sábado, 14 de junho de 2014

Sobre a Copa do Mundo ou já estou cansada e a campanha eleitoral nem começou ainda


Mesmo dentro das minhas limitações de tempo (*são quase duas horas da manhã agora*), acho que preciso comentar algumas coisinhas sobre a Copa do Mundo.  E queria deixar uns links de textos e vídeos com conteúdo interessante para quem passasse por aqui.  Enfim, fui procurar e não encontrei nenhum post aqui no blog falando da Copa do Mundo.  Tenho, sim, um post marcando minha posição em relação às Olimpíadas no Rio de Janeiro (*Rio 2016: É para Comemorar?*).  Talvez, por nunca ter sido contra a Copa e por não ser assunto principal aqui do blog, não tenha me dado ao trabalho de escrever, mas vamos lá. Só começo lembrando que Lula não trouxe a Copa para o Brasil sozinho, que em 2007 havia muita gente apoiando.  Políticos, empresários de vários ramos, celebridades, etc., fora, claro, a população que em sua maioria festejou a escolha da FIFA.

Nunca vi como algo prejudicial ao país que o Brasil sediasse uma nova Copa do Mundo de seu esporte favorito, o futebol (masculino).  Seria, também, uma chance de vender o país – não suas mulheres e crianças para a prostituição – para o mundo, uma forma de gerar empregos, consolidar ainda mais o turismo, possibilitar a construção de obras que tornassem a nossa vida melhor.  A politicagem prejudicou e muito o que se poderia lucrar com o turismo (*o excelente programa Sua Viagem da BandNews discutiu a questão várias vezes*), fora, claro, a ambição desmedida do setor hoteleiro.   Eu imaginava que a Copa não seria tão elitista e não sabia o quão predatória a FIFA poderia ser.  Desde muito achava essa história de 12 sedes uma loucura; colocar jogos 13h em Manaus, Brasília, Rio de Janeiro, uma desumanidade com os jogadores e outros profissionais envolvidos; fora o vai e volta desgastante de avião.  E nem vou comentar o lixo que foi a abertura.  Até agora estou tentando entender o que aqueles homens brócolis (*araucárias, na verdade*) tem a ver com a cultura brasileira... 



Enfim, quando estive no Mato Grosso em 2012, comecei a me situar nas politicagens do Governo Lula em relação às sedes da Copa.  Cuiabá não tinha estrutura para receber um evento desse porte, o aeroporto, por exemplo, nem fica na cidade e mais parecia uma pista de pouso mais elaborada, só que o governador a época era parceiro político do petista.  Manaus não tem um time de futebol de expressão e, agora, tem um estádio que periga ficar sem uso.  Já Belém, tem tradição no futebol – Remo e Paissandu – e uma estrutura de turismo muito elogiada.  Mas a política ditou tudo.  A FIFA determinou muita coisa (*assistam o vídeo abaixo*), mas nossos políticos tentaram lucrar ao máximo com as maracutaias dessa Copa.  E algo a mais: 12 sedes é uma expressão da megalomania de Lula, afinal, precisávamos ter "a Copa das Copas".


Mais tarde, comecei a me inteirar da política higienista promovida especialmente no Rio de Janeiro.  Comunidades antigas, algumas com várias décadas de existência, removidas para que as obras da Copa pudessem passar.  Obras que nem sempre eram voltadas para o público em geral, mas para o favorecimento de empreendimentos privados. Famílias foram arrancadas de suas casas pela força policial, favelas foram ocupadas.  Enquanto isso, a grande imprensa os pintando como um problema, desocupados, resistentes ao progresso, vândalos e criminosos até.  Aqui, em Brasília, quando falavam de obstrutores das grandes obras, citavam as floriculturas que o governo do PT local queria tirar para um lugar sem estrutura.  Nem água, diziam os donos das banquinhas, havia.  Fora, claro, que era um lugar mais escondido, que poderia levar a falência gente que estava no negócio há vários anos.  Aqui e ali, o governo federal se deixou instrumentalizar para que o espetáculo da FIFA pudesse passar.

