segunda-feira, 28 de dezembro de 2015

Comentando Testament of Youth (Juventudes Roubadas, 2014)


Sexta-feira assisti o filme Testamento of Youth, cujo nome no trailer legendado que achei é Juventudes Roubadas.  Como não estreou, nem estreará, acredito, nos cinemas daqui, não sei se é título oficial.  Enfim, deve ser.  Estrelado por Alicia Vikander, ele é baseado no livro de mesmo nome da escritora feminista e pacifista Vera Brittain (1893–1970).  É ela a protagonista da história que, como sugere o título nacional, trata da destruição de jovens vidas, futuros possivelmente brilhantes, pela I Grande Guerra.  

O livro de Brittain, o primeiro de uma trilogia publicada e de uma pentalogia interrompida pela morte da autora, acompanha sua vida entre os anos de 1900 e 1925.  Já o filme, faz um recorte e cobre somente os meses antes da guerra, o conflito em si e os meses posteriores.  A I Grande Guerra foi um divisor de águas, historiadores como Hobsbawn e outros, consideram que o século passado (*já ia escrever “nosso século”*) começou com a Grande Guerra e terminou com o fim da URSS.  Breve e dramático.  A I Guerra foi um acontecimento traumático, especialmente, para gente “bem nascida” como a autora do livro.

Juventude dourada.
A explosão do conflito, que os jornais e governos festejaram quase em uníssono e afirmavam que seria breve, multidões de jovens se alistaram.  A maioria não precisava ainda, não seria chamada tão cedo, mas era o seu momento de glória, de “serem homens”.  Uma das cenas mais importantes do filme é exatamente aquela em que a autora vai conversar com o pai (Dominic West) e pedir-lhe que permita que seu irmão caçula, Edward (Taron Egerton), se aliste.  O pai sabe o que é a guerra, que curta, ou longa, ela cobra o seu preço, ele acha que o filho, um garoto de 18 anos, é jovem demais, mas o apelo é “Permita que ele se torne um homem”.  

São esses conceitos arcaicos de masculinidade que habitam no pai, o bom senso se dilui e, a partir daí, todos passam a tremer quando o carteiro se aproxima de bicicleta.  Em Parade’s End, outro livro britânico sobre a Guerra, o protagonista mexe os pauzinhos para ir para o front por patriotismo, mesmo estando com mais de 30 anos e exercendo uma profissão importante para o esforço de guerra em casa.  Ao que parece, durante a I Guerra, mais gente fez esse tipo de coisa do que o inverso, isto é, apelar para conhecidos e parentes importantes para não ir para o front.  Daí, as listas de mortos eram bem mais democráticas.  Talvez, a I Guerra tenha sido, sim, a última da nobreza, como defende outro historiador Arno Meyer, em seu livro A Força da Tradição.

Irmão e Irmã.
Durante a guerra, Vera Brittain perdeu o noivo Rolland (Kit Harington), o John Snow de Guerra dos Tronos, o irmão, e vários amigos, um deles, Victor Richardson (Victor Richardson), era muito próximo da sua família.  Insatisfeita com a idéia de ficar para trás, aguardando o carteiro, costurando e tecendo meias para os soldados, Vera larga a faculdade e se alista como enfermeira.  Tendo servido nessa função primeiro na Inglaterra e, depois, na frente de batalha, ela viu de perto os horrores do conflito.  O filme, aliás, não nos poupa disso.

O filme, que teve dinheiro da BBC, foi exibido nos cinemas em vários países.  Sua produção foi anunciada em 2009, já a estréia, foi escolhida para bater com o aniversário do início da I Grande Guerra.  O elenco é liderado por Vikander, atriz sueca com bons filme no currículo, como A Royal Affair, e traz vários nomes importantes, mesmo que em papéis pequenos.  O chamariz é o moço de Guerra dos Tronos, que parece sempre triste e desconsolado, mas temos, também, Miranda Richardson e Hayley Atwell, que faz uma enfermeira-chefe no front francês que se orgulha do seu talento para amputar membros gangrenados.  

