domingo, 10 de maio de 2015

Ainda sobre a Viúva Negra ou "quadrinho é quadrinho, filme é filme"!



Por conta do caso da Viúva Negra, personagem de Scarlet Johanssen, ter sido reduzida à “uma vadia” cuja única função parece ser seduzir as outras personagens masculinas por seus colegas de elenco, tenho lido alguns comentários curiosos de mulheres, acho que de adolescentes, mas falta-me certeza.   Daí, decidi fazer um micropost, bem corrido, porque tenho trabalho para terminar.

Comentário 1:  “Ela é uma vadia, sim, mas gosto dela assim mesmo”.  Olha, a discussão nunca foi se a personagem é “uma vadia”, ou não, ou se devemos, ou não gostar de uma personagem "vadia", isto é, uma mulher que flerta, seduz, e vai para a cama com quem ela quer (*Olha o perigo!!!!!!!!*).  A questão é a forma fácil como ofensas baseadas no comportamento sexual de uma mulher – real ou imaginário – são fáceis de serem emitidas.  E digo mais, sendo você  a mulher mais casta e perfeita segundo os princípios da (dupla)moral patriarcal vigente, você, ainda assim, poderá ser chamada de vadia em algum momento, afinal, você é mulher e sua sexualidade é motivo de vergonha, não de orgulho.  Daí, o autor do texto da Playboy ter feito a analogia com o Tony Stark e eu com James Bond.  Dois pesos e duas medidas.


Comentário 2: “Quem deixa de gostar da Viúva Negra por ela ser uma vadia não é realmente fã da personagem”.  Também nunca foi sobre gostar mais ou menos da personagem.  Agora, reduzir a (*até então*) única super-heroína dos filmes da Marvel a vadia e prostituta é simplesmente ignorar tudo o que ela é e faz, mas ela é mulher e, retomando o ponto 1, ela é, por princípio, uma vadia mesmo.  Pensem, no entanto, em como ela é importante para que as meninas e mulheres se sintam representadas na tela e quão babacas foram os atores, especialmente o Jeremy Rennner.

Comentário 3: “Quem se importa com esses comentários idiotas?” Bem, feministas se importam e dada a repercussão até mesmo na Playboy, não estamos sozinhas.  Ora, de novo, nossa sociedade patriarcal permite e estimula a objetificação das mulheres, que elas sejam reduzidas a seus corpos, tenham sua sexualidade sob escrutínio permanente.  Então, apontar a misoginia, desconstruir esse tipo de firmação, mostrar que não existe equidade de gênero, e simetria no tratamento de homens e mulheres dentro dos produtos culturais, é algo fundamental, até que se chegue ao momento que isso não seja mais necessário.


Comentário 4: “Eu li os quadrinhos, eu sei que ela é uma vadia!  Vá ler os quadrinhos e pare de falar besteira!”  Esse é o tipo de comentário que eu mais gosto, porque o objetivo é funcionar como uma carteirada... Só que não funciona! :D  Só explicando a primeira parte da bobagem, há gente que não consegue entender que mesmo quando relacionadas, as mídias são independentes.  Um filme adaptado de quadrinhos ou livro, é só isso mesmo, adaptação.  Uma série animada adaptada de mangá, não é seu original.  É outra coisa.  E sigam agora o exemplo que darei:

O mangá da Rosa de Versalhes é uma série feminista, engajada até.  Oscar trabalha fora, gosta do que faz, enche a cara e briga nos botecos da vida, se recusa a obedecer o pai e escolhe o homem a quem amar.   O anime, que tem uma música maravilhosa, momentos inesquecíveis, fez um sucesso danado no Ocidente e ajudou a promover o mangá na França e na Itália, foi rejeitado em seu país de origem,   porque é altamente reacionário e transforma Oscar em uma criatura infeliz que é empurrada pelos homens de sua vida a ocupar um lugar que não é seu, o de soldado, militar, e que paga com a vida por seu “estilo de vida” inadequado para uma mulher.  Eu amo o anime, ele me ajudou a me aproximar do homem com quem me casei, mas como feminista preciso criticar o que é para ser criticado.  E gosto muito mais da Oscar do mangá, ela é a verdadeira para mim, mas, certamente, há quem prefira a do anime.  E daí?


Os filmes dos Vingadores bebem nos quadrinhos, mas não são os quadrinhos, mesmo porque nos comics as personagens têm suas origens reinventadas ao sabor do tempo e dos roteiristas.  Às vezes, dá certo, em alguns casos, volta-se ao original, enfim, é algo muito dinâmico.  Eu sou consumidora dos filmes, não sou, nem jamais serei, consumidora dos quadrinhos Marvel.  Minhas análises são feitas sobre a mídia que eu acompanho.  Daí, sem ser grosseira, mas já sendo, estou me lixando para o que a Viúva Negra fez com o Stark ou se ela teve um caso com o Gavião só para roubar segredos de sei lá o quê.  Isso absolutamente não me importa, e acredito que os atores não tivessem isso em mente quando se referiram à Viúva Negra do filme como “vadia” e “completa prostituta” cuja única função era seduzir os machos da equipe.