E qual o ponto desse texto afinal?  Continuo amando a Copa do Mundo e curtindo futebol, mas isso não me obriga a aplaudir e me negar a ver os negócios escusos que foram e estão sendo feitos entre a FIFA e os vários governos, sim, federal, estaduais e municipais.  Me revolta, no entanto, como a questão está sendo usada eleitoralmente.  Parece que só o PT apoiou a vinda da Copa e, claro, nesse momento, é em Dilma que estão batendo.  E as pancadas vem dos mais diferentes lugares, fora aqueles que tem que morder e assoprar, como a Rede Globo, que lucra muito com a Copa, mas tem o compromisso de desalojar o PT do poder e precisa a todo custo culpar o Governo Federal, e somente ele, por qualquer atraso ou problema relacionado ao evento.


Foi lastimável ver a presidenta ser xingada por VIPs (*pagantes de ingressos de 900 e poucos reais e convidados*) que a mandaram “tomar no c*” após cantarem o hino nacional.  Educação?  Respeito?  Sim, neste caso, eram as elites – econômicas e intelectuais – gritando obscenidades na frente de suas crianças, na frente do mundo inteiro.  Depois, eles e elas vão cobrar respeito à moral e aos bons costumes, mas contra a presidenta tudo é permitido.  Não arrastaram o estádio inteiro (*ainda bem!*), mas foram ovacionados nas redes sociais por muitas pessoas.  Fora, claro, parte da grande imprensa que legitimou e superdimensionou vaias e xingamentos, enquanto criminalizava as manifestações do lado de fora (*os vândalos que "politizaram" o evento... sei... sei*) e demonizou grevistas e trabalhadores em geral por suas reivindicações.

Depois disso, ou durante, sei lá, choveram as ofensas misóginas contra a presidenta, afinal, elas sempre se fazem presentes nessa hora.  “Sapatão”, “vaca”, “mal comida”, e outras coisas mais (*Aécio Neves apoiou as vaias contra essa mulher mau humorada e arrogante, mas, depois, mudou ligeiramente de idéia*).  Ápice de uma cultura que celebra o estupro e a violência contra as mulheres, eu diria.  Quando escrevo isso, não defendo Dilma como figura política, ou o PT como partido, mas, como feminista, marco posição em relação aos discursos de ódio e violência contra todas nós.  Toda mulher será chamada de “vadia” um dia e isso nada tem a ver com seu comportamento, mas com o simples fato de ser mulher.  Em relação a esta discussão, recomendo o texto da Jarid, porque ele toca em todos os pontos necessários e vai até além.



Desagrada-me, também, não nego, a falta de civilidade, de educação.  Vaiar em um evento como aquele já é complicado, mas é um protesto legítimo e muito diferente do espetáculo que aconteceu no Itaquerão anteontem, dos xingamentos que foram entoados.  Podem me chamar de conservadora, mas não vejo como enriquecedor de um debate agressões chulas que só nos fazem lembrar o quanto nós, mulheres, somos vulneráveis à violência.  E mais, como bem colocou Juca Kfouri, o mesmo público que xinga Dilma, nunca fez o mesmo com Maluf, eleito e reeleito por São Paulo.  Por ser homem?  Por não ser petista? E mais, como Florestan Fernandes bem colocou, onde estão os outros políticos que apoiaram a Copa?  Lula, especialmente.  E o governador do Estado de São Paulo?  Sobrou uma mulher para receber as pedradas.  Presidente é para essas coisas, também, mas a solidão de Dilma me deixa assustada.  E, claro, se o Brasil perder a Copa...

De resto, deixo o link  do texto da Hildegard Angel sobre o caso das vaias.  Ela, claro, superestima Dilma, já eu escrevo isso como alguém que vê na presidenta uma figura muito limitada como política, pessoa pública. Angel esperava dela uma reação mais enérgica às vaias.  Ela não tinha como reagir, estava só, era evidente o seu constrangimento, sua tristeza, seu cansaço até.  Fiquei com pena.  Muita mesmo, por tudo o que uma mulher-presidente poderia representar e como foi frágil este Governo Dilma.  Mas não quero discutir neste texto como a criatura nem sempre responde bem ao que o criador, no caso Lula, esperava.  Melhor deixar para lá.



