sábado, 3 de janeiro de 2015

Muito Além do Mangá: Cometando Olympe de Gouges de Catel Muller e José-Louis Bocquet



Conhecia algo da biografia de Olympe de Gouges (1748-1794) fazia muito tempo, primeiro como a feminista que morreu na guilhotina por sua “declaração dos direitos da mulher e da cidadã, isso, claro, antes de ler a discussão sobre personagem feita por Joan Scott, assim, não poderia deixar de me interessar pelo livro de Catel Muller (a desenhista) e José-Louis Bocquet  (o roteirista) lançado no Brasil. O volume está sendo vendido como a quadrinização da vida de uma (proto) feminista histórica, informação esta que consta inclusive no subtítulo em português.  Teria que comprá-lo obrigatoriamente e a Livraria Saraiva estava (*e está ainda*) com um preço muito bom, sim, pesa contra o material o preço, que é bem salgado, 88 reais.  Obviamente, a seu favor temos, além da qualidade do conteúdo, o número de páginas, mais de 400. 

Há quem queira lançar sobre Olympe de Gouges – dramaturga, ativista política, jornalista – a imagem de mártir dos direitos das mulheres, no entanto, ela foi perseguida e morta por suas idéias políticas como um todo e por afrontar gente muito poderosa de sua época, como Robespierre e Marat.  Esta faceta da autora ganha muito peso dentro da obra de Muller e Bocquet, de forma que não há o interesse de impor esta leitura, a da mulher perseguida por ser feminista, ao mesmo tempo grandiosa e enviesada.


Retrato de Olympe de Gouges
Concluí a minha leitura na madrugada da noite de Natal.  Tendo ficado sem internet desde o dia 22, ler era o que estava fazendo nas minhas poucas horas vagas.  Ao final do livro, há uma detalhada cronologia da vida de Oympe de Gouges cruzada com os acontecimentos da história francesa, em seguida, temos, ainda, uma sequência de mini-biografias de personagens que direta, ou indiretamente, estão ligadas à vida da heroína.  A obra foi originalmente publicada em 2012 e é muito louvável que a Record a tenha publicado em nossa língua tão rapidamente.  Antes de entrar em maiores discussões, no entanto, precisamos explicar quem foi Olympe de Gouges.  

Gouges viveu intensamente, sem temer o escândalo, ou os obstáculos pelo fato de ser mulher.  Nascida Marie Gouze, era filha bastarda de um nobre com uma burguesa casada.  Seu pai, Jean-Jacques Lefranc de Pompignan, ganhou notoriedade em seu século menos por seus dotes literários e mais pelo embate com Voltaire, que redundou em sua humilhação pública.  Sua mãe, Anne-Olympe, mesmo que apresentada como apaixonada por Pompignan, é, ainda muito jovem, empurrada para um casamento arranjado com um açougueiro e, posteriormente, já viúva, troca o amante nobre e rico, mas, ainda assim, amante, por um sólido casamento com um burguês bem colocado na vida. Isso afasta Gouges do pai, mas ela dele não se esquece.


Afastada do pai pelo segundo casamento da mãe.
Já adolescente, Gouges é uma moça curiosa, articulada, que sabe (e gosta de) ler e escrever, algo não muito comum para as mulheres de sua classe.  Por pressão familiar, entra aos 16 anos em um casamento arranjado com um rapaz "de futuro", trabalhador, mas insensível e de pouca imaginação.  O casamento começa com um estupro, Gouges logo engravida e se sente prisioneira até que, poucos meses depois, seu esposo morre.  Dona de seu dote e administradora da herança do filho melhor, que ela ama e educa com muito cuidado, decide tomar nas mãos as rédeas de sua vida sem tomar conhecimento da opinião que tivessem dela.  Embora não fosse caso comum, não pensem que não havia outras mulheres independentes e capazes de afrontar as convenções sociais, Olympe é somente um caso exemplar entre outros menos estudados.

