. Se não existe praticamente diferença entre eles, se quando vem a repressão, todos são obrigados a ficar em casa e passar fome, por que produzir? Como os comerciantes conseguem vender o suficiente se mesmo eles devem fechar suas lojas? Se boa parte da população é faminta ao ponto de Katniss e Gale serem caçadores coletores pra complementar uma alimentação muito deficiente? Qual a extensão do mercado no Distrito 12 para que tenhamos uma economia minimamente sustentável?


Um mecanismo de manutenção do status quo poderia ser a criação de uma classe dominante em cada distrito, já que não se fala de nobreza e/ou realeza em The Hunger Games. Outra opção, seria a promessa de alguma ascensão social que possibilitasse a ida para a Capital, por exemplo. Mas nada disso é sugerido por Collins. O Distrito 12, aliás, é tão pequeno, com uma população tão restrita, que mais aprece um campo prisão. Veja que a produção de carvão deles não parece ser suficiente para abastecer ninguém, quanto mais a Capital com seus imensos desperdícios. Então, por que homens e mulheres propositalmente subalimentados são submetidos a turnos de 12 horas nas minas? Castigo? A idéia que me vem a mente é a de que a Capital, ou seu governo, tem prazer em torturar o povo do Distrito 12. Mas se vamos para o Distrito 11, casa de Rue, a situação parece ser igual ou pior, já que ali a autora faz analogia direta com a escravidão. Tão direta e óbvia que parece que ela associa escravidão a uma determinada etnia, afinal todos os descritos no Distrito 11 são negros ou mulatos. Não fossem os Avox, os criminosos condenados à trabalhos forçados, eu teria que dizer que a autora escorregou feio. Escravidão não tinha cor em Roma.

Mas parem e pensem que no Distrito 12 – que é de onde temos maior informação – a população é mantida em um regime análogo à escravidão. E, bem, escravos não se reproduzem o suficiente para recompor a mão-de-obra. Eu fiquei esperando que em algum momento Collins fosse falar que era compulsório procriar, já que a única benesse parece ser a casa que todo casal recebe do Estado. E como a Capital parece não recompensar ninguém por coisa alguma – salvo o vencedor ou vencedora dos jogos – ter filhos deveria ser uma obrigação, um dever patriótico. Só que nem isso. Katniss abomina a idéia de ter filhos, por não desejar futuro semelhante para eles ou elas, por acreditar que a Capital tem prazer em selecionar filhos de vencedores dos jogos para a arena. Se fosse compulsório casar e procriar, isso seria um ato de rebeldia. Na verdade, é só uma demonstração do quanto a menina tem sentimentos e é estranhamente brilhante, já que ninguém pensou nisso...

O que quero dizer é que é um furo muito grande esse mundo tão opressivo, tão miserável, tão angustiante com pessoas procriando sem medo do amanhã. Escravos evitam ter filhos, abortam, cometem infanticídio, são constrangidos a procriar. Só é possível manter um regime de trabalho como os dos Distritos 11, 12 e 8 – são os que temos detalhes – se houver reposição de mão-de-obra, porque as pessoas vão cair mortas por causa da fome, das doenças ou da exaustão, ou tentarão fugir, ou se revoltarão. Como a fuga é uma saída complicada e a revolta aberta é punida com mão de ferro, não ter filhos é a forma barata de resistência.

Só houve escravidão em Roma por tanto tempo, porque eles tinham rotas de abastecimento que inundavam o Estado de mão-de-obra barata e mesmo descartável. Ainda assim, escravos não eram tratados todos da mesma forma. Um escravo de mina não tinha a mesma vida de um escravo professor, médico ou secretário. Collins nivela todo mundo de uma forma irreal. Aqui no Brasil, assim como em Roma, o sistema escravista só começou a ruir de verdade quando as rotas de abastecimento foram cortadas. Sem reposição externa não há a possibilidade de um sistema escravista de grande porte. O que vi em Panem é escravidão, mas os mecanismos de manutenção do sistema beiram o absurdo.