Muitos, como o Sakamoto, escreveram que aquela torcida não era a real torcida brasileira, pode ser, concordo com o ponto, só que não houve interesse do Governo do PT em levar o povão aos estádios.  Quem estava no Itaquerão – muitos convidados – era exatamente quem mais detesta o governo. E que não se enganem os governistas que querem separar os brasileiros entre POVOXELITE, assim, tudo no singular e bem arrumadinho, pois muitos dos que fazem coro com os xingamentos ao governo, são beneficiados por cotas, prouni e outros, e querem, sim, o acesso a este mundo das elites, seus privilégios.  Na base, lamento informar, faltou qualquer formação cidadã, de valores fundamentais para que não se vissem como vencedores às suas próprias custas somente. Tornar alguém consumidor, mesmo que de um diploma universitário, não é tornar alguém um cidadão ou um ser humano generoso, crítico, solidário com o próximo. Pode ser que o tapete do PT já não seja puxado agora, mas temo que não vá demorar muito. E aí, vai-se fora a água suja com o bebê dentro.

Fecho, no entanto, ressaltando que as elites – no plural, porque tem várias origens e compartilham somente alguns valores – gostariam de confiscar o direito de voto dos mais pobres.  Uma das minhas turmas no Colégio Militar de Brasília perguntou-me se eu era a favor do voto obrigatório.  Disse que sim para espanto deles.  A maioria queria o voto facultativo para que os que “não tem consciência política”, e citaram imediatamente os nordestinos (*genericamente, todos eles, pobres, remediados e ricos, são ignorantes da politica nacional e comensais do PT*) e moradores das periferias, não se sentissem estimulados a votar.  Longe deles defenderem que os mais pobres, ou os que estão distantes do eixo Sul-Sudeste-Brasília, pudessem ter o direito ao voto confiscado, só acreditam que este direito deveria ser para gente “diferenciada”.  



Esses meus alunos se sentem membros dessa elite que xinga Dilma nos estádios, se acham mais cultos, conscientes, educados, mas desrespeitam mínimas regras de cidadania e convívio social.  Alguns deles fazem, sim, parte da elite econômica, mas a maioria, maioria mesmo, são esses pobres inundados de ódio contra o PT, que não viram governos anteriores, que são educados pelas redes sociais e pela Veja.  Meninos e meninas de 16, 17, 18 anos, reacionários e saudosos de tempos que não viveram, ditaduras que não experimentaram.  

Infelizmente, não posso dizer que a culpa é da Globo e da Abril e do Facebook somente, a culpa é, também, do Governo do PT.  Transformar alguém em consumidor, repito, não é transformar alguém em cidadão crítico.  Infelizmente, Lula não entendeu isso e, talvez, os bons programas de governo sejam jogados fora.  Mas vou dormir.  Daqui a pouco, Júlia vai me requisitar novamente.  E cada vez que algum incidente como esse acontece, temo pelo Brasil no qual essa criaturinha irá crescer.

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7 pessoas comentaram:

Concordo com cada palavra e mais ainda com o desfecho do texto, compreendo esse sentimento te ter alguém pequeno nos braços e sentir a incerteza a respeito do mundo no qual ele irá crescer...

Todos os dias me angustia muitíssimo toda essa situação politico/social na qual vivemos e é pior quando eu olho para minha turminha de educação infantil, crianças de 2 anos apenas, que filhas e filhos da favela e me pergunto em que país elas vão crescer e se elas vão ter uma chance de terem cada um de seus direitos respeitados.

E claro, a elite está pouco se lixando sobre o futuro dos "meus pequenos".

