sábado, 7 de maio de 2016

Comentando Orange - Volume #5 (Final)


Faz bem umas três semanas que concluí a leitura de Orange (オレンジ).  Só que foram tantos os contratempos que acabei retardando a última resenha da série.  Com os cinco volumes em mãos, reafirmo as qualidades do trabalho de Takano Ichigo.  Trata-se de uma obra bem construída, com personagens que são simpáticas, mesmo com todos os problemas e defeitos que sabemos que elas e eles têm.   Fora isso, é curioso perceber como a autora deve ter se mantido firma em seu planejamento inicial, afinal, a série fez tanto sucesso que poderia ter sido estendida por mais uns bons volumes sem, talvez, deixar a peteca cair.

O resumo da história até o volume cinco (*Para as outras resenhas:*1*2*3*4*) é o seguinte: a série começa com a protagonista, Takamiya Naho, uma garota de 16 anos, recebendo uma carta de seu eu de dez anos no futuro.  O que esta carta – que ela imaginou que pudesse ser um trote – lhe dizia?  Um amigo, Kakeru, não estaria mais com eles dez anos depois e que ela poderia impedir que ele tirasse sua vida.  O problema é que Naho não conhece nenhum Kakeru, só que ao chegar no colégio naquela manhã, há um aluno novo e tudo o que está na carta começa a acontecer...  Ao longo dos volumes anteriores, descobrimos que todos os amigos próximos de Naho e Kakeru, também haviam recebido cartas de seus eu do futuro e que o momento que tanto temem – a morte do amigo – está cada vez mais próxima.


Começo dizendo que será difícil não dar nenhum spoiler nessa resenha.  Como comentar o fechamento de uma série sem comentar suas minúcias?  Espero que as pessoas que estão aqui, lendo este texto, tenham lido os volumes anteriores, ou, simplesmente, nãos e importem com detalhes mais reveladores da história.  De qualquer forma, algo que u esperava não aconteceu, não consegui chorar no final de Orange.  Comparando com outra série muito querida, e que fala de amizade e dos tempos de estudante, Honey & Clover ( (ハチミツとクローバー, Hachimitsu to Kuroobaa)), o final da série de Ichigo Takano me tocou muito menos.  Ainda que, e isso é importante, não tenha os defeitos de Honey & Clover.   

Por exemplo, algo que eu esperava com ansiedade, a explicação de como as cartas vieram do futuro para o passado, foi muito jogada, por assim dizer.  Como Orange não é uma série de ficção científica, mas um material que discute os limites da amizade, depressão e suicídio, a gente até faz vista grossa, entretanto, a explicação ficou no campo do mágico-religioso.  Foi a força do amor e da amizade que possibilitou aquela segunda chance para os amigos – todos culpados por não terem conseguido impedir uma tragédia – e para Kakeru.


Só que o volume não é cheio de defeitos, não é isso que estou escrevendo, não.   Tinha lido um tópico em um fórum sobre os últimos capítulos que diziam que Kakeru tinha se tornado um insuportável.  Bem, esperava que ele tivesse posto para fora o que ele tinha de pior após o incidente do Ano Novo, quando Naho diz a “coisa errada” e ele briga com ela, e ele briga com ela.  Olha, não foi nada disso que vi.  Kakeru reage mal, verdade, mas foi algo absolutamente de acordo com sua personalidade e o que o roteiro possibilitava.  

Kakeru se sente culpado, muito, muito mesmo.  O rapaz se responsabiliza profundamente pela morte da mãe e perder a avó seria um novo pesadelo.  Assim, tirar um tempo para si e para estar com os amigos, quando a velha senhora não estava bem de saúde, poderia ser mais uma demonstração de quão indigno ele era.  A vantagem que Naho tem é estar de posse da carta e ter a possibilidade de reverter o estranhamento que se estabeleceu entre eles depois do incidente de Ano Novo.  Daí, se a autora fugiu de uma explicação mais complexa no caso das cartas, conseguiu trabalhar muito bem a parte do confronto com os sentimentos.