No filme, mídia que me importa, ela não teve caso com ninguém, e se você shippou a Viúva Negra com o Gavião Arqueiro, chama a moça de vadia e descobriu no segundo filme que ele é casado, está sendo muito da machista em não analisar a conduta do cara, ou será que ele pode ter amantes, porque é homem?  Ah, sim!  Mas essa história de shippar sempre produz uns fanarts maravilhosos.  Eu amo essa parte do fandom... Quer dizer, não que eu me preocupasse em shippar os dois, eu nunca gostei muito do arqueiro e gostei de cara da Viúva Negra.


De resto, é isso.  Há quem fique muito ofendido quando os produtos que ama são analisados.  Vê tudo como ataque ou depreciação.  É preciso aprender a conviver com opiniões divergentes, combatê-las de forma articulada (*quando fizer sentido, claro*), ou ignorar mesmo.  Ninguém precisa gostar menos da personagem “porque acredita que ela é uma vadia” ou odiar um ator por ele ter falado uma bobagem, é o sistema que permite que certos absurdos sejam pensados e, mais ainda, sejam enunciados que precisa ser criticado e demolido.  

De resto, se você é mulher e divide o mundo entre santas e vadias, cuidado!  Saiba que todas nós somos vadias em potencial para os misóginos, afinal, você pode negar um beijo, não aceitar uma paquera ou assédio insistente.  Saiba que que se recusa, não aceita ser apropriada, também, pode ser chamada de vadia, afinal, a sexualidade de uma mulher é seu ponto a ser atacado.  Qual o xingamento mais corriqueiro?  "Filho/a da puta"!.  Através da honra da mãe, irmã, esposa, filha, se atinge a honra do homem que é seu protetor/dono.  E isso pode ser enunciado sem problema algum, porque há um sistema que lhes legitima e mulheres que adestradas para validar suas agressões.


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3 pessoas comentaram:

Eu diria que tudo se resume na lógica de "a mulher (sexo feminino em geral) é inferior ao homem". E não apenas isso, a mulher TEM que ser inferior ao homem, como se essa fosse a principal e ideal características do gênero. Então em seguida "qualidades" são categorizadas como sendo de "natureza" masculina para que mesmo que uma mulher tenha alguma dessas qualidades não seja um mérito que a destaque, seja pelo contrário uma falha pois está indo contra a natureza dela.

Eu não sei de onde essa lógica e cultura surge, se é algo natural, de alguma limitação ou recalque dos homens, de é apenas hábito. De toda a história e cultura que eu conheço isso varia, em alguns locais a mulher não sofre(u) toda essa opressão, em outros lugares sofre. Por acaso estamos hoje em um mundo em que elas são oprimidas de várias maneiras. Eu já estaria indo um pouco longe demais se dissesse que tem que ser diferente, que é preciso mudar, se eu dissesse como deveria. Isso seria igualmente forçar um ideal pessoal. O essencial é a liberdade, ou a falta dela para as mulheres, esse é o problema.
Esse caso da Viúva Negra é um caso como, "não há nenhum problema ela ser uma vadia, mas atentem mulheres para não seguir o mal exemplo dela", não é? O problema e perigo de toda essa discussão suspeito que vai por esse sentido, ainda mais por ela ser uma heróina, um ídolo, um exemplo para os fãs. Se tem algo que ela pode incomodar algumas pessoas, apostaria que seria isso. Especialmente no caso dessa personagem em especifico, porque ela não apenas faz sexo com vários homens, ela faz por escolha dela, quando ela quer, quando ela tem algo a ganhar. Os homens são, digamos, usados por ela. Para quem tem aquela lógica de que a mulher deve ser inferior ao homem...

Uma pena, termos que perder tanto tempo discutindo isso, se preocupando se uma personagem feminina segue os dogmas da Sociedade Judaico Cristã Ocidental...
E o filme afinal? Não assisti mas aposto que não vale o ingresso.
Esse SwiftKey já viu melhores estações ein, assim como melhores divagações.

Bem, o filme vale muito a pena. Achei melhor que o primeiro.

O pior de toda essa discussão é a ideia de que a mulher que tem liberdade com o seu próprio corpo pode ser chamada de vadia. Se a sociedade não fosse machista e todas as mulheres não fossem previamente "vadias em potencial", teríamos a liberdade de escolher como apresentar e apreciar o nosso corpo. Mesmo que a Viúva Negra durma com 100 homens, ela não é uma vadia. Vadia é apenas um fdos nomes que menosprezam a sexualidade feminina.E não haveria *perigo* de explorar a sexualidade se a sociedade não fosse machista.

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