sexta-feira, 3 de fevereiro de 2017

Comentando A Bailarina (Ballerina, 2016)


Terça-feira assisti A Bailarina (Ballerina), animação franco-canadense que está em cartaz em nossos cinemas.  Achei o filme muito simpático e, ao mesmo tempo, passei o tempo todo pensando “se isso fosse um anime ou um shoujo mangá poderia ser fantástico”.  Sim, é interessante, é divertido, tem boas lições de vida, mas carece de sentimento, drama, de um algo mais que os japoneses sabem dar às histórias como essas.

A Bailarina conta a história de Félicie Milliner, uma menina que mora em um orfanato de freiras na Bretanha  (*que reconheci de cara, não sei como*).  Ela sonha em se tornar bailarina, mas os adultos ao seu redor tentam convencê-la que seus sonhos são impossíveis.  Somente Victor, outro órfão, acredita nela e promete que juntos irão para Paris.  Ele será inventor, ela, bailarina.  É o menino que lhe mostra um cartão postal com a Ópera de Paris, que se torna lugar dos sonhos da protagonista.  Eles conseguem fugir e chegam à capital da França.  Lá, Félicie começa a perseguir seu sonho e superar sua falta de treinamento com muito trabalho, energia e força de vontade.


A Bailarina me pareceu inspirados nas histórias de meninas órfãs que povoavam os shoujo mangá e anime da passagem dos anos 1970 e 1980.  A protagonista, Félicie, é uma típica tomboy cheia de vivacidade, como Candy, de Candy Candy  (キャンディ・キャンディ).  No início, ela não tem nada da graça e da leveza que se exige de uma bailarina, no entanto, assim como Maya de Glass Mask (ガラスの仮面), ela tem grande força de vontade e talento natural, assim, ao encontrar os mestres certos, a ex-bailarina   Odette e o coreógrafo Merante, consegue superar as limitações de sua formação.

O filme trabalha muito bem com os valores e, sem ser muito maniqueísta, ele vai deixando suas lições de moral para as crianças.  Por exemplo, após ser acolhida por Odette, Félicie rouba a carta de aceite da vilãzinha, Camille Le Haut, e assume o seu lugar na escola da Ópera de Paris.  Mesmo que Camille seja terrível, Odette é punida, afinal, ela cometeu uma fraude.  Ela também desobedece a mestra e faz pouco caso dos treinamentos em certo momento da trama, o que igualmente resulta em problemas para ela.  Mentir, enganar, desobedecer são apresentados como falhas sérias neste filme infantil.


Por outro lado, valoriza-se, também, o arrependimento, a redenção e o esforço para mudar de vida.  Isso vale para Félicie, que cresce na adversidade, e para Camille, que como em muitas séries japonesas, passa de terrível antagonista, uma vilã, até, à aliada, alguém que, humildemente, admite que a protagonista, uma menina pobre e sem classe, é, sim superior como bailarina.  Motivo?  Félicie tem paixão, enquanto Camille, apesar de muito talentosa e técnica, é pressionada pela mãe, Regine Le Haut, a verdadeira vilã da história.

Nas resenhas que encontrei, é dado para Félicie a idade de 11 anos.  Fisicamente, ela pode até ter essa idade, mas são introduzidos temas, como o primeiro amor, que parecem jogar a idade da menina um pouco para cima.  Logo no início do filme, imaginei que ela teria 13 anos.  Nessa história de romance, outra questão relacionada ao caráter da menina é discutida.  A convivência com as meninas da ópera, crianças vindas da elite, e, principalmente, com o jovem prodígio do balé, o russo Rudolph, fazem com que Félicie despreze Victor, seu companheiro de orfanato que é apaixonado por ela.  


Félicie passa a acreditar no que Rudolph, que as meninas veem como um príncipe, lhe diz: ela tem o dom e não precisa treinar tão intensamente.  Trata-se, obviamente, de um engano que causa prejuízos à evolução da menina como bailarina e abala a relação de amizade com Victor.  Essa fraqueza quase coloca a perder a carreira de Félicie na Ópera de Paris e ela só recupera seu lugar com muito trabalho duro e humildade.

