quinta-feira, 21 de abril de 2016

“Bela, Recatada e do lar”, algumas coisas que preciso comentar



Esses últimos dias estão sendo muito corridos, tanto, que não pude comentar a infame reportagem da Veja, uma biografia da “quase” primeira-dama, Marcela, a esposa de Michel Temer.  A matéria é terrível por pelo menos três motivos e, para quem não percebeu, meu olhar sobre a questão é feminista.  Antes disso, cabe dizer que a internet ainda está sendo inundada de memes e outras reações ao texto absurdo e ofensivo da Veja.  Não que a revista horrorosa da Abril mereça tudo isso, o problema é que ela recebeu a atenção e em tempos de retrocesso, de backlash, é preciso comentar esse tipo de ataque da mídia.

O primeiro deles é a tentativa da Veja – em sua edição comemorando o encaminhamento do impeachment ou golpe, deixo ao gosto do freguês   de vender a imagem da mulher ideal “bela, recatada, do lar” e, também, jovem, rica, branca, inexperiente sexualmente quando do casamento (*ou vocês acham que a história de Temer ser seu primeiro namorado não deixa subentendido a virgindade da moça?  Ainda mais com toda a história de família indo junto aos primeiros encontros e coisa e tal...*).  Sim, está tudo lá na matéria.  É um modelo saído das idealizações machistas – a realidade sempre foi muito mais plural – dos anos 1940 e 1950.  Para arrematar, e na data de publicação estavam todos lembrando dos 60 anos de casamento de Grace Kelly, que Marcela poderia ser a nossa versão desta mulher – uma atriz competente tornada princesa pelo casamento – conhecida pela sua elegância, beleza e discrição.   “Recato” é uma palavra que soa ao mesmo tempo ridícula e sexista, o uso de “discreta” poderia ter salvo um pouco o texto, mas, talvez, o povo que lê a Veja nem ligue para isso mesmo.  Enfim, bom seria que todas as mulheres se mirassem em Marcela.  Esta é uma das ideias da matéria.  Agora, quando Dilma cair, todas nós teremos um modelo para seguir.

A Veja mirou em Grace Kelly ao traçar
o perfil da esposa de Temer.
Segundo motivo, ao vender Marcela como um modelo ideal de mulher no mundo político, a publicação tem como objetivo espicaçar a presidenta.  Dilma é, na opinião dos machistas, tudo menos bonita.  Dilma também não é jovem, nem se projetou pela sua elegância, algo que pode ser reconhecido mesmo em mulheres idosas.  Dentre tantos defeitos que eu poderia apontar na presidenta, um deles não seria a covardia, ela é uma mulher de luta, ainda que possamos questionar suas bandeiras, suas escolhas e mesmo seus métodos. Ademais, Dilma não é conhecida por seu recato, aliás, nos últimos meses – um período de grande tensão – a mídia politicamente posicionada tem feito um esforço para colar em Dilma todos os estereótipos machistas sobre as mulheres: histérica, desequilibrada, com acessos de fúria,não é, portanto, confiável para  continuar exercendo a presidência.  Dificilmente (*e estou sendo boa*) um homem na mesma situação receberia esse tipo de ataque.  Houve até matéria infame da Época afirmando que parte dos problemas de Dilma é falta de sexo.  Na verdade, o que a Veja fez foi conjurar velhas representações, aquelas que estão nos arquivos do nosso imaginário social, sobre boas e más mulheres, sobre as mulheres desejáveis e as que não são.

O tratamento dispensado à Dilma pela imprensa
não é nem machista, é misógino mesmo.
O terceiro ponto de crítica é que a matéria fala de Marcela, constrói sua imagem idealizada para exaltar seu marido – “Um homem de sorte” - mas não lhe dá a palavra.  Michelle Perrot, uma das mais importantes historiadoras francesas, tem uma frase que eu gosto muito “Das mulheres, muito se fala. Sem parar, de maneira obsessiva”.  Sim, falar das mulheres é importante, desde que elas não falem de si mesmas salvo para concordar com as opiniões já emitidas pelos homens.  “Ah, mas a reportagem foi assinada por uma mulher, a jornalista Juliana Linhares!”.  Sim, e isso confirma o que eu acabei de escrever.  Deixe uma mulher falar, desde que seja para reforçar – afinal, é uma mulher falando – o que os homens pensam.  Justo – ainda que eu considere ridículo tentar vender essa idéia de “quase” primeira-dama – seria entrevistar Marcela, deixá-la falar de si, caso desejasse, do marido e do filho.  Só que dar-lhe voz poderia frustrar essa idealização toda a respeito da moça, torná-la menos vendável nesse projeto conservador que a publicação defende.

