quinta-feira, 2 de agosto de 2012

Comentando Mockingjay – Último Livro da Série The Hunger Games - Parte Final



Faz tempo que terminei a leitura de Mockingjay, o último livro da série The Hunger Games. A primeira parte da resenha está aqui. Como tinha outras pendências, aliás, continuo com algumas, acabei protelando. Fiquei de comentar problemas neste texto, conversei com meu marido e meu irmão sobre alguns deles, porque consegui que os dois lessem o material, também. Eu gostei do último livro, já disse isso, mas nenhuma obra é impecável e Mockingjay tem vários problemas, alguns menores, outros maiores. Este texto terá spoilers. Então, se você não leu o livro e acredita que o que for escrito aqui pode estragar a sua percepção da obra, deixe este post para uma leitura futura.

O grande problema de Mockingjay é que a narrativa em primeira pessoa – que ajudou em muitos momentos – nos priva de saber muita coisa neste último volume. Suzanne Collins parece que se utiliza desse recurso para não mostrar a guerra e decisões importantes. Por exemplo, uma das grandes decepções em Mockingjay foi a forma como Finnick Odair morreu. Veja bem, a morte dele não é o problema, ela poderia morrer assim como qualquer uma das personagens, mas pelo peso que Finnick tem no segundo livro, pelo seu carisma, ele merecia uma morte épica, heróica. O que Collins nos oferece é o apagamento da personagem, sem que a sua morte possa ser realmente lamentada, chorada ou louvada. Foi um dos grandes pontos fracos do livro, mas que pode, sim, ser resolvido em um filme.

Outro problema é o presidente Snow. Um homem tão maléfico dificilmente teria aliados, mas ele tem. Ora, quem eram os aliados de Snow? Como se organizavam as estruturas de poder da capital? Os detalhes da queda da capital são muito mal desenvolvidos, porque estamos presos à narrativa em primeira pessoa de Katniss e ela é deliberadamente afastada por Coin, a presidente do Distrito 13, do centro da ação. É interessante ver – e isso é ponto positivo – como Collins trabalha bem a idéia de que a mídia constrói e destrói ícones. A forma como a imprensa alimenta a audiência com falsas notícias, com coisas desimportantes, para desviar a atenção daquilo que é essencial. Vejam a forma como a entrevista de Finnick, carregada de detalhes sórdidos sobre a vida sexual dos figurões da capital, acaba sendo mais importante do que a fala mais inspirada de Katniss. Ela é a voz e o rosto da Revolução, mas as fofocas de alcova são muito mais deliciosas...

O povo gosta dessas coisas ou os controladores das mídias alimentam a população com esse tipo de material para desviar a atenção? Para alienar? Para idiotizar? Eu não tenho dúvidas aqui... Mas a crítica da autora é muito perspicaz. E não falha nesse aspecto. Da mesma forma como ela é amarga e desesperançosa em relação à democracia liberal norte americana e muito crítica em relação ao mau uso dos recursos naturais. A destruição do meio ambiente no nosso presente é uma das razões da existência do futuro sombrio retratado em The Hunger Games. E quando Plutarco fala em retorno à democracia, no ideal dos antepassados de Panem, tanto Haymitch, quanto Katniss, ambos traumatizados e endurecidos pela vida, só podem desdenhar e ironizar. Não vejo Collins fazendo apologia às ditaduras. Katniss e Haymitch viveram em um campo de concentração durante toda a sua vida, da Capital só viram a dissimulação e a violência, e no Distrito 13 viram que o governo é uma ditadura tão controladora quanto a de Panem. Como acreditar em democracia? Isso está além das condições de imaginação dos dois, para eles, o que importa é a sobrevivência.

Mas, voltemos aos problemas... Não vemos quem apoia Snow, quem o abandona e muda de lado, não vemos a queda da capital, assim como não vimos a morte de Finnick. Collins tira Katniss da ação nos momentos mais importantes do terceiro livro. São vários os momentos em que alguma coisa de muito importante acontece e a heroína está ou hospitalizada, ou detida: resgate de Peeta, boa parte da ação de tomada da Capital (*quando ela está com seu destacamento midiático*), a queda da Capital, quando se decide o seu destino depois do assassinato de Coin. Veja que sequer sabemos se aconteceram os jogos... E eu acredito que Katniss vota a favor dos jogos vorazes com os filhos dos figurões da Capital (*“em memória de Prim”*) para testar a fidelidade de Haymitch, se ele sabia das armações de Coin. De qualquer forma, eu queria saber. Manter Katniss na prisão sem que ela tivesse sido levada diante de uma corte foi muito anticlimático.

