quarta-feira, 14 de novembro de 2012

Comentando Small Island (BBC – 2009)



Semana passada, terminei de assistir Small Island, série da BBC baseada no romance homônimo de Andrea Levy. Lembro que da primeira vez que me interessei pela série o motivo era a atriz Ruth Wilson, a Jane Eyre da série de 2006. Só recentemente descobri que Benedict Cumberbatch, hoje mais conhecido como Sherlock Holmes, também estava nela. Tentei baixar, não consegui, e terminei comprando os DVDs no Amazon UK. Chegou tão rapidinho que até surpreendeu. Este ano, várias encomendas minhas se perderam ou demoraram horrores para chegar. Enfim, não foi a melhor série da BBC que eu assisti, mas, com certeza, Small Island tem grandes méritos ao retratar o racismo na Inglaterra dos anos 1940 e como crítica ao colonialismo cultural. Em linhas gerais, do que trata a história?

Small Island tem como protagonistas duas mulheres, são elas com suas imperfeições, sonhos, coragem, que movem a história. Hortense (Naomie Harris) é uma jovem professora jamaicana que apesar do passado familiar complicado (*ela é filha bastarda de um inglês*), teve uma educação de primeira linha, e Queenie (Ruth Wilson), inglesa, de origem humilde, saiu do interior, da fazenda de criação de porcos dos pais, para morar com uma tia em Londres em busca de um futuro melhor. A série começa em 1948, quando Hortense consegue imigrar para a Inglaterra indo ao encontro do marido “arranjado”, Gilbert (David Oyelowo). Como o rapaz mora em um quarto alugado por Queenie, as duas acabam se conhecendo e a senhoria tenta se tornar amiga da orgulhosa jamaicana. Já Queenie está sozinha, porque seu marido, Bernard (Benedict Cumberbatch), foi lutar na Guerra, retornou para a Inglaterra, mas nunca deu notícias ou voltou para casa. Ela se sente viúva de marido vivo, por assim dizer. A série trabalha com flashbacks que começam em 1939 e passam pela II Guerra, alguns deles envolvem o primo de Hortense, Michael (Ashley Walters), o amor de sua vida e que foi amante de Queenie.



O grande trunfo de Small Island é, sem dúvida, discutir a questão do racismo e da relação de admiração e frustração da colônia pela metrópole. “Small Island”, ilha pequena, se aplica no início à Jamaica, acredito eu, mas, ao longo da série, percebemos que pode se aplicar, também à Inglaterra. Que parece grande, mas não é... Os jamaicanos são educados para admirarem a pátria mãe, isso é muito bem ilustrado pela educação refinada de Hortense, que enfatiza a decoreba de nomes de reis e primeiros-ministros, fatos inúteis, mas que ressaltam os elos com a Inglaterra e engrandecem a metrópole. Isso também é enfatizado no orgulho da população de Kingston ao despachar os seus jovens para lutarem na II Guerra.

Servindo nas tropas imperiais, homens como Gilbert percebem o quanto a imagem que tem da grande ilha é errada. São humilhados, colocados em trabalhos braçais e tratados como inferiores pelos nativos. A maioria dos negros não tem a “sorte” de Michael, primo de Hortense, que serve em um avião. No entanto, uma das cenas de conflito mais violento é com soldados americanos que querem que Gilbert saia da fila do cinema e passe para a fila dos negros. Curiosamente, os americanos tinham recriado na região perto de sua base o sistema de segregação que tinham em casa. Quando Gilbert se recusa a sair da fila e joga na cara dos americanos que não existem leis de segregação, eles xingam Queenie de prostituta e amante de negros... O resultado é uma briga generalizada e uma grande tragédia, a morte do simpático sogro da protagonista, Arthur (Karl Johnson).


Terminada a guerra, os imigrantes jamaicanos são tratados como lixo e as sucessivas humilhações as quais Gilbert é submetido mostram o quão cruel a pátria-mãe poderia ser. Não há segregação oficial, mas ela existe e é bem pesada. Por exemplo, Queenie, que passa por necessidades econômicas, é recriminada pela vizinhança por alugar quartos para “pessoas de cor”, mesmo sendo esses homens e mulheres cidadãos britânicos. Gilbert é recusado em vários empregos e, quando consegue se empregar, é humilhado por colegas brancos. Uma das cenas é muito pesada e David Oyelowo mostrou grande talento ao defender sua personagem. Sem esse foco no racismo – e eu estou lendo Parade’s End e os ingleses discriminavam até os canadenses brancos – Small Island poderia ser uma série esquecível.