Já sabia que a copa ia ser elitista, já sabia que ia ter politicagem higienista, eu até esperava que tivesse ao redor do castelão em Fortaleza, mas não no sentido de desalojarem os moradores de lá, mas reformassem as casas porque é muito indecente aquele estádio milionário naquelas casas que gritam pobreza.
Onde eu quebrei a cara foi na questão da melhoria de mobilidade urbana e segurança pública. Em Fortaleza principalmente quem depende de transporte público e mora num periferia é um longa espera, trajetos que se houvesse um metrô ou até mesmo trem levariam uns 20 minutos levam 2 horas, fora que alguns desses bairros nem saneamento básico tem.Pensei que iriam aumentar o aeroporto de Fortaleza que consegue ser menor que o de Campinas, mas tudo o que se viu foi roubalheira e incompetência e não falo só do governo federal, as obras que ficaram a cargo das prefeituras e dos estados foram as que mais sofreram atraso, inclusive no Ceará que na época q a copa foi anunciada a prefeita era do PT e tinha como campanha: Fortaleza Bela. A cidade tá cada dia mais feia com prédios sendo construídos a torto e a direito, acabando as árvores da cidade que não precisa ser botânico nem nada, você sabe que ajudam a refrescar o clima. Quero nem falar das casas antigas da cidade que são derrubadas pra virar estacionamento.
Civilidade e polidez, na minha opinião, não é algo que o governo ensine, isso vem de berço, eu uma nordestina pobre (que é um crime que vote porque não tem consciência crítica) dificilmente mandaria uma senhora de 68 anos com o mundo inteiro ver ir tomar lá até porque meus pais nordestinos e pobres me ensinaram a respeitar os outros.
Só acho uma inocência dos seus alunos achar que voto facultativo impediria gente "diferenciada" de votar suborno e clientelismo eleitoreiro está aí para contornar esse "problema". O que me entristece é que a população pobre participa desse sistema corrupto e é a primeira que é vítima dele, mas enfim, a lei do Gerson às vezes anuvia o bom senso.
Outra coisa que eu queria acrescentar é que eu tenho a impressão dessa massa que constantemente ataca a Dilma na rede sociais que ela é uma monarca absolutista e ela que manda em tudo. Prefeito e governadores não existem.

Este comentário foi removido pelo autor.

É muito triste Valéria... Eu concordo com você, toda esta situação esta tão absurda... Principalmente as pessoas.

Parece que no Brasil acontece esse efeito estranho, onde as pessoas não tem uma "consciência de classe", é isso?

Sendo ou não parte desta elite, parece que a massa gosta de reproduzir o discurso oferecido por ela, como se fosse seu.

No final eu fico com muito medo, muito medo mesmo.

É muito triste Valéria... Eu concordo com você, toda esta situação esta tão absurda... Principalmente as pessoas.

Parece que no Brasil acontece esse efeito estranho, onde as pessoas não tem uma "consciência de classe", é isso?

Sendo ou não parte desta elite, parece que a massa gosta de reproduzir o discurso oferecido por ela, como se fosse seu.

No final eu fico com muito medo, muito medo mesmo.

Desde o início, fui contra a Copa do Mundo ser sediada pelo Brasil, por pensar que haveria muito roubo, obras capengas e transtorno para a população. Minhas previsões se confirmaram, e foram além.
Vivo no Rio de Janeiro e sinto que sou uma estrangeira na minha própria cidade. Pelo tratamento desrespeitoso com os manifestantes, pelos preços abusivos, pela política higienista e truculenta, pelas obras autoritárias e especulativas, pela censura velada (?) que vivemos. E ainda terei que passar pelas Olimpíadas!
Adoro Copa da Mundo e futebol, sempre gostei de torcer pela seleção, mas só de lembrar do mau uso político que se está fazendo dos jogos, dos jogadores brasileiros, dá um gosto amargo na boca e não consigo deixar de sentir culpa toda vez que ligo a televisão para assistir a um jogo. Parece que estou compactuando com algo errado.
P.S.: As vaias à Dilma foram lastimáveis e os xingamentos, nojentos. Mais uma prova da falta de educação e de consciência que impera entre as elites brasileiras.

Muito interessante e esclarecedora sua visão Valéria. Concordo em vários pontos, em outros nem tanto. Eu não vi também com bons olhos quando falaram da copa e das olimpíadas aqui. Sinto que não era hora, são ótimos eventos para mostrar e colocar o país no palco, porém, me entristece a forma como tudo foi feito, só mostrou a fragilidade de nossas empresas públicas e privadas. Me entristece mais ainda ver que muito do que foi prometido não vai nem ao menos sair do papel. Eu estou vendo os jogos da copa com tristeza, não torço pelo futebol. Sou de família pobre e humilde e na minha visão tem poucos políticos trabalhando pelo bem de todos. A questão dos xingamentos à Dilma, não tinha percebido isso como um ataque à mulher, e agradeço por abrir meus olhos quanto a isso. Porém acredito que é uma situação que seria possível ver a qualquer governante. Acredito que falta e muito educação cívica e política nas escolas, entender de quem realmente é as responsabilidades. Talvez esse bebê crescesse melhor se lhe ensinassem isso.

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