sábado, 12 de março de 2016

Quantas Louisie ainda terão que morrer, porque disseram "Não"?


Queria escrever algumas palavras sobre o assassinato da estudante da UnB, Louise Maria da Silva Ribeiro, de míseros 20 anos, morta por um colega dentro do prédio da Biologia do campus Darcy Ribeiro da Universidade de Brasília.  Só coloquei pé no que se sabe até o momento, à noite e de madrugada, quando pude ler várias notícias e assistir algumas das falas do assassino confesso.  Quando abri ontem à tarde o site do Correio Braziliense só repetia algo assim “Que não seja nenhuma de minhas ex-alunas.  Nenhuma das meninas para quem eu dei aula”.  Ao mesmo tempo, lá dentro, me sentia mortificada, porque mesmo não sendo alguém que eu conhecesse, seria amiga de alguém que eu conheço, filha de alguém, uma mulher como eu, como minha filha será um dia.  Louisie poderia ter sido minha filha, aliás, porque idade para ser mãe dela eu teria.

Morta covardemente, afogada em uma bacia de clorofórmio, talvez estuprada antes ou depois de assassinada, teve seu rosto e genitais queimados pelo assassino, que diz ter sido seu namorado por 9 meses, seu corpo foi descartado em um matagal.  Em menos de 24 horas, já se sabia de tudo.  Qual poderia ter sido o futuro de Louisie?  Nunca saberemos, ela se foi.  Uma vida e uma carreira destruídas e, na semana do Dia Internacional das Mulheres, mais um feminicídio a ser contabilizado.  Sim, porque as motivações do crime, ainda que o criminoso não tenha sido claro nas suas falas, parece apontar para o básico do machismo, se a moça não me quis, vou lá e mato.


O criminoso confesso – não vou chamar de suspeito – é um adolescente, tão jovem quanto a vítima, poderia ele, também, ser um ex-aluno, ou mesmo, meu filho.  Vinícius Neres, 19 anos, confessou, parecia calmo, sorriu ao dar sua entrevista para a imprensa. “Eu estou aqui. A Louise, não”. Mostrou firmeza, não falou de amor. "Definitivamente, não foi pelo motivo de amor", disse ele.  Como retirou o corpo de Louisie do laboratório e colocou no carro da moça sem ser visto?  Agiu sozinho?  Se, sim, mais uma vez fica exposta a falta de segurança e controle da maioria dos campi de universidades federais que eu conheci.  Grandes, ermos, mal iluminados, com muitos espaços vazios e matagais, são fonte de apreensão para as mulheres (estudantes, professoras, funcionárias e público em geral) e para os homens, também.  Quantas vezes tive medo de andar pela UnB?  De noite, então, nem se fala...

Não quero saber se o moço pode ter algum transtorno mental.  O monstro que cometeu os feminicídios na Escola de Realengo, por exemplo, também deveria ter.  Manicômio judiciário existe para esses casos.  O problema maior a meu ver é o padrão dos crimes, é a perpetuação de um modelo de masculinidade agressiva e que se sente no direito de se apropriar dos corpos, das almas, da essência das mulheres, como se direito seu fosse, é o tal “entlitement” que as feministas de língua inglesa sempre apontam em suas análises.  Se ela não me quiser, eu vou lá e mato.  Se ela me trocar por outro, eu mato.  Se ela não satisfizer meus sonhos e devaneios, eu mato.


Quantas mais Louisies terão que ser mortas para que repensemos a forma como educamos nossos meninos?  E educação vai além do lar, da escola, falo de todas as mídias, dos discursos que circulam por aí.  Ser macho é ser agressivo, assertivo, e, se você não alcança o alto padrão de exigência, será menos homem aos olhos de seus pares.  Homens que se sentem menos homens, ou que se sentem homens demais, são perigosos, muito perigosos.  Quantas mais famílias e amigas/os terão que chorar por meninas e mulheres mortas?  Quantas mulheres continuarão tendo que andar olhando para trás, apertando o passo, porque, bem, não estão seguras no espaço público?

Não sei por qual motivo, mas eu me senti muito comovida e abalada por esse crime em especial.  Eu sou ex-aluna da UnB, eu tenho ex-alunas na mesma universidade, amigas professoras, eu estou de luto, também.  E, pior, eu sei que mais Louisies virão.  Enquanto isso, a advogada – sim, uma mulher – trabalha na certeza de que Vinícius Neres sairá hoje da prisão, no mesmo dia do enterro de Louisie.  É réu primário, tem residência fixa e, bem, não oferece risco para a sociedade.  Assassino frio e confesso, mas garantido pela lei, deve sair mesmo. Enquanto isso, o pai, a mãe, a família, os amigos e amigas de Louisie choram.

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10 pessoas comentaram:

Este comentário foi removido pelo autor.

Anônimo, não tenuo interesse em me aprofundar sobre a questão criminal, deixo para você o encargo de escrever, se preocupar profundamente, refletir, enfim, levantar a bandeira. Cada um escolhe as suas lutas, para mim, falar da violência contra as mulheres já é muito, quem quiser cuidar do bem estar dos criminosos como o assassino de Louisie, muito bem. A mim cabe diaer que defendo tratamento humanitário para todos e todas, mas não vou gastar um post sequer ou um minuto do meu pouco tempo refletindo sobre as mazellas que podem cair sobre o assassino de Louisie ou outros feminicidas. Cada um com sua seara, pode ficar com ela.