Só que existem várias estratégias que podem ser utilizados para iludir, pressionar, ou manter as pessoas funcionando que não passem pelo econômico. A religião é o mais forte deles. Estranhamente, no mundo de Collins não existe igrejas, templos, ou deuses. Não há vestígio de qualquer prática religiosa. Não leio livros juvenis americanos em quantidade suficiente para saber se é um padrão, não colocar uma religião – o Cristianismo, mais especificamente – para não despertar reações de crítica. O fato é que somente um mecanismo religioso de recompensa e punição poderia manter a população de Panem sob controle. Collins nada diz sobre as práticas religiosas dos habitantes do país. Isso, sim, é um problema já que não há nem furor patriótico ou identidade que sustente aquela estrutura, ainda mais sem uma religião 0u mesmo uma idéia de monarquia sagrada dando respaldo. Não há sequer a tentativa de enganar a população dos Distritos para que acreditem que o sistema funciona para o bem e progresso de todos...

http://rohanelf.deviantart.com/
E há a incógnita sobre a forma de organização do governo de Panem e como funciona a Capital. Snow é um ditador. Mas é um erro acreditar que ditadores se mantém no poder sozinhos. Crianças e alunos desatentos (*como alguns que tenho... Afinal, tive que explicar esse tipo de coisa de novo esta semana*) podem até acreditar que um governante absoluto faz o que quer, não respeita nenhuma lei, não precisa de aliados. Isso não existe, pessoal. Quem então apóia Snow? Como ele governa. Meu marido está apostando que a autora vai seguir o clichê de muitos produtos americanos: existe um grande mal, ele se concentra em uma pessoa, eliminada essa pessoa, acabou o problema. É o individualismo levado ao extremo, como acreditar que a morte de Hitler seria o fim da Alemanha Nazista. Eu quero esperar mais de Suzane Collins, vamos ver como ela desata alguns nós em The Mockinjay.

É isso. Ainda que o mundo seja muito irreal e exagerado, a alma de The Hunger Games são suas personagens, a história que eles e elas vivem. É disso que falarei no meu próximo texto. Não queria começar pelas personagens, porque fatalmente não falaria nada do mundo de Panem e das minhas muitas interrogações. Sei que parte do problema talvez venha da narrativa em primeira pessoa. Não fui procurar informações exta-livros, porque acredito que é dever de um escritor ou escritora dizer tudo dentro da obra. Então, não adianta alguém vir me dizer que em tal entrevista, em tal livro, em tal sei-lá-o-quê, Collins explicou tal ponto. Isso pode ser útil, mas se a informação é fundamental precisa estar nos livros. É isso! Até o próximo texto.
E se gostou do filme ou desses meus textos, leia os livros. Estão em promoção no Submarino e tem link aqui na página. Já mandei de presente os três para o meu irmão. Presente de aniversário adiantado para ele, já que tenho a certeza de que ele vai gostar. ^____^

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4 pessoas comentaram:

Poxa... Paguei pau agora. Otimo texto! Concordo com tudo.
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Nada mais a declarar. XD

Eu já tinha umo problema com o mundo demasiado irreal no livro 1984, vejo que terei o mesmo problema com este...

Valéria, adoro suas resenhas, me dão vontade de ir atrás da obra.

Depois de ler este post, voltei pro meu livro de arqueologia do Bruce Trigger, ele faz uma análise sobre o anti-historicismo do movimento chamada Nova Arqueologia (+-déc. 1960) que surge no centro-oeste dos EUA e depois ‘vira moda’.

Ao começar a explicação, Trigger cita uma frase de Henry Ford: "História é... besteira"; e continua com a análise: "O pouco valor atribuído à história reflete, ademais, a mentalidade “fixada no presente” da sociedade norte-americana, que romanticamente se vê a si mesma como tendo alcançado a prosperidade ao deitar fora os grilhões do passado (ou seja, os requisitos ultrapassados de origem, classe e tradição) e criar uma nova sociedade, racionalmente projetada para atender aos interesses dos indivíduos empreendedores". Na hora lembrei da sua crítica!
Não sei se essa relação que eu fiz faz sentido, mas me ajudou a fixar o conteúdo! XDD

Quando li o primeiro livro, tive a impressão de que havia uma diferença entre as pessoas que moravam no Distrito 12, como entre a classe dos comerciantes e o povo que vivia na Costura. Já em Catching Fire, as diferenças parecem que são amenizadas, com as falas de Peeta e de Madgie. Como você escreveu, o regime da Capital era por demais brutal para que se sustentasse por tantos anos sem a presença de uma classe dominante dentro de cada distrito. Sobre a falta de explicação acerca do grupo político que apoiava Snow, concordo plenamente. Senti falta de uma explicação mais detalhada sobre esse aspecto.

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