Falando em Victor, ela é um eco dos meninos inventores de muitos romances populares da virada do século XIX para o século XX, havia até um subgênero do steampunk centrado neles, mas vejo nele, também, referências ao protagonista de Fushigi no Umi no Nadia (ふしぎの海のナディア).  O garoto inventor consegue se empregar no atelier de Gustave Eiffel e isso nos dá uma datação aproximada do filme, já que a Torre famosa de mesmo nome ainda está em construção, mas há um problema, a Estátua da Liberdade estava incompleta no mesmo atelier.  


A Estátua da Liberdade foi completada em 1886, a Torre começou a ser construída no ano seguinte e foi encerrada em 1889, ou seja, as duas obras não poderiam aparecer juntas, mas, acredito eu, o intuito foi passar para os pequenos que ambos os monumentos são obra de Eiffel.  De qualquer forma, trata-se de um filme sem compromisso nem com o factual, nem com o vestuário.  As roupas das meninas – os shorts de Félicie – seriam impensáveis no século XIX.  Eu preferia um pouco mais de rigor nessa parte, mas é somente meu gosto mesmo.

Agora, o que me incomodou mesmo foi que, em nome da simplificação e do humor fácil, o treinamento da protagonista, que deveria ser o ápice do filme, foi negligenciado.  Eu esperava mais intensidade, mais drama e superação, algo que me deixasse evidente a necessidade de paixão para se alcançar os objetivos.  Outra coisa, Odette, a melancólica faxineira manca, tinha um passado.   Dado a importância dela, a mestra da menina, os eventos relacionados ao acidente que obliterou sua carreira como bailarina deveriam ser mostrados.  Não foram.


Não se precisava mostrar nada assustador, mas não é necessário nem ser anime/mangá para saber fazer isso sem chocar as crianças.  A Disney e a Pixar fazem isso muito bem e duvido que deixariam de explorar o drama de Odette, nome inspirado na protagonista do Lago dos Cisnes, para dar mais força à história.  Outro ponto importante e entender como ela se tornou faxineira, porque, bem, todos a conheciam na Ópera, Merante, o gênio coreógrafo, é visivelmente apaixonado por ela.  Enfim, por que ninguém a ajudou e permitiram que ela fosse colocada em uma situação de tamanha humilhação?  Ela poderia lecionar balé, ela é que vai ensinar Félicie.  Aqui foi a grande bola fora do desenho.

Que mais dizer?  Cumpre a Bechdel Rule sem problemas, afinal, boa parte das personagens é mulher.  Não vejo o filme como feminista, mas ele trabalha com algumas questões que os feminismos trabalham, trata-se de um filme de empoderamento feminino, afinal.  Agora, se a questão de gênero não é tão relevante, a de classe é.  A discriminação sofrida por Félicie é por ser de origens pobres e, portanto, indigna de estar na Ópera de Paris.


Quanta gente em nosso perturbado país se incomoda quando vê um pobre, ou um negro, ocupando vaga em nossas escolas ou universidades de elite?  Todo esforço parece não apagar as suas origens e a idéia de que esse lugar não é para você.  Li um caso assim ontem, de uma moça negra e pobre que passou para Engenharia na USP.  A todo momento buscam lembra-la que a Poli não é o seu lugar.  Ela tem três estigmas contra ela e terá que ter muita força para se formar na universidade na qual lutou para chegar.

Quanto à animação, A Bailarina – Leap!, em inglês – está aquém do que faz a Disney/Pixar, acredito que é mais modesto até que Cegonhas, o que não quer dizer que a animação não tenha mutia qualidade.  O que faltou, como pontuei antes, não foi animação, mas um roteiro com mais drama e paixão.  De resto, é um filme bonitinho, simpático e recomendado para crianças e adultos que não sejam muito exigentes.

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1 pessoas comentaram:

Passando para lembrar do anime/manga Princess Tutu

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