Algo que vinha incomodando a mim, e provavelmente outras pessoas, era a forma como Suwa se anulou para salvar Kakeru.  Afinal, no futuro, ele e Naho tinham formado uma família.  Ele é altruísta e se sacrifica pelo bem de Kakeru.  E ele sofre.  Eu fiquei imaginando, lá no início, que Suwa não iria se conformar, que ele iria brigar por Naho e mesmo tentar afastá-la de Kakeru, mas eis que Orange é sobre amizade, não disputas amorosas, paixão, é sobre um grupo de amigos que une esforços para que um deles não se perca.  E, bem, é por isso que a série é tão bonita.  Sabe a ladainha sobre shoujo é (só) romance e shoujo escolar é sempre a mesma coisa?  Mande esse/a crítico/a rasteiro/a tomar vergonha na cara e ler Orange.

Aliás, o bom desse volume é que a autora não fecha a porta para o futuro de Suwa com Naho.  Eles ficam juntos nessa linha temporal?  Não sabemos, no entanto, os próprios amigos, Takako, especialmente, mostram-se muito preocupada com Suwa e torcendo por ele.  Outra questão importante é se o rapaz perseguirá seu sonho.  A morte de Kakeru foi um golpe muito forte para o Suwa da outra linha temporal e ele deixou de sonhar em ser jogador de futebol.  Será que na nova linha temporal foi isso que aconteceu?  Dito isso, Ichigo Takano pode deitar e rolar nos gaiden de Orange se desejar.  Suwa se tornou jogador de futebol?  E Kakeru?  Abandonou o esporte?  Ficou com Naho?  E Azu e Hagita, na nova linha temporal eles acabam namorando?  Enfim, há muito espaço para criar, por assim dizer.  E Takako?  Queria que a autora tivesse dado muito mais espaço para ela.


Um dos pontos altos do volume foi revisitar o passado de Kakeru com sua mãe.  Os mal-entendidos, o esforço desastrado da mãe em salvar o filho do bullying e do pai abusivo, sua luta contra a depressão, seu suicídio... A forma que a autora usou para que Kakeru pudesse confrontar a mãe, foi muito bem sacada, diga-se de passagem, porque o rapaz, naquele momento, já estava se afastando do que seria o suicídio que mobilizou o envio das cartas.  Só que a autora, sem forçar a barra, mas de forma muito natural, jogou sobre o moço uma carga enorme de emoções e palavras represadas.  Foi o momento no qual eu quase chorei.  

De resto, todo mundo precisa de um amigo como Hagita, aquele sujeito capaz de ter as idéias brilhantes e as mais idiotas, o cara que em momentos críticos, vai lá e faz, mesmo que ninguém mais acredite nele.  Leia o volume para entender esta frase.  Não fosse Hagita, todos os esforços seriam vãos. :)  De resto, voltando para Naho, eu realmente não me importo se ela e Kakeru ficam juntos.  O importante de Orange não era isso, mas a amizade e o esforço para apoiar alguém que sofre e busca se destruir.  Se Naho fica sozinha, com Suwa, com Kakeru, com outro ou outra, é irrelevante, legal foi ver que, no esforço por salvar o amigo, ela cresceu, foi capaz de mostrar sentimentos, falar sobre eles.  Ela não é uma personagem feminista ou mega empoderada, isso, aliás, também não faria diferença em Orange, importante é que ela é uma menina legal, mocinha que não é chata, nem subserviente, e que, mesmo tímida e recatada, ela conseguiu atingir seu objetivo e cresceu no processo.


Eu concluí a leitura feliz e grata à JBC por ter escolhido o mangá certo no momento certo.   Ao contrário de outros mangás da editora, a tradução e adaptação foi muito superior à média.  Fora o uso do “veterano/a”, acho que nada tenho para reclamar.  Pudesse as editoras brasileiras, vez por outra, nos oferecerem um mangá bom, bonito, direto e curto para variar.  Tenho uma lista de sugestões.  Ornge me obrigou a fazer algo que não fazia faz muito tempo, contar os dias por um novo volume de mangá publicado no Brasil.  Nem lembro quando tinha sido a última vez.  Não lembro mesmo.

E, sim, foi minha primeira leitura de Orange, porque nunca encontrei scanlations completas, ou decentes.  Agora, é esperar o anime que chega daqui a pouco (*já estou imaginando a música... as vozes...*) e torcer para que os gaiden tenham scanlations, ou, melhor ainda, saiam no Brasil.  E tem o filme, também.  Será que já legendaram?  É isso!  Espero resenhar minhas outras pendências antes que na nova leva de provas do meu trabalho me sufoque, estresse, roube meu pouco tempo livre e me faça adoecer.