Um mundo prestes a ruir.
Os temas abordados no filme são diversos, no centro, temos a guerra, claro, mas a coisa não fica por aí.  Apesar de relativamente curto, pouco mais de duas horas, Testamento of the Youth discute as limitações impostas às mulheres, a repressão sexual aos jovens, o conflito de gerações, o pacifismo, enfim, é bastante coisa.  A primeira adaptação do livro, um best-seller da literatura inglesa do século XX, foi feita pela BBC em 1979 e teve cinco capítulos, ou seja, houve muito mais tempo para desenvolver a história.

Se há um defeito no filme é que não há muita clareza na apresentação da idade das personagens.  Vera é dois anos mais velha que o irmão, o noivo e Victor.  Vikander efetivamente parece mais velha que Victor Richardson e Taron Egerton, mas Kit Harington parece o mais velho do grupo.  Não fica claro, também, que os rapazes estão terminado o colégio, enquanto ela, Vera, luta com o pai por pelo menos dois anos para poder ir para a universidade de Oxford.

Jornada solitária para Oxford.
Os Brittain são muito bem de vida, não faltam recursos, mas, para o pai, pagar educação superior para uma mulher, além de perigoso, é jogar dinheiro fora.  Vera deve se casar.  No meio da briga, ela ainda recebe do pai um caríssimo piano de cauda.  A cena que se segue ilustra bem as limitações impostas às mulheres ricas, porque para as pobres, os obstáculos eram outros.  O piano é mais caro que um ano em Oxford, mas, para o pai, é um investimento importante e um presente pelo qual Vera deveria ser muito grata.  Ela explode, atira seus livros, escritos, poemas, pela janela.  O pai se mantém firme.  Com os amigos do filho passando as férias – Rolland e Victor – a vergonha é ainda maior.  

A moça é arisca com todos, especialmente, com Rolland, que não conhece e acredita caçoar dela, de seus sonhos acadêmicos.  O rapaz, que também sonha em ser escritor, tem boas intenções e é, ele mesmo, filho de uma escritora e sufragista.  O irmão de Brittain ainda comete a indiscrição de contar para a irmã que é a mãe do moço quem sustenta a casa... Ainda assim, Vera se mantém cautelosa e recusa a ajuda do moço para estudar para a admissão para Oxford, eles ficam amigos, no entanto, e, bem, a tensão sexual entre os dois é enorme.

Nunca sozinhos.
Algo que o filme faz muito bem é mostrar a repressão sexual, o controle imposto aos jovens.  Moças como Vera deveriam se casar virgens, sua “virtude” intacta era algo fundamental para cimentar um bom casamento.  Mais do que mostrar Vera e Rolland como um casal romântico, algo inevitável, o filme usa de jogos de cena e closes para ressaltar a tensão sexual.  Mesmo depois de namorados e noivos, eles mal podem ficar sozinhos e tocar as mãos, porque há sempre alguém os observando, uma tia solteirona sempre vigiando de perto a jovem Vera.  Me perguntava quando ela iria se livrar disso tudo, porque, bem, é realista, mas sufocante.  Não se entra no mérito da coisa, mas é provável que Rolland só tenha beijado Vera na vida e morrido virgem com seus míseros 19 anos.

Falei da resistência do pai de Vera, seu temor que a filha fosse contaminada por idéias radicais, pela arrogância intelectual (*que é apanágio das mulheres, vocês sabem...*), que a inutilizariam para o casamento, e sua negativa de gastar dinheiro com seus estudos.  Enfim, ela consegue permissão para tentar a admissão, quando o irmão, ainda antes da guerra, dá um ultimato ao pai, só iria para a universidade se o pai permitisse que a irmã tentasse a prova pelo menos.  O pai cede, mas há o exame.  

Breve reencontro.
Vera presta exame para o Somerville College, em Oxford, um instituto feminino (*não havia alternatia*) e, logo de cara, descobre que não se preparara bem, que a maioria das moças tinha tido um tutor que as treinara para o exame, enquanto ela estava lutando contra a vontade do pai e a indiferença da mãe.  Lá ela conhece a reitora, Miss Lorimer (Miranda Richardson), que reconhece a inteligência de Vera e suas capacidades, mas duvida que ela seja capaz de vencer os obstáculos impostos às mulheres no meio acadêmico e na sociedade.  