Só que gostaria de comentar outros dois textos, um de análise das reações à matéria da Veja e, o segundo, de crítica.    O texto análise é do Jornal Zero Hora e se chama “Entenda a polêmica após matéria com perfil de Marcela Temer”.  Conversando com professores/as universitários, especialistas em mídias e em estudos de gênero, uma delas envolvida com os movimentos feministas, o jornalista Itamar Melo, consegue ilustrar bem todos os problemas do texto da Veja e de como ele acabou atraindo a raiva, desdém e recusa de setores que não estão ligados aos movimentos feministas.   Só para reforçar, o Ricardo Boechat continua fazendo troça do “Bela, recatada e do lar” na Bandnews FM dizendo que a equipe da rádio merece esse mesmo “elogio”.  

A Veja parecia estar prestando uma homenagem ao Jornal das Moças.
Parece que o tiro da Veja saiu pela culatra e mesmo quando você não assume uma postura progressista, subversiva, ou seja, lá o que seja, querer louvar uma mulher usando esses antiquados elogios não tem mais os mesmos efeitos que teria no tempo da minha avó materna, que nasceu em 1930.  Como a Prof.ª Maria Fernanda Salaberry, da UFRS, bem colocou “A revista levanta valores que já não existem desde a década de 1950 nos espaços públicos. Ninguém mais defende publicamente que a mulher não trabalhe. Nem minha avó usa a palavra "recatada"”.  Não sei se seria tão enfática quanto ao ninguém defender publicamente que uma mulher não trabalhe FORA, lemro, também, que dentro de casa TODAS trabalham, mas para fazer a defesa, normalmente oferece argumentos fortes, como preferir cuidar dos filhos enquanto pequenos, ou dedicar-se a ajudar na carreira do marido.  

De qualquer forma, a Zero Hora levantou uma bola que pouca gente teve coragem, vejam só: “Os detalhes do relacionamento entre Michel Temer e Marcela também ajudaram a derramar combustível sobre a polêmica incandescente. Um perfil publicado em 2011 pela revista TPM revela que Marcela, então com 19 anos, foi levada por insistência do pai a um evento onde seria apresentada a Temer, então com 62 anos. Segundo a própria Marcela, seria uma chance de fazer um contato que pudesse "dar um up" em sua carreira de modelo. Semanas depois, o pai disse que ela deveria enviar um e-mail ao político.  Três dias depois, o então deputado federal telefonou. Mais uns dias e passou na casa dela, em Paulínia (SP), para apanhá-la com seu Ômega preto. Depois de 40 minutos, estavam aos beijos. Marcela começava o seu primeiro namoro.  — Eles praticamente entregaram uma mulher virgem para casar. Parece que está se falando de um casamento do Oriente Médio, em que se entrega uma menina a um velho rico. E chamam isso de conto de fadas — critica Maria Fernanda.”  

A quase primeira-dama e o quase presidente.
Tente agora imaginar essa história – com algumas alterações, claro – acontecendo em algum país islâmico ou na Índia.   A gritante diferença de idade, o poder econômico do sujeito, a família promovendo o encontro e talvez pressionado a união.  Muito provavelmente, as caixas de comentários dos portais estariam abarrotadas de críticas às culturas atrasadas e machistas; aqui, elimina-se qualquer reflexão mais ampla e se acrescenta “Era uma mulher de 19 anos, ela quis”.  Pode até ter querido mesmo, mas isso não elimina os detalhes da história que parecem remontar ao Brasil de “antigamente”.  Com velhos coronéis tentando garantir a prole e seu prazer pessoal buscando adolescentes para casar e estas sendo empurradas para tais uniões pelo interesse de sua família.  

Já o outro texto é do R7, a autora é Deborah Bresser.  Repostei o texto no Facebook, não por concordar integralmente, mas por ver coisas interessantes e outras discutíveis.  Ia comentar lá, mas acabei produzindo esse post enorme aqui... Enfim, o artigo se chama “E se Dilma fosse casada com um garotão 43 anos mais jovem?”.  A autora lança logo essa afirmação, “Só fiquei imaginando se fosse com Dilma. Obviamente, se Dilma Rousseff tivesse um marido 43 anos mais jovem, ela nunca teria sido eleita”.  Mulheres, especialmente aquelas que efetivamente já passaram da fase reprodutiva (*"Se não pode ser mãe, sexo para quê?!"*), e a autora cita Suzana Vieira e Elza Soares, viram motivo de chacota quando aparecem com seus namorados e/ou maridos bem mais jovens.  São umas escandalosas, que não se dão ao respeito.

A divina Elza Soares.
Tanto Suzana Vieira, quanto Elza Soares, são mulheres que exibem uma postura pública bem resolvida, parecem não se importar com os críticos, tal e qual o Temer, aliás, e é direito deles, mas o tratamento recebido é bem diferente.  Um homem velho com uma mulher jovem pode ser alvo de preconceito e deboche, ele pode ser pintado pelos coleguinhas machistas como o bode velho ou o chifrudo que não sabe, mas, no momento, querem transformar essa característica de Temer em bônus, exatamente para prazer o contraponto entre sua esposa e a atual presidente.  