O que me enoja em comentários como o seu é que sua preocupação é para com o assassino e nenhuma para a vítima. Preocupe-se você em levantar essa bandeira e não comente mais, não responda, porque nada do que postar será publicado.

Anônimo da questão criminal, desista. Dedique-se a escrever o seu próprio texto sobre as mazelas do sistema e preocupe-se com o bem estar de homens como Vinícius nele. Aqui, o texto é sobre a Louisie. A bandeira da defesa do bem estar do criminoso ou de criminosos dentro do nosso sistema prisional não é minha, é sua. Abrace-a.

Náo nego os problemas do sistema prisional brasileiro, mas usar isso de justificativa para não punição em um caso sério como este é sim no mínimo apoiar a impunidade e banalizar a vida humana( da vítima) e o sofrimento de todos os seus familiares. Além do mais casos de violência contra a mulher para mim estão um rol diferente do que casos de assassinatos de homens, pois em ambos os casos normalmente os autores são homens no primeiro exercendo repressão e cometendo a violência pelo gênero da vítima. No segundo por que brigas e violência são algo que infelizmente é premiado no padrão de masculinidade da nossa sociedade. Ou seja, as mudanças para a prevenção de casa tipo de crime são diferentes, mas ambos são reflexo machismo em viez diferentes.

Eu acho que o Brasil é que está lascado antes mesmo da violência de gênero, existe machismo aqui e no mundo, mas essa justiça branda e ineficaz não ocorre em países de primeiro mundo.As leis e a segurança simplesmente não funcionam aqui. Como o cara de cima mandou no anonimato? As vezes dá uma preguiça logar.

Ele logou, mas usou como nome "Anônimo". É possível fazer isso, mas tem que logar do mesmo jeito. E deletou o que postou. Vou ver se ainda está nos meus e-mails deletados.

O comentário deletado foi este aqui:

"Primeiramente gostaria de dizer que não é minha intenção diminuir os problemas com que as mulheres têm que lidar no Brasil, ou em outros lugares. Mas às vezes parece que a Valéria tem uma visão que esquece certos problemas das prisões brasileiras. Agora gostaria de deixar claro meu pensamento que o fato de as prisões serem problemáticas não autoriza que as pessoas como o suposto namorado saiam imunes; mas também não se pode pensar que seria 100% ok condená-los e fechar os olhos para o que iria acontecer com eles. O sistema criminal brasileiro não restringe suas violências a homens ou mulheres ou a maioria dos outros grupos, diga-se de passagem. Entendo que seria o ideal que as Louisie não morressem mais. Mas condenar os homens sem garantir um tratamento digno (e existem diferentes visões do que é um tratamento digno, mesmo entre diferentes áreas das ciências criminais) também não adianta muito.

Admiro muito a Valéria, que sabe muito de diversos temas, como feminismo e história, mas às vezes parece que ela tem uma pontinha de inocência sobre o sistema criminal brasileiro, e a dogmática penal em geral. Um pouco de estudo em criminologia crítica e criminologia cultural fariam bem, afinal a Valéria usa termos como 'feminicídio' e 'criminoso confesso', portanto não vejo problema em aprofundar um pouco. Recomendo o Antimanual de Criminologia do Salo de Carvalho, que explica tudo isso e muitos outros temas relacionados muito melhor do que eu poderia. "

Entendi o que ele quis dizer, mas acho que entra num ciclo vicioso, o criminoso não pode ser punido porque receberia um tratamento "criminosos" por parte do sistema prisional brasileiro, logo apesar de desejarmos sua punição sendo preso como dita a lei, tal desejo seria ingênuo no sentido de que só vemos que a justiça tem mão única no sentido de punir o criminoso, mesmo que quando o mesmo sendo preso sofra violências pelo sistema prisional. Logo apesar da garota ter sido morta, não se pode dar uma punição como está na lei ou deveria estar ao criminoso porque a lei não está sendo cumprida de maneira correta pelo sistema criminal.

É uma discussão sem fim. Mas a conclusão é uma só, e acho que bate com o que eu falei, aqui não existe justiça eficaz, as leis não são cumpridas, e todo o sistema está falido. Entramos num mundo pragmático desse modo, do qual eu sou em grande parte adepto: o prisioneiro vai se ferrar na prisão? Problema dele! Antes pensasse ao cometer o crime! Voltamos ao olho por olho, dente por dente. Não tem como ser idealista no Brasil, se quiserem me ferrar eu ferro antes o outro. Infelizmente chegamos nesse estado caótico.

Como mudar essa realidade? Como educar meninos que não estão sob nossa influência e estão por aí, expostos a todo tipo de mau exemplo, seja na mídia, na internet, seja na vida real?
Como ter esperança diante de atos insanos como esse? Não só o matar em si, mas a orquestração de todo um conjunto de ações terríveis.
Como isso poderia ter sido evitado? O que poderíamos ter feito para que Louisie não tivesse esse fim?
Pra quem tem filhas, como não sangrar o coração diante disso? Como proteger nossas meninas?

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