sábado, 12 de setembro de 2015

Comentando The Scandalous Lady W (BBC, 2015)



Fazia muito tempo que eu não assistia material da BBC, na verdade, desde o nascimento da Júlia estou devagar quase parando.  Só que quando bati os olhos no figurino de The Scandalous Lady W, nos vestidos da Natalie Dormer, já comecei a sentir uma vontade doida de ver o filme.  Sim, é somente um filme de quase uma hora e meia.  Aproveitei a tarde de hoje e vi inteiro.  A resenha, aliás, está passando na frente da de Que Horas Ela Volta?, o indicado do Brasil para uma vaga no Oscar.

Outro motivo que me fez correr para ver o filme foi a história absolutamente fantástica e, ao mesmo tempo, baseada em fatos reais.  Vamos lá: Seymour Dorothy Fleming era uma das herdeiras mais ricas da Grã Bretanha de sua época.  Aos 17 anos, ela acabou se casando com Sir Richard Worsley (Shaun Evans), em 1775.  Só que os dois não combinavam, o noivo demorou mais de três meses para consumar o casamento e a infelicidade parecia marcar a união.  OK, nada surpreendente para a época.  


Em novembro de 1781, Lady Worsley foge com um amigo da família, o capitão George Bisset (Aneurin Barnard).  Sir Richard, um político promissor, vai atrás dos dois, exige que a esposa volte e, diante de sua recusa, leva os amantes ao tribunal exigindo uma quantia absurda de indenização, 20 mil libras.  Só para se ter uma idéia, o dote de sua esposa era de aproximadamente 70 mil.  Bisset viu sua vida acabar, ele não seria capaz de pagar a dívida e iria para a cadeia.  Para se vingar ainda mais da esposa, Sir Richard a proíbe de ver a filha, uma bebê de menos de um ano que o marido sabia ser de Bisset.  No tribunal, tudo parecia conduzir ao massacre dos amantes, até que Lady W vira a mesa.

A esposa adúltera levou como testemunhas à corte todos os seus 26 ex-amantes (*o vigésimo sétimo era Bisset*); seu médico pessoal que afirma que ela e o marido raramente tinham relações sexuais e que ela pegara doenças venéreas de um dos amantes e a funcionária de uma casa de banhos.  Mas em que isso ajudaria?  Bem, simplesmente ela provou que o marido era um voyeur pervertido que a obrigara a manter relações com outros homens enquanto ele assistia.  Resultado?  Sir Richard venceu, mas foi humilhado, e a corte deliberou que sua indenização fosse de somente 1 xiling, uma das moedas mais baixas da época.

O ocorrido na casa de banhos definiu o julgamento.
A história é basicamente essa e é baseada no romance Lady Worsley's Whim de Hallie Rubenhold.  Li várias resenhas e todas elas ressaltavam que o filme tinha muita nudez e linguagem vulgar.  Devo dizer que não vi nada que estivesse além do aceitável.  The Scandalous Lady W não mostra uma pessoa nua sequer, só insinua nudez.  As cenas e sexo não recebem a ênfase, por exemplo, de Desperate Romantics, que abusa desse tipo de sequência e de nudez parcial.  

Já a linguagem, bem, pegue qualquer texto da época, do século XVIII, de antes da Era Vitoriana, e compare, simplesmente, colocaram os palavrões onde eles deveriam estar.  Agora, diferente de Desperate Romantics, que para começar tem Aidan Turner desfilando com pouca ou nenhuma roupa para lá e para cá, eu não consegui ver nenhum sujeito realmente interessante.  Linda, deslumbrante e arrebatadora estava mesmo a Natalie Dormer.  O filme é dela do início ao fim.


Li várias resenhas sobre este filme, a maioria aponta para um viés feministas, que imprimia valores do presente no passado.  Bem, não vi em Lady W uma feminista com idéias contemporâneas, mas uma mulher que tenta tomar seu destino em suas mãos, ou seja, ela é tão feminista quanto Olympe de Gouges, nem mais, nem menos.  O que o filme mostra bem, aliás, é como o patriarcado cria leis que aprisionam e escravizam as mulheres.  Ser mulher nesse período, apesar de todos os suspiros que possamos dar lendo Jane Austen, era bem miserável na Inglaterra.  Por exemplo, Lady W era rica, mas ao casar, seu marido passa a ser o administrador de tudo que ela possui e, legalmente, seu dono diante da lei.  

Desde o primeiro encontro dos dois, para além do blá-blá-blá da mocinha falando que só se casaria por amor, está o noivo afirmando sua superioridade – mesmo que o dinheiro dela fosse muito mais graúdo que o dele – e que desejava uma esposa que cumprisse seus deveres.  Já na recepção de casamento, ela agradece por ele ter se tornado “seu marido”, afinal, era ela que tinha muitos pretendentes, ele a corrige rispidamente e diz que deveria agradecê-lo por fazer dela “sua esposa”.  A ordem é esta, o mundo é masculino.


A pobre Lady W descobriria rapidamente que cumprir os deveres e obedecer implicava em entrar em jogos sexuais que incluíam outras pessoas.  A atriz foi muito competente na interpretação da jovem esposa ávida por agradar ao marido e enojada com o que ele lhe propunha.  Aqui e ali, uma cena pós coito se repete, a criada trazendo uma bacia e a jovem tentando se livrar da possibilidade de uma gravidez indesejada.  No entanto, ela não era santa, aliás, quem toca o terror que ela tocou no tribunal tinha que ter sangue quente, daí, o Capitão Bisset acaba conquistando o seu coração e o filme desenha que a relação dos três – marido, esposa e amante – era íntima e não incomodava aos homens envolvidos.  Sir Richard assumir sua filha não era problema para Bisset, que via a relação dos três como “moderna”.  