A partir daí, torna-se uma mulher livre, sem marido, ainda que vivendo em uma espécie de concubinato com Jacques Biètrix de Rozières, seu companheiro de quase uma vida.  Juntos, mudam-se para Paris, onde já reside a irmã mais velha de Gouges.  Lá, ela decide mudar de nome, passando a se chamar publicamente Olympe de Gouges.  Ela e Biètrix moram separados, mas encontram-se regularmente, ela lhe presta serviços que seriam de uma esposa, porém não aceita estabelecer laços conjugais regulares.  Gouges, no entanto, recebe uma pensão do amante, que presta serviços para o Governo, e vive com tranquilidade e até certo luxo.  Oympe, no entanto, avisa Biètrix que não deseja ser somente teúda e manteúda, mas que almeja uma carreira literária.  É isso que ela passa a perseguir.


A jovem Olympe, viúva e feliz..
Biètrix consegue lhe abrir algumas portas, ela passa a conviver em círculos intelectuais e artísticos mantidos por nobres importantes, como o Duque de Órleans ou Madame de Montesson.  Conhece artistas e aspirantes ligados à Comédie-Française que, junto com a Ópera, eram o créme de la créme do teatro da época.  Desde cedo, Olympe se interessa por questões sociais, como a condição das mulheres e a escravidão, uma de suas primeiras peças, Zamor e Mirza, é exatamente uma crítica ao sistema escravista.  De Gouges também se interessa por questões políticas, admira Rousseau, é a favor da monarquia constitucional e se torna cada vez mais engajada politicamente conforme a Revolução Francesa avança.

A obra de Muller e Bocquet toma a liberdade necessária para compor uma história interessante.  Tavez, não conheço a vida de Olympe o suficiente, não tenha havido um estupro conjugal, mas a autora falou da repugnância sentida pelo marido em sua semi-biografia.  Olympe e Biètrix parecem ter se conhecido somente em Paris, mas os autores a colocam já em relação com ele antes de ir para a capital, ainda em Montauban.  Gouges pode não ter conhecido todas as personagens que o livro coloca em seu caminho, ou ter sido amante de homens como o Duque de Órleans para ter algumas portas abertas, mas tal não é colocado em tom de crítica ou em contradição com o caráter da personagem.


Escravidão e direitos das mulheres são preocupações da autora.
Foi bem interessante, aliás, o diálogo entre Olympe e Biètrix sobre traição.  Ele se entristece de saber que Olympe está se relacionando com outros homens, ela argumenta que é livre e que, por não serem casados, ele não deve se sentir corno.  Tudo termina bem entre eles, pois se entendem na cama e fora dela.  Gouges defendia a igualdade entre homens e mulheres e a liberdade de escolha, algo que era negado e, em certa medida, ainda é negado a muitas mulheres.

A obra é muito interessante ao costurar os acontecimentos turbulentos da Revolução Francesa (1789-1799), especialmente do Terror Jacobino (05/09/1793-28/07/1794), com a vida da protagonista.  Há muito me livrei do ranço marxista que alguns de meus professores no colégio (*na faculdade mal estudei o assunto e a ótica foi outra*) lançaram nas aulas sobre a Revolução Francesa, demonizando quem se opunha aos jacobinos e transformando-os em santos, arautos de uma revolução socialista que foi abortada pelos reacionários.  Tenho medo desses heróis cujos atos estão acima de qualquer crítica e que, em nome de ideais superiores, tem liberdade para usar de toda a sorte de violência.


Olympe mostra sua declaração de direitos à Princesa de Lamballe,
pedindo que a dê de presente para Maria Antonieta.
Agradeço, inclusive às obras de ficção, em primeiro lugar, já que tive contato na adolescência, O Conto de Duas Cidades de Charles Dickens, e, claro, à Rosa de Versalhes, pois me instigou a fazer leituras que não faziam parte do meu repertório, como as biografias de Maria Antonieta (*alvo do ataque misógino de muita gente até hoje*) e outras personagens da época.  E até Scarlet Pimpernel que me apresentou criaturas como Fourquier-Tinville, inquisidor geral dos jacobinos, implacável, cruel e que, curiosamente, não terminou na guilhotina como os coleguinhas... Foi ele que negou um advogado para Olympe, alegando que ela poderia se defender sozinha.  Aliás, a capacidade de alguns sujeitos de sobreviver às quedas de regime, se metamorfosear, renascer mais adiante, é notável.