A impressão é que Collins fugiu de mostrar coisas que não dominava. Meu marido insistiu muito que a autora não tem muito conhecimento da guerra, de armas e armamentos. Ela é boa com personagens e em construir seus relacionamentos, mas quando parte para o macro, ela patina. Eu comentei sobre isso no primeiro texto sobre Catching Fire, da dificuldade da autora em construir uma sociedade com estruturas de dominação convincentes. Ela só conseguiu mostrar isso funcionando de forma razoável quando nos mostrou o Distrito 2 com suas diferenças sociais, mas quando partiu para os outros Distritos, ela fracassa miseravelmente. É como o que senti lendo o volume 4 de Ōoku (大奥), um dos mangás que considero mais perfeitos, e ficando decepcionada por Fumi Yoshinaga retratar de forma tão superficial um levante contra o Shogunato que poderia ter rendido uns bons capítulos. Eu imagino que ela fugiu de mostrar aquilo que não domina – ação, guerra, armamentos, etc. – mas quando assumimos a responsabilidade de contar uma história, precisamos conta-la o melhor possível. Collins foge de certos tópicos e exagera em outros, como o excesso de tecnologia ligada ao jogo (*e que é usada na guerra*) ou os terríveis mutantes. Faltou equilíbrio. E Collins nos deixou na mão em muitos momentos de Mockingjay.

E eu não estou dizendo em nenhum momento que o livro foi ruim. Eu gostei da leitura, devorei o livro. Já declarei várias vezes minha solidariedade para com a protagonista e seu sofrimento, o trauma. Acho que Collins foi muito cruel com Katniss ao tirar-lhe Prim e tornar a amizade com Gale impossível, já que ele tinha sido um dos idealizadores das armas letais que mataram a irmã da protagonista. Prim era a única pessoa que Katniss amava incondicionalmente. E, bem, a cena de Katniss com o gato no final do livro me fez chorar. Porque Katniss estava certa em relação a sua mãe, ela nunca a amou como amou o marido e Prim. A mãe de Katniss vai embora de novo, abandona a filha mais velha mais uma vez. E deve ser horrível comprovar que se está sozinha, irremediavelmente sozinha. Katniss é mandada para uma casa vazia, para uma região destruída, traumatizada e ferida. Houve quem dissesse que Katniss abandonou Peeta no hospital no final da história, que esqueceu dele.


Katniss falhou com Peeta lá no meio do livro, quando ela deixa de visitá-lo, de perguntar por ele, quando ela explode com o rapaz no campo de batalha. Ela devia a Peeta um pouco mais de atenção, de carinho e toma uma bronca de Haymitch por causa disso... Eu entendo a pressão sobre Katniss, mas ela quis fugir de algo muito indigesto, a visão do equilibrado e bondoso Peeta destroçado. No final do livro, não, ela é que estava destruída e ele veio resgatá-la. Mesmo sem estar curado de todo – ninguém supera aquilo tudo que ele passou – ele é capaz de voltar a apreciar a beleza do mundo e traz luz para a vida de Katniss. Eu queria mais romance, eu queria algo mais emocional, mas “OK”, pelo menos temos os dois juntos no fim. Porque Collins nos torturou muito no último livro, pois como Peeta é uma personagem muito simpática, vê-lo reduzido ao que foi é muito dolorido. Só que, ao mesmo tempo, através dele e de Johanna, a autora nos mostrou como a tortura é algo terrível. Há quem ache que ele exagerou. Não, muito provavelmente a realidade de um torturado é muito pior. E Katniss, sem querer justificá-la em seus rasgos de egoísmo, também foi torturada, aliás, é o trauma que a aproxima de Finnick. Lembram da terapia dos nós?