De qualquer forma, e discordo do texto da autora nessa questão, Temer não foi eleito.  Ele nunca foi cogitado como presidente, as pessoas não foram às urnas imaginando o desfecho que temos agora.  Outra coisa, sua esposa, até corroborando a reportagem da Veja, é “recatada”, na verdade, ela é discreta e só apareceu ao lado do marido em momentos muito específicos.  Sem querer parecer que estou defendendo o Temer, mas sendo justa, ele nunca pareceu querer exibir Marcela como um troféu por aí, a Veja é que parece querer fazer isso.  Aliás, como nunca lhes perguntaram nada – ao casal, eu digo – sobre sua vida privada, eles não podem ser espicaçados por conta do trabalho deplorável que a Veja fez.

De volta aos anos 1950:
"Ela gosta de vestidos até os joelhos e cores claras"
Aliás, ainda que essas uniões muito díspares em idade ou posses, esses casamentos que parecem reproduzir as hierarquias patriarcais, me incomodem, eu já testemunhei pelo menos uma situação em que uma união assim salvou a vida de um homem.  Um vizinho de toda a vida, que ainda mora ao lado dos meus pais, enviuvou.  Ele tinha mais de 70 anos, perto dos 80.  Andava arrastando os pés, parecia estar contando os dias para morrer.  Os filhos de olho nos bens que o pedreiro e dono de botequim amealhou.  Daí, ele se apaixona por uma moça uns quarenta anos mais jovem – bem mais jovem que eu, com certeza – ela estava saindo de um casamento infeliz com outro vizinho.  

Os filhos do velho eram contra a relação, pressionaram o pai.  A moça voltou para o Nordeste.  Ele foi atrás dela.  A moça disse que só voltava para o Rio casada.  Ele casou.  Quando o revi em uma das minhas férias, parecia ter remoçado uns 20 anos.  Já a moça, que andava de cabeça baixa e era bicho do mato quando casada com o outro vizinho, um cara da minha idade, talvez, voltara a estudar, estava articulada, e ambos apreciam muito felizes.  Que eu posso dizer contra uma relação em que tanto o homem quanto a mulher parecem felizes, saudáveis e vivendo sua vida.  Daí, não importa efetivamente o que é a vida pessoal de Temer com a esposa, mas os discursos absurdamente reacionários que veículos de propaganda como a Veja querem vender para você e para mim.

Bela, recatada, do lar e feliz.  É o modelo que a Veja quer nos vender.
De resto, voltando ao texto do R7, a autora diz o seguinte: “Não vou nem entrar no mérito do recato, das roupas claras e na altura dos joelhos, no cuidado com o filho, com essa conversa de ser do lar. No máximo, dona Marcela Temer é madame do lar. Duvido que lave uma louça. Será que isso também seria esperado de um primeiro-damo? Camisas sociais abotoadas até o pescoço, sapato engraxado, abotoaduras, olhar baixo, silêncio e recato? Quando a gente inverte a cena, percebe mais facilmente o ridículo todo.”.  Não conseguir inverter a situação, expõe o machismo estrutural que rege a nossa sociedade.  No entanto, e já comentei isso em um texto, a “madame do lar” tem responsabilidades e é mulher em situação desigual com o parceiro como qualquer outra.  Ela pode ser peça chave na promoção da carreira do marido (*observem como a Veja usou a imagem de Marcela*), ela zela pelo seu bem estar, mas se o casamento acaba, periga vir um operador do direito amigo e soltar que “Marido não é previdência”, negando-lhe uma pensão condizente com as responsabilidades que teve, as restrições que assumiu.

É isso.  Não cabe a ninguém criticar a moça pintada como “bela, recatada e do lar”, como se sua vida fosse uma ofensa às outras mulheres, ou desacreditar a existência do afeto entre ela e o marido sem qualquer justificativa.  Cabe, sim, evidenciar o machismo estrutural, as desigualdades entre homens e mulheres e como revistas como a Veja promovem o atraso em todos os sentidos.  Por isso mesmo, espero que ninguém leia esse texto como um posicionamento político-partidário, porque ele não é, mas é uma análise feminista da forma como a imagem de uma mulher – sem que ela tenha sido ouvida – é utilizada para promover a desqualificação da diversidade do feminino.  A boa mulher, segundo a Veja, é bela, recatada, do lar, inexperiente sexualmente quando do seu casamento, dedicada exclusivamente ao marido e aos filhos, sem maiores horizontes.  Um adereço, enfim, para um grande homem. E ele receberá muitos cumprimentos, afinal, é um sujeito de muita sorte... ou quem tem sorte é ela?

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