sexta-feira, 8 de março de 2013

Mais um Oito de Março...


Eu tenho um pouco de preguiça em escrever sobre o Oito de Março, especialmente, quando acordo logo de manhã e o Jornal Bom Dia DF homenageia as mulheres com uma matéria que abre com “blush, batom, salto alto e bolsa de grife” em evidência, diz que o machismo é coisa do passado e discute a legitimidade do Dia Internacional das Mulheres, já que vivemos em tempos de igualdade.  Curiosamente, hoje faz sete dias que um monstro assassinou a ex-mulher aqui pertinho da minha casa, em um dos principais shoppings centers de Brasília, com facadas no pescoço dentro da loja na qual ela trabalhava.  Na mesma Brasília onde não existe machismo, segundo a homenagem da Globo.   E outros crimes se somaram ao longo da semana, junto com um dossiê do Correio Braziliense comentando sobre o crescimento dos casos de violência contra as mulheres e que a capital do país é recordista em denúncias.  Considerarei isso positivo, recorde em denúncias para mim remete a um crescimento na conscientização, no entanto, se isso não vem acompanhado com medidas protetivas reais, não faz lá muita diferença, pois continuaremos contando as mortas.

No início da semana fatídica, foi noticiado que uma moça teve sua interrupção terapêutica da gravidez, algo constitucionalmente garantido, negada por um juiz.  Ela tem 21 anos, um filho de 4 anos, e descobriu que tem um tumor agressivo.  Para o juiz, a vida do embrião – ela está de oito semanas, quase o mesmo que eu – vem antes... ainda que ela e ele morram.  Sem problema, pró-vidas geralmente não refletem sobre essas questões, nem pensam na criança depois que ela nasce ou no órfão que ficará, preferem ficar especulando sobre a vida sexual da mulher e questões metafísicas que me enojam.  Sim, minha gravidez não me faz mudar de posição em relação ao conjunto de bandeiras que levanto, nem me causa asco pelas mulheres que desejam ou precisam abortar.  Eu, como membro do grupo, também não tenho direito pleno a minha cidadania, já que meu corpo não me pertence totalmente, já que neste país não temos assegurado todos os direitos reprodutivos.  E estamos cada vez mais longe disso, quando vemos ser eleita uma personalidade racista, homofóbica e misógina para presidir a Comissão dos Direitos Humanos e das Minorias.  Esse senhor, por exemplo, considera que a interrupção de uma gravidez de feto anencefálico é assassinato.  

Ora, bolas, não é porque muitas pessoas vivem sem usar seu cérebro durante toda a sua vida que a gente tenha que passar a acreditar que um feto com má formação, e que efetivamente não possui um cérebro, vá conseguir sobreviver e que o ventre materno tenha que ser transformado em túmulo por meses, com todo mundo perguntando “nasce quando” ou “é menino, ou menina” e colocando a mão na sua barriga com toda a falta de cerimônia possível.  É cruel, é desumano, nenhuma mulher ou casal ou família deveria ser obrigado a passar por isso.  É escolha e abençoado seja o Supremo Tribunal Federal, pelo menos neste caso.  Para completar, no início da semana, uma propaganda inspiradíssima, entre tantas outras, prestou uma homenagem às mulheres citando o Goleiro Bruno, sim, aquele que matou Elisa Samúdio.  Será que alguém, em são consciência considera isso uma homenagem?

E tome florezinhas e outros mimos para nós mulheres.  Poderosas!  Vencedoras! Lindas!  É bom fazer esquecer, como bem lembrou a página O Machismo Nosso de Cada Dia, que a “mesma empresa que te ofereceu hoje uma rosa, é a empresa que se recusa a pagar salários iguais para homens e mulheres: "Empresários de todo o País reagiram contra a proposta alertando que, na contramão da ideia, poderia resultar na redução de vagas".”.  Duvida?  Desde a primeira legislação trabalhista, na década de 1930, temos no texto da lei escrito que homens e mulheres na mesma função devem receber o mesmo salário.  E isso não acontece.  Quando se pretendia baixar uma lei punindo a empresa que não o fizesse, algo que seria, sim, um grande presente para as mulheres neste Oito de Março, o Governo, presidido por uma mulher, recuou.  Ia dar muito prejuízo ao empresariado.  Além disso, mulheres são preteridas em cargos de liderança, mesmo quando com a mesma qualificação, ou superior até, porque, bem, são mulheres.


Mas coisas boas acontecem, obviamente, e eu vou citar algumas. Por mais leve que a sentença possa parecer, o Goleiro Bruno foi condenado nessa madrugada do Oito de Março.  Se ele vai para o semi-aberto em 2017 não é culpa da juíza, ainda que pudesse dar pena mais pesada, mas do código penal que nós temos e precisa ser reformado.  Hoje, a moça que estava com câncer teve seu pedido de aborto terapêutico concedido em segunda instância.  É uma vitória.  E, ontem, uma corajosa menina de 12 ou 13 anos, os jornais não concordam, lutou com um estuprador que invadiu a sua casa e conseguiu cortá-lo com cacos de vidro e fugir.  Ela ficará traumatizada, sem dúvida. Se feriu um pouco, mas é menos uma estatística de estupro seguido de morte, pois este seria seu destino, não tenham dúvidas.  Ainda assim, não deixo “Feliz Dia das Mulheres", porque, bem, quem precisa de dia é porque não tem dia nenhum. Todos os dias deveriam ser nossos, pois respeito é algo que não deveria ser lembrado somente uma vez por ano.

P.S.: A imagem de abertura do post é deste artista aqui.



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1 pessoas comentaram:

''Quando uma mulher avança, nenhum homem retrocede'' Igualdade e respeito (:

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