quinta-feira, 22 de outubro de 2015

Sobre Sexualização de MENINAS ou alguns comentários sobre o caso Master Chef Jr.


Problema antigo que muitos querem não ver, não discutir e, claro, não querem ver associada às práticas cotidianas de opressão contra as mulheres.  Sim, meninas são mulheres e muitos pedófilos são homens casados, ou com namoradas adultas,  que não têm interesse por meninos.  Aliás, muitos pedófilos quando assediam e estupram meninos, os vêem como mulheres substitutas, assim como são as meninas.  Sim, isso joga por terra aquela falácia de alguns conservadores de que pedofilia e homossexualidade estão conectadas.  Lamento, mas isso é somente um argumento criminoso, tão criminoso quanto escrever que todos os padres são pedófilos quando a maioria dos padres não é, aliás, são homens honestos e comprometidos com seus votos.  Enfim, será um post curto, prometo, porque tenho que ir trabalhar daqui a pouco.  

Não vejo Master Chef, nem Marter Chef Jr., mas sei que são programas de sucesso que muita gente nos meus contatos do Twitter assiste.  O que chocou muita gente, especialmente algumas pessoas que devem achar que nós, feministas, que já falamos de coisas assim várias vezes, umas chatas ou inimigas da humanidade, foi o assédio promovido contra uma das participantes do programa.  Coisas repulsivas, obscenas e nojentas, algumas delas, aliás, são ditas em voz alta por homens quando meninas passam por eles nas ruas.  Sabe?  As meninas precisam se acostumar a serem elogiadas e só gente chata, que quer regular o direito ao assédio sex..., oops!... o direito à corte, querem que sejam banidas.  Gostaram do uso da palavra?


Não colocarei o nome da menina aqui, ele já foi divulgado por vários veículos de comunicação, mas trata-se de menina branca, magra, loura, de míseros 12 anos.  Poderia ser uma aspirante à modelo e, portanto, ícone sexualizado dentro da lei.  Sim, estou provocando, porque a hipocrisia é grande em relação a certas práticas, mas era, simplesmente, uma criança competindo com outras crianças para ver quem cozinhava melhor.  Veja a fala do pai da menina em uma matéria do site da Exame: “A gente já tinha chamado uma pessoa para tomar conta do Twitter dela porque estávamos preparados para o assédio e as consequências possíveis, mas não imaginávamos encontrar tarados”, disse o pai, Alexandre, ao portal. “Teve gente que pediu que ela mandasse foto nua.”  Alguém ainda vai dizer que foi só uma brincadeirinha?

Uma menina vista pelos tarados, que acreditam na impunidade, como mulher ou, como um ou outro admitiu, estuprável mesmo criança, isto é, o cara estava ciente do crime e fez apologia ao mesmo.  Havia - denunciei, mas o Facebook disse que estava OK - pelo menos uma comunidade defendendo que esta menina era o ideal de mulher - sim, mulher - perfeito e vindo de outras épocas, nas quais mulheres casavam cedo, puras, intocadas e viviam para seus maridos e filhos. Quando nós feministas falamos e falamos que isso é característica da cultura do estupro, agravada pelo clima de impunidade, somos taxadas de loucas, anti-homem.  Além disso, há os que dizem que o politicamente correto quer acabar com a liberdade de expressão.  Por exemplo, não é politicamente correto assediar meninas de 12 anos, aliás, é crime.  Queria muito que todos os envolvidos fossem rastreados e punidos.  


Enquanto isso, aliás, nosso Congresso, the House of Cunha, aprovou o Projeto de Lei 5069/13, que dificulta o acesso das mulheres e meninas estupradas (*sim, esses homens estão se lixando para os meninos*) ao atendimento no SUS com o único intuito de impedir o acesso ao aborto legal ou qualquer profilaxia que impeça uma gravidez indesejada.  Ainda vai para o Senado, mas é aviltante que se discuta algo assim e que uma maioria o aprove.  Respira... Respira... Respira... 

Agora, mais nojento, para mim, é ver um pseudo-cristão (*não é meu contato, mas de uma pessoa conhecida*) tentando traçar analogia entre pedofilia e questões que só envolvem adultos, "Ah, é preciso se decidir se pedofilia é crime ou mais uma opressão da moral judaico-cristã". Sujeitos assim me dão náuseas, porque nivelam tudo, relações entre adultos ou mesmo adolescentes (*em idade de consentimento*) pautadas por vontade e consenso em violência sexual.  Ser contra crianças - meninas, especialmente - serem assediadas é só o caso em discussão, o canalha adaptaria o discurso em qualquer caso.  Podem ter certeza que ao emitir esse tipo de discurso, ele está pensando no direito dos homossexuais.  É o mesmo tipo de gente que tentará associar homossexualidade à pedofilia com o objetivo de tornar a vida dos homens gays ainda mais miserável.


Aliás, bom que se diga, a moral judaico-cristã, aquela tradicional, de raiz, historicamente nunca esteve realmente preocupada com pedofilia.  Durante muito tempo, para o direito canônico católico romano, a idade para casamento era de 12 anos para meninas e 14 para meninos (*príncipes casavam cedo, também*), mas sempre se podia dar um jeitinho.  Aliás, era muito importante  garantir o acesso de homens mais velhos às meninas, seja pelo casamento, estupro sacramentado pela "lei de Deus de dos Homens", ou pela prostituição, estupro regulamentado, também, mas onde a vítima era desimportante e, portanto, poderia ser abusada como se bem entendesse.  

Até muito recentemente, em países como o nosso, casavam sem problema velhos e meninas, algumas vezes de branco e enfeitadas com flores de laranjeira, tudo isso era aceitável e muitas piadinhas picantes alegravam a festa de casamento ou eram compartilhadas entre os convidados.  Hoje, continuam acontecendo de forma ilegal e casamentos ou relações ilícitas  e ilegais são toleradas no social, muitas vezes, culpabilizando a vítima, meninas que, não raro, tem menos de 12 anos.  


A Bíblia mesmo nem entra na questão de forma direta, não fala em idade de casamento, por exemplo.  Agora, quando fala alguma coisa relacionada à questão aparece, e isso lá no velho Testamento, não o faz de forma muito bonita ou moderna, vide Números 31:17 e 18.  Trata-se de texto que precisa ser lido em seu contexto e que nunca será conclamado nem mesmo pelos irresponsáveis empresários da fé que temos por aí, inclusive no Congresso.

O caso Mastr Chef Jr. não é exceção, não é fruto de um punhado de mentes doentias, é a visibilização de desejos que são tolerados em uma sociedade patriarcal, que reduz as mulheres de todas as idades aos seus corpos e vê como lícita a expressão do desejo masculino em múltiplas formas.  Uma sociedade que sexualiza meninas-modelo, que vende crianças em embalagem "de mulher", mas que se ruboriza e revolta quando a coisa emerge com selvageria na internet.  É preciso punir, ms é preciso, também, repensar a sociedade como um todo.



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1 pessoas comentaram:

Aqui em casa sempre gostamos dos programas de culinária e assistimos quase todas as versões do Junior Master Chef.
Mas nada mais me surpreende em termos de abuso na internet, em especial no Brasil. Muito gente acha graça em ser desagradável e polêmico virtualmente, já que em geral, escrever no twitter ou em comentários de sites não coloca a pessoa frente a frente com os outros.
Queria ver os fulaninhos falando isso na frente dos pais da garota, no meio do programa, cheio de gente ao redor.
Covardes.

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