Explicados os pontos realmente altos da série, é preciso dizer que Small Island é uma série que me deixou com aquela sensação “é boa mas...” , ou seja, ela não conseguiu me capturar, emocionar, como outros materiais que assisti da BBC. Em primeiro lugar, o sotaque jamaicano doía nos meus ouvidos. Eu não tenho familiaridade com a maneira como o inglês é falado por lá, ouvi muito pouco da fala de jamaicanos, mas a impressão que tive é que alguns atores e atrizes estavam forçando a maneira de falar e tornando a coisa um tanto artificial. Caso da protagonista, Naomie Harris, em poucos momentos sua fala consegue fruir, já que ela obviamente não fala inglês daquele jeito. Julgar se estava correto, ou não, não tenho competência, mas ter a protagonista se esforçando para falar com sotaque é complicado. Outra coisa que incomoda em Small Island é que a maioria das personagens não é simpática.


Hortense é intragável boa parte do tempo. Eu realmente não consigo gostar dela e ter uma protagonista em tela boa parte do tempo detestando-a é ruim. Ela tem virtudes, pois é assim que eu vejo a coragem e determinação para atingir seus objetivos, por mais errados que sejam. Só que ela não tem escrúpulos de “roubar” o sonho da sua melhor amiga, Celia, que é ir para a Inglaterra, ter uma casa com luz elétrica em todos os cômodos e uma campainha que faça ding-dong. Mais adiante, toma o noivo de Celia e não pelos métodos usuais, a sedução, mas dizendo para o rapaz que a moça não podia ir para a Inglaterra com ele deixando a mãe doente para trás. A mentira da moça, que escondeu a condição da mãe, é vista como falha de caráter pelo noivo. Pelo menos, Celia dá um soco na cara de Hortense que eu raramente vi dado por uma mulher em tela, mas Hortense, claro, nem sente remorço.

Hortense, mesmo com a cara inchada, se aproveita para “comprar” Gilbert. Ele quer partir para a Inglaterra imediatamente – houve mesmo uma leva de migrantes em 1948, no navio  Empire Windrush – mas a passagem é muito cara. Ela, que trabalhava como professora, se oferece para pagar a passagem do moço para a Inglaterra, desde que ele casar com ela antes e mande buscá-la quando tiver se estabelecido. Segundo Hortense, “não fica bem para uma moça solteira viajar para a Inglaterra”. Hortense é muito bonita (*a atriz foi a última Bond Girl*) e Gilbert fica assustado e fascinado por sua assertividade. O moço aceita a proposta (*que não inclui sexo, coisa que ele não sabia*) sem saber que Hortense quer ir para a pátria-mãe não somente para ser professora, ter uma carreira e uma vida confortável, mas para tentar encontrar o seu primo, Michael, que entrou para a RAF e sumiu no mundo.


Michael, aliás, é o pior sujeito da série. No início, é possível ter alguma simpatia por ele, que confronta o pai religioso e conservador, mas seu caráter vai se revelando rapidamente. Ele é um sedutor, não há palavra melhor, e mira em mulheres brancas e casadas. Sinceramente? Não vi nada de especial nele, Gilbert é mais bonito, só que durante a série, bastava ele lançar um olhar, falar umas palavras e pronto! A primeira amante dele é a esposa do pastor da cidade onde moram na Jamaica. Hortense é professora auxiliar e ao descobrir, faz um escândalo, que “obriga” o pai do rapaz, seu tio, a mandá-la para a capital, longe da cidadezinha. Já Michael é intimado pelo pai a se alistar. Na Inglaterra, Michael seduz a fragilizada Queenie e ao retornar de passagem, depois da guerra, termina por engravidá-la. Michael não demonstra grande afeto por ninguém, mas consegue encantar e seduzir. Termina deixando Queenie para trás sem nenhum remorso.

Queenie junto com Gilbert são minhas personagens favoritas. Ambos não são perfeitos, eles erram, mas buscam sempre acertar e serem gentis com o próximo, isso conta muito. Queenie vai para Londres querendo ganhar o mundo e fugir da mesquinhez e tirania da mãe. Em uma das cenas ela lembra que a mãe a obrigava a assistir desde a infância a matança dos porcos para que ela fosse forte. A tia quer ajudá-la a compensar sua educação deficiente e a atira para cima de um jovem bancário, Bernard (Benedict Cumberbatch). Para a tia, ele é o melhor partido que uma moça como Queenie pode conseguir.... A moça não recusa, nem estimula a paixão do moço, que é muito tímido. Só que a morte da tia e a eminência do retorno para a fazenda de porcos precipita tudo. Bernard a pede em casamento e ela, que não o ama, aceita.