Ainda que possa ver com positividade alguns aspectos do governo jacobino – o fim da escravidão, o voto universal (masculino), o interesse pelo bem estar dos mais pobres – me parece inegável seu fanatismo e a sede de poder mascarada de interesse público.  No entanto, foram eles, também, que tentaram expulsar as mulheres, participantes desde os primeiros momentos da Revolução, da luta política.  Mandaram, por exemplo, fechar os clubes políticos femininos.  E, se tenho uma crítica ao livro que estou resenhando, é que os autores não deram destaque a este fato.  Está na cronologia da vida de Olympe no final do livro, é fato importante, pois o clube que ela presidia foi fechado, mas não está na obra.  Como excluir algo assim?  Esta tentativa de mandar as mulheres para casa e a resistência de uma Olympe de Gouges certamente pesou na sua execução, agora, é fato que ela não morreu por causa disso, ou disso somente, afinal, o texto que a tornou mais célebre é de 1791 e sua prisão e execução somente aconteceram em 1793.


Os autores
Gente como Robespierre e Saint-Just queriam determinar o que era bom e justo, quem não comungasse integralmente com sua visão de mundo, guilhotina.  Não que caras como Danton, considerado moderado demais, ou Hérbert, extremado demais, fossem flor que se cheirasse.  E sobrava ainda criaturas como Marat, que Olympe de Gouges odiava com razão.  Quando a mandam prender e não encontram seus textos incendiários, ela mesma leva os acusadores até as provas.  Não se envergonhou do que escreveu, de suas idéias, ainda que pudessem lhe custar a vida.

Voltando aos vultos da Revolução Francesa, registro que não tenho nenhuma admiração e apreço por esses e outros machos revolucionários, aliás, nada mais justo do que terem se afogado em seu próprio sangue dada a quantidade de sangue inocente que derramaram.  Vale para outras revoluções e contrarrevoluções, também.  Afinal, o Terror Jacobino foi substituído pelo Terror Branco Girondino.  Aliás, Olympe de Gouges era contra a pena de morte, ou, pelo menos, argumentava que não poderia ser usada de forma tão ostensiva.  Interessante pontuar, também, que uma das bandeiras de Gouges foi acatada pelos revolucionários, o divórcio, pois, como bem pontuou um dos amigos da heroína, era algo do interesse dos homens...


Olympe de Gouges, mulher de letras, na pena de Catel Muller.
Para terminar, recomendo muito a leitura do livro.  É uma boa biografia em quadrinhos, rica, linear, ainda que não contínua, preenchendo lacunas de forma criativa e consistente.  Foi um prazer ler a obra de Muller e Bocquet do início ao fim, aprendi bastante com o livro e com as pequenas leituras paralelas que ele já me instigou a fazer.  Se, um dia, voltar a dar aula de Revolução Francesa, o farei de forma diferente e mais rica.  Seria interessante ver a vida de Olympe de Gouges no cinema, mas não transformando-a em heroína imaculada ou vítima, mas como a mulher inteligente, forte, livre, capaz de ser interesseira e desapegada ao mesmo tempo, que ela parece ter sido e que é apresentada em cores tão interessantes no livro de Muller e Bocquet. E, detalhe, apesar do feminista no subtítulo, os autores em nenhum momento chamam Olympe de feminista, ou utilizam a palavra na obra.

P.S.: Estou com outras duas resenhas de 2014 pendentes, um filme, Interestelar, e outra BD, Crônicas de Jerusalém, de Guy Delisle.  Espero colocar as coisas em dia o mais breve possível.  Quando montar o post com as resenhas de 2014, poucas, eu sei, as três ficarão lá.

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1 pessoas comentaram:

Adorei a resenha. Tinha curiosidade para saber se era realmente bom. Fiquei feliz, vou colocar na minha lista. E continua em promoção na saraiva. :D

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