Uma coisa interessante que Collins faz – e isso é importante, levando-se em consideração que vivemos em tempos de apologia ao estupro consentido (*ou não*) e é um livro para adolescentes – é colocar Gale rejeitando Katniss em um momento de fraqueza da moça. Na sua dor e frustração, ela se oferece ao rapaz. Ele a ama e a deseja, nenhum leitor tem dúvida disso, mas ele não quer se aproveitar da situação. Aceitar uma Katniss naquele estado é como se ele se aproveitasse dela bêbada. É o que Collins coloca o rapaz dizendo. Katniss estava embriagada pela dor da perda de Peeta, da destruição do Distrito 12, enfim, de todas as desgraças que se abateram sobre ela. Collins é boa com personagens, ela os faz humanos e possíveis. Gale é honrado, gentil, capaz de fazer a coisa certa, como nessa passagem que destaquei, mas capaz de odiar, de matar, de desejar a destruição do inimigo sem piedade.

Curiosamente, Katniss não é capaz de odiar com tanta intensidade, de deixar de sentir remorso pelas vítimas colaterais. Ela tem inimigos claros, Snow, Coin, o sistema até, mas não deseja a destruição e morte generalizadas. Ao colocar esses valores em sua heroína, Collins tenta mostrar que há escolhas, que o único caminho não é o da brutalização. Há quem diga que Katniss é fraca, porque em vários momentos ela escolhe não matar. Inclusive usam isso para dizer que ela não seria uma protagonista ativa e que todo o elogio à personagem como modelo para meninas seria uma furada. Discordo. Não é necessário se agarrar ao modelo de herói de ação tradicional, agarrado em conceitos arcaicos de masculinidade, incapaz de sofrer com as perdas, de ficar de luto, de escolher a não violência ou de resistir ao uso da força, que paga morte com morte, destruição com destruição. Uma heroína de ação não precisa emular os mesmos valores para ser forte. A ficção não é feita de um modelo único. Em Katniss – e também em Peeta – a autora tenta mostrar que há outras possibilidades, que violência só produz mais violência e que os inimigos reais não são as pessoas, mas os sistemas, as estruturas.

Espero que Collins consiga superar algumas de suas falhas (*que são muitas*) e produzir alguma obra melhor estruturada no futuro. E nem estou falando que ela precisa fugir do nicho da literatura para “jovens adultos”, mas que ela consiga oferecer mundos mais convincentes e não somente (*como se fosse pouco*), personagens interessantes e uma crítica social mais que necessária. Eu gostei muito de ler os livros e fiquei triste por serem somente três. Queria mais. Sinto saudades de Katniss, de Cinna, de Haymitch, de Peeta, etc. Suzanne Collins me ganhou, assim como J.K. Rowling. E só cheguei aos livros graças ao filme, como com Harry Potter. E acabou, gente! Só volto à The Hunger Games para falar do próximo filme, das escalações de elenco, talvez, ou do trailer, quando ele sair.

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5 pessoas comentaram:

Muito boa a resenha! Suzanne Collins realmente conseguiu sair muito do esperado. Digo até pelas mortes totalmente inesperadas e desanimadoras, mas que estão lá pra tentar resgatar uma realidade de que as mortes em guerra são assim. A crítica é muito bem vinda: em uma guerra só quem ganha é a guerra.

a crítica tá muito bem escrita, parabéns! as mortes pouco heroicas, tal como os acontecimentos que nós nunca saberemos porque estamos na pele da Katniss, estão lá para reforçar o horror da guerra, que em uma guerra ninguém saber realmente de tudo. Não haveria como contar essa história em um ponto de vista de alguém sem que houvesse enormes pontos cegos, e que no final, collins mostra perfeitamente que só quem ganha com a guerra é a própria guerra.

Eu também tenho saudade deles...
Você conseguiu por em palavras sentimentos que eu não consegui, é tão bonito ver isso. Por que muitas vezes nós não entendemos nossos próprios sentimentos quando não conseguimos expressá-los.

Obrigada por ter escrito a crítica!
bjinhos!

Suas resenhas sobre os livros da série Jogos Vorazes me dá vontade de lê-los. Vou arranjar um tempo para isso.

Essa é a primeira vez que eu choro lendo uma resenha, essa foi uma das poucas resenhas que colocou tudo aquilo que senti lendo o livro.

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