O salto no tempo mostra uma Queenie infeliz. Bernard é formal, conservador, limitado até. Tem um pai que é traumatizado da I Guerra mundial e exige cuidados. Ele se recusa a fazer mínimas mudanças na rotina ou na casa usando o pai como desculpas. E, pior, ainda acaba comprando o discurso racista dos vizinhos, em um primeiro momentos, contra os judeus refugiados, depois da guerra, em relação aos jamaicanos. Queenie se sente sufocada e a cena em que durante um bombardeio ela sai para o meio da rua, enquanto Bernard se esconde, é muito emblemática.

Queenie quer ter filhos e o médico a acusa de ser “sexualmente fria”. Na verdade, o problema não era ela, mas o ginecologista não tem dúvidas... Na verdade, e infelizmente, Bernard, o marido, é mais uma caricatura do inglês, como naquela famosa seqüência de Monty Python “Every sperm is sacred”, um sujeito que não pensa por si mesmo e que não consegue expressar seus sentimentos. Ele ama Queenie, mas mata qualquer possibilidade dela vir a amá-lo. Não estou desculpando a protagonista pelos seus erros, mas é o comportamento do marido que facilita a aproximação de um sedutor como Michael. Queenie não tem preconceitos, não tem nenhum problema em acolher os jamaicanos e tentar ser amiga deles. Não recrimina Hortense por sua arrogância, mas tenta ajudá-la, não culpa Gilbert pela morte do sogro, que era uma pessoa querida para ela.


Li uma resenha do livro na qual uma pessoa acusava Queenie de não amar seu bebê. Olha, não sei se no livro – premiadíssimo, aliás – a coisa é diferente, mas no seriado, quando Queenie pede que Hortense e Gilbert fiquem com seu bebê, trata-se de uma das maiores demonstrações de amor possíveis. Ela, que queria tanto ter filhos, sabe que não há espaço para seu filho em sua casa e naquele bairro, que mesmo Bernard – depois do choque inicial – tendo aceitado o menino, nada garante que a criança não será humilhada por sua cor de pele, seu marido não irá jogar sobre a criança as suas frustrações. Aliás, como aprendi xingamentos racistas ingleses nessa série... Queenie erra, mente, mas sempre faz isso com as melhores intenções. Talvez, seu maior erro tenha sido entrar em um casamento sem amor, sem ter coragem de tomar sua vida em suas mãos...

Hortense, por mais irritante que seja, nunca se deixou determinar pelos outros. Ela não desiste de ser professora na Inglaterra, nem quando seu diploma é rejeitado e ela é humilhada da “secretaria de educação”. Aliás, essa humilhação é que faz com que Hortense baixe um pouco a crítica e reflita sobre seus atos e passe a valorizar o marido que tem. Voltando a Gilbert, ele é de uma paciência sem limites com as bobagens e grosserias de Hortense. Ele não é um idiota, nem está loucamente apaixonado, ele é honrado e tenta cumprir seus compromissos. E ele se comprometeu com Hortense. Sua noção de honra o faz ter paciência com uma personagem altamente irritante, faz com que ele ajude Queenie e fique amigo do velho Arthur. Ele só não tem paciência com Bernard e seu ódio racista.

Enfim, não sei se o livro é melhor, não estou dizendo que Small Island é ruim, mas a série não conseguiu me empolgar como outras da BBC. O desempenho do elenco, destaque para Ruth Wilson, Benedict Cumberbatch e David Oyelowo, é de primeira linha e é muito bom vê-los atuando. Queria ver mais material com Oyelowo para confirmar a minha boa impressão. De qualquer forma, acredito que Small Island preencha uma lacuna dentro dos seriados ingleses, porque dá voz aos imigrantes negros que também ajudaram a levantar a economia inglesa depois da II Guerra e que só com muita luta puderam ter sua cidadania e direitos minimamente respeitados.

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1 pessoas comentaram:

oi recentemente vi um comentário seu sobre muder is easy e gostei muito também e como vc estou numa fase Benedict Cumberbatch estou curiosa como vc faz pra assistir essas séries ,não acho na internet :( parabéns pelo blogg e pelos textos :)

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