Não pensem que esse tipo de arranjo era estranho para a época, o século XVIII era cheio de tudo que se pode imaginar: de iluministas em busca da razão até reacionários tentando impor os dogmas da religião; de gente em busca de uma espiritualidade ascética, mística e missionária até os pervertidos e os adeptos de práticas sexuais que deixariam muita gente “progressista” hoje de cabelo em pé.  A Lady W do filme não é pintada como uma coitada, houve um momento em que ela chegou a curtir a relação à três, mas a protagonista tinha tomado repulsa pelo marido e decide que deseja somente Bisset.


O filme foca no julgamento no qual, sacrificando sua reputação, ou o que restava dela, Lady Worsley salva o amante.  Bisset nunca teria como pagar a indenização e seria preso.  No entanto, e aí o filme acelera as coisas, o sujeito acaba tomando de aversão pela amante.  Ele até imaginava que outros homens pudessem ter passado pela cama de Lady W, mas nunca tantos homens.  Apesar de tudo o que ela fez, de toda a paixão que lhe dedicou, ele a julga, pois seu orgulho masculino foi ferido.  A decepção, mágoa e afastamento do rapaz é mostrada no seu rosto.  Graças à maquiagem, ele ganha olheiras e vai ficando quase cinza.  Se não me parecia bonito antes, agora, acabou.

A protagonista desejava o divórcio e Sir Richard nunca lhe deu um.  No filme, ela escreve panfletos anônimos (*que parece que todo mundo sabia de onde tinham vindo*) contando sua história e, claro, expondo ainda mais o marido.  Como continua esposa contra sua vontade, ela faz gastos astronômicos e manda a conta para o marido.  Obviamente, o filme nem se preocupa em mostrar que fácil, fácil, ele deve ter resolvido esta parte do problema. De qualquer forma, o ator que faz Sir Richard também vai sumindo, fisicamente se apequenando, se degradando diante dos nossos olhos.  Só Natalie Dormer continua a brilhar.  Na vida real, parece que não foi assim e ele conseguiu reverter parcialmente o estrago feito.  Quem passou maus bocados foi a mulher adúltera, para ela, sim, as portas se fecharam mais rápido.


O filme corre no final, uma minissérie em duas partes seria mais interessante, daí, acontecimentos de anos parecem acontecer em dias.  Tudo se encerra com a proposta de exílio remunerado feita por Sir Richard a esposa.  Ela iria para a França e pararia de atormentá-lo.  Isso ocorreu, mas antes deste desfecho, Lady W teve que se tornar uma espécie de cortesã de luxo e seu exílio foi uma fuga das dívidas.  O filme termina aí, mas seria ótimo ver Lady W na França, seu romance com o não menos espetacular Chevalier de Saint-Georges.  Nunca ouviu falar desse homem?  Nascido escravo em uma colônia francesa, tornou-se mestre em esgrima, grande violinista, regente de orquestra, militar e político.  Ele é lembrado como o primeiro homem de ascendência africana a compor uma sinfonia.  E, detalhe, ele era amigo da Olympe de Gouges, o que me leva a crer que Lady W pode, sim, ter cruzado com ela.

Outro detalhe que o filme omite, ao cortar nessa proposta de Sir Richard, é que Lady W sobreviveu ao marido, conseguiu seu dote de volta, permissão do rei para retomar seu nome de solteira e casou com um moço 26 anos mais novo que ela.  O moço, aliás, tomou o nome da esposa.  Enfim, a personagem pode até não ter dito as frases estilosas do filme “Nunca mais pertencerei a homem nenhum”, “Serei dona de meu destino” que incomodou alguns resenhistas britânicos como sendo feministas demais, mas pegue a vida dessa mulher e veja que ela deu a volta por cima e, sim, tomou as rédeas de sua própria vida.  Pode não ser conscientemente feminista, mas a mensagem está aí para quem quiser ler.  


E, sim, o filme cumpre a Bedchel Rule. Há várias mulheres com nome, a maioria criadas, que conversam entre si e o assunto, claro, é, principalmente, Lady W.  Recomendo o filme.  Se a história podia ser melhor desenvolvida, o figurino em si já vale a hora e meia de atenção.  É esplendoroso, sem mais.

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3 pessoas comentaram:

Falam em "feminista demais" esses críticos, como se isso fosse defeito... Se eu fosse uma pessoa mais ingênua diria que os críticos se incomodam pela incoerência história, não pelo feminismo mas há incoerências históricas não feministas que são bem mais relevadas. Enfim, anotarei a dica do filme, ele está passando na Tv ou foi baixado da internet?

Não costumo comentar, mas sempre leio as suas resenhas e adoro elas. Acabei de assistir The scandalous lady w e não me arrependi, como tu comentou só pelo figurino ele já valia, mas achei a história muito boa também.

Sempre busco o shoujocafé para recomendações de séries, filmes e shoujo/josei mangá. Mesmo que mais devagar espero que tu sempre continue com o blog :)

Adorei o pos, Val. Tô super ansiosa para assistir ao filme. Nunca tive interesse em Desperate Romantics . ahahaha

Essa atriz é linda e ótima.Ela faz muitas produções de época também. Adoro.

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