P.S.: Um colega no Facebook (*ele postou o mesmo comentário, aqui, no blog*) levantou a seguinte hipótese: nada aconteceu de verdade, tudo foi uma grande fantasia de amigos que se sentiam culpados por não terem conseguido impedir a morte de Kakeru.  Para ele, a pista foi a forma displicente como a autora tratou a questão das cartas.  A realidade era o futuro carregado de culpas e solidão.  Enfim, é uma forma de ver as coisas.  Tenho um amigo que defende que em Shoujo Kakumei Utena todos estão mortos e que a Academia Ohtori é um grande purgatório.   Teorias... Teorias... 

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4 pessoas comentaram:

Opa,

Eu adorei Orange.. do início ao fim, a obra me prendeu. Conforme fui lendo os volumes, fui acompanhando aqui no blog, a sua opinião.. e geralmente ela batia. O que me chamou mais atenção nesse volume, foi quando Naho foi pedir desculpas pro Kakeru e falou o que a carta pedia.. Assim sendo, foi a mensagem da outra Naho transmitida, ali. Achei muito sincera, aquela cena.

Fora isso, ao meu ver, o passado ali, não ocorreu. Eles, do futuro, no alto do penhasco perceberam que mandar as cartas era impossível.. assim sendo, acho que tudo que ocorreu ali foi imaginação deles. Enquanto estavam lá, conversando.. Acho que o sentimento de salvar o Kakeru era tão grande, que eles se deixaram levar, pra se sentirem mais livres, uma vez que estavam indo cumprir as promessas que tinham feito e tals.

De qualquer forma, a obra é ótima. Espero que a autora logo faça mais obras tão boas quanto essa.

Obrigado por comentar todos os volumes. <3

Parabéns pelo comentário e a dedicação de fazê-lo😊😊
Gostei bastante de suas palavras e concordo com você em todos os momentos. Principalmente na parte em que fala sobre o Suwa, as minhas lágrimas no do início ao fim foram pelo Suwa anular sua felicidade(Naho) para salvar um amigos, foi uma linda forma de demonstrar a amizade, mas sabe... Eu queria mais do desenrolar, confesso que fiquei um pouquinho triste com o final, apesar que já tinha lido por scans em inglês e agora quando comprei a forma fisica e terminei tbm com o mesmo sentimento de que queria um pouquinho maia deles, principalmente o Suwa 😞
E concordo sobre Takako deveria ter explorado mais a personagem, por exemplo, o que ela gostava ou suas expectativas, foi uma personagem que senti falta de alguma coisa, mas se a intenção era para ser um mangá curto, misson complete 😊
Queria maaais de Orange, mais capítulos, agora só esperar o anime e ficar mais apaixonada por Naho ser dublada pela Kana 😊😊
Porém volto a afirmar que gostaria de variooooooos extras de Orange ❤❤ espero que esse sentimento de querer mais chegue a Ichigo e ela faça coisinhas extras para Orange kkkkkkk
Enfim... Parabéns pelo lindo texto ❤❤ vc realmente escolheu as palavras certas

Muito bacana essa resenha sobre Orange, Val. Sua escrita é motivadora e estimulante, parabéns pelo trabalho!
Nunca li Orange, mas, as resenhas despertaram muito meu interesse, principalmente pela semelhança da temática e abordagem com um anime lançado aqui no Brasil este ano de 2016, do autor Kei Sanbe, "Boku Dake ga Inai Machi" ou "Erased", na adaptação para o inglês. A histórico gira em torno da habilidade sobrenatural de Satoru em poder voltar no tempo na tentativa de evitar mortes de pessoas próximas a ele,sendo o assassinato de uma garota de sua classe ou elemento mais marcante e que mobilizou seus amigos a tentarem salvá-la. Enfim, é um anime curto, mas com uma história que prendeu minha atenção e me cativou.
Mais um estímulo para buscar a obra e me debruçar.
Abraço.

Gostei muito do final, mas concordo que não foi aquele final de encher de lágrimas. Até por tudo ter se resolvido de alguma forma.
Mas valeu mesmo ter comprado e lido. Faltam obras assim no nosso mercado.
Valéria, quando puder, poste a lista de suas sugestões de mangas bacanas e curtos. :)

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