Miss Lorimer é tão repressora quanto os pais de Vera e parece não entender o drama da guerra.  A universidade é uma bolha e a protagonista não suporta estar nela.  Vera se alista e é testada pelas enfermeiras instrutoras – que parecem ser freiras anglicanas como as de Call the Midwife – que não acreditam que a moça vinda de Oxford seja capaz de suportar a dureza do treinamento e os horrores da guerra.  Vera consegue, mas ninguém vê uma guerra e volta para casa como se nada tivesse acontecido... 

Victor e sua devoção eterna por Vera.
O filme tem três momentos momentos dramáticos que imagino que foram inventados para dar mais emoção à película.  Se conseguir o livro, confirmo se a coisa ocorre da mesma maneira lá.  Depois de uma batalha, na França, o irmão de Vera é dado como morto e ela o encontra vivo na pilha de mortos e ele se recupera.  A outra é receber a notícia da morte de Rolland no dia do casamento.  Importante, aliás, é o que se segue.  A nota de falecimento é breve.  Morte honrada, indolor, ferimento limpo.  Vera, já enfermeira, vai atrás da informação e descobre que o moço sofreu por horas com um ferimento terrível no quadril e que a morfina só chegou nos momentos finais... 

A outra passagem é quando Vera atende seu melhor amigo Victor.  O rapaz é apaixonado por ela desde sempre.  No filme, o rapaz enxergava pouco e só foi convocado já para o fim da guerra.  O reencontro, o pedido de casamento, e a morte dele são, ao mesmo tempo, tristes e belas.  Enfim, pelo que li, Rolland é que enxergava mal, foi recusado pela marinha, mas mexeu os pauzinhos para ir para o exército, ou algo assim.

Enfermeiras... 
Testament of Youth tem outras ótimas seqüências como quando o pai de Vera lhe diz que nunca lamentou que ela não fosse um homem, ou, já no pós-guerra, quando a moça em profunda depressão e de novo em Oxford é trazida de volta à vida por uma colega, Winifred Holtby (Alexandra Roach), uma moça sorridente, aparentemente cabeça de vento, fragilzinha, mas que diz o que deve ser dito e que havia, ela, também, servido como enfermeira no front.  Mesmo tendo visto os horrores da guerra, ela quer seguir adiante, a vida continua, e ainda ajuda Vera.  Há ainda uma sugestão do caminho de pacifista que a autora assumiu.  Uma boa cena, mas, como pontuei, o filme é sobre os anos de guerra.

É isso.  Recomendo Testament of Youth.  É um filme muito bom sobre a I Guerra sob a ótica de uma mulher.  Mostra os horrores, mas discute questões que transcendem a crueza do campo de batalha.  O livro deve ser muito bom.  Curiosamente, talvez por minha ignorância mesmo, nunca tivesse tropeçado nele, de qualquer forma, assim como li os quatro livros de Parade’s End (*e não resenhei...*), uma visão masculina do conflito, pretendo ler este.  Até o momento, Parade’s End era o melhor livro, misto de memória e romance, que eu lera sobre o conflito, vejamos se a obra de Vera Brittain consegue superá-lo.

Despedida... 
Terminando, o filme obviamente cumpre a Bechdel Rule, mais ainda, seu discurso é feminista, crítico da idéia de sororidade natural entre as mulheres, do julgar pelas aparências e tudo mais.  Ah, sim!  Winifred Holtby, aliás, é outra importante escritora inglesa do século XX, autora de South Riding (*resenha aqui*) e que morreu jovem por causa de uma doença.  Ela e Vera se tornaram grandes amigas. Testament of Youth é um filme de amizade, amor, de vidas destruídas, um filme poético e bonito.  Valeu a pena assisti-lo, porque foi melhor do que todos os filmes que vi no cinema este ano.

GOSTOU?

1 pessoas comentaram:

Sobre as dúvidas sobre o irmão de Vera ferido no campo de batalha onde ela o encontra, a morte do noivo no casamento, e o amigo victor, esses fatos são sim reais, e estão presentes no livro

Related Posts with Thumbnails